FSP950706-001
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950706
OPINIÃO
É, parece que o mundo perdeu o seu sentido de orientação. O presidente Fernando Henrique Cardoso, sempre tido como um homem ligado à esquerda, descerrou uma complexa polêmica ao chamar a esquerda de burra.
Mas o que é esquerda? O que é direita? Os termos surgiram na França durante as movimentações que precederam a Revolução de 1789. O rei Luís 16, acuado por uma série de circunstâncias políticas e econômicas e também pela impopularidade de sua mulher, a austríaca Maria Antonieta, viu-se obrigado a convocar a Assembléia Nacional, um órgão para aconselhar o soberano que não se reunia havia mais de um século.
A assembléia era constituída por três Estados: clérigos, nobres e o restante da população. Os dois primeiros Estados, que procuravam manter seus privilégios, sentavam-se à direita do presidente da assembléia. O terceiro, à esquerda.
A partir daí, não sem um certo preconceito de origem _o direito é o certo; o esquerdo é o constrangedor, sinistro_, convencionou-se chamar de ``de direita" os movimentos que visam à preservação do ``status quo". ``Esquerda" passou a designar os grupos que buscavam mudanças no sentido de criar uma sociedade mais igualitária.
O tempo passou e o mundo mudou. Os parlamentares brasileiros não definem suas cadeiras de acordo com suas preferências políticas, e a queda do Muro de Berlim deixou os partidos que tradicionalmente se chamavam de esquerda sem um rumo definido.
As mudanças foram tão profundas que, num irônico paradoxo histórico, a esquerda brasileira luta hoje pela manutenção do ``status quo" _se se considerar que é a Constituição que o estabelece_ e a direita pretende modificá-lo.
É claro que é preciso acompanhar as mudanças que se deram desde o remoto ano de 1788 até hoje. A experiência do socialismo real mostrou-se um fracasso; a própria Revolução Francesa rapidamente degenerou numa ditadura para depois tornar-se império, experimentar a Restauração, um segundo império até que, enfim, a República retornasse.
FHC tem razão ao querer eliminar da Constituição alguns entraves ao desenvolvimento do país. Infelizmente, porém, a Carta, por si só, está muito longe de estabelecer o ``status quo". Por mais extemporâneas que sejam algumas das propostas da esquerda tradicional, há de se convir que seus ideais de construção de uma sociedade mais justa permanecem válidos e, ao que parece, são sinceros _embora não saiba exatamente como fazê-lo.
Já considerar o PFL inteligente _um partido que está no poder há 30 ou 500 anos, dependendo dos critérios utilizados_ denota uma acepção bastante curiosa de inteligência, considerando-se a penúria econômica e social em que se encontra o país.
FSP950706-002
FSP950706-002
950706
OPINIÃO
O estoque de carros novos, principalmente nacionais, mas também importados, que se acumula nos pátios equivale já a 45 dias de produção. São 225 mil unidades, marca inaudita na história do setor.
Pelo menos no que se refere ao comércio exterior, a acumulação de estoques tem um efeito benéfico e, a rigor, desejado pelo governo. As importações de veículos (mas também de peças e componentes para os veículos nacionais) estiveram nos últimos meses entre as principais explicações para o déficit comercial. O acúmulo de estoques naturalmente freia novas encomendas, aliviando o mercado cambial.
Adicionalmente, informações extra-oficiais sugerem que teria ocorrido forte antecipação de encomendas e desembaraço de veículos nos portos às vésperas das cotas de importação. Assim, passado esse ``boom", o câmbio estaria livre dessa pressão nos próximos meses.
Delineia-se portanto no horizonte uma melhoria nas contas externas. E já ontem o Banco Central deu sinais de disposição para fazer a taxa de câmbio ``deslizar".
Se o real desvalorizar-se gradualmente, num ambiente de desaquecimento, o processo de redução de importações e recuperação de exportações será reforçado.
Ainda assim, o alívio não é tanto que autorize comemorações precoces. Em primeiro lugar, é preciso levar em consideração que o segundo semestre é sempre um período de exportações cadentes, por conta da entressafra agrícola, e importações crescentes, dada a gradual preparação das indústrias para o movimento de fim de ano.
Ou seja, as tênues perspectivas de reversão do déficit comercial que surgem agora são positivas. Mas são, ainda, um fenômeno de conjuntura, aquilo que os economistas denominam ``ciclo de estoques". Resta saber se o desaquecimento em curso será suficiente para evitar que, desovadas as mercadorias que agora se acumulam, haja um novo surto importador capaz de pôr a perder, amanhã ou depois, o alívio de hoje.
FSP950706-003
FSP950706-003
950706
OPINIÃO
No momento em que a sequência de denúncias envolvendo a contratação do Sivam _Sistema de Vigilância da Amazônia_ poderia colocar em plano secundário a necessidade de exploração racional da região, o presidente Fernando Henrique Cardoso aproveita sua viagem à Venezuela para fustigar o mito ecologista de um ``pulmão do planeta" à margem do desenvolvimento. A Amazônia, diz com razão, não é ``um tesouro intocável".
A pretexto de anunciar a criação de projetos de exploração na fronteira entre os dois países, o presidente recoloca na ordem do dia propostas de desenvolvimento sustentado e aponta para a importância de parcerias com países que integram a Amazônia.
Além disso, considerando-se que a pobreza na região conduz seus habitantes a explorar desordenadamente o meio físico, a racionalização das atividades produtivas locais se apresenta hoje como a única garantia de proteção contra as agressões ambientais, que de fato devem ser combatidas com vigor.
Por fim, deve-se lembrar que nenhum país pode se dar ao luxo de conservar quaisquer partes de seu território ao abrigo de relações econômicas regulares, por conta de um ambientalismo romântico.
Um aproveitamento das riquezas da região amazônica, capaz de conjugar os imperativos de crescimento econômico, justiça social e preservação do ecossistema, coloca-se hoje como a única alternativa de desenvolvimento à altura de um projeto modernizante para o Brasil.
FSP950706-004
FSP950706-004
950706
OPINIÃO
Clóvis Rossi
BUENOS AIRES _ Pode ser falta de educação, admito, mas também pode ser instrutivo ficar ouvindo a conversa descontraída de terceiras pessoas. Revela muito sobre o que de fato pensam quando não estão obrigadas a ser agradáveis.
Caso típico do almoço de ontem no restaurante do Hotel Claridge, no centro de Buenos Aires. À mesa ao lado da minha, estavam dois argentinos, que creio conhecer de vista, embora não saiba os nomes.
São, com certeza, do mundo publicitário, a julgar pelo início da conversa, ao qual só prestei alguma atenção enquanto falavam das verbas e índice de audiência de diferentes canais e programas de TV argentinos. Sempre é bom estar informado a respeito.
Mas me liguei mesmo quando começaram a falar do Brasil e dos brasileiros ou, mais exatamente, das dificuldades de fazer negócios com os vizinhos. Foi uma catarata de críticas. ``Falsos" foi a palavra mais frequentemente empregada.
``Não dá para pôr um `mango' nos negócios com eles", chegou a dizer um deles, usando uma gíria que me parece dispensável traduzir, de tão óbvia.
O outro preferiu uma análise mais, digamos, sociológica. Apontou inúmeras diferenças entre argentinos e brasileiros, ``de idiossincrasia", de características ``culturais e socioeconômicas" e assim por diante.
O que fazia esta análise tem experiência mais prolongada com o Brasil. Contou ter feito a campanha de lançamento na Argentina da marca Cica.
O outro queixou-se da Amil brasileira, empresa que, segundo ele, fatura US$ 800 milhões anuais e estaria querendo tornar-se hegemônica no mercado argentino de tíquete-refeição por meio da ``Eat", a ela associada.
Depois do almoço vim a saber que a desconfiança é recíproca. O curioso é que os homens de negócio dos dois lados da fronteira estão condenados a conviver, dada a crescente integração de suas economias no tal de Mercosul (que ainda inclui Paraguai e Uruguai). O mal-educado flagrante do almoço revela que vão conviver com um sorriso nos lábios e um punhal escondido na manga do paletó.
FSP950706-005
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950706
OPINIÃO
Gilberto Dimenstein
BRASÍLIA _ Está jorrando dinheiro nos cofres de Fernando Henrique Cardoso _muito mais do que ele próprio esperava. A arrecadação do mês passado, finalizada ontem, ultrapassou as expectativas mais otimistas dos técnicos.
Resultado: R$ 7,4 bilhões, mais do que 40% em relação ao mesmo período em 1994. Para se ter uma idéia, superou a arrecadação do último Natal, marcado pelo delírio de consumo.
É a segunda maior arrecadação da história da Receita Federal _a maior ocorreu em maio, quando bateu nos R$ 8,2 bilhões. Note-se que, neste ano, não está entrando o dinheiro do IPMF, o imposto sobre cheques.
Esses números são, de um lado, motivo de euforia _mas, por outro, deveriam servir de preocupação ao governo. Não se espere mais deste semestre o mesmo ritmo de produção e consumo. Portanto o governo vai ter que lutar ainda mais para cobrir seus rombos, que, como todos sabem, são frágeis.
O consumo ainda está alto, comparado ao mesmo período do ano anterior. Basta citar último levantamento da Associação Comercial de São Paulo: no mês passado as consultas ao Serviço de Proteção ao Crédito (SPC) foram 30,4% maiores do que em junho de 1994.
Mas ninguém acredita que essa euforia vá continuar. Já existem sinais de redução da atividade econômica _segundo a imensa maioria das estimativas, o Brasil deve fechar o ano com um crescimento de, no mínimo, 4% e, no máximo, 6%. O que já seria bom, mas nada parecido aos 10% do primeiro trimestre.
O fato é que a arrecadação de impostos não deve provocar o mesmo foguetório _a taxa de boas notícias vai sofrer redução, justamente num período em que as votações mais polêmicas desembocam no Congresso.
É mais uma dica para o governo falar francamente com a população, preparando-a para o fim da farra de consumo, tornando-a consciente do imprescindível aperto nos cintos.
FSP950706-006
FSP950706-006
950706
OPINIÃO
Carlos Heitor Cony
RIO DE JANEIRO _ Gostei de ouvir o presidente da República chamar de burros aqueles que não concordam com ele. Como tenho o hábito de, todas as noites, ler alguma coisa da Bíblia, na versão de São Jerônimo (a mais próxima dos originais hebraico, aramaico e grego), encontrei uma bela frase que explica a situação do Brasil: ``stultorum numerus est infinitus". Tradução aproximada: o número de imbecis é infinito. Deve ser, mais ou menos, o que o presidente está pensando dos adversários.
Por espantosa coincidência, é também o que os adversários estão pensando dos neoliberais que pululam no governo, cujo eixo é o próprio presidente, eleito por 34 milhões de... quê? O texto sagrado sugere que onde há maioria há burrice. No conflito entre o sagrado e o profano, costumo ficar com o profano, mas desta vez acho que vou concordar com as Santas Escrituras e com o Nelson Rodrigues, que disse coisa parecida a respeito da unanimidade _que é o produto final do ``infinitus numerus". Os institutos de pesquisa deviam levar essa verdade sagrada em consideração.
São perigosas as certezas. Santo Agostinho dizia que só acreditava nas coisas ``tremendo". E jogou a culpa de sua fé no absurdo _era um gênio e decididamente não seria um neoliberal se hoje vivesse. Seria um burro a mais na contabilidade de FHC.
Os intelectuais que cercam o presidente e o próprio, que é o mais entusiasmado consigo mesmo, já tiveram outras certezas, mas acharam complicado chegar ao poder com elas. O caso do ministro da Cultura, por exemplo, é sintomático. Sumiu de circulação. Assim como há funcionários-fantasmas, há ministros-fantasmas. Burros e fantasmas _o Brasil é um país assombroso e assombrado.
Compreende-se o irritado desabafo do presidente. Ele e seus correligionários todos os dias avisam e lamentam que o Brasil não é o México ainda. Lá, 0,3% da população detém 56% da renda nacional. O Brasil ainda não chegou lá. FHC desindexou os salários e indexou o resto. Quem não entendeu isso só pode ser burro.
FSP950706-007
FSP950706-007
950706
OPINIÃO
Otavio Frias Filho
Responda depressa: o que existe em comum entre o neobilionário Bill Gates, o ``neoliberal" FHC e os neopentecostais? A resposta é a adesão aos valores do livre-mercado, agora que a mercadoria parece cumprir seu destino final, ampliando seus limites até abarcar a atividade humana quase totalmente.
Entre o Ford da informática e o presidente-sociólogo a diferença é de tom. Gates é um entusiasta algo simplório, aparentemente alheio ao mundo de exclusão que o culto à eficiência está gerando. Em artigo que saiu ontem, ele tem a cara-de-pau de dizer que ``os empregados migram das empresas perdedoras para as vencedoras".
O melhor que se pode pensar sobre a decantada inteligência do presidente é que ele sabe dos riscos da decisão que tomou, em especial num país onde os mais pobres não dispõem das redes de segurança dos países ricos, mas que para ele nem se trata de decisão, trata-se do inevitável.
Na sua linha de raciocínio, é melhor correr o risco de aumentar a exclusão social agora, na expectativa de que a parte rica da sociedade, modernizada, produza excedentes capazes de em seguida financiar a recuperação da parte pobre, do que correr o risco de excluir, da dinâmica internacional, o país por inteiro.
E os neopentecostais? Uma tese apresentada na USP mostra que eles perfilham uma espécie de teologia da prosperidade, cada vez mais voltada para o sucesso terreno e para valorizar bens de consumo. Parecem bem afinados com o espírito do tempo e daí, talvez, a razão do crescimento dessas seitas.
Essa atitude não é inédita no protestantismo. Os primeiros protestantes acreditavam na predestinação, ou seja, na tese não somente de que apenas uma ínfima minoria seria salva (``muitos serão chamados, poucos serão escolhidos"), mas de que cada destino está predeterminado desde sempre, embora oculto para nós.
O católico se salva pela virtude, pelo arrependimento, pela penitência; o protestante vive às escuras, sem saber se já está salvo ou condenado, buscando em cada momento vislumbrar indícios de que a graça divina recaiu sobre ele. Por isso a atmosfera urgente, apoplética dos cultos, em oposição à pasmaceira das missas.
A consequência prática é que o protestante está isolado nesta vida. Não conta com a facilidade de acesso à vida eterna que beneficia o católico e tem de levar a sério as palavras desconcertantes que Mateus atribui a Jesus: ``Porque àquele que tem, se dará em abundância; mas àquele que não tem, até o que tem lhe será tirado" (Mt 13;12).
No seu texto mais famoso, Max Weber definiu assim a relação entre fé e capitalismo: vendo na riqueza sinais exteriores da graça divina, os protestantes estabeleceram uma violenta disciplina moral em que todas as energias são canalizadas para a acumulação de bens.
Os neopentecostais parecem tão-somente atualizar essa doutrina, acrescentando algumas pitadas de consumismo na receita. Há um longo caminho entre Lutero e Bill Gates (que deve ser batista); esse caminho é a marcha triunfal da mercadoria. Sendo supostamente ateu, FHC está imune, do ponto de vista espiritual, mas na prática é levado junto.
Otavio Frias Filho escreve às quintas-feiras nesta coluna.
FSP950706-008
FSP950706-008
950706
OPINIÃO
A imaginosa conspiração contra o governo da prefeita Erundina é fruto da paixão partidária
ODYR PORTO
Um ilustre jurista, na edição de 28 de junho último deste prestigioso jornal, escrevendo a respeito do IPTU de 1992, aludiu à liminar que concedi quando presidente do Tribunal de Justiça de São Paulo, sustando provisoriamente a eficácia de lei que instituira novo critério para o cálculo daquele tributo, questionado em inúmeras demandas judiciais, até julgamento final da questão.
Reputando meu ato um ``absurdo do ponto de vista jurídico", insinuou que aquela decisão estaria viciada por suspeição, dado que prolatada por quem depois tornou-se secretário de Estado num governo hostil à agremiação política da então prefeita Erundina. E sugeriu ter o malsinado decreto judicial impedido ``obras de relevante interesse social". Em resumo, teria eu arquitetado uma trama política para retirar recursos da administração petista, por meio de uma decisão disparatada.
As conclusões do articulista desconsideraram uma informação que não poderia se esquecida. A referida decisão foi confirmada, referendada, não apenas pelo Plenário do Tribunal de Justiça de São Paulo, por expressiva maioria (23 a 1), como também pelo Plenário do Supremo Tribunal Federal, ainda por maioria significativa.
Não me consta que decisões ``absurdas do ponto de vista jurídico" tenham o endosso desses tribunais. Nem é verdade que a Suprema Corte, na oportunidade, manteve-se omissa. Basta ler as notas daquele julgamento, demoradamente fundamentado, para se inferir o contrário. Supondo-se, para argumentar, que o denunciado conluio tivesse existido, teriam, então, protagonizado a maquinação inclusive os integrantes do Tribunal de Justiça e do Supremo Tribunal Federal, o que, no mínimo, seria supor uma ingenuidade.
Ademais, liminar, como a questionada, tem pressupostos, então induvidosamente presentes inconfundíveis com os de uma decisão final, de mérito. Isso é elementar em direito. A ressalva, aliás, constou, mesmo desnecessariamente, da minha decisão cautelar. Assegurava-se, face a plausibilidade do direito invocado pelos contribuintes, à iminência de prejuízos de demorada reparação e à ocorrência de decisões de primeira instância conflitantes, a situação anterior à vigência da lei contestada, até decisão final de mérito, ou seja, até que a Justiça esclarecesse quem tinha razão.
Nada de estranho, portanto, que a decisão de mérito, ainda sujeita a recurso, tenha agora afirmado a improcedência daquele direito antes considerado razoável pelo mesmo órgão colegiado do julgamento preambular. O decisório mais recente em nada desacreditou a precedente liminar. Jamais, exceto numa visão comprometida pela paixão partidária, se poderia extrair desses sucessivos julgamentos a prova da imaginosa conspiração contra o governo do Partido dos Trabalhadores.
Nem sequer a circunstância de posteriormente ter assumido as secretarias da Segurança Pública e da Justiça e Defesa da Cidadania estaria demonstrando o acenado ajuste político. Quem auxilia a execução de um plano de governo não adere, necessariamente, às posições político-partidárias do chefe desse governo. Não foi outra a tese sustentada pela prefeita Erundina, perante o seu partido, quando convidada a ocupar uma secretaria num governo que se dizia em descompasso com sua agremiação partidária. Aqui, no entanto, por conveniência do momento, a versão é outra.
Exerci as mencionadas funções na administração pública estadual com o mesmo propósito de servir que me elegeu presidente das Associações dos Magistrados paulistas e brasileiros e presidente do Tribunal de Justiça de São Paulo, e, sobretudo, que me inspirou como magistrado. Mudei às vezes de trincheira, jamais, porém, renunciei aos meus ideais. Todos que me conhecem sabem disso. Esse é um patrimônio moral irrenunciável, como, certamente, o tem o ilustre articulista citado inicialmente.
Há, no convívio democrático, aqueles que não suportam a presença dos que pensam diferentemente, esquecidos de que a convivência dos opostos é fundamental a um regime de liberdade. Tal posicionamento autoritário, essa intolerância que identifica períodos históricos de triste recordação, como os do nazismo e do stalinismo, tem ultimamente fustigado a Justiça.
As sentenças judiciais apenas são poupadas de críticas impiedosas quando favorecem determinados grupos sociais. Rui Barbosa já a seu tempo prevenia contra essas demasias, ``que apenas toleram leis e tribunais, enquanto os tribunais e a lei estão de acordo com as veleidades populares da ocasião". Creio que deveríamos refletir sobre esses desvios de conduta, que podem enfraquecer não somente o Poder Judiciário, mas a própria democracia.
Admito que equívocos possa ter cometido, nos quase 40 anos em que fui juiz. Penso, porém, que a possibilidade desse erro é quase inexpressiva quando uma sentença é confirmada, em grau de recurso, pelo voto de 23 dos 24 desembargadores que reexaminaram a questão, e, além disso, ainda recebe o beneplácito do Supremo Tribunal Federal.
Erros, porém, são inerentes à natureza humana. Eles podem ter sido tanto de minhas decisões como daqueles que as impugnaram sem sucesso. Há que se atentar, com natural humildade, para isso. Ninguém é dono exclusivo da verdade, que frequentemente estará na resultante desses desencontros de idéias. O que importa é estar tranquilo consigo mesmo, como estou ao final de minha carreira judicante.
Como um do povo, sempre desejei ter governos voltados para a satisfação dos anseios populares. Essa aspiração, entretanto, não poderia ser atendida por leis razoavelmente inquinadas de inconstitucionais, instituindo tributos insuportáveis. Aqueles fins não poderiam justificar esses meios. Assim pensava quando concedi a liminar questionada e ainda penso, como ex-juiz, como jurista, como advogado e como cidadão comum. O mais é paixão política, que respeito, mas que não discuto.
ODYR PORTO, 68, advogado, foi presidente do Tribunal de Justiça de São Paulo (1992-93).
FSP950706-009
FSP950706-009
950706
OPINIÃO
Torturadores e assassinos, legalizados ou tolerados, desafiam as leis e roubam a vida humana
CARLOS ALBERTO IDOETA
A Anistia Internacional lança seu novo relatório anual. Cobre 151 países. O leitor experimenta a sensação de ``déjà vu". Medo, dor e morte pela ação ou pela omissão de funcionários de governos pagos para proteger os governados.
Nossos números são conservadores. A natureza e a inter-relação das violações tornam impossível determinar os totais exatos de vítimas. Constatamos presos de consciência em 78 países. Dezenas de milhares de detidos por motivos políticos em 70 países, ou vítimas de farsas judiciárias em 33 países.
Quase mil seres humanos ``desapareceram" em 29 países, mais de mil morreram em consequência de torturas ou de condições desumanas de prisão. Em 22 países, os parentes dos ``desaparecidos" continuam em busca da satisfação devida. Pelo menos 2.500 presos foram legalmente enforcados, fuzilados, envenenados ou eletrocutados em 33 países. Incontáveis execuções extrajudiciais eliminaram membros da oposição ou de minorias em 54 países. Grupos de oposição armada fizeram reféns, feriram, torturaram e mataram em 36 países.
Em setembro haverá a conferência da ONU sobre a mulher, em Pequim. Enquanto a hipocrisia oficial de novo se evidencia na preparação do evento, as mulheres do mundo provam intimidações, estupros, mutilações e execuções nas mãos de covardes armados. Suas vozes não são ouvidas, suas tragédias individuais se perdem entre as tantas.
Torturadores e assassinos, autorizados ou tolerados, desafiam impunemente as leis e convenções nacionais e internacionais, afrontam a dignidade e roubam a vida humana. Apesar dos solenes compromissos assumidos nos salões de Genebra, Nova York e Viena.
Na América Latina, o paradeiro dos ``desaparecidos" ainda causa comoção nas casernas e nos palácios. Os tribunais colombianos de investigação de crimes militares insistem em não ajuizar ninguém. A tortura corre solta no México, nem os índios escapam. Os civis peruanos podem padecer nas mãos do governo ou dos luminosos do ``Sendero".
As páginas sobre o Brasil cuidam da tortura e dos maus-tratos nas prisões e delegacias de polícia. Das centenas de execuções extrajudiciais pela polícia e pelos esquadrões. Do envolvimento impune nos esquadrões de policiais civis e militares de vários Estados, admitido pelas autoridades, e da lentidão nas investigações. Das ameaças de morte a procuradores que querem investigar violações, a jornalistas, militantes e membros da igreja. Do relatório ``Além da desesperança", em que a Anistia, entre outras coisas, propôs ao governo brasileiro reformas profundas nas polícias e no Judiciário e medidas efetivas de proteção às testemunhas.
Em Cuba, resistem uns 600 presos de consciência, e os militantes de oposição ou de direitos humanos recebem do governo intimidação, detenção e julgamento injusto. Dos EUA, onde a inútil pena de morte prefere os pobres e as minorias, chegam denúncias de brutalidade policial e maus-tratos nas prisões.
Em Ruanda, o ataque genocida à minoria tutsi já matou mais de 1 milhão e expulsou do país outro milhão. No vizinho Burundi, milhares foram assassinados por motivos políticos. Em uma prisão de Camarões, 150 morreram por falta de comida ou cuidados médicos.
O governo chinês tortura e mata em escala maciça: 1.791 as execuções e 2.496 as sentenças de morte conhecidas no ano passado. Entre os presos de consciência, crianças, monges e freiras budistas que defendem pacificamente a independência do seu Tibete.
Em 29 países europeus _Alemanha, Espanha, França e Suíça entre eles_ foram registrados casos de tortura e maus-tratos. A ação policial aparenta motivação racial. A Anistia denunciou procedimentos de deportação desumanos e degradantes no Reino Unido. Grupos armados como ``ETA" e ``IRA" foram responsáveis por dezenas de mortos e feridos.
Foi muito difícil acompanhar as violações na Bósnia-Herzegovina, com até quatro forças armadas em conflito e tantos registros de ataques a residências, prisões ilegais, torturas, execuções e ``desaparecimentos", de mulheres e crianças inclusive. As tropas russas cometeram graves abusos na autoproclamada República da Tchetchênia, e não se indiciam os responsáveis lá também.
Na Argélia, os civis estão frequentemente entre as vítimas do conflito entre o governo e os grupos islâmicos. No Iraque e na Síria, contam-se aos milhares os presos de consciência e políticos, e sucedem-se as denúncias de execuções extrajudiciais. Em Israel e nos territórios ocupados, continuaram as violações cometidas por israelenses e palestinos mais de um ano depois do acordo de paz. Centenas de muçulmanos de credo sunita foram presos por suas atividades políticas ou religiosas na Arábia Saudita.
A jurisdição primária da proteção e promoção dos direitos humanos é dos ordenamentos jurídicos internos, mas neles pode não se esgotar a ação. A responsabilidade internacional pela defesa de cada indivíduo na sua singularidade continua a nos cobrar a denúncia imparcial e a pressão independente. Ante o drama dos curdos, François Mitterrand lembrava que ``o dever de não-ingerência termina onde nasce o risco da não-assistência".
Cada vez menos podemos pretextar ignorância dos fatos teimosos, do hiato entre retórica e prática e da lentidão das engrenagens oficiais na perseguição das aspirações comuns à espécie humana. Cada vez mais a expressão da indignação ante o inaceitável e o agir conjunto, base do poder, poderão erradicar o medo e a miséria do planeta.
CARLOS ALBERTO IDOETA, 44, é diretor da seção brasileira da Anistia Internacional.
FSP950706-010
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950706
BRASIL
``A grave crise orçamentária do governo estadual está pondo em risco uma das principais instituições de pesquisa de São Paulo: a Fundação Seade, da qual está sendo exigido um corte de cerca de 30% de suas despesas. O risco imediato é de um volume expressivo de demissões, comprometendo a qualidade e a produção de dados e análises. Essa instituição é responsável por pesquisas, trabalhos e publicações de larga utilização entre pesquisadores, planejadores, empresários, estudantes etc. Diante desse quadro, duas linhas de ação se impõem. De um lado, a máxima redução de gastos possível, já sendo efetuada pela direção da fundação, com a colaboração dos seus funcionários. De outro, a captação de recursos externos, por meio de convênios, venda de serviços etc., que a instituição está ampliando e que cabe ser apoiada por todos os usuários dos produtos e serviços da Fundação Seade: órgãos de pesquisa, universidades, empresas, associações de classe, além do próprio governo estadual."
Carlos Eduardo Moreira Ferreira, presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo, José Genoino, deputado federal pelo PT-SP, Boanerges Panão, membro da executiva estadual do PSDB, seguem-se mais 48 assinaturas (São Paulo, SP)
Procuradores dos pobres
``Não conheço o currículo político e ético do professor Boris Fausto. Conheço bem o currículo político e ético e, sobretudo, os hábitos de pensamento e de ação do jurista Fábio Konder Comparato. Entretanto vem-me à cabeça que o professor Fausto pode ter no seu currículo uma fase simpatizante que teria deixado marcas. E nisso não está sozinho. Alguns com essas marcas foram auxiliares diretos do sr. Collor. Muitos outros militam agora ativamente no campo social-democrata neoliberal."
Olavo Cabral Ramos Filho (Rio de Janeiro, RJ)
``Entusiásticos parabéns ao mestre Boris Fausto pelo artigo publicado em 4/7, que desmancha, de maneira veemente e científica, os delírios de certa casta de periféricos do PT. E foi muito bom não generalizar, já que temos incontáveis amigos entre os militantes do PT que merecem o nosso maior respeito pela contribuição que vêm dando ao nosso incipiente pluralismo político."
Modesto Carvalhosa (São Paulo, SP)
Crítica
``Ao contrário do crítico L. A. Giron (Ilustrada, 24/6), ouvi e fiquei impressionado com a beleza do CD do cantor carioca Marcos Sacramento. A heresia não está em Sacramento, mas na própria `modernidade da tradição' enquanto proposta, enquanto paradoxo, enquanto transgressão. Há muito não ouvia trabalho tão sincero e verdadeiro no cenário de mesmice da MPB."
Nei Inacio da Silveira (Rio de Janeiro, RJ)
Cirurgiões do além
``Vimos manifestar o repúdio desta Câmara à matéria publicada neste jornal, em 18/6, intitulada `Cientistas desafiam os cirurgiões do além', que cita nossa cidade como `lugarejo obscuro', o que consideramos uma citação desairosa e ofensiva."
Isael Fernandes, presidente da Câmara Municipal de Jacarezinho e Hélio Machado de Lima, primeiro-secretário (Jacarezinho, PR)
Monopólios
``Agora que a Rede Globo está feliz e que a imprensa conseguiu convencer a opinião pública de que a greve era uma burrice e a defesa dos monopólios estratégicos era uma insensatez, vamos seguir assistindo a classe dominante arruinando o país, sob as batutas do maestro FHC."
José Eduardo Seraphim (São Paulo, SP)
CPI do Sivam
``Vimos cumprimentar a todos do Conselho Editorial pela defesa do interesse público com o artigo `Sivam, CPI urgente' (30/6). Sem dúvida, dessa forma temos a certeza de que o Brasil está se tornando um país sério."
Dorival de Abreu, presidente do PTN _Partido Trabalhista Nacional (São Paulo, SP)
Desemprego
``Os autores de planos ou políticas econômicas recessivos têm por hábito encarar o desemprego como uma variável a mais numa equação qualquer, como uma simples metáfora de linguagem ou um elemento da mais pura abstração na fria, e às vezes cruel, objetividade da ciência econômica. Porém, na realidade social, o desemprego não é uma abstração. Representa a dor, a angústia e o desespero daqueles que se vêem na iminência de ficarem privados de todas as necessidades. Fatos desse triste jaez dificilmente incomodam os responsáveis por políticas econômicas recessivas, porque essas realidades não os atingem pessoalmente."
Gilberto Motta da Silva (Curitiba, PR)
Economia e ciência
``Podemos caracterizar a economia, bem como a estatístico, como ciência. Sendo assim, como Gilberto Dimenstein e Luís Nassif apresentam dados sobre a economia diametralmente opostos? Seria miopia econômica de um dos dois jornalistas ou o leitor não está mais captando tais raciocínios?"
Ubiratã I. M. Mello (Nova Granada, SP)
``Tanto Gilberto Dimenstein quanto Luís Nassif são excelentes. No entanto há mais de um mês eles expõem argumentos conflitantes sobre a fase econômica brasileira. Quando leio um ou outro acho seus argumentos excelentes, quando tento ler outras opiniões não chego a conclusão alguma! Minha situação é como Nassif descreve, mas receio que haja falsa gritaria de empresários e isso traga de volta a inflação."
Cássia Vidigal Ferraz (São Paulo, SP)
Fura
``Em 7/6 fui assunto da matéria `Diretor do la Fura acusa falso integrante', com o subtítulo `Pedro Quesada realizou workshops em SP, identificando-se como diretor do grupo catalão'. Como se pode dizer que me encontro `escondido', se jamais fui procurado em minha casa por qualquer jornalista? O que ficou claro desde do início deste processo é que me propunha a trabalhar elementos do Fura deus Baus, grupo que computo como genial em sua originalidade, mas nem por isso proprietário exclusivo de sua concepção teatral. Técnicas, processos, métodos de um grupo são suas contribuições no processo cultural, não suas propriedades. O período em que estive com o Fura foi incorporado à minha história pessoal. Sinto-me no direito de usar esses métodos, ainda que numa proposta originada em minhas próprias concepções."
Pedro Quesada (São Paulo, SP)
Desindexação
``A classe média assalariada e seus aposentados deram 34 milhÕes de votos a Fernando Henrique Cardoso para fazer a grande reforma que realmente interessa. Aquela que desminta o refrão segundo o qual `os ricos ficam cada vez mais ricos, e os pobres ficam cada vez mais pobres'. Entretanto a recente medida provisória que restringe os salários e as reformas determinadas por FHC e aprovadas pelos deputados parecem estar na linha do `quanto mais as coisas mudam, mais ficam a mesma coisa'."
Fernando Salinas Lacorte (Rio de Janeiro, RJ)
FSP950706-011
FSP950706-011
950706
BRASIL
Na semana passada, os responsáveis pelo estande de Minas na Festa dos Estados, em Brasília, precisavam de uma vaca para adornar o local, numa referência à produção de leite no Estado. Recorreram ao mineiro Pimenta da Veiga, ex-presidente do PSDB que cria gado perto da capital. Ele emprestou de imediato uma vaca.
Mas logo surgiram fiscais no estande pedindo documentos que comprovassem que o animal fora comprado regularmente. Os responsáveis disseram que era um empréstimo, mas não convenceram as autoridades. O ex-ministro Paulo Haddad, hoje assessor do governo mineiro, interveio, mas os fiscais não lhe deram muita bola. Queriam os documentos.
O próprio Pimenta foi convocado e confirmou o empréstimo.
Os fiscais já estavam se convencendo de que estava tudo em ordem quando apareceram alguns representantes da Sociedade Protetora dos Animais. Disseram que a vaca estava sob muito estresse.
Os organizadores do estande desistiram: resolveram devolver a vaca a Pimenta.
FSP950706-012
FSP950706-012
950706
BRASIL
Governador pode pedir fim da intervenção federal no banco estadual
Da Sucursal de Brasília e da Reportagem Local
O governador de São Paulo, Mário Covas, começa a negociar amanhã com o presidente do Banco Central, Gustavo Loyola, o futuro do Banespa.
A Folha apurou que o governador pode pedir ao BC o fim da intervenção federal.
``Não dá mais, temos que encerrar esta intervenção", disse ontem o líder do governo de São Paulo na Assembléia Legislativa do Estado, Walter Feldman (PSDB), por volta das 18h30.
Às 20h, depois de ter se encontrado com Covas, o deputado negou ter afirmado que o governador vai pedir o fim da intervenção.
Na segunda-feira, o governador reunirá deputados federais e senadores do PSDB paulista e tentará fechar questão contra a privatização do banco.
Para a conversa com Loyola, Covas reservou um argumento: o de que sua administração não teve a chance de promover o saneamento financeiro do Banespa.
Na visão do governador Covas, o banco paulista teve suas finanças comprometidas nos governos Orestes Quércia e Luiz Antônio Fleury Filho _e ele, Covas, é quem está pagando o preço.
Segundo Walter Feldman, Covas reclama que os interventores do BC pouco têm feito em termos de ajustes no banco _mesmo porque não sabem, até agora, qual será o destino do Banespa.
O governador conta ainda com um poderoso argumento político: a quase unanimidade da bancada paulista, estadual e federal, é contra a privatização do Banespa.
O encontro de segunda-feira _um almoço no Palácio dos Bandeirantes_ foi convocado sob o pretexto de discutir as dificuldades das empresas de São Paulo em razão da contenção de crédito e dos juros altos. O Banespa, no entanto, será o tema central da reunião.
FSP950706-013
FSP950706-013
950706
BRASIL
Da Reportagem Local
O conselheiro do TCE (Tribunal de Contas do Estado) Antonio Roque Citadini enviou despacho ao interventor do Banco Central no Banespa, Altino da Cunha, exigindo que sejam especificados quais diretores participaram da liberação de empréstimos irregulares.
O despacho do conselheiro foi publicado ontem no Diário Oficial do Estado. Nele, Citadini argumenta que, ao apurar os empréstimos irregulares, os interventores devem ter identificado os responsáveis pelas negociações.
Além do nome do diretor responsável, o conselheiro quer saber o prejuízo gerado.
Na última segunda-feira, o interventor do BC no Banespa encaminhou à Procuradoria Geral da República pedido de apuração sobre 25 empréstimos concedidos nos últimos oito anos.
O interventor suspeita que os empréstimos sejam irregulares. Todos eles foram concedidos sem garantia de pagamentos, como determina a legislação.
Entre eles estão empréstimos para a empresa aérea Vasp, CAC (Cooperativa Agrícola de Cotia), Paraquímica e duas operações financeiras feitas no final do governo Orestes Quércia (87 a 91).
As operações sob suspeita somam cerca de R$ 4 bilhões.
Cunha tem um prazo de oito dias úteis para apresentar as informações solicitadas pelo TCE.
Tramita na Procuradoria da República em São Paulo desde o último dia 22 de março pedido de abertura de inquérito civil e penal sobre os empréstimos concedidos pelo Banespa. O pedido foi encaminhado pelo deputado estadual Dráusio Barreto (PSDB).
Ele argumenta que informações veiculadas pela imprensa demonstram a existência de ações fraudulentas no Banespa durante os governos Orestes Quércia e Luiz Antonio Fleury Filho.
Segundo o deputado, os empréstimos lesaram o banco.
(CMN)
FSP950706-014
FSP950706-014
950706
BRASIL
Da Reportagem Local
A Justiça Federal em São Paulo está analisando as denúncias criminais contra quatro ex-vice-presidentes do Banespa no governo Orestes Quércia (1987/91). As denúncias criminais foram oferecidas à Justiça pelos procuradores da República Maria Luíza Duarte e José Eduardo de Santana.
Os quatro ex-vice-presidentes são o banqueiro Antônio Hermann Dias Menezes, o advogado Pedro Luiz Ferronato e os economistas Ricardo Dias Pereira e Waldemar Camarano Filho.
Das quatro denúncias encaminhadas à Justiça, duas estão com os juízes federais criminais da 6ª e 4ª Varas, Fausto Martin de Sanctis e Silvia Maria Rocha, respectivamente. As outras duas denúncias foram encaminhadas ontem à 3ª Vara Federal.
Ontem, o juiz Fausto Martin estava analisando a denúncia contra Hermann e Dias Pereira. Sua decisão deve sair hoje. A juíza Silvia Maria estava analisando a denúncia contra Ferronato e Câmara Filho e sua decisão deve sair até amanhã.
Se a denúncia for recebida é marcado o interrogatório dos denunciados (que passariam a réus). Se for rejeitada, a Procuradoria pode recorrer ao Tribunal Regional Federal da 3ª Região (SP/MS).
A denúncia foi encaminhada à Justiça a partir do pedido feito pelos interventores do Banespa nomeados pelo Banco Central em 30 de dezembro de 94. Há outras 19 representações sendo analisadas pela Procuradoria em São Paulo.
Segundo os procuradores, os ex-vice-presidentes participaram de quatro operações de empréstimo ao governo do Estado em 1990. Na ocasião, uma resolução do Banco Central permitia que os governos estaduais recebessem empréstimos por meio de operações denominadas ARO (Antecipação de Receita Orçamentária).
Das quatro operações, duas foram pagas (as feitas em 6/7/90 e 6/8/90). Outras duas (de 6/9/90 e 6/12/90) não foram pagas. Na época, os empréstimos somaram Cr$ 74 bilhões (estimativa de R$ 4 bilhões, hoje).
FSP950706-015
FSP950706-015
950706
BRASIL
DENISE MADUEÑO
Da Sucursal de Brasília
O Senado publicou uma cartilha ensinando o parlamentar a aparecer na imprensa. A publicação apresenta dicas dos horários em que a notícia deve ser divulgada, a forma de divulgação e considera positiva uma participação ``ridícula" no programa dominical ``Fantástico", da Rede Globo.
A cartilha foi elaborada pela Secretaria de Comunicação do Senado a partir de palestras de publicitários, jornalistas e especialistas em marketing político e pesquisa de opinião.
Reza a cartilha que ninguém vive sem propaganda. ``Marketing político não é uma prática exclusiva de campanha eleitoral. Deve ser praticado ao longo do mandato, até para o político ampliar seu espaço de poder", aconselha.
A publicação afirma que se o senador quiser uma boa divulgação para uma notícia, precisa apresentar documentos, números, informações precisas, agressividade e frases curtas e significativas.
``Combinar horário com agressividade é um boa receita para entrar na mídia", diz a publicação.
A cartilha lembra que para um discurso ou fato jornalístico entrar nos telejornais, por exemplo, deve ser divulgado antes das 11h, para os telejornais do meio-dia, e das 17h, para os telejornais noturnos.
A cartilha sugere uma participação maior do senador nos programas de rádio.
Segundo a publicação, o Brasil tem 3.000 estações de rádio e cerca de 80 mil aparelhos receptores.
``O retorno é fantástico e, em vez de batalhar entrevistas na época das eleições, o melhor é utilizar o rádio durante o mandato inteiro", afirma.
A publicação recomenda ao senador a preocupação com o ``critério de respeitabilidade". Segundo o texto da cartilha, a imagem do Senado na opinião pública é a de uma ``Casa de maus hábitos".
Na avaliação constante na cartilha, os parlamentares que são apanhados em ``situação ridícula" no quadro do jornalista Alexandre Garcia, no ``Fantástico", são bem recebidos pela opinião pública.
``Quando erram, demonstram que são iguais aos outros cidadãos. Isso humaniza as pessoas", diz o texto.
FSP950706-016
FSP950706-016
950706
BRASIL
Crítico áspero do governo e do próprio presidente Fernando Henrique, o jurista Fábio Konder Comparato tornou-se vítima de um ato monstruoso por parte de uma repartição governamental, o INSS, que precisa de investigação rigorosa, sob pena de ficar a responsabilidade difundida sobre pessoas que não a tenham, e entre as quais estariam mesmo as figuras mais importantes do poder.
O INSS já expediu, por sua seção de Pinheiros, em São Paulo capital, a certidão que isenta Comparato de qualquer irregularidade. A providência é insuficiente, porém. Mais do que necessário, é indispensável que se identifique a autoria e se explique como é possível a ocorrência de fato tão grave.
Ei-lo: o nome de Comparato foi acrescentado no Diário Oficial da União, de 22 de junho, à relação de 105 devedores da Previdência que se valeram de certidões falsas de quitações com o INSS. Mas a certidão emitida pelo INSS para Comparato é legítima e afirma a inexistência de débito. Como o próprio INSS certifica, atribuindo a inclusão na lista dos inidôneos a ``erro administrativo". Não há como crer em erro. Tudo leva a crer em má-fé.
É claro que a reputação de Fábio Konder Comparato não foi atingida, mesmo sendo o seu nome publicado em jornal do Rio, com base no Diário Oficial, e sendo ele, por isso, objeto de artigo insultuoso no ``Jornal do Commércio", também do Rio. Mas a reputação moral do governo de Fernando Henrique está sob risco, até que se verifiquem investigações convincentemente sérias e conclusivas sobre a tentativa de difamação originada de um ministério e praticada no próprio Diário Oficial.
Como previsto
Ao subir, por recurso judicial, da primeira instância para o Tribunal Regional de Recursos, a anulada concorrência da ponte Rio-Niterói voltou, como previsto, a ser válida. Não porque o Ministério dos Transportes e a empreiteira Andrade Gutierrez apresentassem contraprovas ao que levara à anulação (dados falsos da empreiteira sobre o tráfego na ponte, o que influiu na sua proposta vencedora do arrendamento). Mas porque o DNER alegou riscos para os usuários, se a anulação da concorrência fosse confirmada.
Acontece que o DNER concedeu à Andrade Gutierrez seis meses para começar o que seriam as obras, propriamente ditas, de que depende a restauração da segurança absoluta da ponte. Até lá, a empreiteira pode ocupar-se apenas das firulas, tão inexpressivas que, por isso mesmo, está impedida a cobrança de pedágio. E obras que podem esperar meio ano não exigem rapidez que justifique a aceitação de uma concorrência dada, na mesma Justiça, como fraudada por dados técnicos falsos.
FSP950706-017
FSP950706-017
950706
BRASIL
Diferentemente do que foi publicado à pág. 1-5 (Brasil) da edição de 6/7, a DBM vai receber R$ 2 milhões para prestar consultoria ao Banco do Brasil.ERRAMOS
BB contrata empresa sem fazer licitação
DBM vai receber R$ 2 bilhões para prestar consultoria
GUSTAVO KRIEGER
Da Sucursal de Brasília
O Banco do Brasil contratou sem concorrência pública a empresa de consultoria DBM _Drake Beam Morin. A empresa vai receber R$ 2 milhões para dar consultoria ao projeto de demissões voluntárias implementadas pelo BB.
O objetivo do programa de demissões voluntárias é diminuir as despesas do banco. A assessoria deve durar três meses, entre 23 de junho e 30 de setembro. Segundo o BB, a DBM vai transferir ao banco ``tecnologia em processos de demissão voluntária".
A dispensa de licitação é um procedimento previsto pela lei 8.666, que regula as concorrências públicas. O órgão público pode dispensar a concorrência se considerar que a contratada tem ``notória especialização" na área.
Cabe ao TCU (Tribunal de Contas da União), que fiscaliza os contratos públicos, decidir se a dispensa de licitação foi aplicada corretamente.
O projeto de demissão voluntária deve custar R$ 600 milhões ao BB. O objetivo é reduzir e modernizar sua estrutura administrativa.
A DBM não participou da elaboração do plano de demissões, que foi criado pela própria diretoria do BB. A consultoria da empresa deve se limitar à administração das dispensas e ao treinamento de funcionários do banco.
A diretoria do Banco do Brasil diz que não fez concorrência pública porque ``a DBM é a única empresa de consultoria do mercado brasileiro em condições de oferecer o conhecimento necessário neste tipo de programa".
Segundo a assessoria técnica do BB, o banco consultou ``diversas empresas" de consultoria antes de escolher a DBM, ``mas só ela ofereceu a qualidade necessária".
O BB vai oferecer vantagens aos servidores que aceitarem participar do programa de demissões voluntárias. O objetivo é desligar do quadro os servidores com mais de 12 anos de banco e que ganham os maiores salários.
O BB oferecerá a quem participar do programa uma indenização extra, proporcional ao tempo trabalhado.
Os servidores com até 15 anos de banco receberão 30% do salário mensal para cada ano trabalhado.
No caso dos funcionários que tem entre 16 e 20 anos de serviço, o percentual é de 50% do salário mensal para cada ano de trabalho. Quem tiver mais de 21 anos de serviço ganha um salário por ano trabalhado.
O banco vai criar Centros de Orientação de Carreira para preparar os demitidos na busca de um novo emprego.
A DMB via dar consultoria na organização e funcionamento destes centros.
FSP950706-018
FSP950706-018
950706
BRASIL
Pesquisa indica que, apesar das novas regras, sindicatos patronais devem continuar a definir os aumentos
VERA BUENO DE AZEVEDO
Da Reportagem Local
Os empresários não estão dispostos a alterar o atual sistema de negociação salarial em função das novas regras da medida provisória 1.053, que acabou com a correção automática dos salários.
Esta é a conclusão de pesquisa da Julio Lobos Consultores Associados, junto a 149 empresas.
Dos entrevistados, 57,1% afirmaram que continuarão negociando por meio dos sindicatos patronais, até onde for possível. Apenas 10,2% se dispuseram a negociar diretamente com o sindicato dos empregados e 28,6% não têm posição definida sobre o assunto.
Esse resultado vai contra a intenção do governo, de que os reajustes levem em conta os resultados (lucro, produtividade etc.) de cada empresa.
A pesquisa indica, entretanto, que a falta de interesse na negociação direta não é fruto de despreparo das empresas. Do total, 39,6% declararam estar preparados para negociar diretamente com os sindicatos, 50% afirmaram ter algum grau de preparo e apenas 10,4% julgam não poder negociar.
A figura do mediador também parece não ter muita credibilidade.
Embora 37,5% tenham declarado que o mediador evitará a instauração de dissídios coletivos na Justiça do Trabalho, 62,5% afirmaram que ele só será utilizado em situações específicas pontuais; não será bem utilizado, caindo em desuso; ou não será acionado.
A maior parte dos empresários não acredita ainda em mudança no comportamento da Justiça do Trabalho ao julgar dissídios coletivos.
Dos entrevistados, 38,8% acham que a Justiça recorrerá a algum parâmetro que meça a inflação passada. Outros 36,7% acreditam que as sentenças irão conceder aumento real ou índice adicional a título de produtividade.
Apenas 8,2% declararam que a Justiça adotará índices que possam medir a performance do setor econômico ou da empresa, como pretende o governo através da MP, e 16,3% disseram que a Justiça acatará a recomendação do mediador.
Os salários continuam sendo a maior preocupação dos empresários. Em uma pergunta na qual poderiam escolher mais de uma resposta, 59,2% declararam que o maior problema de suas empresas nos próximos seis meses será a reposição salarial e 46,9% a participação nos lucros ou resultados.
FSP950706-019
FSP950706-019
950706
BRASIL
Da Sucursal de Brasília
O governo já negocia com parlamentares alterações a serem feitas na próxima edição da MP (medida provisória) que acabou com a correção dos salários pela inflação.
O assunto foi discutido ontem entre o ministro Paulo Paiva (Trabalho), o procurador-geral da Fazenda Nacional, Luiz Carlos Sturzenegger, o relator da MP no Congresso, senador Coutinho Jorge (PMDB-PA), além do deputado Jackson Pereira (PSDB-CE) _vice-líder do governo na Câmara.
Segundo Pereira, foi acertado que a MP poderá ser ``aprimorada" em sua reedição. A medida só será votada a partir de agosto.
``Como pode haver várias reedições da MP, é melhor que o governo deixe alguns pontos mais claros até que o Congresso aprove a medida", disse o deputado.
Entre as mudanças, há a proposta de que a figura do mediador trabalhista seja melhor definida.
Foi acertado que as delegacias regionais do Ministério do Trabalho e do Banco Central começarão, a partir da próxima semana, a prestar orientação ao público sobre as regras da MP.
O líder do PSDB na Câmara, José Aníbal (SP), membro da comissão que analisa a MP, disse que proporá duas alterações no texto enviado pelo governo.
Segundo Aníbal, a MP deverá determinar o desconto apenas das antecipações salariais nas datas-base. O texto da MP prevê descontos das antecipações e aumentos salariais.
Aníbal proporá que os ganhos de produtividade _limitados pelo texto original da MP_ sejam medidos por setor da economia e não por empresa.
O presidente Fernando Henrique já indicou aos líderes governistas que aceitará mudanças em pontos não-essenciais da medida.
A comissão que analisa a MP já recebeu 109 propostas de modificações na medida, sendo 104 de partidos de oposição (80 do PT, 23 do PDT e uma do PPS).
(Gustavo Patú e Daniel Bramatti).
FSP950706-020
FSP950706-020
950706
BRASIL
Da Sucursal de Brasília
O PT e o PC do B entraram ontem no STF (Supremo Tribunal Federal) com uma ação direta de inconstitucionalidade _com pedido de liminar_ contra a MP (medida provisória) que acabou com a correção automática dos salários.
Os líderes Jaques Wagner (PT-BA) e Aldo Rebelo (PC do B-SP) foram ontem à casa do presidente do STF, Sepúlveda Pertence e entregaram o recurso.
Pertence deve decidir sobre a concessão da liminar até a próxima terça-feira. O mérito do recurso será apreciado pelo STF apenas em agosto, após o recesso.
A Lei 9.069, que criou o Plano Real, também foi alvo dos petistas, em outra ação entregue ao presidente do STF. O PT sustenta que o governo não poderia tratar da composição do CMN (Conselho Monetário Nacional) por meio de lei ordinária, mas apenas por lei complementar, prevista no artigo 192 da Constituição.
Segundo os deputados, pelo menos quatro artigos da MP 1.053 violam a Constituição. O PDT já havia questionado a MP anteontem, com outra ação ao STF.
Outras 14 ações diretas de inconstitucionalidade contra as medidas provisórias reeditadas pelo governo recentemente foram entregues pelo PT. Essas MPs revogaram as anteriores antes do prazo de 30 dias concedidos ao Congresso para apreciação dos textos.
FSP950706-021
FSP950706-021
950706
BRASIL
Tucano recebe título de doutor `honoris causa' da Universidade Central da Venezuela e revê `capitalismo autoritário'
Do enviado especial a Caracas
``Não se pode mais aceitar bolsões de miséria nos países em desenvolvimento", afirmou ontem o presidente Fernando Henrique Cardoso, em Caracas, ao receber o título de doutor ``honoris causa" da Faculdade de Ciências Econômicas e Sociais da Universidade Central da Venezuela (UCV).
Falando em espanhol, FHC acrescentou: ``Em muitos países, há condições de combater esses bolsões de miséria. Se não se faz, é porque há vontade de manter a desigualdade".
O presidente fez ainda uma revisão do que chamou de ``capitalismo autoritário", que teria vigorado em vários países da América Latina, reconhecendo nele virtudes históricas: ``O capitalismo autoritário, ao modernizar partes do aparelho produtivo, criava as bases para a sua superação".
Durante boa parte de seu discurso, o presidente lembrou as ``utopias" libertárias da América Latina, mas concluiu com um apelo ao realismo: ``Agora, trataremos de fazer as mudanças orientados pelas utopias possíveis".
O título foi anunciado, no ano passado, como parte do 19º Congresso da Associação Latino-Americana de Sociologia. Na ocasião, o senador Darcy Ribeiro (PDT-RJ) foi homenageado com o título.
FHC, que também é doutor ``honoris causa" das universidades do Chile e de Berkeley (EUA), receberá mais dois desses títulos, das universidades de Coimbra e do Porto, durante sua visita oficial a Portugal, de 19 a 22 deste mês.
Heinz Sontag, diretor do Cendes (Centro de Estudos de Desenvolvimento) da UCV, disse que a universidade não confere o título a todos os chefes de Estado que visitam o país. Segundo ele, a decisão de dar o título a FHC foi baseada em seu ``méritos científicos, intelectuais e humanísticos".
FHC foi professor-visitante do Cendes entre 1975 e 1979, quando dava aulas sobre a Teoria da Dependência.
A teoria, da qual FHC é um dos formuladores, analisava como a economia dos países desenvolvidos dava a forma da economia e da sociedade dos países dependentes (ou periféricos).
Sontag disse que o mais conhecido dos livros de FHC, ``Dependência e Desenvolvimento na América Latina", em co-autoria com Enzo Faletto, foi ``a bíblia dos debates sobre América Latina por mais de uma década".
Em sua aula na solenidade de outorga do título de doutor ``honoris causa", FHC analisou o pensamento latino-americano moderno.
Ele disse que há necessidade de mais reflexão sobre as mudanças numa época de globalização.
Depois da solenidade na UCV, pela manhã, FHC presenciou, como convidado de honra do presidente venezuelano, Rafael Caldera, o desfile militar em comemoração ao 184º aniversário da independência da Venezuela.
FSP950706-022
FSP950706-022
950706
BRASIL
Da Redação
``Honoris causa" é uma expressão latina que significa ``para honra". Ela designa títulos universitários, concedidos sem exame ou concurso, para homenagear alguém por suas realizações em algum campo do saber.
A concessão da homenagem varia de universidade para universidade. Em geral, o título é sugerido por um grupo de professores e depois aprovado pelo conselho universitário. Seu valor acadêmico também varia de acordo com a tradição e o prestígio internacional da instituição concedente.
FSP950706-023
FSP950706-023
950706
BRASIL
'A esquerda já era burra quando ele era de esquerda', afirma Newton Cruz
Da Sucursal do Rio e da Reportagem Local
Políticos identificados com posições conservadoras, à direita no espectro político, endossaram ontem as declarações do presidente Fernando Henrique Cardoso sobre a suposta burrice da esquerda, feitas em teleconferência promovida pelo PSDB.
Durante o evento, FHC criticou seu partido e elogiou o PFL (``só o PFL tem o direito de ser inteligente?").
O cientista político Hélio Jaguaribe, ligado ao PSDB, relativizou a crítica do presidente, afirmando que ele não fez uma crítica à esquerda ``em abstrato", o que, segundo o intelectual, também seria ``burrice".
Leia, abaixo, as principais opiniões colhidas pela Folha:
Delfim Netto, 67, deputado federal (PPR-SP): ``Para mim, isso (a burrice da esquerda) não é novidade".
Roberto Campos, 78, deputado federal (PPR-RJ): ``Concordo plenamente com o presidente. Há 30 anos venho dizendo que as esquerdas brasileiras são das mais burras do planeta e, quem sabe, do sistema solar. Considero o esquerdismo uma espécie de gonorréia juvenil, compreensível na puberdade, porém repreensível na maturidade, quando as lições da história revelam a superior eficácia do liberalismo".
Newton Cruz, 70, general da reserva: ``O presidente está de acordo comigo. Eu sempre achei a esquerda burra, de longa data. Ele mudou de idéia, mas a esquerda já era burra quando ele era da esquerda. O que ele diz agora, para mim, tem uma conotação mais de oportunismo, não de inteligência. O Lula defende idéias burras, mas é profundamente inteligente. O Brizola defende idéias burras".
Roberto Jefferson, 42, deputado federal (PTB-RJ): ``Burro é o grupo do PT mais radical, é a esquerda do PC do B, são os deputados do PSDB que votam contra o governo constantemente, fazendo o joguinho do PT no plenário. São uns dez caras, que não têm projeto nenhum. É a turma do PSTU, da CUT".
``Inteligente é o PPS. É um prazer lidar com políticos do `partidão'. São grandes, não ficam em mesquinharias delatórias, fazendo o marketing da delação no plenário."
Roberto Cardoso Alves, ex-deputado federal (PTB-SP): ``O presidente está desmanchando o que a esquerda, por burrice, fez contra o grande esforço do `Centrão' na Constituinte".
Hélio Jaguaribe, 72, sociólogo: ``O presidente foi tomado muito ao pé da letra. Ele se referia a pessoas que têm interpretação da esquerda superada, e não à esquerda de forma abstrata. Considerar burra a esquerda em abstrato seria burrice. É um ato de burrice considerar que o interesse nacional depende da propriedade pública dos meios de produção, que a preservação de formas monopolísticas de defesa sindical corresponde a posições de vanguarda. Uma pessoa inteligente de esquerda é o próprio Fernando Henrique, que representa uma esquerda moderna".
FSP950706-024
FSP950706-024
950706
BRASIL
Presidente diz que ``é possível" que país vizinho não fique sujeito aos limites de importação de automóveis
ANTONIO CARLOS SEIDL
Enviado especial a Caracas
O presidente Fernando Henrique Cardoso disse ontem em Caracas que é ``possível" que o país deixe a Argentina de fora das cotas para importações de veículos.
O ministro das Relações Exteriores, Luiz Felipe Lampreia, que integra a delegação brasileira em Caracas, informou que a decisão sairá de seu encontro com o chanceler argentino, Guido di Tella, nos dias 10 e 11 deste mês, em Brasília.
O presidente FHC e Lampreia estarão em Buenos Aires na sexta-feira para participarem da solenidade de posse do segundo mandato consecutivo do presidente Carlos Menem.
Em rápido contato com a imprensa no último dia de sua visita oficial à Venezuela, FHC admitiu excluir a Argentina das restrições às importações de veículos.
``Verificamos que o peso das importações de veículos argentinos é muito pequeno na nossa balança comercial", afirmou.
As importações brasileiras de veículos alcançaram US$ 1,8 bilhão até maio deste ano. Desse total, apenas 3,4% (US$ 63,3 milhões) são da Argentina.
FHC disse que não ter conhecimento dos detalhes das negociações entre autoridades brasileiras e argentinas durante a reunião de Denver (EUA) sobre comércio nas Américas, realizada na semana passada.
O presidente afirmou, porém, o acordo é ``bom" para o Brasil, se, de fato, excluir a Argentina das cotas de importação de veículos.
O Brasil decidiu adotar o sistema de cotas de importação para veículos no início do mês passado, como parte do chamado ``regime automotivo", uma série de medidas para aumentar a produção de veículos no país.
A Argentina, que espera exportar até 80 mil veículos para o Brasil este ano, protestou contra as cotas, causando um arranhão nas relações bilaterais na véspera da 1ª Cúpula do Mercosul, realizada em São Paulo, de 18 a 20 de junho, em São Paulo.
Na ocasião, o Brasil anunciou que negociaria com a Argentina uma solução para o impasse dentro de um prazo de 30 dias.
Desindexação
O presidente FHC criticou ontem em Caracas os partidos de oposição, principalmente o PDT e o PT, que pediram ao STF (Supremo Tribunal Federal) a decretação da inconstitucionalidade dos artigos 11 e 13 da MP (medida provisória 1053, que desindexou os salários.
``A oposição devia, primeiro, discutir a MP no Congresso antes de entrar na Justiça", disse.
Empresários
Em seu discurso durante almoço oferecido pela Câmara de Comércio e Indústria Venezuelano-Brasileira, FHC pediu aos empresários brasileiros para confiar mais no Brasil ``como os venezuelanos estão percebendo de longe".
``É preciso que haja mais espírito de competição aberta. O Brasil não precisa se fechar porque tem todas as condições de competindo avançar. Esse avanço não pode ser feito só pensando no Brasil, precisamos pensar em parceiros, como a Venezuela".
FHC disse que o Brasil não vai fechar a economia. Ele reafirmou que as cotas de importação de veículos é um ``caso específico" para corrigir a balança comercial.
FSP950706-025
FSP950706-025
950706
BRASIL
Da Sucursal de Brasília
O ministro Pedro Malan (Fazenda) condicionou bons resultados na economia no próximo ano à aprovação da reforma fiscal e modernização do Estado no Congresso Nacional. Segundo ele, não há recessão no país e sim uma redução programada do ritmo de crescimento da economia.
Ele disse à RFTv (Reuters Financial Television), ontem, numa entrevista ao vivo, que o desafio do governo para o segundo semestre é continuar a batalha contra a inflação. ``Temos que desmantelar a parafernália de indexadores construída nas últimas três décadas", afirmou.
Para o ministro, a adoção de medidas radicais contra a indexação levaria o mercado a criar seus próprios índices.
Malan disse que o governo já vem reduzindo as taxas de juros, que ``passaram de 4,25% em março para cerca de 4% agora", seguindo uma tendência de gradual relaxamento da política monetária _juros e restrições ao crédito.
Ele explicou que a alta da inflação em julho era prevista por causa do aumento das tarifas de ônibus. Reafirmou que não há congelamento, mas que o governo quer ser consultado e convencido da necessidade dos aumentos.
``O governo está mudando de atitude em relação ao sistema antigo", quando a tendência, segundo ele, era atender às pressões de custos das empresas. Ele disse que o governo quer orientar os empresários a reduzirem custos e aumentarem a produtividade.
Malan declarou que espera uma safra agrícola recorde neste ano. Explicou que o governo fez acordo com os produtores para pagamento das dívidas.
Esta foi a primeira vez que o Brasil participou de uma entrevista da RFTv. O sistema, da Agência Reuters, atende especificamente o mercado financeiro. A entrevista foi transmitida para associados dos EUA, Europa Ocidental e Ásia.
O correspondente-chefe da agência no Brasil, Adrian Dickson, disse que o mercado queria conhecer o ministro. ``Ele inspira muita confiança", disse.
FSP950706-026
FSP950706-026
950706
BRASIL
Da Sucursal de Brasília
O líder do PL na Câmara, Valdemar Costa Neto (SP), teve o apoio de membros da bancada nas indicações para os cargos de superintendente da Receita Federal em São Paulo e de inspetor em Cumbica, no governo Itamar Franco.
O deputado João Mellão Neto (PFL-SP) assinou, com Costa Neto e mais três deputados do PL, um ofício que indicava Péricles de Oliveira Soares para o cargo de superintendente da Receita em São Paulo, em 19 de outubro de 92.
No dia 16 de dezembro de 92, Mellão e Costa Neto assinaram outro ofício com a indicação de Marco Aurélio Busse Pereira para inspetor da Receita em Cumbica.
Costa Neto divulgou cópias dos ofícios ontem. Mellão afirmou que o cargo em Cumbica era ``reserva pessoal" de Costa Neto. Nas cópias dos ofícios, Costa Neto encobriu o nome dos outros deputados que apoiaram as indicações.
Perguntado sobre as indicações do líder do PL, Melão afirmou: "Quando ele pedia apoio da bancada, nós ponderávamos que não teria sentido se meter com a Receita". Acrescentou que os pedidos por cargos levaram à sua saída do PL. Informado sobre a divulgação dos ofícios, explicou suas assinaturas: "Isso é questão de solidariedade da bancada".
Mellão afirma que não tinha interesse em indicar Busse: "Eu nem o conhecia. Este ofício é da lavra dele (Costa Neto). Assinei assim como assinei 1 milhão de coisas que ele pediu".
Costa Neto afirma que, após assinar as indicações, Mellão passou a pedir favores quando viajava.
O líder do PL diz que Mellão ligou certa vez dos EUA, "pedindo uma recepção especial em Cumbica". O fato teria ocorrido em janeiro de 94. "Liguei para o Aramis Moraes (inspetor de Cumbica) e pedi a ele que recebesse bem o Mellão", diz.
Mellão confirmou ontem que foi recebido por Aramis, mas não soube explicar como o inspetor foi informado sobre a sua chegada.
(Lucio Vaz)
FSP950706-027
FSP950706-027
950706
BRASIL
Ministro da Educação, que foi operado pelo da Saúde, diz apoiar recriação do IPMF para a área de saúde
Da Sucursal de Brasília
O ministro da Educação, Paulo Renato Souza, defendeu ontem a criação de um imposto vinculado à área da saúde.
Ele disse que a reivindicação do ministro Adib Jatene, da Saúde, consta do programa de campanha do presidente Fernando Henrique Cardoso.
“O ministro Jatene tem razão na sua luta. A área da saúde precisa de um financiamento especial. Aliás, isso faz parte do nosso programa de governo, o programa 'Mãos à Obra'”, disse o ministro da Educação.
Paulo Renato, que foi coordenador do programa de governo de FHC, fez uma visita de cortesia ao ministro da Saúde.
Jatene comandou a equipe que implantou três pontes de safena e duas mamárias no coração do ministro da Educação, no dia 6 de junho.
Desde então, ontem foi o primeiro dia de trabalho efetivo de Paulo Renato à frente do Ministério da Educação.
Adib Jatene quer a criação da CMF (Contribuição sobre Movimentação Financeira), uma reedição do IPMF, com alíquota de 0,25% sobre movimentações bancárias.
O dinheiro arrecadado seria vinculado ao Ministério da Saúde. Estima-se que o expediente poderia render R$ 6 bilhões anuais.
O orçamento livre do ministério é de R$ 6,7 bilhões, o que, segundo o ministro, é insuficiente até para pagar a rede conveniada de hospitais. Com a diferença, Jatene diz querer aumentar a remuneração dos hospitais e fazer investimentos.
“O presidente Fernando Henrique também apóia a idéia. Portanto, é uma questão agora de nós levarmos esse tema ao Congresso e obtermos a aprovação o mais rapidamente possível”, diz Jatene.
Paulo Renato disse que não conversou com os ministros da área econômica sobre o assunto. “Eu tenho acompanhado apenas pelos jornais e, aí, aparece alguma polêmica, mas eu acho que o ministro Jatene tem razão”.
Empresários da Alanac (Associação dos Laboratórios Nacionais) visitaram o ministro Jatene ontem para apoiá-lo na proposta de criação da CMF.
Segundo o presidente da associação, Dante Alário, “a finalidade desse imposto é nobre”.
A Alanac representa cerca de 200 laboratórios farmacêuticos, que movimentam R$ 800 milhões por ano. O ministro da Educação disse também que não existem atritos entre o presidente Fernando Henrique Cardoso e o PSDB. Na segunda-feira, em teleconferência com membros do partido, o presidente cobrou que o PSDB defenda com mais ênfase as medidas adotadas pelo governo e a reforma constitucional.
“Não houve uma crítica do presidente do partido. Ele estava chamando a atenção justamente para a necessidade de um engajamento nas reformas, que é o que a sociedade brasileira está esperando”, afirmou Paulo Renato.
FSP950706-028
FSP950706-028
950706
BRASIL
Da Sucursal de Brasília
Existem no país 1.750 hospitais inacabados, que deveriam ter sido construídos pelo governo federal. Desse total, 30 estão em São Paulo. Alguns foram iniciados há quatro anos.
O senador Carlos Wilson (PSDB-PE), presidente da comissão especial do Senado que investiga as obras iniciadas pelo governo federal e que estão inacabadas, entregou ontem ao presidente interino, Marco Maciel, relatório preliminar sobre as construções inacabadas espalhadas pelo país.
A comissão está cruzando os dados enviados por prefeituras (2.000 já mandaram), governos estaduais e ministérios.
Um dos casos levantados pelo Senado: há 13 anos, o governo federal comprometeu-se a construir uma ponte ligando os Estados de Santa Catarina (município de Campos Novos) e Rio Grande do Sul (Barracão).
Cada Estado construiu a parte de estrada que lhe cabia, e a ponte, iniciada em 93, foi abandonada por falta de recursos.
Segundo o senador, bastariam R$ 3 milhões para concluir a ponte, mas o Orçamento da União não destinou verba para a obra.
Em Pernambuco, Estado do vice-presidente, foi inaugurado em dezembro o hospital Regional de Caruaru, que até hoje não começou a funcionar por falta do sistema de esgoto.
A comissão presidida por Carlos Wilson deve concluir os trabalhos em setembro, podendo haver prorrogação até outubro. O relator é o senador Casildo Maldaner (PMDB-SC). ``O relatório deve inibir o início de novas obras", disse ele.
FSP950706-029
FSP950706-029
950706
BRASIL
Análise de rochas sugere que "fezes primordiais" fertilizaram o fundo dos oceanos, há 500 milhões de anos
Das agências internacionais
Pesquisadores da Universidade de Indiana (EUA) afirmam ter encontrado o "elo" que teria possibilitado a grande explosão de vida na Terra, há cerca de 500 milhões de anos: fezes.
De acordo com o trabalho, publicado hoje na revista "Nature", os primeiros organismos produtores de fezes (constituídos por mais de uma célula) "fertilizaram" o fundo dos oceanos, propiciando o surgimento de diversas formas de vida.
De acordo com os cientistas, essas mudanças teriam antecipado a "grande explosão do Cambriano" _quando surgiram novas formas de vida_, iniciado há 570 milhões de anos.
Eles elaboraram a hipótese após analisar rochas da era Proterozóica _entre 2,5 bilhões e 544 milhões de anos atrás. Ao contrário do encontrado hoje, o oxigênio era escasso nos oceanos na época.
Durante a era Proterozóica, anterior ao período Cambriano, apenas uma camada fina dos oceanos era oxigenada: aquela onde viviam as algas verdes produtoras de oxigênio.
Segundo John Hayes, autor do trabalho, as fezes mudaram o rumo das coisas.
Quando surgiram os organismos multicelulares, bolotas de fezes começaram a ser produzidas na superfície. Como caíam de forma mais rápida do que a matéria orgânica produzida pelas algas, os organismos que se alimentavam de fezes foram levados ao fundo dos oceanos.
"Os efeitos desta reorganização dos ciclos biogeoquímicos foram grandes: as águas profundas foram ventiladas, e o fundo dos mares foi aberto à colonização pelos animais", disse Hayes.
Com a ida dos organismos para o fundo dos mares, mais oxigênio ficou livre na superfície e mais oxigênio pôde ser liberado para a atmosfera. Isso pode ter permitido que novas formas de vida viessem a conquistar o ambiente terrestre, milhões de anos mais tarde.
FSP950706-030
FSP950706-030
950706
BRASIL
Governador pode pedir fim da intervenção federal no banco estadual
Da Sucursal de Brasília e da Reportagem Local
O governador de São Paulo, Mário Covas, começa a negociar amanhã com o presidente do Banco Central, Gustavo Loyola, o futuro do Banespa.
O governador pode pedir ao BC o fim da intervenção federal.
``Não dá mais, temos que encerrar esta intervenção", disse ontem o líder do governo Covas na Assembléia Legislativa de São Paulo, Walter Feldman (PSDB), por volta das 18h30.
Às 20h, depois de ter se encontrado com Covas, o deputado negou ter afirmado que o governador vai pedir o fim da intervenção.
Em telefonema à Folha às 20h15, Feldmann disse: ``Eu não poderia fazer uma afirmação desse tipo porque não recebi nenhum comunicado do governador nesse sentido. Enquanto não se chegar a um acordo sobre a dívida do Estado com o Banespa, o fim da intervenção não significaria nada", disse.
``Eu apenas confirmei o encontro entre Covas e Loyolla e disse que, na minha opinião, seis meses é mais do que suficiente para se chegar a uma saída", afirmou.0
Na segunda-feira, o governador reunirá deputados federais e senadores do PSDB paulista e tentará fechar questão contra a privatização do banco.
Para a conversa com Loyola, Covas reservou um argumento: o de que sua administração não teve a chance de promover o saneamento financeiro do Banespa.
Para Covas, o banco paulista teve suas finanças comprometidas nos governos Orestes Quércia e Luiz Antônio Fleury Filho.
Segundo Walter Feldman, Covas reclama que os interventores do BC pouco têm feito em termos de ajustes no banco.
O governador conta ainda com um poderoso argumento político: a quase unanimidade da bancada paulista, estadual e federal, é contra a privatização do Banespa.
O encontro de segunda-feira _um almoço no Palácio dos Bandeirantes_ foi convocado sob o pretexto de discutir as dificuldades das empresas de São Paulo em razão da contenção de crédito e dos juros altos. O Banespa, no entanto, será o tema central da reunião.
FSP950706-031
FSP950706-031
950706
BRASIL
Da Reportagem Local
O conselheiro do TCE (Tribunal de Contas do Estado) Antonio Roque Citadini enviou despacho ao interventor do Banco Central no Banespa, Altino da Cunha, exigindo que sejam especificados quais diretores participaram da liberação de empréstimos irregulares.
O despacho do conselheiro foi publicado ontem no ``Diário Oficial" do Estado. Nele, Citadini argumenta que, ao apurar os empréstimos irregulares, os interventores devem ter identificado os responsáveis pelas negociações.
Além do nome do diretor responsável, Citadini quer saber o prejuízo gerado. Na segunda-feira, Altino encaminhou à Procuradoria Geral da República pedido de apuração sobre 25 empréstimos concedidos em oito anos.
O interventor suspeita que os empréstimos sejam irregulares, pois não têm garantia de pagamentos, como determina a legislação.
Entre eles estão empréstimos para a empresa aérea Vasp, CAC (Cooperativa Agrícola de Cotia), Paraquímica e duas operações financeiras feitas no final do governo Orestes Quércia (87 a 91).
As operações sob suspeita somam cerca de R$ 4 bilhões.
Cunha tem um prazo de oito dias úteis para apresentar as informações solicitadas pelo TCE.
Tramita na Procuradoria da República em São Paulo desde o último dia 22 de março pedido de abertura de inquérito civil e penal sobre os empréstimos concedidos pelo Banespa. O pedido foi encaminhado pelo deputado estadual Dráusio Barreto (PSDB).
Ele argumenta que informações veiculadas pela imprensa demonstram a existência de ações fraudulentas no Banespa durante os governos Quércia e Fleury.
Feldmann
Em carta encaminhada ontem ao governador Mário Covas, o atual presidente da Eletropaulo, Paulo Roberto Feldmann, diz que só deu aval a empréstimos concedidos pelo Banespa mediante pareceres técnicos do banco.
A Folha revelou ontem que Feldmann participou da liberação de empréstimos considerados irregulares enquanto foi diretor do Banespa, entre 91 e 93.
(CMN)
FSP950706-032
FSP950706-032
950706
BRASIL
Documento que sai hoje traz análise sobre Plano Real
FERNANDO PAULINO NETO
Da Sucursal do Rio
A economia mundial tem crescido 3% ao ano, em média, nos últimos anos, segundo relatório da ONU (Organização das Nações Unidas) intitulado ``Panorama Econômico e Social do Mundo", que será divulgado hoje em Nova York.
O documento dedica pouco mais de duas páginas ao Brasil, com o título ``O inovador ataque à inflação do Brasil", que destaca o fato de o país ter conseguido derrubar a inflação com um crescimento de 6% do PIB (Produto Interno Bruto, a soma dos bens e serviços produzidos em um ano por um país) em 1994.
O documento diz que, mundialmente, a renda per capita tem aumentado nos últimos 15 anos na maioria dos países e que o crescimento econômico médio de 3% ao ano deve continuar em 1996.
Segundo o documento, apenas 30% dos países tiveram queda no PIB em 1994. A ONU lamenta que o crescimento econômico não esteja trazendo, em igual proporção, aumento de emprego. ``O desemprego não está caindo rapidamente", diz o documento.
Plano Real
No parágrafo final da análise sobre o Plano Real, o documento da ONU diz que, mesmo com o crescimento dos preços abaixo de 2% em março passado, ``a inflação estava acelerando (em março) de acordo com todos os índices" (na realidade, o repique maior da inflação ocorrerá agora em julho, devido ao aumento de algumas tarifas públicas).
O documento encerra mostrando que ainda há o que resolver, como aprovar medidas permanentes de ajuste fiscal (tornar as despesas governamentais menores que as receitas) e outras reformas necessárias para conter a inflação, envolvendo as relações entre a União e os Estados, a fragilidade financeira dos bancos estaduais, o financiamento da Previdência Social e a privatização das empresas estatais. ``A batalha, portanto, continua."
A parte sobre o Brasil começa com um histórico da implementação do Plano Real, mostrando que a inflação caiu de 49% em junho de 1994 para 8% no mês seguinte.
Descreve a criação da URV (Unidade Real de Valor) como a transição do cruzeiro real para o real, cita os cortes no orçamento de 1994 e 1995, até chegar à implementação da nova moeda.
Lembra que a entrada em vigor do real não foi exatamente igual ao modelo teórico, pois a ``memória inflacionária" fez com que os primeiros índices do real estivessem ``carregados" pela inflação em cruzeiro real.
Cita, depois, a explosão de consumo e as medidas de desvalorização do real para tentar neutralizar o déficit da balança comercial.
FSP950706-033
FSP950706-033
950706
BRASIL
Critério de produtividade deve passar a ser por setor e só antecipação salarial será descontada na data-base
Da Sucursal de Brasília
O governo já negocia com parlamentares alterações a serem feitas na próxima edição da MP (medida provisória) que acabou com a correção dos salários pela inflação.
O assunto foi discutido ontem entre o ministro Paulo Paiva (Trabalho), o procurador-geral da Fazenda Nacional, Luiz Carlos Sturzenegger, o relator da MP no Congresso, senador Coutinho Jorge (PMDB-PA), além do deputado Jackson Pereira (PSDB-CE) _vice-líder do governo na Câmara.
Segundo Pereira, foi acertado que a MP poderá ser ``aprimorada" ao ser reeditada no final deste mês. A medida será votada em agosto.
``Como pode haver várias reedições da MP, é melhor que o próprio governo deixe alguns pontos mais claros até que o Congresso aprove a medida", disse Pereira.
Os pontos passíveis de alteração: os reajustes salariais a título de produtividade serão medidos por setor da economia e não por empresa e a figura do mediador trabalhista criada pela MP deve ser melhor definida.
Também foi acertado que as delegacias regionais do Ministério do Trabalho e do Banco Central começarão, a partir da próxima semana, a prestar orientação ao público sobre as regras da MP.
Coutinho Jorge descartou a possibilidade da adoção de ``gatilho" para os salários _reajuste automático quando a inflação atingir determinado patamar. Deixou em aberto, porém, a possibilidade de proteger os salários mais baixos.
O líder do PSDB na Câmara, José Aníbal (SP), membro da comissão que vai analisar a MP, disse que proporá duas alterações no texto enviado pelo governo.
Segundo Aníbal, a MP deverá determinar o desconto apenas das antecipações salariais nas datas-base _o texto da medida prevê que antecipações e aumentos salariais sejam descontados.
O presidente Fernando Henrique Cardoso já indicou aos líderes governistas que aceitará _e, em alguns casos, até incentivará_ mudanças em pontos não-essenciais.
A comissão que analisa a MP já recebeu 109 propostas de modificações na medida _sendo 104 de partidos de oposição: 80 do PT, 23 do PDT e uma do PPS.
O senador Eduardo Suplicy (PT-SP) propôs a inclusão do Programa de Garantia de Renda Mínima nas regras da MP.
FSP950706-034
FSP950706-034
950706
BRASIL
Do enviado especial a Caracas e da Sucursal de Brasília
O presidente Fernando Henrique Cardoso criticou ontem em Caracas os partidos de oposição, principalmente o PDT e o PT, que pediram ao STF (Supremo Tribunal Federal) a decretação da inconstitucionalidade dos artigos 11 e 13 da MP (medida provisória 1053), que desindexou os salários.
``A oposição devia, primeiro, discutir a MP no Congresso antes de entrar na Justiça", disse.
O PT e o PC do B entraram ontem no STF (Supremo Tribunal Federal) com uma ação direta de inconstitucionalidade _com pedido de liminar_ contra a MP (medida provisória) que acabou com a correção automática dos salários.
Os líderes Jaques Wagner (PT-BA) e Aldo Rebelo (PC do B-SP) foram ontem à casa do presidente do STF, Sepúlveda Pertence e entregaram o recurso. Ele deve decidir sobre a concessão da liminar até a próxima terça-feira.
O PT sustenta que o governo não poderia tratar da composição e funcionamento do CMN (Conselho Monetário Nacional) por meio de lei ordinária, mas por lei complementar, como está previsto no artigo 192 da Constituição.
Segundo os deputados, pelo menos quatro artigos da MP 1.053 violam a Constituição. O PDT já havia questionado a MP anteontem, com outra ação ao STF.
O fim da concessão de aumentos por produtividade, criticado pela oposição, está incluído no artigo 13º da MP. O dispositivo estaria desrespeitando o princípio da representação sindical, previsto no artigo 8º da Constituição.
Outro dispositivo da MP questionado é o que revoga pontos da Lei Salarial. O artigo 17º estaria ferindo o princípio do direito adquirido (artigo 5º da Constituição), ao impedir que as cláusulas dos acordos coletivos façam parte dos contratos individuais de trabalho.
Outras 14 ações diretas de inconstitucionalidade contra as medidas provisórias reeditadas pelo governo recentemente foram entregues pelo PT. Essas MPs revogaram as anteriores antes do prazo de 30 dias concedidos ao Congresso.
FSP950706-035
FSP950706-035
950706
BRASIL
'Dez dias depois do Plano Real sabia que ia ser presidente porque o povo me mostrava notas de R$ 1 com orgulho'
Do enviado especial a Caracas
``Não se pode mais aceitar bolsões de miséria nos países em desenvolvimento", afirmou ontem o presidente Fernando Henrique Cardoso, em Caracas, ao receber o título de doutor ``honoris causa" da Faculdade de Ciências Econômicas e Sociais da Universidade Central da Venezuela (UCV).
FHC foi professor do Centro de Estudos de Desenvolvimento da UCV entre 75 e 79. Falando em espanhol, ele acrescentou: ``Em muitos países, há condições de combater esses bolsões de miséria. Se não se faz, é porque há vontade de manter a desigualdade".
O presidente fez ainda uma revisão do que chamou de ``capitalismo autoritário", que teria vigorado em vários países da América Latina, reconhecendo nele virtudes históricas: ``O capitalismo autoritário, ao modernizar partes do aparelho produtivo, criava as bases para a sua superação".
Durante boa parte de seu discurso, o presidente lembrou as ``utopias" libertárias da América Latina, mas concluiu com um apelo ao realismo: ``Agora, trataremos de fazer as mudanças orientados pelas utopias possíveis".
O título foi anunciado, no ano passado, como parte do 19º Congresso da Associação Latino-Americana de Sociologia.
Depois da solenidade na UCV, FHC assistiu, como convidado do presidente venezuelano, Rafael Caldera, ao desfile militar em comemoração ao 184º aniversário da independência da Venezuela.
Durante almoço na Câmara de Comércio e Indústria Venezuelano-Brasileira, Fernando Henrique Cardoso disse que soube que seria o presidente no dia 10 de julho de 1994. Na época, ``o candidato (Lula) à Presidência tinha 40% de intenção de votos e eu 12%".
``Dez dias depois do Plano Real sabia que ia ser presidente porque o povo me mostrava notas de R$ 1 com orgulho, durante uma viagem ao interior da Bahia, dizendo que valia mais do que um dólar", disse o presidente.
``Essas pessoas nunca tinham tocado em um dólar, mas sentiam, com orgulho, em ter uma moeda que vale", afirmou FHC. ``Soberania é isso, e não slogans `abaixo não sei quem', e sim a autoconfiança na moeda nacional".
FSP950706-036
FSP950706-036
950706
BRASIL
Da Reportagem Local
A bancada federal do PSDB terá participação discreta no programa que o partido leva ao ar hoje à noite em cadeia de rádio e TV.
A Folha apurou que nenhum dos 72 deputados federais tucanos havia gravado participação no programa até ontem a tarde.
O programa foi produzido pela DM9 Institucional e pela produtora Diana, que fizeram a campanha de FHC no ano passado.
O partido pretende usar a imagem de Fernando Henrique Cardoso e as ``vitórias" do Plano Real para ampliar sua popularidade.
Além de um pronunciamento de FHC, o programa vai usar material inédito da campanha. Trata-se de um filme com imagens de pessoas refletidas em um edifício. O recurso é feito por meio de computador.
Na época da campanha, a imagem ficou de fora do programa de TV de FHC por causa das restrições do horário eleitoral.
Outro filme da campanha de FHC a ser utilizado no programa do PSDB é o que ensina a fazer um bolo gastando apenas R$ 1.
Em Brasília, o vice-líder do partido na Câmara, Arthur Virgílio Neto (AM), disse ontem que FHC vai ``jogar água na fervura" no programa de hoje.
A ``fervura" a que ele se refere é o descontentamento de alguns tucanos com as críticas de FHC à esquerda e ao próprio PSDB. ``O presidente não chamou o partido de avestruz. Quis apenas dizer que os tucanos não podem agir como tal e apoiar as reformas do governo", disse.
(Carlos Magno De Nardi e Emanuel Neri)
Colaborou a Sucursal de Brasília
FSP950706-037
FSP950706-037
950706
BRASIL
Da Sucursal do Rio e da Reportagem Local
Políticos identificados com posições conservadoras, à direita no espectro político, endossaram ontem as declarações do presidente Fernando Henrique Cardoso sobre a suposta burrice da esquerda, feitas em teleconferência promovida pelo PSDB.
Durante o evento, FHC criticou seu partido e elogiou o PFL (``só o PFL tem o direito de ser inteligente?").
O cientista político Hélio Jaguaribe, ligado ao PSDB, relativizou a crítica do presidente.
Para ele, FHC não fez uma crítica à esquerda ``em abstrato", o que, segundo o intelectual, também seria ``burrice".
Leia, abaixo, as principais opiniões colhidas pela Folha:
Delfim Netto, 67, deputado federal (PPR-SP): ``Para mim, isso (a burrice da esquerda) não é novidade".
Roberto Campos, 78, deputado federal (PPR-RJ): ``Concordo plenamente com o presidente. Há 30 anos venho dizendo que as esquerdas brasileiras são das mais burras do planeta e, quem sabe, do sistema solar. Os burros são os que não reconheceram o colapso do socialismo e não entendem que o regime mais eficaz é o capitalismo democrático. Considero o esquerdismo uma espécie de gonorréia juvenil, compreensível na puberdade, porém repreensível na maturidade, quando as lições da história revelam a superior eficácia do liberalismo".
Newton Cruz, 70, general da reserva: ``O presidente está de acordo comigo. Eu sempre achei a esquerda burra, de longa data. Ele mudou de idéia, mas a esquerda já era burra quando ele era da esquerda. O que ele diz agora, para mim, tem uma conotação mais de oportunismo, não de inteligência. O Lula defende idéias burras, mas é profundamente inteligente. O Brizola defende idéias burras. Quem admite inspirar-se nas idéias da esquerda pode ser mais convencido por Lula do que por Brizola".
Roberto Jefferson, 42, deputado federal (PTB-RJ): ``Burro é o grupo do PT mais radical, é a esquerda do PC do B, são os deputados do PSDB que votam contra o governo constantemente, fazendo o joguinho do PT no plenário. São uns dez caras, que não têm projeto nenhum. É a turma do PSTU, da CUT".
``Inteligente é o PPS. É um prazer lidar com políticos do `partidão'. São grandes, não ficam em mesquinharias delatórias, fazendo o marketing da delação no plenário."
Roberto Cardoso Alves, ex-deputado federal (PTB-SP): ``O presidente está desmanchando o que a esquerda, por burrice, fez contra o grande esforço do `Centrão' na Constituinte".
Hélio Jaguaribe, 72, sociólogo: ``O presidente foi tomado muito ao pé da letra. Ele se referia a pessoas que têm interpretação da esquerda superada, e não à esquerda de forma abstrata. Considerar burra a esquerda em abstrato seria burrice. É um ato de burrice considerar que o interesse nacional depende da propriedade pública dos meios de produção, que a preservação de formas monopolísticas de defesa sindical corresponde a posições de vanguarda. Uma pessoa inteligente de esquerda é o próprio Fernando Henrique, que representa uma esquerda moderna".
FSP950706-038
FSP950706-038
950706
BRASIL
Presidente diz que ``é possível" que país vizinho não fique sujeito aos limites de importação de automóveis
Enviado especial a Caracas
O presidente Fernando Henrique Cardoso disse ontem em Caracas que é ``possível" que o país deixe a Argentina de fora das cotas para importações de veículos.
O ministro das Relações Exteriores, Luiz Felipe Lampreia, que integra a delegação brasileira, informou que a decisão sairá de seu encontro com o chanceler argentino, Guido di Tella, nos dias 10 e 11 deste mês, em Brasília.
O presidente FHC e Lampreia estarão em Buenos Aires na sexta-feira para participar da solenidade de posse do segundo mandato do presidente Carlos Menem.
Ontem, no último dia de sua visita oficial à Venezuela, FHC admitiu excluir a Argentina das restrições às importações de veículos.
``Verificamos que o peso das importações de veículos argentinos é muito pequeno na nossa balança comercial", afirmou.
As importações brasileiras de veículos alcançaram US$ 1,8 bilhão até maio deste ano. Desse total, apenas 3,4% (US$ 63,3 milhões) são da Argentina.
FHC disse que não ter conhecimento dos detalhes das negociações ocorridas durante a reunião de Denver (EUA) sobre comércio nas Américas. O presidente afirmou, porém, que o acordo será ``bom" para o Brasil se excluir a Argentina das cotas.
O Brasil decidiu adotar o sistema de cotas de importação para veículos no início do mês passado.
Empresários
Em seu discurso durante almoço oferecido pela Câmara de Comércio e Indústria Venezuelano-Brasileira, FHC disse que o Brasil não vai fechar a economia. Ele reafirmou que as cotas de importação de veículos é um ``caso específico" para corrigir a balança comercial.
O último dia de FHC em Caracas teve uma agenda cheia. Ele participou das comemorações do 184º aniversário da Independência da Venezuela e inaugurou a exposição ``Arte Sacra Brasileira", no museu Sofia Ímber.
Pela primeira vez, presidente de um país estrangeiro, FHC, participou da festa como convidado de honra.
Balanço
Ao fazer ontem um balanço de sua visita oficial de dois dias à Venezuela, o presidente Fernando Henrique Cardoso disse, antes de embarcar, às 19h15, hora local (20h15 em Brasília) no aeroporto de Caracas com destino a Brasília, que a visita abriu perspectivas econômicas e políticas ``muito boas".
Ele destacou o acordo de cooperação entre a Petrobrás e a Petróleos de Venezuela, que permitirá a criação de uma nova empresa, ainda este ano, a ``Petroamérica".
FHC disse que a associação será ``muito proveitosa", pois permitirá que a Petrobrás e a Pdvsa se ``aventurem pelo mundo"buscando negócios em terceiros países.
Ele destacou também o projeto para a conclusão da rodovia que liga Manaus a Caracas.
A Ata de Miraflores, um dos dois documentos assinados por FHC e o presidente venezuelano Rafael Caldera, prevê a instituição de um grupo binacional de alto nível para cuidar de um acordo entre a Companhia Vale do Rio Doce e a a siderúrgica Cooperação Venezuela da Guayana para a exploração de manganês.
O desembarque do presidente em Brasília estava previsto para a 0h30 de hoje.
(Antonio Carlos Seidl)
FSP950706-039
FSP950706-039
950706
BRASIL
Senador entrega ao presidente interino relatório preliminar sobre as obras paradas por falta de recursos
Da Sucursal de Brasília
Existem no país 1.750 hospitais inacabados, que deveriam ter sido construídos pelo governo federal. Desse total, pelo menos 30 estão em São Paulo. Alguns foram iniciados há quatro anos.
O senador Carlos Wilson (PSDB-PE), presidente da comissão especial do Senado que investiga as obras iniciadas pelo governo federal e que estão inacabadas, entregou ontem ao presidente interino, Marco Maciel, relatório preliminar sobre as construções inacabadas espalhadas pelo país.
A comissão está cruzando os dados enviados por prefeituras (2.000 já mandaram), governos estaduais e ministérios.
Um dos casos levantados pelo Senado: há 13 anos, o governo federal comprometeu-se a construir uma ponte ligando os Estados de Santa Catarina (município de Campos Novos) e Rio Grande do Sul (Barracão).
Cada Estado construiu a parte de estrada que lhe cabia, e a ponte, iniciada em 93, foi abandonada por falta de recursos.
Segundo o senador, bastariam R$ 3 milhões para concluir a ponte, mas o Orçamento da União não destinou verba para a obra.
Em Pernambuco, Estado do vice-presidente, foi inaugurado em dezembro o hospital regional de Caruaru, que até hoje não começou a funcionar por falta do sistema de esgoto.
A comissão presidida por Carlos Wilson deve concluir os trabalhos em setembro, podendo haver prorrogação até outubro.
O relator é o senador Casildo Maldaner (PMDB-SC). ``O relatório deve inibir o início de novas obras", disse ele.
Segundo Maldaner, o compromisso do presidente Fernando Henrique Cardoso é não iniciar obras sem concluir as inacabadas.
FSP950706-040
FSP950706-040
950706
BRASIL
Da Sucursal de Brasília
A partir de agosto, o STF (Supremo Tribunal Federal) contará com um ombudsman que funcionará como interlocutor oficial entre a sociedade e o Judiciário.
O objetivo é debater mudanças na Justiça.
O presidente do STF, Sepúlveda Pertence, nomeará um funcionário para receber e encaminhar reclamações sobre o funcionamento do Judiciário em todo o país.
``Isso não significa que iremos resolver todas as causas levantadas, e é claro que as decisões judiciais vão ficar de fora do trabalho a ser feito pelo ombudsman, mas pelo menos a sociedade terá a quem se dirigir para reclamar", afirmou Pertence.
Segundo ele, essa é uma demonstração de que os juízes e magistrados estão dispostos a discutir a crise do Judiciário.
FSP950706-041
FSP950706-041
950706
MUNDO
Da Sucursal de Brasília
O presidente do Congresso, senador José Sarney (PMDB-AP), cobrou ontem do Planalto o reconhecimento à contribuição dada pelo Poder Legislativo à governabilidade nos seis primeiros meses do atual governo. Ele citou a aprovação das primeiras emendas da reforma constitucional.
Sarney foi recebido em audiência pelo presidente interino, Marco Maciel.
FSP950706-042
FSP950706-042
950706
MUNDO
O governador do Estado da Flórida (sul dos EUA), Lawton Chiles, 65, foi hospitalizado ontem, na capital Tallahassee, com suspeitas de derrame. Ele sofreu uma queda na irrigação de sangue no cérebro e deve ficar internado por dois dias. O governador deve continuar no cargo. Médicos nos EUA só confirmam um derrame 24 horas depois dele ocorrer.
FSP950706-043
FSP950706-043
950706
MUNDO
Dois soldados israelenses foram mortos com tiros na cabeça junto à divisa com a Cisjordânia. Os assassinos não foram identificados. Líderes palestinos e israelenses se comprometeram a assinar no dia 25 acordo para entregar a administração da Cisjordânia aos palestinos. Um bomba foi desativada em assentamento judaico da faixa de Gaza (sob controle palestino)
FSP950706-044
FSP950706-044
950706
MUNDO
O guru da seita Aum Shinrikyo (Ensinamento da Verdade), Shoko Asahara, foi acusado ontem pelo estrangulamento de um fiel. Ele já é acusado pelo atentado a gás contra o metrô de Tóquio que matou 12 pessoas e intoxicou mais de 5.000 em março. A polícia suspeita que incidentes com gases venenosos nos últimos dias estejam relacionados à Aum Shinrikyo.
FSP950706-045
FSP950706-045
950706
MUNDO
Uma ameaça de bomba obrigou um avião russo da companhia Aeroflot a fazer um pouso de emergência em Salônica, no norte da Grécia. O aparelho, um Tupolev-154 com 104 passageiros a bordo, fazia a rota entre Moscou e Atenas. Não foram achados explosivos.
Governo da Sicília prende chefe mafioso
A polícia de Catania, na Sicília (Itália), prendeu ontem o chefe da Máfia local, Antonino Navarria. Ele era procurado desde 1993, acusado por pelo menos quatro assassinatos. Navarria, 38, é considerado um dos mais violentos criminosos italianos.
O NÚMERO
700
pessoas já morreram em inundações em províncias da China, segundo o jornal oficial "Diário do Povo", na pior enchente dos últimos 40 anos no país.
Homem invade e ocupa porta-aviões
O norte- americano Jimmy Jordan se entregou ontem à polícia depois de ocupar, por 30 horas, o porta-aviões Yorktown, transformado em museu em Charleston (EUA). Jordan, armado com uma pistola, protestava contra a presença de mulheres nas Forças Armadas.
Trem descarrila e mata dois na Itália
Pelo menos duas pessoas morreram ontem devido ao descarrilamento de um trem em Domodossola, perto da fronteira entre a Itália e a Suíça. Ainda não foi definido o motivo do acidente, que deixou mais de 20 passageiros feridos, alguns gravemente.
A FRASE
"Sou sua garota. Já comprei até meu vestido de noiva e estou aqui esperando você voltar para casa"
(De uma das três mulheres que mandaram 11 cartas de amor para Timothy McVeigh, preso acusado pelo atentado que matou 168 pessoas em abril em Oklahoma City, nos EUA)
Manuel Contreras faz exames pela 5ª vez
Pela quinta vez desde que foi internado, em 13 de junho, o general Manuel Contreras saiu do hospital naval de Talcahuano para fazer exames que detectam câncer. Contreras foi condenado a sete anos de prisão pela morte do ex-chanceler socialista Orlando Letelier, nos EUA em 1976. Desde então, está internado, o que impede sua detenção.
México prende dez policiais por mortes
A Justiça mexicana prendeu ontem dez policiais acusados pelo massacre de 17 camponeses ocorrido em 28 de junho perto de Acapulco. Os mortos pertenciam a uma organização camponesa que critica a polícia.
FSP950706-046
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950706
MUNDO
GERRARD RAVEN
Da "Reuter", em Londres
As mudanças no gabinete do premiê John Major oferecem poucos consolos para seus críticos à direita do partido.
As reformas foram obra de um novo Major, que deixou de lado sua imagem de apagado, com firme atuação nos últimos dias. Mas ainda não é certo se ele silenciará os "eurocéticos".
Mesmo se conseguir, ainda terá trabalho para vencer o Partido Trabalhista nas eleições gerais.
Major não manteve no governo John Redwood, que renunciou para desafiá-lo. Promoções limitadas a outros direitistas, como a transferência de Michael Portillo do Ministério do Trabalho (extinto) para o da Defesa, foram ocultadas por vitórias da centro-esquerda.
Michael Heseltine, que seria o favorito para a liderança se Major não tivesse vencido no primeiro turno, foi nomeado vice-premiê, comandando dez comitês e com importante papel político.
Brian Mawhinney, um dos coordenadores da campanha de Major, torna-se presidente do Partido Conservador. O posto-chave de Ministro do Tesouro foi do direitista Jonathan Aitken para o moderado William Waldergrave.
Malcolm Rifkind, que como chanceler dirigirá a política frente a seus parceiros europeus, tem uma reputação pró-Europa, ainda que não como seu antecessor.
Alguns pareciam dispostos, ontem, a conceder a Major o benefício da dúvida, ao menos agora.
``Cinco boas caras novas entraram no gabinete. Elas têm diferentes visões e parecem balanceadas", disse o ex-ministro Norman Lamont, aliado de Redwood.
Outros tinham suspeitas. O deputado Bill Walker dizia: ``Se o gabinete adotar políticas que ignorem os 111 que não deram apoio a Major, acho que suas dificuldades serão ainda maiores".
FSP950706-047
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950706
MUNDO
De Londres
A Anistia Internacional divulgou ontem em Londres o relatório anual da entidade, que documenta violações aos direitos humanos em 151 países durante o ano de 1994.
O documento, de 353 páginas, dedica-se especialmente a alertar para o crescimento da violência contra mulheres e crianças.
Segundo o relatório, a violação deliberada dos direitos da mulher tem se tornado cada vez mais um componente central nas estratégias militares.
As mulheres, que têm maiores dificuldades de se mover por causa de suas famílias, seriam vítimas indefesas de atos de vingança, de acordo com o relatório.
Para a Anistia, o estupro de mulheres na Bósnia-Herzegóvina ou em Ruanda não é um acidente de percurso nas guerras que atingem esses países, mas um instrumento para difundir o terror entre as populações civis.
O relatório também afirma que 80% dos 20 milhões de refugiados hoje no mundo são mulheres e crianças. A entidade também acusa diversos governos pela violação dos direitos das mulheres.
Cita o exemplo de Aung San Suu Kyi, Prêmio Nobel da Paz de 1991, há cinco anos presa em Myanma, no sudeste da Ásia, por fazer oposição ao governo.
Finalmente, o documento afirma que a discriminação contra a mulher é algo ainda muito presente no mundo.
Segundo o Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância), mais de 1 milhão de bebês morrem ao ano por serem do sexo feminino.
No relatório, a Anistia faz um apelo para que os governos reconheçam o trabalho das organizações de defesa dos direitos das mulheres e participem da Quarta Conferência Mundial sobre a Mulher, que acontece em setembro próximo, em Pequim (China).
Segundo a Anistia, a violação aos direitos humanos no mundo está mostrando uma nova face.
Guerras civis e fim de governos têm provocado assassinatos em massa, desaparecimentos e aumento da tortura. O genocídio em Ruanda seria a confirmação mais chocante da tese.
``A Anistia Internacional documentou neste relatório uma mudança no padrão das violações aos direitos humanos", afirma Pierre Sané, secretário-geral da entidade.
``Em 1994, o que nós vimos foram maciças violações acontecendo nas ruas mais do que nas celas das prisões", completa Sané.
Além dos casos citados acima, o relatório critica especificamente o desrespeito aos direitos humanos ocorridos na Tchetchênia, na Turquia e em Israel. Também são alvo de crítica as violações contra opositores do governo na Argélia, China, Paquistão e Indonésia.
Na América, o relatório destaca as violações ocorridas em Chiapas (México), na Guatemala, na Colômbia e nos EUA.
(OD)
FSP950706-048
FSP950706-048
950706
DINHEIRO
A Fieam (Federação das Indústrias do Estado do Amazonas) acredita que a atividade das indústrias da ZFM (Zona Franca de Manaus) pode ser completamente interrompida até o mês de outubro. A causa seria o esgotamento das cotas de importação das empresas. As cotas foram fixadas em junho pelo governo federal com validade entre maio e dezembro. Segundo a Fieam, cerca de 8% das 700 empresas do distrito industrial de Manaus já estão com as cotas esgotadas.
3ª Feira de Esportes negocia US$ 400 mi
A 3ª Feira Internacional de Esportes começou ontem em São Paulo com a expectativa de gerar à indústria de materiais e equipamentos esportivos US$ 400 milhões em negócios. A feira foi aberta pelo ministro dos Esportes, Edson Arantes do Nascimento, o Pelé. Participam da feira 326 expositores.
CEF deve definir reajuste em agosto
FSP950706-049
FSP950706-049
950706
DINHEIRO
Setor emprega mais pessoas em São Paulo que em 94, mas decide enxugar folha de salários
MÁRCIA DE CHIARA
Da Reportagem Local
As demissões no comércio de São Paulo cresceram 60% no primeiro semestre deste ano em relação ao mesmo período de 94, embora o setor empregue mais funcionários que antes do Real.
De janeiro a junho deste ano, foram homologadas (confirmadas judicialmente) 26.877 demissões pelo Sindicato dos Empregados do Comércio em São Paulo. No primeiro semestre de 1994, antes do Plano Real, o sindicato registrou 16.730 homologações.
Só nos dois primeiros dias de julho, 478 comerciários perderam o emprego, segundo o sindicato. Isso representa mais do que 10% do total de 4.429 demissões ocorridas no mês passado.
Rubens Romano, presidente do sindicato dos comerciários, diz que, no início de julho, as demissões se concentram nos supermercados e nos grandes magazines.
``O Sé dispensou 20 funcionários e o Barateiro mais 13 neste início de mês", diz Romano.
Procurada pela Folha, a diretoria do Sé não foi localizada.
Segundo a diretoria de recursos humanos da rede Barateiro, esse número de demissões está dentro da rotatividade normal.
O presidente do sindicato dos empregados discorda. Para compensar o desaquecimento nas vendas a partir de maio, diz ele, os empresários estão reduzindo o número de lojas e demitindo. A tendência é piorar, prevê.
Rotatividade
Devido ao crescimento do consumo a partir do Real, o comércio ainda emprega mais pessoas do que no primeiro semestre de 94.
Pesquisa da Federação do Comércio do Estado de São Paulo (FCESP) revela que o nível de emprego no setor, de janeiro a junho, é 1% maior que no mesmo período de 94. Estimativas preliminares mostram que, em junho passado, o número de pessoas ocupadas cresceu 0,14% sobre maio.
``Esses dados devem ser interpretados de forma otimista", diz Antonio Carlos Borges, superintendente-técnico da FCESP.
Ele admite, porém, que o comércio passa agora por uma fase de ajuste por causa do desaquecimento nas vendas. ``Mas ainda não começou um período de grandes dispensas", diz Borges.
Em sua avaliação, os empresários do setor estariam substituindo os empregados que ganham mais por outros com menor salário.
``Está ocorrendo um ajuste no valor da folha de pagamento, não necessariamente no número de pessoas empregadas", explica.
O piso do comerciário por oito horas de trabalho é de R$ 238, diz o sindicato dos trabalhadores.
Rezkalla Tuma, presidente da União dos Lojistas da Rua 25 de Março, confirma que os atacadistas de tecidos começam a demitir.
``Com a queda de 30% nos negócios a partir de março, estamos dispensando funcionários e reduzindo turnos de trabalho."
A ministra Dorothéa Werneck (Indústria, Comércio e Turismo) discorda que a política econômica esteja provocando recessão. ``É uma redução nas taxas de crescimento da economia", disse ontem em Brasília. Para ela, um crescimento acelerado coloca em risco o plano de estabilização.
Colaborou a Sucursal de Brasília
FSP950706-050
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950706
DINHEIRO
RICARDO BERZOINI
Quando se fala em altas taxas de juros, poucos se lembram de quem fica do outro lado do balcão dos bancos. É ali, na fria realidade dos números, o final da linha de um drama que hoje atinge a todos _de grandes clientes, a humildes funcionários dos bancos, obrigados a conviver diariamente com o fantasma da inadimplência.
Por isso, nestas últimas semanas, nosso sindicato tem sido cada vez mais procurado por trabalhadores da categoria dos bancários alarmados com os atuais níveis das taxas de juros.
Não bastassem seus problemas pessoais em meio à luta pela sobrevivência, nossos colegas bancários são obrigados a conviver com a desgastante rotina de, ao fornecer os extratos aos devedores, escutar os protestos raivosos dos clientes, sem condições de atender aos indignados pedidos de socorro feitos por pais de família ou pequenos empresários, que acreditaram na estabilidade econômica e se endividaram. Os devedores estão sendo esmagados por estas taxas de juros irresponsáveis ou ``escorchantes", como bem definiu ainda outro dia o próprio presidente Fernando Henrique Cardoso.
Para se ter uma idéia do tamanho do buraco, basta dizer que, só na cidade de São Paulo, são 850.397 os clientes inadimplentes em cinco meses do novo governo. De abril do ano passado, na fase pré-Real, para abril de 1995, o número de cheques sem fundos cresceu 259% em volume.
Muitas vezes, são cheques de clientes antigos, velhos conhecidos de quem trabalha do outro lado do balcão e que estão vendo o esforço de toda uma vida ir pelo ralo levado por uma dívida simplesmente impagável.
Num país que discute para o mês que vem a desindexação dos salários, como é possível conviver com taxas de juros dos cheques especiais que já bateram nos 15% ao mês? Para um sindicato corporativista, até que não seria nada mal: quanto maiores os juros, afinal, maiores as margens de lucro dos banqueiros e, portanto, maior seria a capacidade de negociação do sindicato. O silêncio talvez fosse o melhor caminho, segundo os velhos manuais do corporativismo, em que cada parte só defende os seus interesses e o conjunto da sociedade sofre as consequências, como já vimos tantas vezes em nosso país.
Acontece que, antes de sermos bancários, somos todos cidadãos, ao mesmo tempo agentes e vítimas dos destinos nacionais. Se é verdade que o sindicato deve, em primeiro lugar, lutar pelos interesses da categoria, não é menos verdade que nós, bancários, somos também produtores, consumidores e, acima de tudo, cidadãos que sofrem os mesmos problemas dos nossos clientes. A maior parte dos nossos colegas também entrou no cheque especial e não são poucos os que estão desesperados e ameaçados de perder seus empregos por não poder saldar a dívida com o banco onde trabalham.
Só nos últimos dois meses, os jornais registraram que oito colegas nossos foram levados ao gesto extremo do suicídio por não terem condições de saldar seus compromissos. Ainda no último final de semana, os mesmos jornais que chamam de ``marajás" nossos companheiros dos bancos estatais, divulgaram um dado alarmante: no Banespa, o endividamento dos funcionários que entraram nos cheques especiais já corresponde à metade da folha de pagamentos.
O país precisa se conscientizar que uma retomada articulada e consistente dos investimentos exige o financiamento público. Alavancar investimentos em infra-estrutura, que o próprio programa de governo de FHC estima em R$ 100 bilhões, exige a reorganização dos bancos públicos. BNDES, Banco do Brasil, CEF e os bancos estaduais precisam ser reestruturados, democratizados e orientados para o crédito social e produtivo. Neste sentido, urge que o país mude a agenda de debates e discuta uma estratégia de investimento e financiamento da produção, incluindo propostas de tributação do consumo de luxo para constituir um novo Fundo de Desenvolvimento.
Os bancários querem participar deste debate, começando pela retomada da proposta de criação de uma câmara setorial do sistema financeiro, envolvendo a Fenaban, o governo e os trabalhadores. A Confederação Nacional dos Bancários chegou a discutir esta proposta com Fernando Henrique Cardoso, então ministro da Fazenda, em setembro de 1993, com o objetivo de promover um amplo debate sobre a reforma do sistema financeiro. Da mesma forma, estamos empenhados em reativar a comissão formada no Congresso Nacional para tratar da regulamentação do Artigo 192 da Constituição Federal, que trata exatamente desta questão.
Nós, bancários, continuaremos lutando por melhores salários _que, por sinal, são miseravelmente baixos frente às espetaculares margens de lucro dos bancos. Mas não trocaremos aumento nos salários pelo silêncio diante da situação econômica do país. Ao lutar pela redução imediata das taxas de juros, estamos dispostos a contribuir para viabilizar uma nova política econômica, que respeite os clientes dos bancos e reconstitua as condições de desenvolvimento com distribuição de renda, riqueza e poder. Os interesses gerais da sociedade devem estar combinados às reivindicações setoriais no momento em que o que está em jogo é o resgate da cidadania, a estabilidade econômica com distribuição de renda e a consolidação da democracia em nosso país.
RICARDO BERZOINI, 34, é presidente do Sindicato dos Bancários de São Paulo. Foi presidente da Confederação Nacional dos Bancários (1989-91 e 1992-93).
FSP950706-051
FSP950706-051
950706
DINHEIRO
O custo médio da cesta básica teve queda de 0,12% ontem na cidade de São Paulo. A compra dos 31 produtos que formam a cesta, passou a custar R$ 101,43. Na segunda e terça-feira, o preço ficou estável em R$ 101,55. Os dados são da pesquisa feita pelo Procon em convênio com o Dieese.
Os produtos de higiene pessoal recuaram 0,60% no dia, os de limpeza, 0,39%. Os alimentos, grupo mais importante da cesta, ficaram estáveis. No acumulado do mês até ontem, a cesta básica tem alta de 0,42%. Desde o início do Plano Real, em julho de 94, até ontem, o custo médio recuou 4,67%.
FSP950706-052
FSP950706-052
950706
DINHEIRO
A produção nacional de petróleo em maio, foi de 310 mil barris por dia. Comparada com a do mês anterior, registra queda de 57,71%. Em relação a igual período do ano passado recuou 56,18%. A greve dos petroleiros, que durou 30 dias, foi o motivo para a grande queda na produção. A produção de gás natural no mês foi de 15 milhões de barris por dia e recuou 31,82%, segundo a Petrobrás.
FSP950706-053
FSP950706-053
950706
DINHEIRO
O número de consultas sobre crédito, realizadas por empresas no banco de dados do SCI (Serviço de Segurança ao Crédito e Informações), atingiu 476,9 mil em junho. Na comparação com as 492,4 mil consultas do mês anterior, houve recuo de 3,1%. No semestre, o total acumulado de solicitações é de 2,17 milhões, com aumento de 39,1% sobre igual período do ano passado.
FSP950706-054
FSP950706-054
950706
DINHEIRO
CLÓVIS ROSSI
Enviado especial a Buenos Aires
O relatório semestral das Nações Unidas sobre a economia mundial prevê crescimento zero para a Argentina este ano, em desmentido direto às previsões do governo local.
O ministro da Economia, Domingo Cavallo, garante que a Argentina crescerá cerca de 3% em 1995, um número ainda bastante razoável, embora inferior à metade dos 7% registrados em 94.
No âmbito empresarial, a previsão é ainda mais pessimista. ``Avaliamos que o crescimento ou vai ser zero ou menos 1%", diz Dickson Tangerino, coordenador-geral do Grupo Brasil, que congrega cerca de 120 empresas brasileiras instaladas na Argentina.
Esse poderá ser o primeiro retrocesso na economia desde o lançamento do Plano Cavallo.
De 91 a 94, a Argentina cresceu expressivos 34% e manteve a inflação sob absoluto controle. Nos seis primeiros meses de 95, os preços subiram apenas 1,1%, índice de país desenvolvido.
Crescimento e inflação baixa ajudaram a reeleger o presidente Carlos Menem, em maio passado, para um segundo mandato que se inaugura sábado e vai até 99.
Mas a posse do presidente será turvada pelos amplos sinais de desaquecimento econômico. O governo admite: ``Houve uma clara diminuição no consumo de alguns itens", diz Juan Llach, secretário de Programação Econômica.
Llach nega a recessão, acenando com o fato de que o consumo de energia elétrica cresceu 4.5% no 2º trimestre do ano em comparação com o mesmo período de 94.
Se indústria e comércio estão consumindo mais energia é porque não há uma queda de atividade tão generalizada. Estudos da respeitada Fiel (Fundação de Investigações Econômicas Latino-Americanas) dão razão a Llach.
A recessão está no consumo interno mas há uma expansão dos setores que trabalham também para a exportação.
O desemprego também está aumentando. No domingo, o matutino ``Clarín" vazou uma antecipação da nova estatística oficial, a sair este mês.
Aponta um aumento do desemprego para entre 13,8% e 14,2%, portanto um novo recorde.
FSP950706-055
FSP950706-055
950706
DINHEIRO
Das agências internacionais
Os investimentos dos Estados Unidos na América Latina continuaram crescendo depois da interrupção ocasionada pela crise cambial no México e suas repercussões financeiras no Brasil e Argentina, afirmaram funcionários norte-americanos.
De acordo com estimativas do Fundo Monetário Internacional (FMI), os investimentos externos na América Latina, durante 1994, foram da ordem de US$ 29 bilhões.
No primeiro trimestre de 1995, os investimentos no Brasil aumentaram 8%. Nos primeiros meses do ano, os investimentos no México, que haviam desabado durante a crise monetária, foram maiores se comparados ao mesmo período de 1994.
Segundo o estudo do FMI, embora a capacidade dos bancos para reduzir os riscos financeiros continue limitada, é possível inibir a possibilidade de novas crises monetárias, por meio de normas que limitem as perturbações decorrentes das variações das taxas de juros, do câmbio e do mercado de ações.
Para a Comissão Econômica para América Latina (CEPAL), entre os fatores que explicam a transferência de capitais para a região figura a recessão econômica nos países ricos.
FSP950706-056
FSP950706-056
950706
DINHEIRO
Das agências internacionais
O acordo que estabelecerá uma zona de livre comércio entre a União Européia (UE) e o Mercado Comum do Sul (Mercosul) poderá ser assinado em meados de dezembro, com a presença dos governantes dos dois blocos.
A informação é do embaixador espanhol em brasília, Carlos Blasco Villa.
A primeira rodada de negociações oficiais começará dia 14 de setembro em Bruxelas e continuará no dia 29 do mesmo mês em Montevidéu, afirmou o embaixador.
A intenção é de que o acordo seja assinado durante o Conselho Europeu de Madri, que acontecerá no final do período de seis meses em que a Espanha ocupa a presidência rotativa da UE.
Chile
Negociadores dos países do Mercosul e do Chile vão se reunir nas próximas semanas para trocar listas de exceção, em um novo passo em direção à incorporação do país ao bloco, afirmou o diretor de Relações Econômicas Internacionais do Chile, Carlos Mladinic.
O encontro deve se realizar ainda no mês de julho.
As listas de exceção vão incluir os produtos que não participam da redução de tarifas alfandegárias, pressuposto da futura associação.
FSP950706-057
FSP950706-057
950706
DINHEIRO
A nova política salarial contém um erro básico. Mas foi cometido há dois anos, quando o então ministro Walter Barelli limitou-se a um circuito infindável de seminários e nenhuma proposta objetiva de livre negociação.
Na época, a coluna cansou de alertar que o início do processo seria fundamental para qualquer plano de estabilização futuro.
Como livre negociação é, acima de tudo, um processo cultural, vai-se pagar agora o processo de aprendizado.
No curto prazo, haverá confusão na área. Desarma-se o modelo convencional no momento em que a economia ingressa em um processo recessivo desorganizado. Vai ser um fator a mais a reduzir o nível de salário real da economia. Mas também será um instrumento útil para minimizar os efeitos da recessão sobre emprego.
No médio prazo, vai-se ter finalmente a ruptura final no velho modelo getulista. Todo esse sistema, com centrais sindicais de trabalhadores e patrões, Ministério do Trabalho e Justiça Trabalhista, repousava em duas pernas. A primeira, na canalização das demandas privadas (empresas e trabalhadores) para uma burocracia sindical que pasteurizasse e mantivesse sob controle (no sentido de impedir soluções descentralizadas, fora do controle do centro).
A segunda, na noção do conflito permanente, que era a maneira dessas burocracias perpetuarem seu poder sobre as bases.
Ao introduzir a idéia da livre negociação, rompe-se definitivamente com esse modelo. O efeito será semelhante ao que ocorreu com o federalismo brasileiro, após a descentralização de verbas promovida pela Constituição de 1988.
Na etapa do aprendizado, haverá confusão, exageros. Depois, rapidamente (muito mais rapidamente do que no setor público) aparecerão as soluções criativas, negociadas no âmbito de empresas ou setores, que, pelo chamado efeito-demonstração, implantarão a nova cultura nas relações trabalhistas nacionais.
Há muito que caminhar. A maior parte dos empresários ainda dispõe de uma visão retrógrada das relações de trabalho. A maior parte dos trabalhadores ou esposa a antiga visão do conflito, ou a submissão aos desígnios de Deus.
Ocorre que a livre negociação trabalhista é peça essencial dos modernos modelos de gestão, baseados na busca de produtividade e na gestão participativa. E já existem dezenas de exemplos bem-sucedidos de parceria capital-trabalho na economia, estimulando e orientando novas experiências.
Ao contrário de outros tempos, os direitos trabalhistas se imporão rapidamente, porque a parte moderna da economia já se deu conta que, sem a adesão espontânea do trabalhador, não haverá programa de produtividade que se perpetue. E os trabalhadores modernos já se convenceram que, sem pactos em torno de resultados, não haverá demandas salariais que se sustentem.
A proposta não tem o ``appeal" de medidas monetárias e cambiais. Mas significa o maior avanço do Plano Real naquilo que conta efetivamente _o mundo real. E integra o ministro Paulo Paiva no seleto time dos ministros com compromissos com transformações.
Produtividade
Formou-se confusão desnecessária em relação aos aumentos a títulos de produtividade. Nem é do espírito da lei, nem o governo pode interferir na livre negociação entre empresas e trabalhadores. A medida provisória visou unicamente impedir que a Justiça do Trabalho continue proferindo sentenças onde se concedem aumentos a título de produtividade _algumas vezes, até para estatais deficitárias.
Petroquímica
Há temores na praça de que, no processo de reestruturação do Banco Econômico, a Odebrecht acabe adquirindo todas suas participações no pólo petroquímico da Bahia, assumindo de fato o controle da Copene _a central de matérias primas do pólo.
FSP950706-058
FSP950706-058
950706
DINHEIRO
Governo permite emissão de CDBs com prazo de quatro meses e remunerados pela Taxa Básica Financeira
Da Redação
O mercado cambial levou um susto ontem, pois o Banco Central reajustou o câmbio em 0,5%.
O BC (Banco Central) vinha mantendo o dólar no patamar de R$ 0,918 para compra e R$ 0,920 para venda desde 22 de junho.
Ontem, as cotações para venda saltaram de R$ 0,919 no dia anterior para R$ 0,924, o que significou um reajuste de 0,5%.
Os bancos adquiriram cerca de US$ 4 bilhões nas três primeiras semanas do mês passado com a expectativa de que o BC acelerasse a desvalorização do real.
Como o Banco Central não permitiu que houvesse a valorização do dólar, os bancos passaram a vender no mercado a moeda norte-americana. O estoque de dólares nos bancos está agora entre US$ 500 milhões e US$ 700 milhões, segundo estimativas do mercado.
Os bancos que retiveram dólar nos últimos 12 dias deixaram de ganhar 2% em aplicações de renda fixa no período.
O Banco Central demonstrou total controle do mercado. A instituição financeira que comprou dólar a R$ 0,919 no dia 22 de junho teve que vender ao BC também a R$ 0,919 no dia 4 passado, perdendo a oportunidade de receber os juros de aplicações financeiras em reais no período.
``Quem especulou com compra de dólar bateu a cabeça", diz Ulysses Martins Ferreira Junior, diretor do Banco Patente.
O Banco Central já constatou que houve redução no estoque especulativo da moeda norte-americana nos bancos e decidiu ontem em cinco leilões do dólar comercial e dois no flutuante (turismo) elevar as cotações em 0,5%.
A partir de hoje, os bancos poderão usar a TBF (Taxa Básica Financeira) no prazo mínimo de quatro meses, para remunerar os Certificados ou Recibos de Depósito Bancário (CDBs ou RDBs), corrigir contratos de leasing (arrendamento) ou renegociar dívidas.
(Rodney Vergili)
JUROS
Curto prazo
Os cinco maiores fundões renderam, em média, 0,146%. Segundo a Andima, a taxa do over ficou, em média, em 5,65% para dias úteis, projetando rendimento de 4,03% no mês. No mercado de Certificados de Depósito Interbancário (CDIs), as taxas de juros ficaram, em média, a 5,68% ao mês, com rendimento de 4,05% no mês.
As cadernetas que vencem dia 6 rendem 3,4472%. CDBs prefixados de 30 dias negociados ontem: entre 37% e 63,2% ao ano. CDBs pós-fixados para 153 dias entre 15% e 17% ao ano mais TR.
Empréstimos
Empréstimos por um dia (``hot money") contratados ontem: a taxa média foi de 6,45% ao mês, projetando rentabilidade de 4,62% no mês. Para 30 dias (capital de giro): entre 67% e 136% ao ano.
No exterior
Prime rate: 9% ao ano. Libor: 5,88% ao ano
AÇÕES
Bolsas
São Paulo: alta de 1,83%, fechando com 37.003 pontos e volume financeiro de R$ 252,4 milhões. Rio: valorização de 1,2%, encerrando a 17.022 pontos e movimentando R$ 15,53 milhões.
Bolsas no exterior
Em Londres, o índice Financial Times fechou com 2.545,40 pontos. Em Tóquio, o índice Nikkei fechou com 14.830,44 pontos ontem.
DÓLAR E OURO
Dólar comercial (exportações e importações): R$ 0,923 (compra) e R$ 0,924 (venda). Segundo o Banco Central, no dia anterior, o dólar comercial foi negociado, em média, por R$ 0,918 (compra) e por R$ 0,920 (venda). ``Black": R$ 0,915 (compra) e R$ 0,925 (venda). ``Black" cabo: R$ 0,920 (compra) e R$ 0,925 (venda). Dólar-turismo: R$ 0,900 (compra) e R$ 0,930 (venda), segundo o Banco do Brasil.
Ouro: alta de 0,18%, fechando a R$ 11,37 o grama na BM&F.
Câmbio contratado
O saldo de fechamento de câmbio comercial (exportação menos importação) acumulado no mês até o dia 4 julho foi positivo em US$ 263,28 milhões. As entradas financeiras foram maiores que as saídas de dólares em US$ 19,53 milhões. O saldo total está positivo em US$ 282,81 milhões.
No exterior
Segundo a ``UPI", em Londres, a libra foi cotada a 1,5930 dólar. Em Frankfurt, o dólar foi cotado a 1,3825 marco alemão. Em Tóquio, o dólar foi cotado a 84,90 ienes.
FUTUROS
No mercado de DI (Depósito Interfinanceiro) da BM&F, a projeção de juros para julho fechou a 4,02% no mês e para agosto a 3,93% no mês. No mercado futuro do índice Bovespa, a cotação para agosto ficou a 38.400 pontos. No mercado futuro de dólar, a moeda norte-americana para julho fechou a R$ 0,942 e a R$ 0,962 para agosto.
FSP950706-059
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950706
DINHEIRO
Presidente da Febraban diz que isso acontece ``no mundo inteiro"; empresas aumentam ganho operacional
Da Reportagem Local
Você compra um eletrodoméstico sem olhar o balanço da empresa que o fabricou, mas não coloca o dinheiro em um banco sem saber a saúde da instituição.
A afirmação é do presidente da Febraban (Federação Brasileira das Associações de Bancos), Maurício Schulman, para justificar o fato de a rentabilidade dos bancos superar a da indústria. ``É assim no mundo inteiro", completa.
Segundo pesquisa da consultoria Austin Asis, a rentabilidade (retorno sobre o patrimônio) de bancos chegou a 33,87% contra 8,8% da indústria no ano passado. Mesmo com a queda da inflação, a rentabilidade dos bancos cresceu.
O levantamento levou em consideração os balanços anuais de sete bancos e de sete empresas.
Todos os bancos listados fazem parte do grupo de instituições de negócios. Têm estrutura enxuta e giram grandes quantias.
``Essa mostra de bancos não expressa a realidade do conjunto do sistema", reclama Schulman, que completa: ``Os bancos de varejo mostram uma rentabilidade de 10% a 13%."
Nesse caso, a diferença de performance ficaria menor, mas não deixaria de existir.
Schulman considera essa diferença (de aproximadamente quatro pontos percentuais ou 25%) mais compatível com o que acontece em todo o mundo. Os bancos, argumenta o presidente da Febraban, utilizam menos as ``oportunidades fiscais" para esconder o lucro.
Já o presidente da Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo), Carlos Eduardo Moreira Ferreira, tem outra explicação para o fato. O culpado nem seria propriamente os bancos, mas o governo.
``Pelo próprio papel desempenhado pelos bancos em função dos desajustes do setor público, que é de transferir a poupança do setor privado para financiar o déficit público. Com isso, o banco tem um demandante cativo, que é o governo", afirma.
Celso Hahne, da Abiplast (que reúne os fabricantes de plásticos), é mais enfático: ``O governo não arrumou a casa dele. Continua deficitário e pagando juros altos."
``Os bancos e os rentistas (grandes aplicadores) são os sócios do déficit público", completa Adauto Ponte, da Abifa (Associação Brasileira da Indústria de Fundição).
Indagado se a indústria também não era rentista, Ponte afirma que ``parte da indústria também lucrava com o déficit público, mas a maior porção, que necessita de capital de giro, fica em uma situação delicada".
Outro dado do levantamento da Austin Asis é relevante. Comparando o ganho operacional (receita de vendas descontado o custo para produzir o bem ou o serviço) de bancos e da indústria, a diferença se estreita bastante. No ano passado, os bancos obtiveram 12,53% e as empresas, 11,4%.
Mário Alberto Coelho, da Austin Asis, diz que é preciso ter cautela na comparação. ``O custo para a produção de uma empresa e de um banco são completamente diferentes. O custo de uma empresa normalmente é mais elevado."
FSP950706-060
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950706
DINHEIRO
Da Reportagem Local
Sérgio Magalhães, da Abimaq (que reúne os fabricantes de máquinas), acredita que os bancos são mais rentáveis porque ``a política do governo é favorável aos bancos".
Ele cita dois dados para listar as distorções provocadas na economia: 1) a participação dos bancos no PIB (Produto Interno Bruto, a soma de todas as riquezas que o país produz) brasileiro é de 12%, enquanto em países de Primeiro Mundo fica ao redor de 7%; 2) banco, no Brasil, só serve para depositar dinheiro; quem pega emprestado, quebra.
A Febraban contesta as afirmações. Segundo a entidade, em 1989 os bancos representavam 24% do PIB. Os 12% atuais mostram que a participação foi reduzida pela metade.
Nos últimos cinco anos, o número de bancários caiu de 850 mil para 640 mil. No mesmo período, como fim das cartas-patentes (que limitavam a possibilidade de se formarem bancos no país), o número de instituições mais que dobrou: passando de 110 para 240.
Esse fato, segundo Maurício Schulman, nega uma das afirmações de Carlos Eduardo Moreira Ferreira, de que uma das razões para a rentabilidade dos bancos era a falta de competição. ``Não existe atividade mais competitiva", afirma, para depois acrescentar: ``Os dirigentes nos tratamos de forma cordial. Mas entre os gerentes, a briga é muito grande pelos clientes."
Schulman diz ainda que não é verdade que os bancos ganham dinheiro com o juro alto. ``A taxa de juros é alta por causa da cunha fiscal (dos impostos e compulsórios). O inimigo é o governo, não os bancos".
O estudo da Austin Asis diz que a boa rentabilidade dos bancos foi garantida com a cobrança de tarifas e com o ganho propiciado pela diferença entre o juro pago ao investidor e cobrado do tomador de crédito.
FSP950706-061
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950706
DINHEIRO
Prefeitura de Resende e montadora finalizam preparativos para a assinatura do contrato, marcado para quarta-feira
FERNANDO PAULINO NETO
Da Sucursal do Rio
A Volkswagen e a Prefeitura de Resende (RJ) finalizaram ontem os preparativos para a assinatura dos contratos sobre a nova fábrica de caminhões da empresa no país.
O anúncio oficial da escolha da cidade como sede da fábrica deve ser feito na quarta-feira, em uma festa no pavilhão municipal de exposições, com 20 mil metros quadrados de área coberta.
Estarão presentes o vice-presidente mundial da Volks, José Ignacio López de Arriortúa, o presidente da subsidiária brasileira, Pierre-Alain de Smedt, o governador do Estado, Marcello Alencar, e o secretário estadual de Indústria, Comércio e Turismo, Ronaldo Cezar Coelho.
Uma delegação da Volks examinou uma série de documentos de empresas de Resende (161 km ao sul do Rio) que estão envolvidas com o projeto.
O prefeito de Resende, Augusto Leivas (PDT), recebeu ontem representantes da Volks para assinar procurações para facilitar a formalização dos contratos para a construção da fábrica de caminhões da indústria alemã.
Leivas disse que as procurações são de presidentes de empresas municipais e de secretários municipais passando ao prefeito autorização para assinar todos os contratos com a Volks.
O objetivo é que, na assinatura do contrato, somente o prefeito e o governador do Estado estejam entre as partes do documento, para agilizar o processo de implantação da empresa.
Os representantes da Volks estiveram anteontem com o secretário estadual de Fazenda, Edgar Rocha, acertando detalhes para a assinatura do contrato.
O diretor da divisão de ônibus e caminhões da Volkswagen, José Francisco Azank, esteve ontem em Angra dos Reis, no litoral sul do Rio, escolhendo terrenos para a instalação de um centro de treinamento de 40 mil metros quadrados no município.
Segundo Rogério Riscado, subchefe de gabinete da Prefeitura, que acompanhou Azank e o presidente da Codin (Companhia de Desenvolvimento Industrial) do Rio, Marco Antônio Albuquerque de Araújo Lima, a Prefeitura de Angra também ofereceu o porto da cidade como alternativa ao porto de Sepetiba, zona oeste do Rio.
O porto de Sepetiba foi considerado pelo governo do Estado e pela Firjan (Federação das Indústrias do Rio de Janeiro) o ponto decisivo para a provável escolha da fábrica no Rio.
Em Angra, o porto tem águas de 20 metros de profundidade e já foi via para exportação de automóveis da Fiat, segundo informou Riscado.
Sepetiba tem 13 metros e pode ir a 18 metros, depois de obras de dragagem.
Em reunião anterior, Leivas perguntou aos representantes da Volks se estavam tendo o mesmo procedimento com o município de São Carlos (SP), que disputa a localização da fábrica com Resende.
Ele diz ter ouvido da Volks que estavam fazendo o mesmo procedimento, mas ``em menor profundidade".
FSP950706-062
FSP950706-062
950706
DINHEIRO
ELVIRA LOBATO
Da Reportagem Local
O governo autorizou a Telesp (Telecomunicações de São Paulo) a encomendar mais 475 mil telefones celulares para o Estado de São Paulo, dos quais 150 mil serão destinados à capital.
Os contratos, com valor total aproximado de US$ 600 milhões, serão assinados com a NEC, AT&T e Motorola. Só o contrato da NEC, que abrange a Grande São Paulo, Campinas, São José dos Campos e litoral do Estado, é de cerca de US$ 480 milhões.
As novas encomendas não são suficientes para eliminar a fila de espera pelo telefone celular existente no Estado. Segundo a Telesp, existem 800 mil inscritos e o número só não é maior porque as inscrições estão suspensas desde novembro do ano passado.
A fila de espera na capital paulista atinge 600 mil pessoas, ou seja, é quase três vezes maior do que o número de celulares em funcionamento: 220 mil.
Pelos dados da Telesp, só um quarto dos que estão na fila na capital (150 mil pessoas) poderão ser atendidas ainda neste ano. Do total, 80 mil serão atendidos com equipamentos encomendados no ano passado.
Pelos novos contratos, 80 mil telefones irão para Campinas; Santos receberá 50 mil, e as regiões de São José dos Campos, Bauru e Araraquara/São José do Rio Preto receberão, cada uma, 40 mil unidades.
Os contratos prevêem ainda instalação de antenas retransmissoras ao longo das rodovias Fernão Dias, Anhanguera, Washington Luis, Castelo Branco, Marechal Rondon, Raposo Tavares e Régis Bittencourt e na Via Dutra.
Sem concorrência
A Telesp não fará concorrência para comprar os equipamentos. Na avaliação da estatal, endossada pela Telebrás, as licitações feitas em 1991 e 1992 dão amparo legal para a assinatura dos novos contratos.
O secretário executivo do Ministério das Comunicações, Fernando Xavier, disse à Folha que não terá efeito prático a sentença da Justiça Federal de São Paulo que cassou a liminar contra a abertura de concorrência para telefonia celular privada em São Paulo.
A liminar foi cassada pela 13ª Vara Federal em São Paulo. Segundo o secretário, o assunto será resolvido pelo Congresso Nacional, com a quebra do monopólio estatal das telecomunicações, antes que a ação chegue ao Supremo Tribunal Federal, a instância máxima da Justiça.
FSP950706-063
FSP950706-063
950706
COTIDIANO
Da Sucursal de Brasília
Os proprietários de padarias e supermercados serão convocados pela Secretaria de Acompanhamento Econômico do Ministério da Fazenda para apresentarem suas planilhas de custos e comprovarem a necessidade de aumentos no início de julho. Em caso de abuso podem ser abertos processo administrativos.
Dallari também recebeu ontem donos de postos de combustíveis que reivindicam reajuste. Dallari, por meio da assessoria de imprensa descartou qualquer aumentos.
FSP950706-064
FSP950706-064
950706
COTIDIANO
O ministro da Ciência e Tecnologia, José Israel Vargas (foto), e a governadora do Maranhão, Roseana Sarney, devem participar no próximo domingo, em São Luís (MA), da abertura oficial da 47ª Reunião Anual da SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência). A reunião já conta com 1.500 trabalhos científicos inscritos.
Funcionária do Senado acusa chefe de assédio
A agente de segurança Jussanan Portela dos Santos, 35, denunciou à polícia o chefe do Serviço de Segurança do Senado, Francisco Pereira da Silva, 57, o "Índio, por assédio sexual. Jussanan já havia feito a denúncia ao Senado, em 94. Índio afirmou que são ``mentirosas" as acusações de Jussanan, que foi sua secretária entre 93 e 94.
Mulher é suspeita de matar família no RS
A polícia de Pelotas (RS) suspeita que Vera Lúcia Barcelos da Silveira, 27, tenha envenenado o marido e os três filhos e depois se suicidado. A família foi encontrada morta em casa, anteontem. Um exame médico indicou que Vera morreu bem depois do seu marido, Cláudio da Silva Ribeiro, 28, e dos filhos Glauco, 7, Saimon, 4, e Alisson, 2. O motivo do crime ainda é desconhecido.
Soldados são acusados de latrocínio em SP
A Justiça decretou ontem a prisão temporária dos soldados Tiago Tharley Martins Pereira, 19, e Amaury _única identificação fornecida_, do Comando de Aviação do Exército, de Taubaté (SP), acusados de latrocínio (roubo seguido de morte). Os soldados teriam matado Pedro Moreira Neto, 32, com cinco tiros, e depois teriam tentado vender o carro da vítima.
Bebê causa disputa entre presas e Justiça
Um bebê de 37 dias virou motivo de disputa entre a Justiça e as detentas do Presídio Feminino de Florianópolis (SC). A Justiça determinou a transferência da criança do presídio, impedida por 41 detentas e pela mãe, Luciana da Rosa, 23, que cumpre pena de três anos por tráfico. Elas teriam se apegado muito a Ben-Hur, que ganhou o nome em função do filme estrelado por Charlton Heston, em 59.
FSP950706-065
FSP950706-065
950706
COTIDIANO
ROBERTO SAMORA
Da Agência Folha
Especialistas do Instituto Evandro Chagas, de Belém (PA), identificaram o vírus que provocou a morte do oficial do Exército Alberto da Silva Guimarães, no dia 29 de maio. É o adenovírus.
O vírus não provoca febre hemorrágica, como se suspeitava. Guimarães e mais dois outros militares infectados pelo vírus participaram do Cigs (Curso de Instrução e Guerra na Selva), do CMA (Comando Militar da Amazônia), na selva amazônica.
Médicos do Hospital Emílio Ribas de São Paulo, que trataram dos outros dois militares infectados, suspeitavam que se tratasse de um vírus de classificação semelhante à do Ébola, que matou centenas de pessoas no Zaire (África).
``Talvez essa seja a primeira vez que o adenovírus é identificado no Brasil", disse Pedro Vasconcelos, 38, infectologista do Instituto Evandro Chagas.
Vasconcelos afirmou que o adenovírus é transmitido por vias respiratórias e que ele provoca um quadro gripal, problemas respiratórios e conjuntivite.
Algumas amostras do adenovírus foram enviadas para o laboratório das Forças Armadas dos EUA e também para o centro de controle de doença dos EUA.
O Instituto Evandro Chagas, que fotografou e identificou o vírus, não tem os equipamentos adequados para identificar qual é a variedade de adenovírus (existem mais de 43).
O oficial Genaro Machado Berkenkamp, internado no Emílio Ribas sob suspeita de estar contaminado com o mesmo vírus que matou Alberto da Silva, já saiu da UTI (Unidade de Terapia Intensiva). Berkenkamp não corre mais risco de vida e deve ser transferido para o Hospital Geral do Exército de São Paulo.
O outro militar, Marcos Vinícios Guimarães, está no Hospital do Exército de São Paulo. Ele também não corre risco e já consegue andar.
FSP950706-066
FSP950706-066
950706
COTIDIANO
RITA FERNANDES
Da Sucursal do Rio
O prefeito do Rio, César Maia (PFL), enviou ontem à Câmara Municipal mensagem propondo o toque de recolher para menores de 13 anos, no período de 0h às 4h.
Segundo o projeto, menores de 13 anos que estejam nas ruas nesse horário, desacompanhados de seus responsáveis, serão recolhidos e encaminhados ao Juizado da Infância e Adolescência, que tomará as ``devidas providências".
O projeto só começa a ser discutido pelos vereadores em agosto, quando termina o recesso da Câmara. Antes mesmo da votação, a mensagem terá que passar por algumas comissões, como a de Redação e Justiça, que determinará a constitucionalidade da medida.
O vereador Mauricio Azedo (PDT-RJ) vê o projeto como ``uma medida revestida de caráter policialesco". ``O prefeito quer transformar a cidade num campo de concentração. Não se pode cercear o direito de ir e vir, que é um direito constitucional", afirma.
Segundo César Maia, a idéia, que considera polêmica, foi submetida a estudos por sua assessoria jurídica. O assessor-chefe da prefeitura, Dennis Barbosa, considerou o projeto constitucional.
O principal argumento do prefeito é proteger crianças e adolescentes da violência, principalmente os menores de rua.
Ivone Bezerra de Mello, 48, presidente Centro Brasileiro de Defesa da Criança e do Adolescência, disse que o projeto só é válido se a prefeitura criar infra-estrutura suficiente, como abrigos e pessoal especializado para trabalhar com as crianças.
No dia 30 de junho, a prefeitura recolheu, com a ajuda da Polícia Militar, 120 menores. Eles passaram a noite no 6º BPM (Batalhão de Polícia Militar) e no dia seguinte foram devolvidos às ruas.
Mirian Friedman, 41, artista plástica e mãe de Sol, 16, e de Pablo, 11, acha que os pais é que devem cuidar da educação de seus filhos. ``Quem é o prefeito para nos ensinar como educar nossos filhos? Ao contrário de fazer leis para dirigir a vida das pessoas, ele deveria cuidar mais de tirar os bandidos das ruas", afirma.
FSP950706-067
FSP950706-067
950706
COTIDIANO
Da Agência Folha
O delegado seccional de Botucatu (SP), Caiubi Gomes, instituiu norma que obriga quem quiser obter ou renovar porte de arma a se submeter a exame psicológico.
Segundo a psicóloga Neide Escolatricci, o exame analisa o controle emocional, agressividade, impulsividade e o autocontrole dos candidatos. O delegado-assistente Marcelo Lanhoso de Lima disse que o exame dá subsídios para a polícia avaliar se uma pessoa pode ou não ter uma arma.
FSP950706-068
FSP950706-068
950706
COTIDIANO
MOACYR SCLIAR
_ Desculpe, mas o senhor trabalha aqui no aeroporto? Trabalha? Então o senhor poderia me ajudar.
_ Estou aqui para isso.
_ Ótimo. Seguinte: Eu perdi um cadáver...
_ Um o quê?
_ Um cadáver. O corpo de um parente meu. Ia ser sepultado na terra natal dele. Último desejo, o senhor sabe como é. E aí sumiu. Estava aqui agorinha mesmo _e sumiu.
_ Bom, acontece. Mas não adianta a gente ficar aqui se lamentando, adianta? Vamos ao que interessa: como era o cadáver? Digo, que aparência tinha?
_ Aparência? Era um homem de idade. De idade, mas bem conservado. Pelo menos até o dia em que morreu. Usava óculos, mas só para ler. Estava de terno, sapato novo... O senhor conhece essa tradição: morto ganha sapato novo. Agora, tem uma coisa...
_ Que coisa?
_ Não sei se adianta eu descrever o meu parente. Por uma razão muito simples: ele estava dentro de um caixão. Sumiu com caixão e tudo.
_ Nesse caso, descreva o caixão.
_ Ah, era um belo caixão. O melhor da funerária, ouso dizer. A nossa família não tem muitos recursos, mas nessas coisas de caixão não economizamos: se o parente tem de ser enterrado, que seja enterrado com estilo. Teve quem sugerisse que o levássemos numa bolsa plástica, dessas grandes, com zíper. Mas nós recusamos. Seria um desrespeito à memória de nosso parente, homem finíssimo. Pobre, sim _fazendeiro arruinado_, mas finíssimo. Em matéria de caixão tinha de ser madeira de lei. Mas me diga uma coisa: será que eu lhe descrevendo o caixão o senhor encontra?
_ Isso eu não sei. Para lhe dizer a verdade, não sei. O caixão pode ter sumido.
_ Mas como é que some um caixão?
_ Por engano. As pessoas se enganam muito com bagagem. Não há trocas de malas? Pois há trocas de caixão também. Acontece.
_ Quer dizer que o nosso parente sumiu? Quer dizer que nunca mais vamos vê-lo?
_ Bem, se os senhores iam enterrá-lo, ele sumiria de qualquer jeito. Mas eu não seria tão pessimista: acho que esse caixão vai aparecer, sim. Talvez não aqui neste aeroporto. Talvez em outro. Já aconteceu: um defunto que ia ser embarcado aqui apareceu sabe onde? Em Moscou. Aliás, quase cria um problema político. Porque eles abriram o caixão, sabe? E levaram um susto: o morto era igualzinho ao Lênin. Aí começaram a dizer que era coisa do Ieltsin: para acabar de vez com o comunismo, queria se livrar do cadáver do Lênin. Foi uma confusão. Muita gente revoltada, falando em trazer de volta o antigo regime. Já pensou? O comunismo de volta, já pensou? O seu problema é muito mais simples, meu caro.
Fazendeiro arruinado a gente acha logo. Desde que não seja parecido com o Lênin, claro.
FSP950706-069
FSP950706-069
950706
COTIDIANO
JOSÉ ELIAS MURAD
Há alguns anos, pesquisadores da área de bioquímica cerebral levantaram a hipótese da existência de uma molécula encontrada no cérebro que seria responsável pelas sensações amorosas. Segundo ela, uma substância de estrutura química relativamente simples _a feniletilamina_ seria produzida em maior concentração no cérebro, quando nos apaixonamos.
Ainda com base nessa hipótese, os químicos começaram a pesquisar a possibilidade de obter outra substância sintética que pudesse corresponder à "molécula do amor, a feniletilamina. Há algum tempo atrás, acreditou-se que essa droga fora descoberta. Nas ruas, foi denominada de Êxtase, enquanto nos laboratórios de química recebeu a sigla MDMA, ou seja, 3, 4 metilendioximetanfetamina. Quimicamente, ela se aproxima da metanfetamina (Pervitin), muito conhecida e usada até meados da década de 70, que provocou problemas de abuso e dependência, tendo sido retirada do mercado em vários países, inclusive no Brasil. Os defensores de seu uso como "droga sintética do amor" afirmam que a MDMA produz uma excitação agradável de duas a quatro horas, que acaba com a angústia, rompe os bloqueios humanos, aumenta a capacidade de comunicação, amplia a visão e deixa a pessoa mais receptiva emocionalmente. O Êxtase parece associar os efeitos alucinógenos da LSD com os efeitos estimulantes das anfetaminas. Pelo que temos verificado em estudos farmacológicos apurados e cuidadosos, a droga pode provocar hipertensão, sudorese, embotamento da visão e bruxismo.
Charles Schuster, da Universidade de Chicago, em pesquisas realizadas em cérebros de ratos e cobaias, verificou que a droga produz uma queda acentuada de serotonina, um neuro-hormônio encontrado no encéfalo e responsável, segundo se crê, pela regulação da atividade sexual, da agressão, do sono e da disposição de ânimo. Admite-se que, em altas doses, a droga pode provocar reações psicóticas e não de êxtase. Algumas pessoas sob seu efeito assumem posição fetal por vários dias.
Várias clínicas especializadas em tratamento de usuários de drogas nos Estados Unidos têm narrado episódios psicóticos em pessoas que têm usado o MDMA, e o FDA (Food and Drug Administration) considerou a substância como uma droga recreativa cujo abuso se propaga rapidamente e que pode causar psicose e dano permanente no cérebro. Na Europa, a grande preocupação não é com a cocaína e com a heroína, mas sim com o Êxtase, uma vez que pode provocar casos extremamente graves de dependência e tem produzido lesões irreversíveis no cérebro de alguns usuários.
Recentemente, tivemos notícias de que certa quantidade do Êxtase foi apreendida em São Paulo e no Rio. É preciso alertar as autoridades e a própria população para isso, pois a sua fama de "molécula do amor" pode ter um atrativo muito grande para certos tipos de personalidade. O fato é que estamos ainda longe de descobrir a substância sintética que, adaptando-se perfeitamente ao receptor químico celular ou neurônico correspondente, possa funcionar como droga artificial dos sentimentos amorosos. Se vamos chegar a isso, somente o futuro dirá.
JOSÉ ELIAS MURAD, 71, médico, é deputado federal pelo PSDB de Minas Gerais.
FSP950706-070
FSP950706-070
950706
COTIDIANO
Em reunião com o secretário de Segurança, empresários dizem que medo de sequestro inibe investimentos
SERGIO TORRES
Da Sucursal do Rio
Executivos de empresas estrangeiras instaladas no Brasil cobraram ontem do secretário estadual de Segurança do Rio, general Nilton Cerqueira, garantias para o empresariado interessado em investir no Estado.
Em encontro promovido pela Câmara de Comércio Americano no Brasil, Cerqueira foi informado de que as multinacionais hesitam em se instalar no Rio por temer principalmente os sequestros.
O secretário foi questionado por 60 executivos de empresas como IBM, Coca-Cola, Shell, Texaco, Unisys e Xerox.
Membro do Conselho Diretor da Câmara, Francisco Teixeira, 49, disse que no exterior a fama de cidade violenta causa um ``dano enorme à imagem do Rio".
Segundo ele, várias empresas de fora têm interesse de ir para o Rio para aproveitar a proximidade de mercados consumidores, as boas áreas para instalações, a política de atração de capital do governo estadual e a rede de transporte ferroviário, marítimo e rodoviário.
``Mas o sequestro é uma preocupação enorme. Ele tem um impacto muito grande sobre os dirigentes das multinacionais nas matrizes. No exterior, há a impressão de que o governo não se preocupa com isso", disse Teixeira.
A Câmara de Comércio Americano vai se reunir neste mês para discutir como as empresas filiadas poderão ajudar no reaparelhamento das polícias Civil e Militar.
O secretário Nilton Cerqueira explicou aos empresários como devem ser feitas doações.
Diferentemente do que vinha ocorrendo, o empresariado deve fazer a doação à Secretaria de Segurança e não a delegados ou comandantes de batalhões.
Apesar disso, o secretário mostrou uma posição pessimista. ``A situação da segurança é muito pior do que se pode imaginar", afirmou ele.
Segundo ele, há cinco sequestros em andamento no Estado. Ele disse que a polícia não tem aparelhos eletrônicos capazes de identificar de onde partem os telefonemas dos sequestradores.
Cerqueira afirmou que, ao assumir a secretaria, há menos de dois meses, havia 12 pessoas sequestradas. Para ele, a diminuição do número é devida às pressões de traficantes sobre sequestradores. O secretário citou o caso de um homem morto na zona norte, com um bilhete sobre o peito dizendo: ``Sequestrei. Não sequestro mais".
``Foi um recado dos traficantes. O sequestro atrapalha o tráfico. O bilhete prometia a morte de cinco sequestradores. Eles estão me devendo quatro. Estou esperando."
FSP950706-071
FSP950706-071
950706
COTIDIANO
Da Reportagem Local
A polícia prendeu dois homens e deteve um adolescente sob a acusação de eles terem participado da chacina em que três seguranças foram mortos na favela da Vila Praia, no Morumbi (zona oeste de SP) em 24 de junho passado.
Ezequiel Félix dos Santos, 27, Flávio da Silva Machado, 19, o ``Neguinho", e seu irmão P.S.M., 17, o ``Peu", confessaram o crime. Além deles, outros três acusados estão foragidos: Hélio Inácio de Jesus, 18, Fernando Pereira da Silva, 22, e Amilton Martins da Silva, 26, o ``Adelmo".
Os acusados disseram, ao depor, que haviam sido ameaçados de morte por uma das vítimas, José Francisco Neto, 30, o ``Boró". ``Ele havia ameaçado matar a gente. Era ele ou eu. Eu tive que atirar", disse Neguinho.
Segundo o delegado Wagner Giudice, 30, da Divisão de Homicídios, os matadores também roubaram as armas dos seguranças. ``O revólver do Boró foi achado com o Ezequiel (Santos)".
De acordo com o delegado, Boró e seus primos, os seguranças Edivaldo Leme Pereira, 30, e Valdeci Leite Silva, 35, haviam participado de uma festa junina na favela e estavam bebendo em um bar quando Boró teruia se encontrado com Neguinho e Peu.
Boró teria dito a Neguinho e a Peu que iria matá-los. Os dois teriam chamado os outros quatro acusados e os seis cercaram o bar onde estavam os três primos e descarregaram suas armas nas vítimas. ``O Boró sacou a arma para a gente", afirmou Neguinho.
A polícia conseguiu quinze testemunhas que apontam os seis acusados como autores do crime. Com a prisão dos três, os policiais apreenderam seis revólveres, uma pistola e uma espingarda.
Nenhuma das vítimas tinha passagem pela polícia. Neguinho já havia sido preso sob a acusação de roubo de carro no começo do ano. Ele também é acusado de matar com um tiro na cabeça uma menina que soltou uma baforada de crack em seu rosto.
``Ela tinha uma faca e ia me matar. Não dava para correr", afirmou Neguinho. Ele e Santos tiveram a prisão decretada. P.S.M. foi levado para o SOS Criança.
FSP950706-072
FSP950706-072
950706
COTIDIANO
Aparelho mede nível de álcool ingerido; motorista pode ter carteira suspensa
Da Reportagem Local
O CPTran (Comando de Policiamento de Trânsito) começa a usar amanhã oito bafômetros para ajudar a fiscalização em São Paulo.
O bafômetro é um aparelho que mede, pelo hálito, a quantidade de bebida alcoólica ingerida pelos motoristas.
Os aparelhos, fornecidos pelo Detran, serão usados nas operações que o CPTran costuma fazer nos bairros onde há ``barzinhos" frequentados por jovens, como Vila Madalena, Lapa (zona oeste) e Jardins (região central), e nas marginais, perto dos radares que medem excesso de velocidade.
De acordo com a legislação brasileira de trânsito, dirigir embriagado é crime.
Multa
O Conselho Nacional de Trânsito prevê a aplicação de multa (R$ 56,48) para quem dirige embriagado. Em caso de reincidência, pode haver a suspensão da carteira de motorista, por prazo de um a doze meses ou até em definitivo, e a apreensão do veículo.
Segundo o Ministério dos Transportes, a ingestão de bebida alcoólica é a causa de 50% dos acidentes no Brasil _o que significa 28 mil mortes e 119 mil feridos por ano.
O teor máximo de álcool permitido por lei para motoristas é 0,4 miligrama por litro de ar expelido dos pulmões. A quantidade de bebida necessária para que esse grau seja atingido varia com o metabolismo, o peso e os hábitos alcoólicos da pessoa.
O motorista não é obrigado a se submeter ao teste do bafômetro. Se ele recusar, mas a autoridade de trânsito notar algum indício de embriaguez, ele pode ser levado a uma delegacia, onde é obrigado a fazer um exame médico para detectar o estado de embriaguez, explica o CPTran.
Segundo a polícia, sem o bafômetro fica quase impossível perceber se o motorista está embriagado em mais de 50% dos casos.
FSP950706-073
FSP950706-073
950706
COTIDIANO
Da Reportagem Local
Parte da avenida República do Líbano será interditada amanhã, a partir das 6h, para as obras do complexo viário Ayrton Senna. A liberação da via deve acontecer dentro de 20 dias. A CET (Companhia de Engenharia de Tráfego) não soube precisar a data.
O trecho bloqueado, na Vila Nova Conceição (zona sul), fica entre a avenida Joaquim de Moura Andrade e a rua Lourenço Castanho (veja quadro).
A interdição será parcial, ou seja, apenas no sentido centro-bairro. Com isso, o sentido contrário passará a ter duas mãos, cada uma com duas faixas de rolamento.
O trânsito em algumas ruas da área será alterado. Na rua Lourenço Castanho, a mão única será invertida, passando a operar no sentido rua Lourenço de Almeida-República do Líbano.
A rua Escobar Ortiz, que tem mão dupla, passará a ter o sentido único República do Líbano-Professor Filadelfo Azevedo.
Congestionamentos
A CET prevê congestionamentos na região do parque Ibirapuera durante a hora do ``rush". Por isso, recomenda que os motoristas, se possível, evitem a avenida República do Líbano no período de interdição.
Segundo a companhia, a avenida Hélio Pellegrino pode ser uma boa opção em caso de lentidão.
O complexo viário Ayrton Senna inclui o túnel (já inaugurado) da avenida Juscelino Kubitschek sob a avenida Santo Amaro, no Itaim (zona sul).
A próxima etapa vai causar a interdição da República do Líbano, a partir de amanhã.
As obras incluem um túnel que começa na avenida República do Líbano, passa por baixo do parque Ibirapuera e ``desemboca" na avenida 23 de Maio.
A avenida Prestes Maia (região central) é outro ponto que tem o trânsito prejudicado por obras. O túnel sob a avenida senador Queirós, que deve ser inaugurado no final do ano, evitará o cruzamento entre as duas avenidas.
(Christian Carvalho)
FSP950706-074
FSP950706-074
950706
COTIDIANO
Colisão de caminhões na marginal Pinheiros ampliou o total de congestionamentos na cidade, que chegou a 113 km
Da Reportagem Local
Um acidente envolvendo três caminhões _dois deles carregados com soda cáustica líquida_ matou uma pessoa e provocou um congestionamento de 38 quilômetros.
O acidente aconteceu ontem à tarde, às 15h40, na marginal Pinheiros, a 100 metros da ponte Eusébio Matoso (zona oeste), e interrompeu a via durante 2 horas e 40 minutos.
A CET registrou um total de 113 quilômetros de lentidão no horário de pico da tarde em toda a cidade. A média diária é de 70 a 90 quilômetros. Segundo a CET, o acidente na marginal Pinheiros agravou a situação.
Um caminhão-tanque bateu em outro caminhão, que havia parado no meio da via expressa, no sentido Santo Amaro-Jaguaré. Um terceiro caminhão-tanque não conseguiu desviar e também bateu.
Os dois caminhões-tanque, da Transportadora Palmares, estavam carregados com soda cáustica. Um deles teve a válvula de descarga do tanque danificada e a soda vazou e inundou a pista.
Alguns motoristas que passavam pela marginal bloquearam o trânsito. Os bombeiros e a CET (Companhia de Engenharia de Tráfego) foram acionados. O socorro chegou em cerca de oito minutos.
Os dois motoristas da Transportadora Palmares, José Valdeir, 34, e Marcelo de Souza, 23, foram removidos em estado grave para o pronto-socorro do Hospital das Clínicas.
Souza morreu. Ele havia ficado preso entre as ferragens. O motorista do terceiro caminhão envolvido no acidente não se feriu.
Os bombeiros jogaram cal sobre a soda cáustica na pista da marginal Pinheiros. Técnicos da Cetesb (Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental) e os soldados do Corpo de Bombeiros terminaram a limpeza da pista às 18h20.
Durante a limpeza, a CET interrompeu parcialmente o trânsito. Uma única pista permaneceu aberta no sentido Santo Amaro-Jaguaré. Os motoristas que trafegavam nesse sentido foram orientados a desviar para a rua Hungria.
Após o fim da interdição, o trânsito permaneceu lento no local. No horário de pico, o congestionamento chegou a 38 quilômetros, segundo a CET. Além da marginal, as avenidas dos Bandeirantes, Juscelino Kubitchek e Eusébio Matoso ficaram intransitáveis.
A soda cáustica pode causar queimaduras, danos nas vias respiratórias e, em contato com o fogo, exala gases irritantes e venenosos.
Os caminhões-tanque continham 17 mil litros de soda.
Tietê
Na marginal Tietê, uma colisão entre uma moto, um carro e um caminhão interditou a via expressa, no sentido Penha-Lapa, perto da ponte da Casa Verde, às 9h15 de ontem.
O trânsito só foi liberado 50 minutos depois. O congestionamento se estendeu do local do acidente até a ponte da Vila Maria (zona norte da cidade).
FSP950706-075
FSP950706-075
950706
COTIDIANO
Polícia acha mais de 1.800 kg da droga em sítio de Ibiúna
Da Agência Folha, em Sorocaba
A polícia apreendeu pelo menos 1.814 kg de maconha em um sítio no município de Ibiúna (70 km de São Paulo). Duas pessoas foram presas.
Segundo a polícia, foi a maior apreensão de maconha feita este ano no Estado e a segunda do Brasil.
A apreensão ocorreu em duas etapas. Na primeira, anteontem à noite, a polícia encontrou 814 kg de maconha em um barracão no sítio e prendeu o dono do propriedade, Francisco Ubirajara Mesquita de Holanda, 51, e sua mulher, Maria do Rosário Sartori, 25.
Segundo o delegado assistente de Ibiúna, Robson Lorencetti Ernesto, 27, ontem a polícia voltou ao sítio e conseguiu encontrar pelo menos mais 1.000 kg da droga, que estava enterrada em um pomar.
Até as 18h, a quantidade apreendida ontem ainda não havia sido pesada.
Equipes da Delegacia de Ibiúna, da Dise (Delegacia de Investigações sobre Entorpecentes) de Sorocaba (87 km a oeste de São Paulo) e de outras delegacias da região fizeram escavações no sítio ontem à procura de mais droga.
A Prefeitura de Ibiúna cedeu um trator para ajudar nas escavações. Segundo Lorencetti, a droga é avaliada em cerca de R$ 1, 2 milhão.
Com esse dinheiro, é possível comprar um apartamento triplex de 1.000 m2 no bairro de Moema, de classe média alta, na zona sul de São Paulo.
O casal preso foi indiciado por tráfico de drogas e poderá ser condenado a até 15 anos de prisão. A polícia não permitiu que eles falassem com a Agência Folha.
No dia 14 de junho deste ano 5 toneladas de maconha foram apreendidas em Bonsucesso (RJ).
Ribeirão Preto
A Polícia Militar de Ribeirão Preto (319 km a norte de São Paulo) apreendeu anteontem à noite cerca de 12,5 kg de maconha na zona norte da cidade.
A droga está avaliada em R$ 18.750,00.
O desempregado Élio Lopes Rosado, 27, de Belo Horizonte, e o vendedor autônomo Sílvio César Antunes de Deus, 22, foram presos em flagrante e encaminhados à Cadeia Pública de Vila Branca.
FSP950706-076
FSP950706-076
950706
COTIDIANO
Suspeitos dizem que cometeram assassinatos porque haviam sido ameaçados de morte por uma das vítimas
Da Reportagem Local
A polícia prendeu dois homens e deteve um adolescente sob a acusação de eles terem participado da chacina em que três seguranças foram mortos na favela da Vila Praia, no Morumbi (zona oeste) em 24 de junho passado.
Ezequiel Félix dos Santos, 27, Flávio da Silva Machado, 19, o ``Neguinho", e seu irmão P.S.M., 17, o ``Peu", confessaram o crime. Além deles, outros três acusados estão foragidos: Hélio Inácio de Jesus, 18, Fernando Pereira da Silva, 22, e Amilton Martins da Silva, 26, o ``Adelmo".
Os acusados disseram, ao depor, que haviam sido ameaçados de morte por uma das vítimas, José Francisco Neto, 30, o ``Boró". ``Ele havia ameaçado matar a gente. Era ele ou eu. Eu tive que atirar", disse Neguinho.
Segundo o delegado Wagner Giudice, 30, da Divisão de Homicídios, os matadores também roubaram as armas dos seguranças. De acordo com o delegado, Boró e seus primos, os seguranças Edivaldo Leme Pereira, 30, e Valdeci Leite Silva, 35, haviam participado de uma festa junina na favela e estavam em um bar quando Boró se encontrou com Neguinho e Peu.
Boró teria dito a Neguinho e a Peu que iria matá-los. Os dois teriam chamado os outros quatro acusados e os seis cercaram o bar onde estavam os três primos e descarregaram suas armas nas vítimas. ``O Boró sacou a arma para a gente", afirmou Neguinho.
A polícia conseguiu quinze testemunhas que apontam os seis acusados como autores do crime. Com a prisão dos três, os policiais apreenderam seis revólveres, uma pistola e uma espingarda.
Nenhuma das vítimas tinha passagem pela polícia. Neguinho já havia sido preso sob a acusação de roubo de carro no começo do ano. Ele também é acusado de matar uma menina que soltou uma baforada de crack em seu rosto.
FSP950706-077
FSP950706-077
950706
COTIDIANO
Cerca de 1 milhão de imóveis podem receber dois carnês do imposto em 96 se Maluf insistir na cobrança
LUIS HENRIQUE AMARAL
Da Reportagem Local
Um recurso ao Superior Tribunal Federal poderá impedir que a prefeitura cobre no ano que vem a diferença do IPTU (Imposto Predial e Territorial Urbano) de 1992.
O procurador-geral de Justiça de São Paulo, José Emmanuel Burle Filho, afirmou ontem que espera a publicação da sentença do Tribunal de Justiça de São Paulo que considerou constitucional a progressividade do IPTU para decidir se entra com o recurso.
``A minha tendência é recorrer da decisão à instância superior, para que não paire mais dúvida sobre a questão", disse Burle Filho.
Anteontem, o secretário municipal das Finanças, Celso Pitta, afirmou que a prefeitura vai cobrar em 96 a diferença do IPTU do exercício de 92, arrecadando R$ 400 milhões.
Todos os proprietários de imóveis vão ter que pagar a diferença, exceto os que quitaram o imposto daquele ano em parcela única, ou donos de imóveis pequenos, cujo valor venal do imóvel não ultrapassava 550 Unidades Fiscais do Município, cerca de R$ 19,3 mil atuais (leia quadro nesta página).
Cerca de 1 milhão dos 2,35 milhões de imóveis de São Paulo podem ser atingidos pela cobrança.
Em 92, a prefeitura enviou aos contribuintes carnês com impostos que variavam de 0,2% a 5% do valor venal do imóvel. Quanto mais caro o imóvel, maior a porcentagem, daí o nome progressivo.
Mas, naquele ano, o TJ suspendeu o uso de alíquotas progressivas e determinou que todos pagassem com base na alíquota de 0,2%. No mês passado, o TJ reviu a sua posição e agora a prefeitura quer cobrar a diferença.
Cabe a Burle Filho entrar com o recurso porque foi o Ministério Público de São Paulo que iniciou a ação de inconstitucionalidade, em fevereiro de 1992, por intermédio do então procurador-geral, Araldo Dal Pozzo.
De acordo com Burle Filho, caso o Ministério Público decida entrar com recurso contra a progressividade do imposto, poderá ser pedida uma liminar para suspender a decisão do TJ.
Se a liminar for concedida, a prefeitura ficaria impedida de cobrar a diferença do IPTU de 1992 até a decisão final do Supremo Tribunal Federal.
FSP950706-078
FSP950706-078
950706
COTIDIANO
CLAUDIO AUGUSTO
Da Reportagem Local
O prefeito Paulo Maluf (PPR) disse ontem que não tem nenhum compromisso em enviar à Câmara um projeto de anistia para quem deve o IPTU de 92. O projeto é a única forma de evitar a cobrança.
Ele afirmou que não há contradição política em sua atitude. ``Critiquei a progressividade e não a apliquei. Mas tenho que cumprir a decisão da Justiça."
Segundo o prefeito, a definição sobre a eventual cobrança do imposto só vai ocorrer quando a decisão do Tribunal de Justiça for publicada.
O secretário Celso Pitta (Finanças) afirmou anteontem que a prefeitura vai cobrar o IPTU atrasado. ``Se o doutor Pitta dissesse que iria anistiar, provavelmente ele teria o mesmo destino do doutor Coronado Antunes. A obrigação do Pitta é cobrar", disse Maluf.
Antunes, ex-secretário dos Transportes, foi demitido por Maluf por ter antecipado que haveria reajuste na tarifa de ônibus.
A Folha apurou que a decisão de cobrar o IPTU de 92 já está tomada. O prefeito está evitando assumi-la porque teme desgaste de sua imagem. O projeto de anistia seria aprovado na Câmara. Maluf tem maioria na Casa.
O vereador José Eduardo Martins Cardozo (PT) criticou o prefeito. ``Ele era um dos maiores adversários da progressividade. Com a cobrança, ele referenda essa tese", afirmou Cardozo.
``Se fosse eu o prefeito, eu cobraria", disse o vereador. ``Mas ele disse que o IPTU de 92 era extorsivo."
O vereador Marcos Cintra (PL), que apóia o prefeito na Câmara, também atacou a provável cobrança do resíduo do IPTU de 92.
Ele disse que os R$ 400 milhões de arrecadação adicional poderiam alavancar as receitas da prefeitura, mas trariam desgaste para o governo.
``O PDS (atual PPR) foi o partido que mais criticou a progressividade", afirmou Cintra.
Como calcular
De acordo com a Secretaria das Finanças, apenas três categorias de contribuintes não terão de pagar o IPTU de 92. Quem era isento, quem tinha alíquota original de 0,2% e quem quitou o imposto em parcela única antes da liminar do Tribunal de Justiça que suspendeu a progressividade.
Os demais podem começar a calcular o imposto a pagar, que será cobrado em 96. Basta consultar a cartela do IPTU de 92.
Checando o valor venal do imóvel, o imposto predial, o imposto territorial e a alíquota original, é possível fazer o cálculo do imposto a pagar (leia quadro ao lado).
FSP950706-079
FSP950706-079
950706
COTIDIANO
Da Reportagem Local
Se a prefeitura insistir em cobrar a diferença do IPTU de 1992, quem vai ter que arcar com o pagamento do imposto é o proprietário atual, não aquele que possuía o imóvel naquele ano.
Segundo o advogado Carlos Ari, professor de direito administrativo da PUC, perante a prefeitura, o responsável pelo pagamento é o dono atual do imóvel. ``Mas ele poderá cobrar do antigo proprietário através de uma ação na Justiça", afirmou.
Segundo Adilson Dallari, também professor de direito administrativo da PUC, a decisão do Tribunal de Justiça não vale para os proprietários de imóveis que tinham obtido liminar própria contra a progressividade.
``Até a derrubada da liminar, o proprietário está coberto. A decisão do tribunal é genérica", diz.
Segundo Dallari e Ari, se o prefeito Maluf mantiver sua posição de considerar a cobrança do IPTU de 92 como ``extorsiva" (conforme afirmou em 92), ele terá que mandar um projeto de lei à Câmara que altere a lei em vigor para que a cobrança não seja feita.
Segundo Dallari, se o prefeito não cobrar a diferença do imposto, poderá ser condenado a pena que varia de três meses a três anos de prisão, além de ter seu cargo cassado pela Câmara e ter seus direitos políticos suspensos.
(LHA)
FSP950706-080
FSP950706-080
950706
COTIDIANO
Bebida oriental é cada vez mais consumida com suco de frutas e no lugar da tequila na `saquerita'
ANDRÉ LOZANO
Da Reportagem Local
O saquê, bebida tradicional japonesa, conquistou o público jovem e agora faz parte da lista de drinques de grande parte dos bares mais badalados de São Paulo.
O bar Cabral, em Cidade Jardim, vende cerca de 60 doses de saquê por noite _o dobro do que sai de caipirinha de pinga, cerca de 30 doses.
Segundo o gerente do bar, Gustavo Oscar Medlam, 37, a bebida oriental é apreciada pelos jovens entre 18 e 25 anos. ``Agora fazemos até caipirinha de saquê. Aliás, a nova bebida passou a ser chique", disse Medlam.
O saquê deixou de ser tomado somente na forma tradicional, no recipiente quadrado (massu), e é apreciado nos mais variados copos de drinques, formando coquetéis de diferentes cores.
No Sea House, nos Jardins, o forte da casa é o coquetel Samurai, uma mistura de saquê, licor de kiwi, suco de laranja, vodca e soda limonada, que sai por R$ 7,50.
O recém-inaugurado Sushi Company, no Itaim Bibi, oferece a seus clientes opções de saquês com frutas. Os que saem mais são as doses de saquê com maracujá e com limão. Além dessas, outra opção é a saquerita, uma margarita (suco de laranja e Cointreau) de saquê.
Segundo um dos proprietários do Sushi Company, Lalo Zanini, 28, os drinques de saquê do bar são preparados com a bebida da marca californiana Ozeki.
``O saquê é uma bebida que veio para ficar, assim como toda a culinária japonesa, que é muito mais saudável. Eu e minha namorada tomamos saquê pelo menos três vezes por semana", disse o administrador Renato Navarro, 29, em uma mesa do Sushi Company.
O casal Mônica, 29, e Melhem Charafeddine, 33, também são adeptos da bebida oriental e não deixam de prová-la todas as vezes que viajam a São Paulo _eles moram no Mato Grosso.
``Eu aprendi a tomar saquê com o Melhem. A cada 40 dias, quando visitamos São Paulo, sempre passamos em algum lugar para tomar saquê", disse Mônica, tomando o drinque Samurai, do Sea House.
``O saquê caiu no gosto do brasileiro", disse um dos donos do Ritz, nos Jardins, e do Spot, na Bela Vista. Segundo ele, no Ritz o consumo de saquê é de 25 doses por noite e no Spot, 20 doses.
As doses de saquê, na forma tradicional, variam de R$ 2,75 a R$ 4,00. Os drinques feitos com a bebida japonesa custam entre R$ 5,00 e R$ 7,50.
ENDEREÇOS: SEA HOUSE - al. Lorena, 1.267 (Jardins)
SUSHI COMPANY - r. Renato Paes de Barros, 769 (Itaim Bibi)
SPOT - al. Min. Rocha Azevedo, 72 (Bela Vista)
RITZ - al. Franca, 1.088 (Jardins)
CABRAL - r. Camargo Cabral, 20 (Cid. Jardim).
FSP950706-081
FSP950706-081
950706
ESPORTE
Dos enviados a Rivera
O Comitê Organizador da Copa América decidiu ontem permitir a presença de 11 jogadores no banco de reservas, a exemplo do que já ocorreu na Copa do Mundo, no ano passado.
Pelas regras do futebol, só cinco jogadores ficam no banco de reservas. A decisão foi uma vitória para o técnico Zagallo, que havia pedido a mudança no regulamento.
``Serão permitidas três substituições. Estamos ainda aguardando a resposta sobre um outro pedido que fizemos: queremos escolher os substitutos entre os 11 do banco e não apenas entre os cinco relacionados como reservas", disse Américo Faria, supervisor da seleção.
A seleção brasileira também solicitou aos organizadores da Copa América que seja processada outra mudança no regulamento.
Na tabela atual, os primeiros colocados dos Grupos A e C podem enfrentar os terceiros colocados de seus grupos na próxima fase. ``Queremos evitar isso", afirmou Américo Faria.
Se passar para as outras fases da Copa América, a seleção pretende ficar hospedada em Punta del Este até a final, dia 23.
(FR e MM)
FSP950706-082
FSP950706-082
950706
ESPORTE
CARLOS SARLI
Visual paradisíaco, cultura francesa, gatas, topless e altas ondas são alguns dos predicados das Ilhas Reunião, território francês situado no lado oriental da costa africana, mais precisamente ao lado de Madagascar.
Banhado pelas águas quentes do oceano Índico, o arquipélago recebe boas ondulações o ano inteiro. Os surfistas devem, porém, ficar atentos a dois inconvenientes: a grande quantidade de tubarões (em 1990, um brasileiro se deu mal) e o fundo de lava vulcânica que muitas vezes dificulta a entrada e saída do mar.
É lá que, há quatro anos, vem se realizando o Oxbow Reunion Pro, quarta etapa do WCT, patrocinado pela marca francesa, que tem investido significativamente nos esportes de ação e tem uma linguagem mais clássica e adequada aos gostos europeus, diferente do padrão americano, mais comum em todo o mundo.
Prova desta linha de marketing é o Oxbow Longboard Championship 95, campeonato que definiu, no último fim-de-semana, o campeão mundial, na categoria do surfe mais voltada às origens do esporte, o pranchão.
Sete brasileiros participaram da competição, e o grande destaque ficou por conta de Picuruta Salazar, que terminou, pela segunda vez, com o vice-campeonato.
Ele só perdeu na final para o havaiano Rusty Keualana, filho do lendário Buffalo Keualana. Com a vitória, Rusty conquistou o tricampeonato da modalidade.
As ondas estiveram grandes, com cerca de três metros, nas longas esquerdas de Saint Leu. Continuaram assim nesta semana, o que acabou por antecipar o início da etapa do WCT.
No primeiro dia de competição, terça-feira, três dos nove brasileiros que disputam a primeira divisão do surfe mundial passaram em primeiro em suas baterias e seguiram direto para o terceiro round: Fábio Gouveia, Flávio ``Teco" Padaratz e Renan Rocha, que derrotou o taitiano Vetea David e o niteroiense Guilherme Herdy, na bateria mais disputada da primeira fase.
Os outros seis brasileiros entrariam na água ontem, sendo que quatro deles terão confronto direto. Victor Ribas enfrenta Piu Pereira e Jojó de Olivença, vice-campeão do Oxbow no ano passado, pega Ricardo Tatuí.
O evento termina no próximo domingo e pode alterar as primeiras posições do ranking, atualmente liderado pelo norte-americano Kelly Slater.
FSP950706-083
FSP950706-083
950706
ESPORTE
Encerrados no último sábado, os Extreme Games, tipo de Olimpíada de esportes de ação, não chegou a empolgar como era esperado.
Deram muito destaque para competições babacas, como o street luge, o windsurfe foi realizado em local sem ondas, e o esperado kiteskiing não rolou por falta de vento.
De quebra, os brasileiros não foram bem. O melhor resultado conseguido por um representante do país foi a quinta colocação de Rodil Araújo, o Ferrugem, no street skate.
Começa amanhã em Itacoatiara, RJ, a quarta etapa do Circuito Limão Brahma Surf Pro 95. Famosa por suas ondas grandes e consistentes, Itacoatiara deve dar muita dor de cabeça para Plínio Ribas, o atual primeiro colocado do ranking carioca.
Aproveitando a presença de Rickson Gracie em São Paulo, a Federação Paulista de Lutas Free Style vai promover um ``Vale Tudo" no próximo sábado no ginásio Mauro Pinheiro (o ginásio do Ibirapuera). Com fraca divulgação e premiação pior ainda, é pagar para ver.
FSP950706-084
FSP950706-084
950706
ESPORTE
RODRIGO BERTOLOTTO
Da Reportagem Local
O atual técnico do Equador, primeiro adversário do Brasil na Copa América, lembra muito pouco o Francisco Maturana de um ano atrás, quando comandava os colombianos na Copa dos Estados Unidos.
Na época, ele queria que seus jogadores jogassem o ``futebol-rumba", mas o ritmo atravessou e o time acabou eliminado na primeira fase.
Desde abril à frente da seleção equatoriana, Maturana pede tempo para montar um time competitivo para as eliminatórias da Copa-98.
``No torneio do Uruguai, vou apenas conhecer as possibilidades dos jogadores. Será um laboratório para o melhor módulo tático para o Equador", disse Maturana, 46.
Sobre o Brasil, diz não conhecer o time armado por Mario Jorge Zagallo, mas, desde já, o elogia: ``É o convidado especial."
``Pacho" Maturana foi zagueiro e teve uma breve carreira de dentista antes de se tornar técnico.
Folha - Qual é a diferença entre o Equador e a Colômbia?
Francisco Maturana - Basicamente, muda a qualidade dos jogadores. O colombiano é mais sensível, mais flexível, enquanto o equatoriano é superior fisicamente. Além disso, a Colômbia tem uma identidade na maneira de jogar e o Equador ainda busca isso.
Folha - Você vai montar uma equipe ofensiva?
Maturana - É complicado. A Colômbia tem 10, 15 bons atacantes e o Equador tem um ou dois. Mas vamos fazer um esforço.
Folha - Com a falta de atacantes, vai haver uma exigência maior nos outros setores?
Maturana - Quero mais concentração na marcação. Na Colômbia, relaxávamos um pouco, pois fazíamos muitos gols. Agora, preciso de segurança atrás, porque vamos ter menos chances de gol.
Folha - Você tem um plano a longo prazo no cargo atual?
Maturana - O trabalho de técnico é muito circunstancial. Mas, inicialmente, fico no comando até as eliminatórias para a Copa 98.
Folha - Durante a Copa de 94, você disse que a Colômbia jogaria o ``futebol-rumba". Com que ritmo o Equador vai jogar?
Maturana - Não sei ainda. Só espero que seja divertido para mim e para os jogadores (risos).
Folha - Qual é a pretensão do Equador na Copa América?
Maturana - No Uruguai, vou apenas conhecer as possibilidades dos jogadores. Será um laboratório para o melhor módulo tático para o Equador nas eliminatórias.
Folha - Que jogadores você destaca em sua equipe?
Maturana - O pilar do time é Aguinaga. Depois, temos Capurro, Noriega e Tenorio. Na frente, temos um jogador veloz, mas fraco na finalização: Eduardo Hurtado.
Folha - Que seleção brasileira você espera enfrentar?
Maturana - Não tenho claro com que Brasil vou jogar. Por seu nome, é o convidado especial e, por suas potencialidades, pode formar várias seleções. Não sei o que o Brasil tem para dar, mas sei que será sempre protagonista.
Folha - O que você achou do Brasil na Copa dos EUA?
Maturana - O time venceu nos detalhes. Não foi o Brasil espetacular, mas ganhou com justiça.
Folha - Depois de quase um ano que a Copa passou, como você analisa o desempenho colombiano?
Maturana - Para mim isso faz parte do passado.
FSP950706-085
FSP950706-085
950706
ESPORTE
O atacante, que disputou cinco temporadas pelo clube de Turim, assinou contrato com o Milan. O valor da transferência foi de cerca de US$ 13 milhões. Baggio iniciou ontem os exames médicos em seu novo clube.
Gallo desfalca Santos contra a Portuguesa
O volante, expulso contra o Corinthians, foi suspenso por dois jogos. Ele não atuou sábado passado, contra o União, e não joga domingo, contra a Portuguesa. O time, que enfrentaria ontem o São Paulo pela Copa dos Campeões Mundiais, em Uberlândia, treina hoje na Vila Belmiro.
Mogi mantem equipe para a próxima rodada
O técnico Pedro Rocha poderá repetir a escalação usada nos três jogos anteriores na partida contra o São Paulo. Os jogadores fizeram exercícios de hidroginástica ontem. Hoje haverá coletivo.
União tem uma dúvida para jogo no domingo
O meia ofensivo Alexandre, contundido no joelho direito, é a única dúvida do time, que enfrenta o Corinthians.
Johnson vence prova, mas não bate recorde
O norte-americano Michael Johnson marcou 19s96 nos 200 m sem barreira do GP de Atletismo de Lausanne, na Suíça. O recorde mundial pertence ao italiano Pietro Mennea (19s72).
Itália forma comissão sobre Olimpíada 2004
Lamberto Dini, primeiro-ministro italiano, anunciou ontem a criação de um comitê para estudar a viabilidade de Roma abrigar os Jogos Olímpicos em 2004.
FSP950706-086
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ILUSTRADA
Terceiro filme da série estréia amanhã no Brasil
Da Redação
Filme: Batman Eternamente
Direção: Joel Schumacher
Elenco: Val Kilmer, Jim Carrey, Tommy Lee Jones, Nicole Kidman, Chris O'Donnel, Drew Barrymore
Onde: a partir de amanhã nos cines Marabá, Metrópole, Bristol, Top Cine, Paulista 4, West Plaza 3, Morumbi 1 e 3, Ibirapuera 1 e 3 e circuito
``Batman Eternamente", terceiro filme da série, que estréia amanhã no Brasil, rastreia os dois passados do personagem: a infância de Bruce Wayne, o homem que se traveste de morcego, e as origens do herói nos quadrinhos.
Transfigurado nos dois primeiros filmes pela visão de Tim Burton _que adaptava a história ao seu universo dark e fabular_, Batman volta a ter uma história.
Sob direção de Joel Schumacher (e produção de Burton), o novo Batman pode remeter tanto aos quadrinhos originais de Bob Kane, que ressaltavam os aspectos heróicos do personagem, como à série de TV dos anos 60, que empresta um pouco do seu humor ``camp" aos vilões deste episódio.
Mas não espere ``pows", ``zapts" ou outras onomatopéias desenhadas na tela. ``Batman Eternamente" lembra ainda o ``Cavaleiros das Trevas", atormentado pelo passado e pela solidão, dos quadrinhos de Frank Miller.
A volta de Robin (Chris O'Donnel), descartado nos filmes dirigidos por Burton, ajuda a reforçar a impressão de déjà vu.
``Batman Eternamente" trocou a carga autoral pela referencial e, principalmente, pela diversão. Com isso, o filme bateu o recorde de bilheteria no primeiro fim-de-semana nos EUA (US$ 53 milhões) e transformou o herói em uma espécie de ``Máquina Mortífera" traumatizada e anabolizada.
Como sintoma da mudança, Batman procura o analista neste filme, embora esteja mais interessado na cama da psicóloga Chase Meridian (Nicole Kidman) do que em seu divã.
Bat-vilões
Mais do que a solidão, uma sina persegue Batman: tornar-se coadjuvante de seus vilões. No primeiro filme, foi o Coringa de Jack Nicholson. No segundo, o Pinguim (Danny DeVito) e a ambígua Mulher-Gato (Michelle Pfeiffer).
Cansado do quase-anonimato da roupa de borracha preta, Michael Keaton desistiu do papel. Seu substituto, Val Kilmer, também não teve trabalho fácil.
Para os papéis dos vilões Charada e Harvey Duas Caras, foram escolhidos dois nomes do momento, Jim Carrey (``O Máskara", ``Débi & Lóide") e Tommy Lee Jones (``O Fugitivo").
Mais uma vez, elez reduzem Batman a uma pilha de traumas. Mas, como planejava o diretor Joel Schumacher, uma pilha de traumas mais sexy e ``cool" na pele de Kilmer.
(Ricardo Calil)
FSP950706-087
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INÁCIO ARAUJO
Crítico de Cinema
Foram necessários três filmes e uma mudança de diretor, mas, por fim, Batman tornou-se uma franquia. Como o McDonald's, como a Pizza Hut, a fórmula dos quadrinhos sem impôs ao cinema.
O Batman de "Batman Eternamente" já não é mais o habitante de um pesadelo, como em "Batman" (1989) e, sobretudo, "Batman, o Retorno" (1992). Gotham City já não é um organismo vivo e crítico, como nos filmes anteriores de Tim Burton. Nada disso: Batman agora é um "Duro de Matar" na escuridão; Gotham City é só um cenário anódino.
Nesse sentido, "Batman Eternamente" é uma vitória do cinema de entretenimento. Isto é, aquele que esvazia o espectador de qualquer preocupação e se escora nos efeitos especiais para animar as mirabolantes ações.
Assim como o McDonald's _que serve os mesmos sanduíches, o mesmo paladar, no Brasil ou no Afeganistão_ o novo "Batman" também é uma franquia honesta. Tanto mais que o roteiro tem elementos fortes. Começa por Batman, que é um personagem duplo (o bilionário Bruce Wayne e o homem-morcego). Passa por seus inimigos, Harvey Duas Caras (o nome já diz tudo) e Charada.
Termina com a mocinha Chase, terapeuta de casos de dupla personalidade, e Robin, que retorna como herói coadjuvante e acrobata cuja família foi dizimada por Duas Caras (algo semelhante ao que aconteceu com o próprio Batman).
Essas duplicações _fantasmas infernais que irrompem na tela_ são cuidadas como filhos pelo diretor Joel Schumacher, para que em nenhum momento o espectador se sinta invadido por eles.
A preocupação central do novo "Batman" é evitar qualquer contaminação com os exemplares anteriores. Com isso, os fantasmas ficam meio jogados às traças, como um Gasparzinho da vida.
Em troca, o pau come o tempo todo. Mas a esse ``espírito de seriado" falta a alma e a verdade dos velhos "Flash Gordon", digamos, que ao menos estavam em sintonia com a maneira como os anos 30 se viam (tecnologia, lutas pelo controle do mundo etc.).
Ora, o que "Batman Eternamente" oferece é um simulacro desse tipo de ideal. Charada, que é, de longe, o personagem mais atual e interessante deste filme, bola uma máquina apta a sugar a inteligência de cérebros alheios.
Existe aí uma óbvia menção aos conglomerados de comunicação e ao seu poder descontrolado de moldar cérebros. Mas tudo isso é posto em surdina. O invento diabólico, assim como a ira demente de Duas Caras ou a morbidez de Batman, servem de fundo para a ação, assim como a imagem é o fundo do fundo musical.
"Batman Eternamente" é a vitória de Charada: um água-com-açúcar no inferno. Mas, por isso mesmo, vai emplacar.
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Da Reportagem Local
Batman também está nas telas de computadores e nas bancas de jornais. Além dos gibis "Liga da Justiça/Batman", "Batman - O Desenho da TV" e "A Queda do Morcego", a Abril Jovem aproveitou o lançamento do filme e lançou duas "graphic novels".
"Vingança em Gotham" mostra um confronto entre Batman e o Juiz Dredd, personagem britânico de HQ que também chegou ganhou versão cinematográfica. "Batman: Duas Caras Ataca Duas Vezes!" traz, em desenho estilo anos 40, o personagem vivido por Jim Carrey no novo filme.
No ciberespaço, o endereço de Batman é http://www.batmanforevver.com/.
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CARLOS HENRIQUE SANTIAGO
Da Agência Folha, em Belo Horizonte
O vaqueiro Manuelzão (Manuel Nardi), personagem vivo da obra do escritor João Guimarães Rosa, completa hoje 91 anos.
A festa será em Três Marias, no vale do rio São Francisco, e terá a exibição do curta-metragem ``Rio de Janeiro, Minas", dirigido pela cineasta Marily da Cunha Bezerra, em que Manuelzão faz uma ponta.
O vaqueiro ganhará de presente de aniversário uma pensão vitalícia no valor de um salário mínimo e meio por mês, oferecida pela Companhia Mineira de Metais, do grupo Votorantim.
A cineasta Marily Bezerra, 56, doutoranda em cinema da USP, vai estar presente na festa. De lá, ela segue em caravana com um grupo de pesquisadores da Universidade de São Paulo.
Pela primeira vez, uma equipe multidisciplinar vai percorrer os locais que Guimarães Rosa utilizou como cenários de suas narrativas. A expedição conta com especialistas em literatura, botânica, e geografia, cineastas, fotógrafos e artistas plásticos.
Eles vão conhecer a barra do rio de Janeiro, afluente do São Francisco, onde acontece o primeiro encontro entre Riobaldo e Diadorim, no livro ``Grande Sertão: Veredas".
Próximo a Três Marias, fica a fazenda da Sirga, onde trabalhou Manuelzão, descrita no conto ``Uma Estória de Amor", sob o nome de fazenda Samarra.
Na mesma região, fica o morro da Garça, descrito com riqueza de detalhes botânicos e geográficos no conto ``O Recado do Morro".
FSP950706-090
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Estudiosos defendem originalidade do escritor, que usou reportagens de jornais para fazer ``Os Sertões'
Da Reportagem Local
Mesmo antes de seu lançamento, o livro ``A Imitação dos Sentidos", do professor Leopoldo Bernucci, 42, causa polêmica no meio acadêmico.
O livro, que foi apresentado em reportagem da ``Ilustrada" publicada na última sexta-feira, traz manuscrito inédito de ``Os Sertões" (1902), de Euclides da Cunha (1866-1909).
Bernucci diz que o escritor amenizou críticas ao Exército, manipulou datas e figuras reais e copiou jornais e outros autores em sua obra sobre a guerra de Canudos _episódio em que o governo federal ordenou a destruição da comunidade fundada por Antônio Conselheiro em 1897.
Roberto Ventura, 38, professor de Teoria Literária da USP, que está escrevendo uma biografia do escritor, ressalta que ``é muito difícil comentar um livro a partir da reportagem, mas não concordo com quase tudo".
Para ele, ``a reportagem tem um tratamento sensacionalista e desloca a questão central, o tratamento estilístico e interpretativo que Euclides fez das fontes".
Ele lembra que a polêmica sobre a originalidade de ``Os Sertões" é antiga e pouco importante.
``Euclides só viu 20 dias de uma guerra que durou quase um ano. E teve que reconstituir o resto. É claro que usou outras fontes, como diários de expedições, entrevistas com participantes e reportagens em jornais", explica.
``Nos anos 50, o historiador baiano José Calazans, o maior especialista em Canudos, mostrou que Euclides incorporava outras fontes. Isso não tira seu mérito. Por que se lê `Os Sertões' e não as outras fontes?"
Ventura afirma que o mérito de ``A Imitação dos Sentidos" é trazer a transcrição completa do manuscrito inédito. Ele rejeita, entretanto, a explicação para a supressão de ``Os Sertões" de um trecho criticando um coronel porque isso comprometeria as relações de Euclides com os militares.
``O texto foi suprimido porque era ruim. Era muito direto e excessivamente simplista. `Os Sertões' é a crítica mais contundente ao Exército já feita no Brasil", diz.
Ele também critica o comentário de que ``Os Sertões" foi escrito às pressas. ``Ele demorou quatro anos para ser feito", afirma.
Lilia Moritz Schwarcz, 37, do departamento de antropologia da USP, menospreza a acusação de plágio.
``No Brasil temos a mania de discutir a cópia ou a não-cópia. Essa é uma falsa questão. Todo mundo copia. Mas ninguém copia tudo. A cópia segue uma seleção e uma reutilização", afirma.
Muniz Sodré, 53, professor da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro, também acredita que a discussão sobre a cópia é irrelevante.
``O que foi apresentado na reportagem não me parece suficiente para caracterizar plágio. Mesmo assim, o que importa não é a frase, a descrição ou tema que foi pego. E sim o todo. O que faz de `Os Sertões' uma obra literária forte é a intervenção que Euclides faz da língua portuguesa no sertão nordestino."
Ele diz que, se ``Os Sertões" fosse considerado plágio, ``Grande Sertão Veredas", de Guimarães Rosa, também seria, já que o enredo foi tirado de um texto medieval, ``A Mal Maridada".
FSP950706-091
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RONI LIMA
Da Sucursal do Rio
Primeira novela a cores do país e a primeira a ser exportada, ``O Bem Amado", com Paulo Gracindo, vai voltar ao ar, compactada em formato de minissérie.
Serão cerca de 40 capítulos, que deverão ir ao ar no início de agosto, às 22h30, editados pelo diretor de produção da Divisão Internacional da Rede Globo, Ubiratan Martins, 52.
Com texto de Dias Gomes e direção de Régis Cardoso, ``O Bem Amado" estreou na Globo em 24 de janeiro de 1973, se tornando um marco na história da teledramaturgia brasileira. Um dos destaques era a trilha sonora, composta especialmente por Toquinho e Vinicius de Moraes.
A reprise compactada atinge dois objetivos. Antes de tudo, será uma homenagem à carreira de Gracindo, que, adoentado, não trabalha mais.
Servirá também para ocupar um espaço na programação das minisséries da Globo, aberto com a decisão da emissora de não mais produzir ``Mar Morto", baseada em livro de Jorge Amado.
Só não se definiu ainda se ``O Bem Amado" entra no ar antes da minissérie ``Decadência", com texto também de Gomes, que está em fase final de produção.
A volta de ``O Bem Amado" foi comemorada pelo especialista em novelas da Rede Globo Mauro Alencar, 33, que destaca o trabalho ``magistral" de Gracindo e a consolidação na década de 70, no horário das dez, de uma temática social brasileira.
Gracindo vive o prefeito Odorico Paraguaçu, da imaginária cidade baiana de Sucupira, que deseja a qualquer preço inaugurar um cemitério.
Ubiratan Martins participou da primeira edição da novela, que teve 177 capítulos. Agora, tem uma missão complicada pela frente.
Ao privilegiar as cenas em torno do prefeito Odorico, tem que retirar situações e personagens secundários sem que a história perca a sua ``espinha dorsal".
Além disso, tem esbarrado em dificuldades como fitas de vídeo já sem condições de uso. O telespectador poderá estranhar as cores berrantes da novela _fruto da antiga inexperiência com o novo sistema_ e o ritmo mais lento das novelas dos anos 60/70.
Com ``O Bem Amado", voltam ao ar personagens inesquecíveis, como o Zeca Diabo, vivido por Lima Duarte, e as irmãs Cajazeiras (Ida Gomes, Dirce Migliaccio e Dorinha Durval).
O público terá também a oportunidade de assistir ao trabalho de Jardel Filho, já falecido, e da atriz Sandra Bréa, que estreava em novelas.
FSP950706-092
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PEDRO ALEXANDRE SANCHES
Da Redação
A MPB é a maior novidade que Ed Motta, 23, trouxe de uma estada de quase um ano nos Estados Unidos. O show que ele mostra nesta e na próxima semana no Rio inclui _fato inédito em sua carreira_ um baião e um choro, pinçados de um rol de mais de 30 novas músicas compostas lá fora.
Nos EUA, Ed finalmente se rendeu à harmonia e à melodia da MPB, ouvindo Chico Buarque, Edu Lobo, Tom Jobim e Guinga.
``Quando comecei a ouvir, chorava de remorsos por ter falado tão mal da música brasileira", diz.
``Até hoje, tentei copiar os americanos em tudo, sempre fiz tudo igual aos caras do soul e do funk", afirma. ``Acho até que era um lado colonizado meu."
Ainda assim, o velho e bom soul ainda predomina. O show, que deve chegar a São Paulo em agosto, é um mix dos discos de Ed Motta. Da fase MPB, entram apenas as duas inéditas e mais ``Beatriz", de Chico e Edu, e ``Samurai", de Djavan.
Ed deve gravar ainda neste ano o primeiro disco da nova fase. Além dele, tem outro semi-acabado, que gravou em inglês com músicos americanos, no estúdio de seu ídolo Donald Fagen. Não há, por enquanto, previsão de lançamento.
Show: Ed Motta
Onde: Mistura Fina (av. Borges de Medeiros, 3.207, tel. 021/537-2844)
Quando: até dia 15 de julho; quarta, quinta e domingo, às 23h, sexta e sábado, às 21h e às 23h
Quanto: de R$ 23 a R$ 26
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ELVIS CESAR BONASSA
Da Reportagem Local
A Radiobrás, órgão do governo federal, não paga direitos autorais para o Ecad (Escritório Central de Arrecadação de Direitos Autorais) desde janeiro de 1994. Os pagamentos, em valores abaixo dos cobrados pelo Ecad, estão sendo recolhidos à Justiça. O Ecad é o único órgão legalmente responsável por cobrar direitos autorais das músicas tocadas em rádio e TV.
A Radiobrás controla quatro emissoras de rádio (duas AM, uma FM e uma ondas curtas) e a TV Nacional. Através do Siafi (sistema de computadores que registra todos os pagamentos efetuados por órgãos federais), o deputado Augusto Carvalho (PPS-DF) verificou que a Radiobrás pagou, de janeiro a junho deste ano, o valor de R$ 51.727,90.
O dinheiro foi para um depósito judicial. Isso significa que a Radiobrás está com ação na Justiça contra o órgão arrecadador. O presidente da Radiobrás, Maurílio Ferreira Lima, disse ontem à Folha que somente hoje poderá dar informações sobre o caso.
O Ecad informou, por meio de ofícios dirigidos ao deputado, que a soma dos débitos das emissoras de rádios e TV ligadas à Radiobrás atinge R$ 315.240,42, de janeiro de 94 a junho deste ano.
As informações foram encaminhadas para a CPI do Ecad, que apura possíveis irregularidades no órgão. Augusto Carvalho sugere a convocação do presidente da Radiobrás para esclarecer o caso.
FSP950706-094
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Dois CDs contam a história do selo SAR, fundado pelo cantor e compositor norte-americano Sam Cooke
BIA ABRAMO
Da Reportagem Local
Sam Cooke, uma das mais poderosas e doces vozes do soul norte-americano, finalmente tem um lançamento a altura de seu talento disponível no mercado brasileiro. A PolyGram está importando "Sam Cooke's SAR Record Story", uma caixa com 67 faixas em dois CDs e libreto 84 páginas.
A edição, luxuosa, cobre o período do selo SAR, de 1957 a 1964. A gravadora, fundada por Cooke, Roy Crain e J.W. Alexander, foi a primeira companhia de discos a pertencer a um artista negro nos EUA.
Sam Cooke nasceu em 1931, no Mississipi (Estado ao sul dos EUA) e morreu em 1964. Um dos maiores cantores e compositores do soul, suas canções receberam versões de Aretha Franklin, Otis Redding Wilson Pickett, Rolling Stones, John Lennon e Ray Charles, entre outros.
Seu pai era um ministro batista e, naturalmente, o jovem Sam descobriu a música na igreja.
Na infância e adolescência, Cooke fez parte de grupos de gospel _The Singing Children, com seus dois irmãos e duas irmãs, e Highway QC's, onde era o principal cantor. Com 19 anos, ele passa a integrar The Soul Stirrers.
Além da história do selo SAR, as 67 faixas mostram como o gospel (uma contração das palavras em inglês "God" e "spell", a palavra de Deus) se transformou no soul, a música da alma negra norte-americana. A partir da incorporação de elementos rítmicos de outro gênero da música negra, o rhythm & blues, e substituindo progressivamente o amor divino pelo humano, o gospel vai se metamorfoseando em soul.
A seleção das faixas obedece a esse critério, de ilustrar a transição da música religiosa para a profana. É possível, em uma audição atenta, traçar todos os passos da dessacralização do gospel em direção à sensualidade do soul. Vale por uma aula sobre a música negra norte-americana.
Além de Cooke, solo ou com grupos como The Soul Stirrers, a caixa traz gravações dos outros artistas do selo SAR, como Johnnie Taylor, The Womack Brothers (depois, The Valentinos), L.C. Cooke (irmão de Sam), Johnnie Morisette, entre outros.
A divisão de águas está refletida nos dois CDs. O primeiro, com 31 faixas, reúne canções que se mantêm na tradição do gospel, transbordantes de espiritualidade, de música de inspiração divina e da alegria de louvar a Deus.
O CD 2 mostra a face profana. Abre com a demo tape de "You Send Me", um dos maiores sucessos de Cooke. Mesclados a guitarras e metais, as vozes já cantam as alegrias mais terrenas.
Fãs de Cooke vão sentir falta de hits como "Chain Gang" e "Bringing on Home to Me". Para compensar, há músicas mais raras como "That's Heaven to Me" e "You Were Made For Me".
O libreto traz fotos e informações sobre Sam Cooke e de outros personagens de sua gravadora, como os irmãos Womack, Billy Preston e The Soul Stirrers. Detalhe simpático e instrutivo: sobras de estúdio, como conversas e instruções de Cooke sobre gravações foram mantidas.
Caixa: Sam Cooke's SAR Records Story
Formato: caixa com dois CDs e libreto com 84 páginas
Lançamento: ABCKO Records
Distribuição: PolyGram
Preço: R$ 50 (a caixa, me média)
FSP950706-095
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E três coisas que você nunca viu: cabeça de bacalhau, enterro de anão e bicha virar homem! Rarará!
JOSÉ SIMÃO
Da Equipe de Articulistas
Bomba! Bomba! Simão Emergência! Volta pro reduto, Fernandoca. Depois que o Don Doca FHC xingou as esquerdas de burras, o que a dona Pizza Hut vai dizer para as amigas dela do Cebrap? Burras, voltei?! Rarará! E o Don Doca tá praticando cuspe, ops USP à distância! Rarará! Volta pro reduto, Fernandoca!
E saiu a lista dos dez mais ricos do mundo. E uma amiga diz que ela é a primeira da lista. Das dez mais do SPC! Rarará. E a Dorothéa já tá sendo chamada de Belina _aquela perua de época da Ford!
E eu tô desconfiando de que a Hebe faz o cabelo no jardineiro. Com tesoura de podar bambu! Ela tá parecendo aqueles arbustos do ``Edward Mãos de Tesoura".
E diz que lá em Salvador um deputado evangélico abriu um centro de recuperação pra drogados e gays. Tem 16 drogados e um gay. Que deve tá transando com os 16. Então é centro de recuperação do atraso! Rarará!
E, quando um taxista baiano soube disso, retrucou: ``Três coisas que você nunca viu na vida: cabeça de bacalhau, enterro de anão e bicha virar homem".
E um amigo meu diz que pegou uma receita na Rede Mulher (vulgo Papo Aranha) que batizou de receitão da recessão: resto de frango refogado na tefal. Pra não gastar gordura. Tem que ser na tefal. A tefal é a tal. E pièce de résistance na casa dele virou peça de resistência. Todo dia come a mesma coisa: frango! O novo índice dos tucanos!
E, sobre o escândalo Hugh Grant, a melhor foi a Gabi citando Jack Nicholson: ``Eu pago U$ 2.000 não pra piranha vir, mas pra piranha ir embora". Tá certo! O prático da piranha é que ela vai embora, não gruda. É a piranha tefal: não gruda nem enseba!
Vai indo que eu não vou. Aliás, vou. Criar a Associação dos Burros Lúcidos Contra os Cavallos Neoliberais!
FSP950706-096
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ILUSTRADA
Da Redação
Os casos em que continuações valem mais do que a primeira parte são meio raros. Se a primeira parte é boa, então, é mais raro ainda.
É nesse compasso que estão "Jesse James", de Henry King (1939) e "A Volta de Frank James" (1940), que a Record exibe hoje às 13h15. O filme de Henry King é uma honesta descrição da vida criminal de Jesse James, que termina com o assassinato, à traição, por Bob Ford, um companheiro de gangue.
A ênfase vai para as injustiças sociais que forçam os irmãos James a optar pelo crime (e que são quase uma maneira de fazer justiça com as próprias mãos).
"A Volta de Frank James" pega embalo no filme anterior. O que faz a diferença entre os dois é a mão privilegiada de Fritz Lang (e subsidiariamente, o fato de Henry Fonda, que faz Frank, ser um ator mais interessante do que Tyrone Power, que fizera Jesse).
Aqui, Frank dedica-se à vingança. Até onde se sabe, essa vingança nunca aconteceu e não estava nas suas preocupações. Mas Fritz Lang gostava de trabalhar o que está nas bordas do humano, aquilo que está além de cada um de nós e, no entanto, nos constitui.
Lang estava à vontade tratando do linchamento (em ``Fúria"), ou da compulsão (em "M, o Vampiro de Dusseldorf"). Se os James já apareciam um pouco como justiceiros, no filme de Henry King, aqui trata-se de fazer justiça em causa própria, de transformar o sentimento em imperativo.
``Frank James" é um faroeste tão apaixonante quanto movido pela paixão.
(IA)
FSP950706-097
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Colares personalizados e camisetas com fotos são a nova coqueluche
ERIKA PALOMINO
Colunista da Folha
EVA JOORY
Da Reportagem Local
A moda dos anos 90 promove a valorização da personalidade, do indivíduo. Nesta temporada, cresce o hype em torno do nome e da imagem, numa espécie de mitologia pessoal ou daqueles do círculo de amizades de cada um.
Um dos exemplos são a onda de colares com letras e nomes. Modismo detonado entre modelos e estilistas, a prática _muito em voga nos anos 70_ já chega até aos office-boys que usam no pescoço o nome de suas namoradas.
Não é bem o caso do modelo Johnny Luxo, 22, que tem uma letra ``J" em strass, que usa diariamente há três anos. ``Adoro usar adereços referentes ao meu nome, uso também dos amigos. É uma espécie de culto. Uso um colar com a cara da Katia Miranda (promoter), outro com a do Alexandre Herchcovitch.
Recentemente, Johnny Luxo teve executada pelo artista plástico Eduardo de Castro uma série de cinco pratos com seu rosto. Castro tirou a imagem da TV, com papel vegetal. ``Quem sabe agora não começo a comercializar toalhas e tapetes com minha cara", brinca.
O top estilista Jorge Kaufmann, 41, usa um colar escrito Kaufmann há oito meses. ``Comprei as letras numa loja de acessórios para bijuterias em Nova York. As letras estão escritas em dados de resina", explica o criador, que nos editoriais com suas roupas costuma pôr o colar nos modelos.
Alessandro Tierni, estilista, 23. usa um colar com seu sobrenome há dois meses. ``Marca minha personalidade. Já pensei e fazer camisetas com minha cara como se fosse um super-herói, um personagem dos quadrinhos".
Fora do Brasil, na revista ``W", a top Amber Valetta apareceu em fotos com seu nome escrito em caneta pilot na mão. O queridinho da moda americana Todd Oldham criou t-shirts com os nomes das tops. Em torno da imagem, ninguém avançou mais que Christian Lacroix para sua linha Bazaar, com os rostos de modelos como a sueca Helena Christensen estampados em sofisticadas camisetas. A canadense Eve Salvail, exibiu a sua _com seu rosto, claro_ em sua passagem por São Paulo.
Quem gostou da tendência não vai ter muito trabalho. As letrinhas estão à venda em barracas na av. Paulista e na r. 25 de Março.
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Aqui vão algumas respostas mal-educadas ainda não enviadas por falta de tempo e de secretária particular
DAVID DREW ZINGG
Da Equipe de Articulistas
Passei a última semana tentando fazer uma limpeza geral na minha casa. É um trabalho de Sísifo (você deve lembrar-se dele, Joãozinho: aquele cara que empurrava uma pedra enorme morro acima e cada vez que chegava no alto ela rolava para baixo outra vez. Ou seja, um trabalho que não acaba nunca).
Minha casa vive repleta de pilhas de fotos e papéis. Os papéis se dividem entre recortes de jornais que alguns leitores atenciosos me enviam e cartas. As cartas ficam sem resposta. Em primeiro lugar, porque não tenho tempo para respondê-las, e em segundo porque a Folha não provê seus colunistas de secretária particular.
Então aqui vão algumas cartas mal-educadas que eu gostaria de enviar durante o próximo ano, em resposta às missivas passadas e presentes que me chegam:
Caro sr. Soto:
Recebi o exemplar do livro que o senhor me enviou, com um pedido de que eu o lesse e fizesse um comentário. Joguei o livro fora. Por que cargas-d'água eu deveria passar alguns dias lendo um livro que sequer escolhi eu mesmo? Não tenho tempo nem para ler um livro que eu esteja querendo ler.
Cara srta. Barbosa:
Não, não tenho uma foto de mim para assinar e enviar a você. Quando você me pede um autógrafo, me faz pensar que sou importante, e eu não gosto disso. Vá colecionar fotos de artistas.
Cara srta. Adams, caro sr. Ortiz:
Esta é a segunda (ou décima) vez que o sr. (srta.) me escreve falando de seu bar (ou restaurante). Se é tão bom quanto o sr. (srta.) afirma, meus amigos de copo certamente já teriam chamado minha atenção. Nunca ouvi NINGUÉM mencionar seu estabelecimento, para bem ou para mal. O sr. (srta.) parece estar vivendo em alguma espécie de buraco negro. Se manca, tá?
Caros ...:
Fiquei sinceramente comovido com sua carta me oferecendo um cartão de crédito adicional. Mas, quando pensei melhor, me pareceu que não passa de uma maneira astuta de vocês retirarem mais um pouquinho do meu fluxo de caixa, que já é pequeno. Por que seu cartão de crédito seria melhor que os que já tenho? Me façam um favor, tá bom? Não fiquem me enviando ofertas das coisas que posso comprar. A única coisa que quero ver no fim do mês são as más notícias que acompanham meu extrato bancário.
Caro gerente de vendas do cemitério:
Acho que vou recusar sua generosa oferta de comprar um lote para sediar meu próprio túmulo, por módicas prestações de apenas R$ 440. Ainda não estou com pressa de morrer. Se precisasse morrer logo, eu poderia usar a mesma quantia para comprar um carro barato e ir ao encontro do meu criador no trânsito. Também acredito que sairia mais barato ser cremado, mesmo que alugasse um helicóptero para espalhar minhas cinzas sobre a casa da minha namorada.
Caro Proprietário de Boate:
Foi muito atencioso de sua parte enviar um formulário para eu preencher e me tornar sócio de seu conhecido ponto de encontro. Foi só quando cheguei no final da segunda página que percebi quanto eu teria que pagar pelo intercâmbio social com os sócios. O sr. descreve essas pessoas como ``formadoras de opinião" e ``criadoras de tendências". Se são as mesmas pessoas sobre as quais costumo ler em certas revistas da sociedade, acho que prefiro economizar o dinheiro e beber sozinho em casa.
Coisas verdadeiras
Tenho um amigo chamado Andy Rooney. Não, não é o ator baixinho. É um jornalista branco que escreve uma coluna de jornal repleta de ditos e sermões sobre as coisas simples e normais que compõem uma vida simples e normal.
Certa vez, Andy compilou uma lista de coisas que, pelo (muito) que ele sabe, são verdadeiras:
_ Pessoas ricas que não têm dinheiro continuam agindo como se fossem ricas.
_ Se você diz que uma pessoa é ``sincera", é uma observação sacana _na realidade você quer dizer que ela está errada mas que a intenção foi boa.
_ As pessoas que têm razão em geral não o afirmam em tão alto e bom som quanto as que não têm.
_ Alguns lagos contém mais pescadores do que peixes.
_ Jogar uma coisa na lata de lixo é uma coisa satisfatória de se fazer.
_ Qualquer pessoa que sai para comprar uma corrente de ouro depois de assistir a um comercial de corrente de ouro na TV é tão burra que nem adianta tentar ajudar.
_ As pessoas interessantes gostam mais de ficar sozinhas que as chatas.
_ Não importa o tamanho da mala, ela é sempre pequena para o que se tenta enfiar dentro.
_ As pessoas que tiram férias em agosto se sentem superiores às que tiram férias em julho.
_ É surpreendente quantas coisas divertidas de fazer são tão perigosas que você não deveria fazê-las.
_ Hoje em dia, não se vê mais homens riscando fósforos no traseiro das calças.
_ Quando uma pessoa fala a todo momento ``sabe o que eu quero dizer?", é porque ela mesma não sabe o que quer dizer.
Sabe o que eu quero dizer?
Ed Wood
Falar sobre o filme fantástico e estranho de Tim Burton depois que ele saiu de exibição aqui em Sampa significa ter sido completamente tomado pelo espírito do ``pior diretor de cinema de todos os tempos", Ed Wood.
Edward D. Wood, Jr., era o homem ao qual as pessoas se referiam quando usavam a frase ``um perdedor nato". Tim Burton, um cineasta mais que competente, fez um filme que também é um perdedor nato. Mas esse fato não é culpa de Burton. Ele fez um filme que exige espectadores sensíveis.
No atual momento que vivemos, não há muitos espectadores desse tipo disponíveis em São Paulo. Assisti ao filme com uma multidão de cinco outras pessoas no enorme e vazio cine Gazeta.
Quando o filme terminou, os sobreviventes tinham o ar de quem sobreviveu à queda de uma bomba. Eu me lembrei da cena no filme ``Bandwagon" quando o show é um fracasso total na pré-estréia.
A platéia sai do cinema devagar, ao som de uma marcha fúnebre. Apesar disso, o filme é um dos mais cômicos e não-afetados retratos de devoção ao mundo do cinema jamais produzido.
Martin Landau recebeu um Oscar por sua participação, no papel do envelhecido e viciado mestre húngaro do horror, Bela Lugosi.
Há uma cena memorável em que Ed Wood encontra Orson Welles, sua alga gêmea em termos de devoção apaixonada ao cinema, em meu bar favorito em Hollywood, o Musso and Frank.
Parafraseando Dorothy Parker, é preciso muito dinheiro para se fazer um filme que parece tão barato quanto este. Provavelmente, não vai estar nos cinemas locais no futuro próximo. Seja paciente e tente encontrar um vídeo.
É um dos maiores filmes de todos os tempos sobre Hollywood, a Cidade do Brilho.
Drinque solidificado
Se você realmente quer ver o que está bebendo, talvez se interesse por uma mistura que estão servindo no Merc Bar, de Nova York, capaz de alegrar qualquer engenheiro de construções.
Experimente o drinque você mesmo _é conhecido por Cement Mixer (Misturador de Cimento). O barman despeja direto na boca do freguês um misto de Bailey's Irish Cream e Rose's Lime Juice (suco de limão). O feliz garoto o cospe de volta para um copinho vazio, onde se solidifica em segundos...
Tradução de Clara Allain
FSP950706-099
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CELSO FIORAVANTE
Em Madri (Espanha)
O Museu Nacional Centro de Arte Reina Sofía, em Madri, exibe até o próximo dia 29 de agosto uma mostra dedicada ao artista plástico francês Yves Klein (1928-1962), um dos mais importantes expoentes da arte européia no pós-guerra.
Embora dedique mais espaço às monocromias e esculturas azuis, ``Yves Klein", título da mostra, abrange todas as fases da breve e intensa trajetória do artista. Estão presentes seus manifestos teatrais e arquitetônicos, pinturas com fogo e registros de performances.
Sem qualquer tipo de concessão, entre 1954 e 1962, Klein deixou claro o conceito básico de sua criação: a eliminação de todo e qualquer elemento figurativo ou de experiência pessoal que interferisse na relação da obra de arte com seu meio e seu espectador.
Ousado e ingênuo, Klein acreditava que a monocromia seria uma forma capaz de livrar a arte de todas as suas definições. Para apreciá-la, a relação estabelecida pelo espectador não poderia mais ser indireta, uma simples leitura do objeto observado.
``Sentir a alma sem explicá-la, sem vocabulários, e representar essa sensação... Esta, acredito eu, é uma das razões que me levou à monocromia", disse Klein em texto reproduzido pelo Reina Sofía.
Com Klein, a relação do espectador com a obra deve ser direta. Ela atrai, mas não se explica. E nem aceita explicações, seja em sua fase de produção, seja em sua fase de fruição.
Klein radicalizou este conceito ao criar uma cor azul-marinho luminosa que batizou ``I.K.B" (International Klein Blue). Em janeiro de 1957, vai mais longe e monta na galeria Apollinaire, em Milão, uma exposição composta apenas de telas monocrômicas em I.K.B., todas com as mesmas medidas, mas com preços diferentes.
A retrospectiva de Madri exibe ainda, de forma cronológica, todos os momentos em que o artista aprofundou seu conceito de dissolução da relação entre a arte e as interferências do meio.
Em um deles, Klein concebeu a ``venda de zonas de sensibilidade pictórica imaterial". O interessado em participar do ``autêntico valor imaterial da obra de arte" comprava do artista uma certa quantidade de ouro. Recebia o ouro e um recibo da compra, que era queimado no mesmo momento em que o ouro era jogado no mar ou em um rio, em um ponto de impossível recuperação. Toda transação deveria ser fotografada.
O escritor italiano Dino Buzzati (``O Deserto dos Tártaros") comprou e sua aquisição está registrada em fotos de Harry Shunk, presentes na mostra.
FSP950706-100
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ILUSTRADA
Em Madri
Filho de pais artistas plásticos, Yves Klein nasce em Nice em 28 de abril de 1928.
Dá os primeiros sinais de sua futura fixação pela monocromia azul em 1948. Depois de se tornar membro da sociedade rosa-cruz (seita de esclarecidos surgida na Alemanha no século 17), pinta de azul uma das paredes do porão que usava com amigos para meditar.
A capa de seu livro rosa-cruz também é azul. ``Isso é muito importante, é a condição da pintura", declara.
No mesmo ano, pinta uma camisa com as marcas de suas mãos e pés, um aceno à sua futura série ``antropomórfica", em que as obras eram realizadas a partir do contato do corpo humano pintado com o suporte da obra.
Klein também se dedica ao judô, esporte em que, segundo o artista, o corpo encontrava um ``espaço espiritual" a partir de uma experiência física e sensorial superior. Essa mesma experiência ``sublime" deveria ser atingida em relação às artes.
Em 6 de junho, aos 34 anos de idade, Klein morre em Paris depois de uma crise cardíaca.
No último dia 29, em Londres, seu quadro antropomórfico ``A Grande Batalha", um dos mais importantes dessa série, foi vendido por US$ 1,5 milhão.
(CF)
FSP950706-101
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A semi-ópera do compositor britânico Henry Purcell será apresentada hoje no Masp, com entrada franca
IRINEU FRANCO PERPETUO
Especial para a Folha
Ópera: O Rei Artur, de Purcell
Com: Madrigal Levare
Quando: hoje, às 12h30
Onde: Grande Auditório do Masp (av. Paulista, 1.578, tel. 251-5644)
Quanto: entrada franca
São Paulo tem hoje a chance de assistir a uma semi-ópera. O Madrigal Levare apresenta ``O Rei Artur", de Purcell, às 12h30, no Masp, com entrada franca.
``Não é apenas a primeira encenação, mas também a primeira audição desta obra no Brasil", diz Nelson Campacci, regente assistente do Madrigal.
A semi-ópera é um tipo de drama característico da Restauração inglesa. As cenas musicais são protagonizadas por personagens secundários da trama, enquanto a ação principal é declamada.
O texto de ``O Rei Artur" foi escrito por John Dryden em 1684, como comemoração dos 25 anos da Restauração do trono inglês, em 1660, com a coroação de Carlos 2º, da dinastia Stuart.
Apenas em 1691, entretanto, Dryden achou em Henry Purcell (1659-1695) o autor adequado a musicar seu texto. A récita de hoje homenageia o tricentenário da morte do maior compositor britânico de todos os tempos.
O público que for hoje ao Masp verá ``O Rei Artur" em versão concerto. A encenação completa acontece em setembro, nos teatros Municipal e Paulo Eiró _desde que haja patrocínio.
O espetáculo de hoje, que será gravado pela Rádio Cultura FM, dura cerca de uma hora, contra uma hora e quarenta da encenação normal. Foi mantida a maioria dos números musicais e o diretor cênico, Naum Alves de Souza, criou, a partir do original de Dryden, um texto em português para conectar as cenas _cantadas em inglês.
``Procurei tirar a imobilidade dos concertos", explica o diretor. O narrador, o ator Roberto Arduin, usa uma coroa para representar o rei Artur. O texto celebra Artur como o comandante das tropas bretãs contra o invasor saxão.
A orquestra também é reduzida. Ela conta com dois trompetes, um violoncelo e um cravo.
Quem se interessar pela obra pode ouvir as gravações de Alfred Deller, pelo selo Harmonia Mundi, Trevor Pinnock pelo Archiv ou John E. Gardiner pelo Erato.
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Debate integra mostra sobre o tema
Da Redação
A Folha promove hoje, às 19h30, o debate ``Jornalismo no Cinema", que integra a programação da mostra de mesmo nome em cartaz em São Paulo.
O cineasta e articulista da Folha Arnaldo Jabor, diretor de ``Opinião Pública" (1967), presente na mostra, é um dos participantes do debate.
Participam também o crítico e professor de cinema da Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo Ismail Xavier (autor de livros sobre o cinema como ``Alegorias do Subdesenvolvimento"), o escritor e jornalista Alberto Dines e o crítico e professor de cinema da Universidade Federal de Campinas Fernão Pessoa Ramos (autor do livro ``História do Cinema Brasileiro").
O debate será mediado pela curadora da mostra, a crítica Lúcia Nagib.
A mostra, que começou no último dia 1º, prossegue na Sala Cinemateca até o dia 14.
Serão mostrados filmes como ``Loura e Sedutora" (1931), de Frank Capra, ``Alphaville" (1965), de Jean-Luc Godard, ``O Bandido da Luz Vermelha" (1968), de Rogério Sganzerla, ``Terra em Transe" (1967), de Glauber Rocha, e ``Cidadão Kane" (1941), de Orson Welles.
A mostra será encerrada com ``JFK" (1991), dirigido por Oliver Stone.
O debate de hoje acontece no auditório do jornal (al. Barão de Limeira, 425, 9º andar, Campos Elíseos). Reservas podem ser feitas hoje, entre 14h e 16h, pelo telefone 011/224-3473.
A mostra ``Jornalismo no Cinema" é uma promoção da ``Folha de S. Paulo", do Labjor (Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo da Unicamp), da Cinemateca Brasileira, da Cinemateca do MAM do RJ, do British Film Institute (Londres) e da Editora da Unicamp
FSP950706-103
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LÚCIA CRISTINA DE BARROS
Da Redação
Uma borboleta xoxotuda mordedora que leva os homens à loucura e à morte. Isso é o que toda mulher tem entre as pernas, segundo o patrão de João Pedro, personagem principal do primeiro quadro do espetáculo ``O Fabuloso Obsceno", que estréia amanhã em São Paulo.
Osmar Prado, que interpreta esse personagem e mais 17 na peça do dramaturgo italiano Dario Fo, vive seu grande momento em dose dupla, no teatro e na TV, aos 35 anos de carreira e 47 de idade.
No palco, ele se reveza entre os vários papéis, canta e faz acrobacias circenses _em seu primeiro encontro solo com o público e sua primeira produção (com custo estimado de R$ 80 mil).
Na TV, ele é um dos protagonistas da novela ``Sangue do Meu Sangue", que o SBT começa a mostrar na terça-feira: dr. Clóvis, um escravocrata e republicano.
``Agradeço aos deuses do teatro esse momento privilegiado", diz Prado. ``Avancei muito como ator. Agora, a morte é o limite."
Desde 1989 que Roberto Vignati, 52, diretor do espetáculo, tentava montar ``Fabuloso" (de fábula). Convidou mais de 20 atores, entre eles o próprio Prado _que, na época, não se achava ``suficientemente maduro para fazer um trabalho dessa envergadura".
A mudança veio em 1993, quando Prado foi dirigido por Vignati na montagem de ``Uma Rosa para Hitler", que lhe rendeu o prêmio de melhor ator pela Associação Paulista de Críticos de Arte. ``Esse desafio me fez saber que eu estava pronto para o monólogo".
Disciplina e obstinação em meses de ensaio e de treino no Galpão Acrobático Fratelli garantiram ao ator o fôlego necessário para enfrentar o requintado exercício de interpretação de ``Fabuloso".
Em duas histórias independentes, ``A Borboleta Xoxotuda " e ``Tumulto em Bolonha", a peça se utiliza de metáforas engraçadas para fazer uma séria denúncia de caráter social, político e religioso.
``Na primeira história, atemporal, são resgatados valores humanos como a beleza e a pureza através de um casal que, envolvido numa rede de canalhas, se descobre como homem e mulher", explica Prado. Na segunda história, medieval, o povo descobre que ``sua grande arma para a revolução é a merda, que daí se torna um dever patriótico".
Como é característico do teatro de Dario Fo, o riso provocado pelas situações hilárias vem acompanhado de um intenso questionamento. ``O artista é a vanguarda do povo, tem que abrir caminhos, alertar _depois, cada um escolhe a sua porta", diz Vignati, para quem a comédia é uma forma eficiente de passar essa proposta.
``Fabuloso" começou a ser encenada em março no interior paulista, e segundo Prado teve grande aprovação do público.
``Há uma identificação imediata das pessoas com as histórias. Nós insinuamos, o público completa", diz o ator, para quem a platéia é rápida em transpor o que vê no palco para a realidade brasileira.
Peça: O Fabuloso Obsceno
Com: Osmar Santos
Direção: Roberto Vignati
Onde: Teatro Itália (av. Ipiranga, 344, tel. 011/257-3138)
Quando: estréia amanhã; de quinta a sábado, às 21h, e domingo, às 20h
Ingressos: R$ 15 (quinta e domingo) e R$ 20 (sexta e sábado)
FSP950706-104
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ILUSTRADA
Da Redação
Estréia hoje em São Paulo a peça ``O Melhor do Homem", dirigida por Ulysses Cruz e baseada em texto da norte-americana Carlota Zimmerman, escrito quando ela tinha 17 anos de idade.
Definida por Cruz como a primeira ``gay play" (peça gay) produzida no Brasil, ``O Melhor do Homem" enfrentou uma série de dificuldades para estrear.
Programada inicialmente para entrar em cartaz em março no teatro Hilton, foi cancelada pela direção da casa a sete dias da estréia por sua temática ``pesada".
Chega a São Paulo só agora, depois do sucesso que obteve no Festival de Teatro de Curitiba.
``O Melhor do Homem" é, segundo o diretor, uma história de amor e violência entre dois homens numa cela de prisão.
Rubens Caribé interpreta o michê Dean, homossexual e apaixonado pelo violento colega de cela Skyler (o ator Milhem Cortaz).
A peça faz parte de uma trilogia gay que Ulysses Cruz pretende encenar.
A parte final deve ser um musical adaptado de ``Devassos no Paraíso", tese acadêmica sobre a história do homossexualismo no Brasil, escrita por João Silvério Trevisan. Cruz não tem ainda o texto da segunda parte, mas diz que gostaria de abordar o homossexualismo feminino.
``Mas tudo depende da primeira peça", diz Cruz. ``Se ela se justificar, seguimos adiante."
Peça: O Melhor do Homem
De: Carlota Zimmerman
Direção: Ulysses Cruz
Com: Rubens Caribé e Milhem Cortaz
Onde: teatro Ruth Escobar (r. dos Ingleses, 209, Bela Vista, região central, tel. 011/289-2358)
Quando: quinta a sábado, às 21h30, e domingo, às 20h30
Quanto: R$ 25
FSP950706-105
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TURISMO
A Andaluzia, uma região de 87 mil km 2 ao sul do país, conserva a herança das conquistas árabes
MARCELO REZENDE
Enviado especial à Andaluzia
A Andaluzia, na região sul da Espanha, não parece conter cidades construídas no espaço, mas sim cenários feitos no tempo.
Sua cartografia data de outro momento, quando a Europa era menor e suas terras pertenciam aos árabes, que dominaram a região do século 8º ao 12, imaginando que aquele reino seria eterno.
Assim, o que cidades como Málaga, Córdoba, Granada ou Sevilha mostram ao visitante é essa eternidade, concretizada na arquitetura, música ou culinária, que misturam o passado islâmico ao presente cristão, ferozmente representado por imensas catedrais.
Mas Andaluzia é também de onde Colombo partiu para descobrir um novo mundo e Picasso abriu os olhos para a luz e as cores.
MARCELO REZENDE viajou à Andaluzia e ao Marrocos a convite da Mundirama.
LEIA MAIS
Sobre a Andaluzia e Marrocos nas págs. 6-2 a 6-14.
FSP950706-106
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950706
TURISMO
Do enviado especial à Andaluzia
Pelas estradas que levam até Granada dois cenários chamam a atenção do viajante: um composto de campos de margaridas e oliveiras, que a rural Andaluzia utiliza para a fabricação de azeites. E um outro, feito de pichações contra o governo espanhol.
Depois de mais de uma década de quase unanimidade do primeiro-ministro Felipe Gonzáles, agora a democracia espanhola enfrenta uma grave crise, devido a acusações de espionagem por parte do governo (leia texto à pág. 6-11).
Enquanto os jornais e TVs se debruçam sobre o caso, analistas afirmam que o povo espanhol prefere dar as costas a tudo em nome do verão, como em Granada.
Um lugar, como toda a Andaluzia, acorrentado a um passado de perdas e despedidas. Granada foi a última cidade muçulmana a ser tomada pelos reis católicos Fernando de Aragão e Isabel de Castela, no ano de 1489.
Na Capela Real, no centro da cidade, os turistas se aglomeram para fotografar o mausoléu onde o corpo do casal está sepultado.
Foi na cidade também que Cristóvão Colombo convenceu a nobreza espanhola da necessidade de navegar para um novo mundo.
Mas a maravilha de Granada não é cristã. Reside antes na incrível arquitetura de seu passado islâmico, como nos palácios árabes da cidade de Alhambra: um complexo de prédios e fortificações iniciada por Muhammad in Iusuf in Nasr, em 1238, prosseguindo até Muhammad 5º, em 1391.
Alhambra é, então, o testemunho de uma invasão e seu resultado, ilustrado pela arte islâmica. É também uma marca da violência dos europeus que a tomaram, modificando alguns de seus traços originais e preenchendo seus espaços com símbolos da cristandade.
Mas a beleza dos contornos de Alhambra, de seus detalhes ornamentais ou da grandeza de seus pátios, parecem afirmar uma vitoria sobre o Ocidente: Alhambra é tudo o que um ocidental imagina, ou sonha, que seja o mundo árabe.
E como tudo que é do imaginário, e acaba se tornando uma atração turística, todo o complexo é circundado pelas lojas de lembranças ou pequenos bares, que vendem uma garrafa de água e um suco por US$ 2,00 e refeições -um almoço simples sem vinho ou sobremesa-, por US$ 20.
Há até um ``Parador" em seu interior (hotel pertencente ao governo que cobra US$ 23 pelo quarto duplo) para aqueles que se encantam doentiamente por suas pedras e jardins.
Em Alhambra resta então ao turista a chance de retornar à arte dos viajantes: caminhar e exercitar o olhar.
(Marcelo Rezende)
FSP950706-107
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950706
TURISMO
A cidade realiza no início de setembro suas ``corridas goyescas", em que são usados trajes pintados por Goya
Em Ronda (Espanha)
A pequena Ronda disputa com outras duas cidades da região _Sevilha e Córdoba_ o título de mais importante centro de tauromaquia da Andaluzia. Pode nem ser o mais importante, mas é o berço da tourada.
Foi um filho da cidade, Francisco Romero (1698-1763), que instaurou as regras das ``corridas de toros". A tradição da cidade continua com sua ``plaza de toros", de 1785, a mais antiga do país, e com suas ``corridas goyescas".
No início de setembro, os três melhores toureiros do país vêm à cidade para se apresentar frente aos melhores touros miúra da região, e vestidos com trajes idênticos aos pintados pelo pintor espanhol Goya (1746-1828) em sua série sobre tauromaquia.
A cidade possui ainda, dentro de sua plaza, um museu sobre o tema, com fotografias, trajes e indumentária usada na manifestação.
Fora de sua ``plaza de toros", Ronda cativa ainda mais o visitante. Localizada no alto de um monte de mais de 150 metros, a cidade é dividida em duas pelo rio Guadalevín. Três pontes unem as duas ``Rondas" e oferecem as melhores vistas da cidade.
(CF)
FSP950706-108
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TURISMO
Em Granada (Espanha)
O visitante de Granada que desejar prolongar sua estada na cidade e assim conhecer também seus arredores não vai se arrepender.
Guadix, por exemplo, atrai por ser a maior cidade troglodita da região (boa parte de seus habitantes vivem em ``cuevas", casas construídas em baixo da terra). Fica cerca de uma hora de ônibus de Granada.
As partes aparentes das residências _cerca de duas mil na cidade_ são sempre pintadas de branco, o que lhe confere um belo contraste com a cor ocre da terra.
A cidade possui ainda _dignas de visita_ uma catedral com torre renascentista e fachada barroca e uma fortaleza árabe. Outra particularidade da pré-histórica Guadix é que, mesmo sob domínio árabe, foi permitido a seus habitantes preservarem a fé cristã.
(CF)
FSP950706-109
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950706
TURISMO
Presuntos, queijos e frutas frequentam mesas e livros
CELSO FIORAVANTE
Em Granada
Toda a riqueza da Andaluzia, evidente em sua história e cultura, também pode ser sentida em sua mesa, uma das mais ricas de toda a Espanha e cujos sabores já foram cantados por poetas e escritores.
O sevilhano Baltasar del Alcazár, não podendo optar entre três amores, colocou-os todos em quatro versos: ``Tres cosas me tienem preso/ de amores el corazón/ la bella Inês, el jamón/ y las berenjenas con queso".
O presunto cru (jamón), a berinjela e o queijo, citados por Alcazár, são unanimidades nacionais e ingredientes sempre presentes nas ``tapas", canapés encontrados em bares e tabernas, principalmente em Sevilha.
Os três ingredientes, mais azeitonas, batatas, legumes e carnes, como o rabo de touro, são constantes na cozinha de montanha, característica da região de Alpujarra (entre Granada e Almería).
Contraposta à cozinha de montanha, está a cozinha de mar, com seus pescados fritos. Sardinhas, merluzas, camarões e lulas convivem com frutas, saladas e sopas frias, como o gazpacho, especialidade de Málaga.
No século 14, depois de conhecer toda a África do Norte e grande parte da Ásia, o geógrafo marroquino Ibn Battuta percorre a Andaluzia, de Granada a Málaga. Em suas memórias registra a beleza desta última e o sabor de suas frutas, principalmente a romã (granada, em espanhol). ``Las granadas no tienen igual en el mundo", escreveu em suas memórias.
Málaga também cede seu nome ao vinho licoroso local, um ótimo acompanhamento para qualquer refeição, de mar ou de montanha.
FSP950706-110
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TURISMO
Do enviado especial à Andaluzia
Em uma cidade como Sevilha, o visitante aprende rápido que o que há de mais moderno já virou ruína, enquanto o que é centenário sobrevive sob o frescor do novo. Sevilha é a capital da Andaluzia.
Uma lição demonstrada por um passeio pela margem do rio Guadalquivir, que atravessa a cidade do sul ao norte, onde os turistas apressados disparam suas máquinas em direção a um monumento de apenas três anos: os pavilhões da Expo 92.
A Expo, uma feira mundial que contou com a participação de 110 países, realizada em 1992, foi para Sevilha a grande esperança de modernização. Um plano fracassado, como demonstra seu alto índice de desemprego, o desmanche e ferrugem dos pavilhões, convertidos em atração turística provisória.
O que permanece em Sevilha é a tradição, materializada em sua catedral onde os séculos se sobrepõem, um edifício que mistura uma grande variedade de estilos arquitetônicos _como a Giralda, um mirante erguido onde antes era uma mesquita_ e onde estaria sepultado Cristóvão Colombo.
E há também, ao lado da visão que a cidade tem de si mesma como uma moderna capital européia, com seus bares e hotéis sofisticados, restaurantes que misturam a culinária andaluza de pescados aos avanços quase gráficos da cozinha francesa, uma outra que se sustenta nos bairros tradicionais.
O bairro de Tristana é onde o morador se reconhece como espanhol e cristão, com suas ``bodegas" (adegas) que circundam o Guadalquivir, assinalando uma intensa vida noturna, garantida ao turista por apenas US$ 20.
Tristana é também onde os sevilhanos se reúnem para a missa dos domingos, discutem suas preferências, namoram e se afligem pela tourada que acontecerá à tarde.
No mês de junho, para a surpresa dos conservadores, touros morreram na arena com a renda revertida para o movimento gay espanhol. Mas, apesar da diversão, não há nada mais forte que a religião.
Todos os anos o governo gasta US$ 100 mil para a manutenção de suas 89 catedrais, espalhas por toda a Espanha e que estão, em boa parte, em Sevilha.
Nos feriados religiosos, as procissões se espalham pelas ruas, enquanto moradores exibem os altares que guardam em suas casas.
Ao menos em Sevilha, cada cidadão tem sua virgem, escreveu o poeta brasileiro João Cabral de Melo sobre a cidade onde morou.
Como os fiéis no centro da cidade, orando em nome de uma espantosa ``Nossa Senhora da Solidão".
(Marcelo Rezende)
FSP950706-111
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950706
TURISMO
Mesquita-catedral exemplifica os conflitos militares e religiosos que ocorreram na Andaluzia entre árabes e cristãos
Do enviado especial à Andaluzia
Nos finais de semana, no centro histórico da cidade de Córdoba, dezenas de turistas se aglomeram com suas máquinas fotográficas e caminham em silêncio, ao lado de um guia que lhes explica a ``mesquita-catedral da cidade".
Ela é um grande monumento, em uma terra tão repleta deles como a Espanha, à intolerância.
Um dos maiores legados arquitetônicos erguido pelos povos árabes, a mesquita-catedral possui 24 mil m2, o que faz com que os andaluzes a qualifiquem, orgulhosos, de a maior mesquita do mundo muçulmano. O que, a rigor, é uma inverdade.
Não por seu tamanho, ou grandeza de qualquer espécie. Mas pelo fato de que não é mais uma mesquita. Os muçulmanos não podem mais rezar no lugar, já que todo o prédio foi convertido em um templo católico, quando os cristãos tomaram a cidade.
Sua história se inicia entre os anos de 780 e 785, quando Abderraman 1º deu início à construção da mesquita. No mesmo solo onde, antes, havia a basílica de San Vicente.
Várias ampliações ocorreram no prédio ao longo dos séculos, quando os cristãos espanhóis tomaram conta do local.
Mas, no lugar de derrubar todo o prédio, preferiram tomá-lo quase como uma referência e alteraram parte de sua arquitetura interna, para construir várias capelas em seu interior.
Toda a construção guarda uma verdadeira confusão de estilos, passando do gótico ao barroco em apenas poucos metros. Mas a mesquita guarda ainda um pouco do que foi o seu estilo original.
Ao caminhar por seu interior, o turista quase se esquece de que se trata de um prédio erguido em adoração a um deus, ou a dois deles, e o que resta é um apanhando de um momento de embate, onde a ideologia se misturou, de forma brutal, à religião.
Mas Córdoba não é só a cidade da mesquita, ou das ruínas do tempo em que o único império que dominava o mundo era o romano.
É também a cidade de um pintor _um acaso feliz da Andaluzia como certos homens aproveitaram a luz do lugar_ conhecido por pintar a cidade de Córdoba apenas para os cidadãos de Córdoba: Júlio Romero de Torres (1874-1930).
Em retribuição a essa fidelidade, a cidade instalou em sua casa o museu Júlio Romero Torres, localizado próximo à igreja de São Francisco, que exibe uma coleção de suas obras.
Ao contrário de Picasso, a obra de Torres é voltada, quase que em essência, aos temas folclóricos, sem aspiração à vanguarda.
Olhar as imagens de Torres é então uma maneira de perceber Córdoba e seus personagens, tomados pelo sono em lugares ensolarados.
Aos jovens do lugar resta o orgulho de a cidade ser o berço de uma das mais populares bandas de rock da Espanha: o Medina Azahara, batizado em homenagem às ruínas de uma cidade árabe, mais uma atração turística local.
O grupo mistura o rock pesado, música flamenca e ainda sons que aprenderam de músicos marroquinos. Um pouco como todo o resto da cultura andaluza, exemplificada pela cidade de Córdoba.
(Marcelo Rezende)
FSP950706-112
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TURISMO
Em Córdoba
A região de Andaluzia comemora este ano, com uma série de mostras em várias cidades, os 800 anos da presença árabe na região.
Organizada em ordem cronológica, ``El Arte Islámico de Granada y su Reino", em cartaz até 30 de setembro em Granada, mostra em sete salas, de forma absolutamente didática, o desenvolvimento das artes na região sob as diversas dinastias que a povoaram.
A água, elemento fundamental em toda a cultura islâmica, é tema da mostra ``El Água en la Agricultura de Al-Andaluz", em Almería (até 15 de julho).
Ronda exibe, também até 15 de julho, o legado científico árabe. Ponto alto na mostra são as reproduções de bisturis, serras, fórceps e outros instrumentos cirúrgicos descritos na enciclopédia médica de Abu-l-Qãsim al-Zalrãwi. A obra, do final do século 10, representa o momento de maior destaque da medicina andaluza.
``Música y Poesía al Sur de Al-Andalus", em Sevilha, exibe instrumentos musicais e representações, como esculturas, relevos e pinturas, referentes ao tema.
O visitante poderá ainda ouvir os instrumentos exibidos já que toda a sonorização do espaço foi feita com suas melodias. A mostra produziu, além de dois catálogos, um CD sobre o tema.
Para setembro, já estão programadas novas mostras para Huelva, Córdoba e Granada.
(Celso Fioravante)
MAIS INFORMAÇÕES: El Legado Andalusí (Calle Molinos, 65, tel. 00 34 58 22-5995, fax 00 34 58 22-8644, Granada, Espanha)
FSP950706-113
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TURISMO
Tensão gerada pelo atual caso de espionagem foi precedida por tentativa de golpe (1981) e guerra civil (1936-39)
CLÓVIS ROSSI
Da Reportagem Local
A Espanha é o Brasil que deu certo, ao menos do ponto de vista político-institucional.
Como o Brasil, a Espanha viveu um prolongado período autoritário, mas dele emergiu de uma maneira tão pacífica como o Brasil e muito mais organizada, ainda mais se considerados os antecedentes.
Ao contrário do Brasil, em que o autoritarismo do período 1964/85 nasceu de um golpe militar clássico, a ditadura espanhola instalou-se ao terminar uma guerra civil (entre 1936 e 39) que causou um milhão de mortes e partiu o país em dois.
Os vencedores (conservadores de vários matizes, integristas católicos, fascistas locais e monarquistas) instalaram-se no poder sob o comando de ferro do generalíssimo Francisco Franco Bahamonde.
Os derrotados (comunistas, anarquistas, socialistas, republicanos e liberais) foram para o exílio, para a clandestinidade ou para a morte pura e simplesmente até com o uso do garrote vil, instrumento medieval de punição.
A ditadura franquista só terminou com a morte do próprio Franco, em novembro de 1975.
Apesar de o ditador assegurar sempre que ``estaba todo atado y bien atado", referindo-se ao nó institucional franquista, a morte de Franco desamarrou tudo.
Em junho de 1977, a Espanha realizava as primeiras eleições livres depois de 40 anos.
A partir daí, conduziu uma transição suave e segura, sob o comando dos conservadores Adolfo Suárez e Leopoldo Calvo Sotelo.
Tão suave que, em 82, foi possível, sem traumas, a eleição do socialista, Felipe González, para o cargo de presidente do Governo, nome oficial do posto que, na verdade, é o de primeiro-ministro.
Durante a ditadura, González era ``Isidoro", codinome que usava no período em que seu centenário PSOE (Partido Socialista Operário Espanhol) estava condenado à clandestinidade.
Mas o mérito da transição pacífica não pertence só aos políticos. O rei Juan Carlos teve nela um papel decisivo. Primeiro, na colaboração para desatar os nós franquistas, supostamente bem atados.
Depois, na rápida e contundente reação a uma tentativa de golpe de Estado, praticada em 1981 por um coronel inconformado com a democracia restaurada pouco antes.
Foi graças à restauração democrática que a Espanha pôde participar da Comunidade Européia, o clube dos países mais avançados da Europa, hoje com 15 membros.
E o engajamento europeu ajudou imensamente no ``boom" econômico que a Espanha viveu a partir de então.
Hoje, no entanto, a situação é menos rósea. O PSOE, ainda no poder, está acossado por uma chuva de denúncias que vão de corrupção até escuta clandestina praticada pelo serviço secreto. Uma das vítimas, suspeita-se, foi o próprio rei Juan Carlos.
Na semana passada, caíram dois dos principais auxiliares do premiê, o vice-primeiro-ministro Narcís Serra e o ministro da Defesa, Julián Garcia Vargas.
Por isso, o turista brasileiro que se dedicar a ler jornais espanhóis vai ficar com a sensação de que o país está imerso em uma enorme crise. Os espanhóis podem até concordar, mas será por desconhecimento de como a transição brasileira foi muito mais turbulenta, em especial na economia.
Tanto que Espanha e Brasil têm economias similares, na altura dos US$ 500 bilhões de produção anual de riquezas (o PIB, Produto Interno Bruto). Mas, como a população espanhola é cerca de quatro vezes menor, cada espanhol é, em tese, quatro vezes mais rico do que cada brasileiro.
FSP950706-114
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950706
TURISMO
Cidade no Marrocos explica todo o passado Andaluz
Do enviado especial a Tânger
Saindo do porto de Algeciras, na Espanha, o viajante chega a Tânger, no Marrocos, em uma viagem de uma hora e meia que se traduz em séculos, pelo mar do Mediterrâneo.
Tudo o que o turista conheceu como lenda e passado na Andaluzia se torna então o presente do mundo marroquino, com suas mesquitas e mulheres que atravessam as ruas em um tom distante para com o estrangeiro.
Tânger funciona como uma resposta à herança árabe da Espanha, que trata toda a cultura do islã como eco e ressonância.
Mas a cidade é também marcada pelos longos anos de colonização sofridas pelo país, estilizados em seus hotéis e cafés, construídos sob a influência da arquitetura francesa ou espanhola, e onde marroquinos à caráter ou tristemente ocidentalizados se concentram no movimento das ruas.
Uma cidade _e um país_ notabilizado pela idéia de fuga, onde o espírito europeu se abrigava de sua própria cultura.
Como os franceses Gustave Flaubert (1821-1880), que ao lado de sua ``Madame Bovary" peregrinava por todo tipo de harém, enquanto Eugène Delacroix (1798-1863) os pintava.
Toda essa história é presente nos becos da Medina, a parte antiga de Tânger, onde o mais comum dos turistas pode se perder, pela variedade de ofertas e cores do comércio, entre os marroquinos.
Da parte alta da cidade, de onde é possível ver o mar, o Atlântico se encontrando com o Mediterrâneo e, depois, voltando a se dividir, o passeio conduz aos bairros americanos, franceses e espanhóis.
Ruas que reforçam a idéia de Tânger estar associada ao exílio, onde as ruínas são as antigas casas de ocidentais ou árabes, conhecidos na cidade por suas orgias e encantamento com os marroquinos.
Para quem chega da Europa, a cidade parece, à primeira vista, estar longe do que um turista espera, espelhando menos segurança, ofertas de diversão ou conforto.
Mas assim como um ocidental entende tão pouco da reza em uma mesquita, uma cidade como Tânger oferece um outro tipo de turismo, que possibilita o abandono dos reconfortantes guias de viagem e convida ao mergulho em uma cidade livre
A possibilidade, então, de realizar uma ligação entre a história e a cultura, por meio das lindas praias do país ou das conversas entre os marroquinos.
A chance de colocar em foco, por fim, tudo o que a Andaluzia conta dos muçulmanos da África. Sem precisar recorrer à miragem que o ocidente sempre faz do ``outro" que usa vestes estranhas.
(Marcelo Rezende)
FSP950706-115
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TURISMO
Escritores, poetas, músicos e acadêmicos procuram no lugar uma pausa para o moralismo judaico-cristão
Do enviado especial a Tânger
A todo aquele que busca aventura ou fuga a cidade de Tânger lebrará sempre um homem: o escritor americano Paul Bowles, que se converteu em uma espécie de clichê sobre o Marrocos.
Escritor e músico, Bowles, que mora até hoje no Marrocos, decidiu permanecer em Tânger por culpa de seu extremo tédio em relação à cultura da Europa, expressado em ``O Céu que nos Protege", seu mais famoso romance, que depois seria transformado em filme dirigido pelo italiano Bernardo Bertolucci.
As experiências de Bowles e Bertolucci ainda ecoam na cidade. Os guias falam da casa onde mora ``o escritor americano" ou apontam os lugares que serviram de locação para o filme.
Vemos então as entradas dos bares ou um velho hospital, os lugares onde os atores Debra Winger e John Malkovitch levaram ao mundo a imagem, além de todas que a cidade já possui, de Tânger como uma cidade romântica.
Mas Bowles é apenas o exemplo máximo de um outro roteiro que a cidade oferece, baseado nas experiências, quase sempre existenciais, de alguns visitantes ilustres. São casas, bares ou praias indicadas com desenvoltura pelos marroquinos.
Assim, quando se volta pela estrada que leva ao bairro americano se vê uma casa isolada, no meio de um descampado, onde o músico inglês Briam Jones, logo depois de abandonar os Rolling Stones, se encantava com a música marroquina e o haxixe, uma droga comum, até hoje, nas ruas da cidade.
Quando se chega até a parte mais antiga de Tânger, a Medina, um pequeno café pintado em cores de um intenso azul, com apenas três mesas e um balcão de madeira, é apresentado como ``o café preferido" do guitarrista americano Jimi Hendrix e de Jim Morrison, líder do Doors, uma das bandas mais incediárias da Califórnia no auge do psicodelismo.
Resta, a quem visita o lugar, acreditar ou não em todas as histórias. Das drogas às orgias.
Mas há também os lugares que podem passar despercebidos até para os guias locais, que não se interessam em explicar ao viajante que foi na praia de Merkala que escritores americanos, como Willian Burroughs e Jack Kerouac, passeavam, quase sempre intoxicados pelo ópio.
Ou ainda as ruas onde o francês Roland Barthes caminhava, quando podia se afastar das aulas que ministrava na faculdade da cidade de Rabat, nos anos 60, no tempo que, para toda a França, a cidade de Tânger e todo o Marrocos eram apenas o ``Magreb", a região das colônias francesas na África.
Mas poucos, como Bowles, permaneceram. A grande maioria seguiu Barthes, que partiu em seu fusca vermelho pela Andaluzia, de volta à sua França de origem.
Na maioria dos casos, o que todos desejavam era apenas tirar férias da moral judaico-cristã em um lugar exótico, dotado de uma pobreza pouco agressiva, herança incomum de um violento passado de colonização.
(Marcelo Rezende)
FSP950706-116
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950706
TURISMO
Do enviado especial a Tânger
Como em todo país de cultura árabe, também a vida de Tânger é regulada pelo comércio. Logo que o visitante chega à cidade, identificado como um estrangeiro, é atacado por vendedores.
Na cidade tudo está a venda. Do que existe de mais típico, como braceletes e enfeites, até produtos um pouco mais sofisticados.
Mas, depois de se acostumar com a velocidade dos vendedores berrando suas mercadorias, o turista é obrigado a entender que nada no lugar possui um preço e que tudo demanda uma negociação.
Para os interessados nos belíssimos tapetes do Marrocos, uma lição que deve ser aprendida rapidamente. Os preços geralmente se iniciam acima dos mil dólares e pode, dependendo da capacidade _e paciência_ do comprador chegar a um terço do preço inicial.
Uma das cenas mais comuns na cidade é ver um vendedor perseguindo um turista que acaba de sair, apavorado, de uma loja. De maneira alguma um marroquino aceita a derrota.
Aos consumidores que aguardam a atos de gentileza e refinamento, o melhor é se preparar para cenas de puro desequilíbrio: ``A orgia dos interesses equilibrava-se com os delírios da miséria", como escreveu Flaubert. Sobre a Europa.
(Marcelo Rezende)
FSP950706-117
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TURISMO
A 60 km da capital chilena e em plena cordilheira dos Andes, a estação de esqui se diferencia pelo cosmopolitismo
MARTA AVANCINI
Enviada especial ao Chile
A primeira impressão que o visitante tem ao chegar a Valle Nevado é a de estar em uma ilha. Só que em vez de água, ele depara com neve e montanhas por todos os lados.
Localizado a 60 km de Santiago, capital do Chile, e a 3.165 metros de altitude em plena cordilheira dos Andes, o Valle Nevado é uma das principais opções para quem esquia (ou quer aprender a esquiar) na América do Sul.
Ao lado de La Parva, Colorado e Farellones, o Valle Nevado é uma das quatro estações chilenas que juntas compõem a maior superfície esquiável do hemisfério sul, os chamados ``Três Vales dos Andes", com 107 km de pistas.
A diferença de Valle Nevado em relação às outras é o cosmopolitismo. Enquanto as três primeiras são frequentadas predominantemente por chilenos, no Valle prevalecem estrangeiros, principalmente argentinos e brasileiros.
Quando o visitante começa a subir o Caminho de Farellones, em direção ao Valle Nevado, ele deixa o mundo urbano e começa a experimentar a vida nos gelados picos andinos.
A estrada é a única via de acesso terrestre a Valle Nevado. Partindo de carro ou ônibus de Santiago, o visitante sobe 2.605 metros cordilheira acima em uma viagem que dura cerca de duas horas, se o tempo estiver bom, isto é, se não tiver nevado.
A maneira como a distância até Valle Nevado é medida já é um indicador da mudança dos referenciais. Em vez de quilômetros, a distância é medida em curvas: até o Valle são 69 curvas de 180 graus cada, tendo de um lado um paredão formado pela cordilheira e de outro um precipício.
A vegetação e o ar rarefeitos, somados ao clima seco com temperatura em torno de 5 graus Celsius negativos, também são indicadores de que o viajante está entrando em outro ambiente.
Mas, mais do que o clima, a vida em Valle Nevado tem lógica e ritmo próprios, ditados pelo esqui, obviamente, e pelo lazer.
Para tanto, o Valle Nevado oferece a seus visitantes uma ampla infra-estrutura para a prática do esporte e de lazer.
O centro tem 25 pistas, com diferentes graus de dificuldade, que podem ser usadas para esquiar, passear de trenó ou motoneve, uma espécie de jet ski das neves.
A hospedagem é garantida por três hotéis (de três a cinco estrelas) e um condomínio que, juntos, podem receber 1.330 pessoas. No centro também há um supermercado, um centro médico, uma farmácia e várias lojas.
Já o lazer (e o prazer) são garantidos pelos restaurantes, bares e boate do centro.
LEIA MAIS
Sobre o Valle Nevado nas págs. 6-16 a 6-18
MARTA AVANCINI viajou a Valle Nevado a convite da Maktour e da Ladeco.
FSP950706-118
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950706
TURISMO
Homoerotismo ainda é crime no Chile, Equador e Cuba
LUIZ MOTT
Especial para a Folha
O Brasil goza a fama de ser o ``paraíso gay" da América do Sul. Os turistas homossexuais que visitam nosso país _desde que não tenham sido assaltados ou vítimas de uma bala perdida!_ geralmente planejam voltar.
Quando comparam o Brasil com outros países latino-americanos, dizem que o ``ambiente" é mais descontraído, os homens mais bonitos e limpos e maior a disponibilidade dos nativos para transar.
No principal guia turístico homossexual, o Spartacus International Gay Guide, aparecem 33 cidades brasileiras onde há ao menos um bar, discoteca ou pousada recomendada por um gay.
Esses locais estão em cidades como Conceição da Barra (ES), São João del Rey (MG) e nas grandes capitais.
Tal número é superior ao da Argentina _apenas oito indicações_, mas fica muito distante da frenética Austrália, que apesar de possuir apenas 17 milhões de habitantes, oferece 44 localidades com centenas de estabelecimentos destinados às minorias sexuais.
Minoria não tão desprezível estatisticamente, pois enquanto os índios brasileiros não chegam a 500 mil almas, os homossexuais devem ultrapassar em nosso país 15 milhões de indivíduos.
Brasil sinônimo de ``paraíso gay" é exagero: podemos exibir, de fato, algumas vantagens face a nossos vizinhos latino-americanos.
Por exemplo, aqui, desde que a Inquisição foi extinta em 1621, a ``sodomia" (como era chamado o homoerotismo) deixou de ser crime, o que até hoje não aconteceu no Chile, Equador, Nicarágua e Cuba, onde gays, lésbicas e travestis ainda podem ser presos.
Pesquisas revelam que, dentre todas as minorias sociais _judeus, negros, índios_, os homossexuais são os mais rejeitados pelos brasileiros, apesar de constar em 73 leis orgânicas municipais a expressa proibição de discriminar por ``orientação sexual".
Para lutar contra o preconceito, denunciar a discriminação e conquistar o direito à mesma cidadania dos demais cidadãos, funcionam grupos de gays, lésbicas e travestis, destacando-se o Grupo Gay da Bahia, o Atobá no Rio, o Dignidade em Curitiba e Um Outro Olhar em São Paulo, os quais, há quase duas décadas defendem os interesses da categoria.
Entre suas atividades culturais, os interessados podem contar com alguns roteiros e guias turísticos: Guia Gay da Bahia (caixa postal 2.552, Salvador, BA) e o Guia Brasileiro de Gays e Lésbicas (tel. 021-331-1527).
LUIZ MOTT, 49, antropólogo da Universidade Federal da Bahia, é fundador do Grupo Gay da Bahia.
FSP950706-119
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TURISMO
Por R$ 847, a Soletur (011-231-4244) tem um pacote de quatro noites para a estação de esqui argentina, com mais três noites em Buenos Aires. Estão previstas visitas aos lagos Moreno e Escondido, baía de Lopez, Llao-Llao, Puerto Moreno, Cerro Campanário e Cerro Catedral. Em Buenos Aires haverá um city tour e tempo livre para compras. O preço inclui hospedagem em apartamento duplo, passagem aérea, café da manhã, quatro jantares, traslados e guia local. Pode ser parcelado em até quatro vezes. As saídas são diárias.
FSP950706-120
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TURISMO
O roteiro da Spark Viagens e Turismo (tel. 011-851-5377) é de oito dias. O preço, US$ 1.300, inclui passagem aérea, hospedagem em apartamentos quádruplos, pensão completa, roupas e equipamentos para a prática de esqui ou snowboard, seguro de saúde, traslados e uma entrada para uma das mais movimentadas discotecas da cidade. Aulas de esqui extras custam a partir de US$ 16. Para quem mora em São Paulo, a agência oferece gratuitamente um mês de condicionamento físico na academia Fórmula (Shopping Eldorado).
FSP950706-121
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TURISMO
A Fenix tem um programa de sete noites para a estação de esqui no sul da Argentina a partir de US$ 922 (ou 20 parcelas de US$ 69). O roteiro inclui hospedagem, café da manhã, jantar, traslados (transporte do aeroporto para o hotel), passeios com guia (Circuito Chico, Cerro Catedral e Vila Angostura), jantar folclórico, ingressos para o cassino e seguro de viagem. As próximas saídas acontecem nos dias 29 e 30 de julho. Informações em São Paulo pelo tel. (011) 255-4666 e, no Rio de Janeiro, pelo tel. (021) 235-2929.
FSP950706-122
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950706
TURISMO
Da Reportagem Local
A Varig e a TAM inauguraram novos vôos com destino a Fortaleza neste ano.
A Varig (R$ 681,28 é o preço da passagem para Fortaleza, ida e volta) e Vasp (R$ 596,13) têm vôos diretos e diários para a capital cearense.
A TAM (R$ 865) tem vôos de segunda a sábado com escalas em Ribeirão Preto (SP).
Já a Transbrasil (R$ 680) também tem vôos diários, mas com escalas.
Pacotes
Confira os preços de pacotes para Fortaleza. São por pessoa, com acomodação em apartamento duplo, para o mês de julho.
R$ 569 - Oito dias, com passagem aérea, hospedagem, traslados (transporte entre aeroporto e hotel) e passeios para Beach Park e praia de Cumbuco. Na Taks Tour.
R$ 654 - Roteiro é de sete noites com hospedagem, traslados, bilhete aéreo e passeios para Cumbuco e Beach Park. Na Soletur.
R$ 760 - O roteiro da Transatlântica é de cinco dias. Inclui passagem aérea, hospedagem com café da manhã, traslados, city tour e também passeios para Cumbuco e Beach Park.
R$ 889 - Com hospedagem no hotel Caesar Park, o roteiro da Nascimento Turismo inclui ainda passagem aérea, traslados, passeios para Cumbuco e Beach Park.
R$ 1.050 - Com cinco dias de hospedagem no hotel Caesar Park de Fortaleza e três dias em Cumbuco. O preço inclui ainda passagem aérea, city tour e traslados. Consulte a Beeline.
BEELINE: tel. (011) 284-5049; NASCIMENTO: tel. (011) 258-5722; SOLETUR: tel. (011) 283-0300; TAKS TOUR: tel. (011) 968-9515; TAM: tel. (011) 578-8155; TRANSATLÂNTICA: tel. (011) 259-7300; TRANSBRASIL: tel. (011) 228-2022; VARIG: tel. (011) 530-3922; VASP: tel. (011) 536-5055