PUBLICO-19940619-001
PUBLICO-19940619-001
19940619
Sociedade
AEMQ
Artes e ofícios
Um total de 31 escolas do ensino básico estão no Mosteiro da Batalha até segunda-feira para mostrar um conjunto de acções pedagógicas no campo das artes e ofícios tradicionais. O encontro é encerrado oficialmente na segunda-feira, às 12H30, pelo secretário de Estado da Educação e Desporto, mas a exposição prolonga-se até ao fim da tarde.
Páideia
A secretária de Estado da Juventude, Maria do Céu Ramos, prometeu a continuação do programa Páideia e o seu alargamento a novas cidades. O programa Páideia--Animação Artística nas Escolas foi oficialmente encerrado na sexta-feira, no Centro de Juventude de Braga. O programa, que decorreu em 24 escolas de 11 cidades do país, envolveu mais de 25 mil alunos do ensino secundário num «pacote» de actividades culturais entre as quais se incluiam a dança, a música, o teatro, a fotografia, a banda desenhada, a ilustração, a literatura e as artes plásticas.
Curso de Verão
«Repensar as reformas educativas em Portugal e Espanha» é o tema do Curso de Verão/94 que, entre 13 e 16 de Julho, vai juntar vários especialistas na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro. Para além da comparação entre as reformas dos dois países, este encontro vai servir também para serem apresentados alguns conteúdos transversais dessas reformas. Entre eles encontra-se a educação sexual, a educação cívica, a educação do consumidor e a educação ambiental.
FNE escreve
A Federação Nacional dos Sindicatos da Educação (FNE) enviou uma carta à ministra da Educação onde admite que o próximo ano lectivo se pode iniciar «em clima de instabilidade, se se mantiver a actual situação». Manuela Teixeira, secretária-geral da FNE, critica o facto de Manuela Ferreira Leite não ter apresentado propostas nem resoluções para os problemas apontados numa reunião que teve lugar há dois meses. Entre outras exigências, a FNE insiste na necessidade de se clarificar as condições de concurso para os quadros de zona pedagógica, de se especificar as condições de contagem de tempo de serviço dos professores e de se concluir o Estatuto da Carreira Docente.
PUBLICO-19940619-002
PUBLICO-19940619-002
19940619
Sociedade
DN
Problemas financeiros afectam
Universidade de Coimbra
As faculdades da Universidade de Coimbra viveram, na passada sexta-feira, um pouco do aperto financeiro que está a asfixiar gravemente algumas das escolas.
O «problema é grave em todas as faculdades, mas particularmente na de Letras e Medicina», confessou ao PÚBLICO o administrador da Universidade, Armando Pereira, que admite haver problemas também em Farmácia. Algumas das faculdades falam em «bancarrota» e já manifestaram o seu receio de que as portas não se abram para o próximo ano lectivo.
A retenção, por parte do Governo, de cinco por cento das verbas orçamentadas para pessoal e funcionamento agravou a «penúria» em que normalmente vivem, explica Carlos Fortuna, do Conselho Directivo da Faculdade de Economia. Há escolas que não pagam luz, água, telefones, que deixaram de adquirir material e não têm dinheiro para cumprir os contratos de serviços de limpeza.
Mas, na sexta-feira, Armando Pereira conseguiu uma «solução técnica»: as faculdades podem pedir a antecipação dos duodécimos com a garantia de que, quando mais tarde (Outubro ou Novembro) o problema se levantar de novo, será resolvido. Ciente de que esta não é melhor solução --Ê«o que queríamos era os cinco por cento já» --, o administradorÊjulga que é a possível e que permitirá «respirar um pouco» até final do ano.
Carlos Fortuna aceita a sugestão, mas fica um pouco céptico: «a situação não se compadece com promessas de melhorias a termo, onde os reforços são sempre adiados». Apesar de a ministra da Educação já ter dito que os cinco por cento seriam devolvidos, entre a «promessa e a concretização vai uma razoável distância», alerta. «Estamos numa situação dramática, com a faculdade à beira do abismo, quase numa economia de guerra, de risco, onde gerimos o défice de sete mil contos que nem os duodécimos até Outubro resolverão», frisa o professor. Sublinhando que o cenário é «mais grave do que nos outros anos, perfeitamente desmotivador e preocupante», considera que «está claramente em causa a abertura do ano lectivo».
Ambiente de desânimo
Aliás, o ambiente na Faculdade de Economia é de desânimo, havendo mesmo uma ameaça velada por parte dos alunos de que, se o estado de coisas assim se mantiver, tomarão a seu cargo iniciativas que impedirão o começo das aulas do próximo ano.
E esta não é a faculdade em pior situação. Letras está bem mais inquieta. João Roque, presidente do Conselho Directivo, classifica a situação de «desprestigiante e inadmissível». Com menos 66 mil contos (a fatia correspondente dos cinco por cento) e sem as verbas do Prodep e das relativas ao aumento do número de alunos e de cursos, acumula dívidas de água, luz, telefone, manutenção de elevadores e serviços de limpeza. «Se isto não se resolver, teremos que tomar uma posição, que pode comprometer o início do ano lectivo».
Em Medicina, Poiares Baptista lamenta que «a situação seja ainda pior do que a de Letras». É que dos 1,325 milhões de contos do orçamento para 1994, 95,5 por cento são para gastos com pessoal. Com os cinco por cento «cativos» e sem querer mexer no ordenado das pessoas, os dinheiros para despesas de funcionamento rareiam.
Menos pessimista está Sá Furtado, da Faculdade de Ciências e Tecnologia. Apesar de ter havido um período em que os telefones estiveram cortados (a Telecom mudou de procedimento e deixou de ser «paciente» -- havia contas por pagar desde Agosto de 93), o professor considera a situação «má, mas não pior do que no ano passado».
Há dificuldade em contratar docentes, o que é comum a todas as faculdades, desistiram de assinaturas de revistas científicas e continua a não haver reagentes nos laboratórios. Mas tudo isso «já acontecia no ano passado...»
O reitor diz-se atento ao problema e adianta que se reuniu com o secretário de Estado do Ensino Superior para analisar o caso, «quer em termos de orçamento de funcionamento quer de investimento». Pedro Lynce terá reafirmado a posição da ministra, assegurando «o cumprimento integral do orçamento que havia sido inicialmente fixado para a Universidade de Coimbra».
Dulce Neto
PUBLICO-19940619-003
PUBLICO-19940619-003
19940619
Sociedade
Montemor-o-Velho é palco para teatro escolar
«TOC-a-acordar» os talentos
Leonete Botelho
A reforma educativa vai no sentido de serem as escolas a escolherem as áreas que querem ter e a Secundária de Montemor está a marcar pontos no teatro. Este ano, o seu dinamismo e o de outras escolas no campo teatral é celebrado no II TOC -- Teatro e Oficinas de Criatividade.
À sombra das muralhas do castelo de Montemor-o-Velho, centena e meia de jovens de sete escolas secundárias do país mostraram ontem os seus talentos artísticos e teatrais em espaços semi-arruinados da vila. É o II TOC, Teatro e Oficinas de Criatividade, uma iniciativa da escola secundária local que é também mais uma achega para a divulgação do teatro, área em que Montemor já é referência.
«Vêm outra vez para a escola, juntam-se ali junto às estrelas. Nas mochilas, as máscaras saem dos livros e, à sombra de um plátano a crescer, se instala a tribuna, a tasca, a praça pública... Partem depois pelas azinhagas da velha vila a revelar os reis que dormem acocorados na réstea das muralhas.»
Feito assim o convite, vieram os jovens acampar nas traseiras da escola para ali passar o primeiro fim-de-semana das férias. Desde terça-feira que o ambiente do TOC se sentia na escola, subtilmente enfeitada de máscaras. E, ainda antes da chegada dos grupos convidados, já um concerto de «rock» tinha marcado o ritmo, colorido pelas exposições artísticas que invadiram os bares da vila.
Mas foi na sexta-feira que o teatro arrancou, com o Clube de Teatro da escola anfitriã a contar a «Tragédia de Zuleida», a lenda de uma princesa moura que se apaixonou por um vulto que afinal eram dois cavaleiros cristãos de Coimbra; e, para não ter que escolher entre um deles, acabou por encenar um torneio para encobrir o seu suicídio.
«A crise da adolescência, o despertar do amor, o suicídio» são temas sempre actuais, tanto mais que o concelho rural de Montemor-o-Velho tem «números tristes em matéria de suicídio juvenil», como refere Júlio Sousa Gomes, um dos dinamizadores da iniciativa.
A dimensão
pedagógica
Professor da Oficina de Expressão Dramática da escola de Montemor, Júlio Gomes explica o que é o TOC: um espaço de encontro de jovens que gostam de teatro, «um pretexto para falar do património histórico de Montemor-o-Velho e um trabalho complementar ao festival de teatro Citemor», com grande importância na formação de públicos.
«O mais apaixonante no teatro é ser este um encontro entre a história e a arte, a língua, a arquitectura, o `design' e, acima de tudo, um grande espaço de confronto connosco próprios», diz, salientando a dimensão pedagógica da disciplina.
E se, como afirma, «a reforma educativa vai no sentido de serem as escolas a escolherem as áreas que querem ter», a Secundária de Montemor está a marcar pontos no teatro. Mas continua a faltar-lhe um espaço apropriado para a actividade. «O projecto seguinte é conseguirmos construir um teatro de bolso, ou uma sala polivalente nestes espaços amplos que ainda temos», diz Júlio Gomes. Quanto ao TOC, esse é para continuar, porque «a ideia é criar um ritual novo e incentivar a vinda de novas gentes», que, aliás, já começam a chegar.
Ao longo de três dias, desfilaram pelos espaços mais inesperados as encenações das escolas participantes, em ambiente de festa e convívio que se sentia mesmo nas pausas do programa. Depois da «Tragédia de Zuleida», que deu início ao festival, o grupo Os Títeres, do Instituto Pedro Hispano, mostrou «A Estátua» na Azinhaga da Alegria e, logo a seguir, no castelo, João Grosso encantou com a «Ode Marítima» de Álvaro de Campos. Na manhã de ontem, «ressacados» de teatro, os estudantes estendiam-se languidamente pelo átrio da escola, quando não se juntavam em volta de uma viola, enquanto outros se entretinham no «atelier» de máscaras e cabeçudos.
A tarde seria preenchida com o «Auto da Índia» do grupo GATO SA, da Escola Secundária de Santo André, que recentemente ganhou o festival de teatro da Barraca, com a mesma encenação. Do Seixal para a cadeia velha de Montemor, os estudantes trouxeram «Concílio do Amor», de Oscar Panizza, enquanto o grupo Indizível, da escola José Estevão de Aveiro, optou pelo «Labirinto», que encenou entre as igrejas da Madalena e Santo António. Já depois da meia-noite, coube a vez ao grupo Viv'Arte, de Oliveira do Bairro, de contar «Algumas Histórias de puxar as Orelhas a Meninas e Meninos Bem- Comportados».
Hoje, a Teatroteka do Vouga, da C++S de Valongo do Vouga, vai acordar o acampamento com a peça «Este Mundo e o Outro»; em seguida, João Grosso dinamiza um «atelier»/encontro para todos os participantes. Às 15h, começa a festa-convívio onde serão entregues os prémios dos concursos de fotografia e cartaz.
Depois, TOC-a-dispersar, e até para o ano...
PUBLICO-19940619-004
PUBLICO-19940619-004
19940619
Cultura
Giotto descoberto
Um especialista de arte italiano revelou na sexta-feira que uma pintura em madeira que inicialmente se pensara ser uma imitação era afinal uma verdadeira obra de Giotto Di Bondone, pintor medieval. Filippo Todini, professor de História de Arte na Universidade de Udine, disse que a «Madonna e Criança» atribuída a um imitador que no século XVIII pintara «à maneira» do pintor falecido em 1337, saíu afinal das mãos do próprio Giotto. Representa a Virgem sentada com a criança nos braços, sob fundo dourado. Foi durante os trabalhos de restauro que os especialistas descobriram que as várias camadas de pintura aplicadas ao quadro durante séculos tinham escondido a assinatura de Giotto «Jot f.», ou seja, «Jottus fecit», «feito por Giotto», e a data 1297. «Estou certo da autoria. É um dos trabalhos de Giotto que é citado em fontes históricas mas que se julgava perdido», assegurou Todini, citado pela Reuter. A pintura terá sido encomendada pelo Papa Bonifácio XVII. Giotto, que morreu em 1337, é famoso pelos frescos sobre a vida de S. Francisco que pintou na catedral de Assis.
PUBLICO-19940619-005
PUBLICO-19940619-005
19940619
Cultura
Madredeus
Os Madredeus e a cantora cabo-verdiana Cesária Évora foram incluídos numa lista dos 35 nomes mais importantes da «worl music» publicada pela edição de sexta-feira do diário espanhol «El Pais». O artigo, publicado no suplemento «Tentaciones», reporta o que consideram ser «os ritmos mais vibrantes» do mundo. Em relação aos Madredeus, o «El Pais» diz que «desde os tempos de Amália Rodrigues não se ouvia uma voz como a de Teresa Salgueiro, a cantora deste fascinante grupo»; sobre Cesária Évora, «que na ex-colónia portuguesa é conhecida como `a dama descalça'», traça-se o percurso de uma mulher que «passou quase 30 anos cantando melancólicas mornas em bares da ilha de São Vicente por umas moedas e uns copos» e que agora vende na Europa milhares de cópias do seu último disco «Miss Perfumado».
PUBLICO-19940619-006
PUBLICO-19940619-006
19940619
Cultura
PM
Último filme de Spike Lee arrasado pela crítica
O que quer dizer «Crooklyn»?
Paulo Moura em Nova Iorque
Spike Lee fez um filme insuportável. Não é sobre nenhuma personagem famosa, não tem história, não tem humor, não tem drama, não tem nada. As críticas arrasaram-no. Mas «Crooklyn» tem um segredo. É um filme ambíguo até à medula e, por isso, uma provocação.
O que quer dizer «Crooklyn»? Ninguém sabe, antes de ver o filme. E depois de o ver... também não. Alguns críticos nem se dão ao trabalho de pensar mais no assunto. Outros, para mostrar que não têm má vontade, constroem teorias. Número um: «Crooklyn» é a forma como a família pronuncia o nome de Carolyn, uma das heroínas do filme. Nesse caso, não se sabe se é um diminutivo carinhoso ou depreciativo, ou se significa alguma coisa, ou porque foi promovido a título do filme.
Teoria número dois: «Crooklyn» significa os «crooks» (vigaristas, escroques) de Brooklyn, o bairro de Nova Iorque onde decorre a acção, durante os anos 70. A ser assim, fica sem se compreender se os «crooks» são a família Carmichaels, que são as personagens principais do filme, ou os dois gandulos (o próprio Spike Lee interpreta um deles) que passam os dias a enfiar as carantonhas de tanso num saco de papel castanho para snifarem cola. Ou todos os habitantes de Brooklyn.
«Crooklyn», seja lá o que isso significa, não tem história nenhuma. Mostra apenas o dia-a-dia de uma família da classe média negra, os Carmichaelis -- o pai, Woody (Delroy Lindo), um pianista de jazz que não consegue ganhar um tostão para sustentar a família; a mãe, Carolyn (Alfre Woodard), professora, que acaba por expulsar Woody de casa e morre de cancro, num desenlace de dramatismo gratuito e falso; quatro rapazes que passam as mais de duas horas do filme a desancar uns nos outros enquanto vêem televisão; e uma rapariga dos seus 10 anos, Troy (Zelda Harris), que rouba no supermercado, passa horas ao espelho a enfiar pares de folhas de jornal amarrotadas por baixo da blusa, vai passar uma temporada a casa de uma tia, no Sul, não se percebe porquê, acede a enfiar a cara no pacote de cola dos gandulos do bairro e vagueia pelas ruas de Brooklyn com uma névoa inerte sobre os olhos enormes, uns olhos de intensidade vazia, abandonados. Uns olhos que doem, porque é através deles que Spike Lee quis que víssemos a sua família, o seu bairro, o seu filme.
Uma história sem história
«Crooklyn» não tem linha narrativa, é uma sequência aleatória de cenas banais, o que o torna quase insuportável. Não fala de nenhum acontecimento ou personagem controverso, que despertasse o interesse por si só, como era o caso de «Malcolm X». Não tem princípio, meio e fim, as acções e os diálogos não são significativos em função de nenhuma intriga, nem sequer para a definição de personagens típicas ou singulares.
Spike Lee diz que o seu filme pretende fugir aos «clichés» do gangster rap, do hip-hop, das histórias de droga e violência nos bairros negros das grandes cidades. Preferiu observar a vida de uma família normal, numa época anterior ao grande surto da violência urbana. E fê-lo como Sun Ra concebia uma peça de free-jazz, sem ordem nem estrutura identificáveis.
O filme é uma colagem, uma justaposição, mais do que uma sequência, e há apenas um elemento que empresta algum sentido a sucessão arbitrária das cenas: a música. É preciso ouvi-la, e perdermo-nos demoradamente nos olhos desmaiados de Troy, para tudo de súbito ter significado, como naqueles borrões de tinta de que emergem formas e figuras pela insistência do olhar.
Intelectuais negros nos EUA sustentam que a colagem e o ritmo são estratégias narrativas próprias das culturas africanas. A «história» é o único modelo de representação do tempo conhecido nas sociedades ocidentais, o único prisma através do qual a realidade se torna inteligível. É por isso que «Crooklyn», mostrando acontecimentos vulgares, parece um pesadelo.
O último filme de Spike Lee aposta na ambiguidade. Não se sabe onde acaba a incompetência do realizador e começa a nossa incompreensão do universo mental negro americano. E no seio dessa ambiguidade Lee joga a provocação.
A acção não é pobre nem rica porque se trata da autobiografia do autor: foi assim que as coisas se passaram, e não de outra forma. Lee, que viveu a infância em Brooklyn, com três irmãos e uma irmã, o pai músico de jazz e a mãe professora, que morreu de cancro, escreveu o argumento do filme em conjunto com a irmã, Joie Susannah Lee, e um dos irmãos, Cinque Lee.
Troy representa a irmã de Spike, Joie, e é a figura central do filme. Através dos seus olhos, é irrelevante se os acontecimentos são contingentes ou necessários: são condicionantes, superiores, inelutáveis. Através dos olhos de Troy, os irmãos são insuportáveis, a vida no Sul é horrível, e na cidade também, Carolyn, a mãe, é uma mulher perfeita, e o pai, Woody, não é um cabotino, mas um músico genial incompreendido, que se recusa a fazer cedências. «Toco a minha própria musica», diz ele, e Troy não compreenderia que o irmão depois de crescer, Spike Lee, fizesse de outra forma.
PUBLICO-19940619-007
PUBLICO-19940619-007
19940619
Cultura
AMS
Pelechian ou o movimento incessante
«Nós» é o título de um dos filmes de Artavazd Pelechian, que ontem terá passado em Vila do Conde. «Nós», quem? Esta primeira pessoa do plural tem equivalência num povo: os Arménios.
Certamente que esta determinação nacional não é indiferente à obra de Pelechian. Mas algo a resgata da mera afirmação nacionalista. Como esclarecem duas outras obras maiores e magistrais, anunciadas para hoje, «As Estações» e «O Nosso Século», o cinema de Pelechian, estando ainda fundado na particular experiência cultural de um povo secularmente dominado (e objecto, em 1915, de uma tentativa de genocídio, por parte do poder otomano), é um cinema que pelos meios da montagem (reunindo materiais originais e de arquivo) pretende um relato simultaneamente colectivo e pessoal.
«Nós»? Em que território se origina esta pessoa plural? Na Arménia, já se disse, mas sobretudo no território do cinema. Se «O Nosso Século» tem por objecto a aventura astronáutica soviética, pode dizer-se que hoje em dia muitos poucos são, como Pelechian, os meteoros que passam pelo cinema mundial.
Outro caso meteorítico, Paradjanov, tinha-nos alertado para ele. E num como noutro, por imensas que sejam as diferenças, forçoso é constatar que os códigos dominantes do entendimento do cinema ficam fortemente perturbados. E que, num caso como noutro, há um lado que se diria «primitivo» que é simultaneamente o de uma descoberta. Talvez ainda mais no caso de Pelechian por ele nos sugerir simultaneamente um estranho efeito de contemporaneidade: na sucessão das imagens dos seus filmes dir-se-ia que nos deparamos com um efeito de «zapping», como o que poderíamos ter nas mudanças constantes de canais televisivos, não se desse o caso de eles serem todos basicamente equivalentes, não se desse o caso de com Pelechian um sentido relativamente preciso ir ressaltando.
Como não pensar nos clássicos soviéticos da montagem, Eisenstein, Kulechov ou Vertov? Só que enquanto cada um deles, embora por vias diferentes, procurava um sentido preciso na sucessão na montagem de dois planos, Pelechian opta pelo que designa (conforme as traduções) por «montagem em contraponto» (conceito ainda aproximável do de Eisenstein) ou «montagem à distância», procurando um possível sentido não na contenção imediata mas na expansão no tempo -- em durações sempre limitadas (não mais de uma hora), privadas de verbalização, sugerindo um tempo que, por curtas ou médias que sejam as metragens, sugerem um eterno retorno desse fundamento cinematográfico que é o movimento.
Houvesse neste país uma escola cinematográfica ou um núcleo cinéfilo onde efectivamente se discutissem as questões teóricas e práticas do cinema, e os materiais cinematográficos e a notável solidez teórica dos textos de Pelechian deveriam ser matéria de muita reflexão. Por agora, fiquemos perante esse acontecimento imenso que é a apresentação em Portugal, em Vila do Conde, desse grandíssimo cineasta que é Artavazd Pelechian. A.M.S.
PUBLICO-19940619-008
PUBLICO-19940619-008
19940619
Cultura
AMS
Hitchcock vai à guerra, Bergman faz publicidade
Uma das tendências mais constantes da cinefilia pode definir-se em termos de uma paradigma filológico. Com crescente insistência assiste-se a operações de «restauração», à apresentação de supostas versões integrais ou de algumas obras mais ou menos menores de autores maiores cuja difusão nunca tinha ultrapassado o âmbito instrumental que regeu a sua própria concepção.
No circuito comercial, vão sendo acolhidos os chamados «director's cut» (os quais, ao contrário do que suporá uma concepção extrema do papel determinante do autor na obra cinematográfica, nem sempre são mais interessantes que o «producer's cut»). No mercado videográfico e sobretudo do «laser-discs» (mormente nos Estados Unidos) vão surgindo reuniões de materiais utilizados e não-utilizados na montagem «oficial» de um filme, por vezes de considerável valor didáctico, como naqueles casos, em «laser», em que um dos canais de som comporta um comentário que pode ou não ser retido pelo utilizador no momento da visão-audição. E, em festivais, espaços exponenciais da cultura cinéfila, sucedem-se a apresentação de curiosidades diversas, desde supostas «estreias mundiais da versão integral do filme X» (que, caricaturando um pouco, chega a ter um ou dois planos a mais que a versão conhecida) até produtos audiovisuais feitos em contextos produtivos-instrumentais extremamente precisos.
Neste dia final do 2º Festival Internacional de Curtas-Metragens de Vila do Conde, o programa prevê duas dessas «curiosidades», recentemente «restauradas»: «Une Aventure Malgache», de Alfred Hitchcock, e nove anúncios publicitários de Ingmar Bergman.
No programa do Festival, «Une Aventure Malgache» terá já sido precedido de «Bon Voyage». Ambos os filmes se integram na contribuição de Hitchcock para o chamado «esforço de guerra». Representam certamente um capítulo pouco conhecido do trabalho de «Hitch», o qual, aliás, viria ainda a supervisionar a montagem de «Memória dos Campos», primeiro documento cinematográfico dos Aliados dando testemunho visível da existência dos campos de concentração nazi, no caso a libertação dos sobreviventes de Dachau -- e que, curiosamente, ou antes, como sintoma da própria incomodidade dos Aliados em tornar visível as manifestações do genocídio, permaneceu largo tempo arquivado.
Como esforço de propaganda, «Bon Voyage/Aventure Malgache» não têm, sem sombra de dúvida, a importância extraordinária da série americana «Why We Fight», supervisionada por Frank Capra. O seu objectivo era, aliás, mais localizado: destinava-se a populações francófonas, basicamente das colónias. Será preciso um grande esforço teórico, mesmo eventualmente «snob», para em filmes tão instrumentalmente determinados reconhecer a marca de Hitchcock (num formato semelhante, são bem mais interessantes os contributos directos do realizador e até a sua ostentação de «apresentador» para o «show» televisivo «Hitchcock presents»).
Como princípio estrutural, a propaganda e a publicidade serão tendencialmente homólogas. Num momento em que a contaminação dos métodos é tão insistente, seria particularmente fascinante, embora de extrema dificuldade organizativa, conceber um programa de «spots» feitos por grandes realizadores cinematográficos. Para nos situarmos em tempos recentes, e não atendendo prioritariamente àqueles realizadores que são de matriz publicitária (para dar apenas um exemplo, a organização do tempo e do espaço com vista a uma «mensagem» publicitária no caríssimo anúncio realizado por Hugh Hudson -- também director de «spots» para o Partido Trabalhista britânico, numa reiteração de quão ténues são as fronteiras entre publicidade e comunicação política -- para a British Airways é muito mais curiosa que qualquer longa-metragem sua), caberia rever o que fizeram Godard ou Fellini, Woody Allen ou David Cronenberg. Têm esses um importante precedente: Ingmar Bergman.
Em 1951, ele dirigiu nove «spots» para um marca de sabões. Ao que parece, fê-lo com grande liberdade de concepção, para além da possibilidade de nove variações ser relativamente rara. Sempre ao nível de um conhecimento supletivo, que nunca fundamental, há que notar que esta pequena séria, a exibir hoje no encerramento do Festival de Vila do Conde, é por demais curiosa.
Para além das aparições inesperadas, que não deixaram de ter consequências na obra real de Bergman (como a aparição em «A Princesa e o Guarda dos Porcos» de uma jovem então de 15 anos que viria a ser presença fulcral no universo bergmaniano, Bibi Andersson), são especialmente curiosos «spots» como «O Inventor», «O Espectáculo Cinematográfico» ou «Número de Prestidigitação», com a insistência de Bergman no carácter mágico, potencialmente hipnótico e fundamentalmente sedutor do espectáculo cinematográfico. No tal esforço teórico e se calhar algo «snob», poderão encontrar-se aí recuados fundamentos de «Persona» ou mesmo (o teatro de marionetas) «Fanny e Alexandre». Digamos apenas que Bergman colocou em relevo as características do aparato cinematográfico como instrumento de sedução, princípio do cinema mas também da publicidade. Como curiosidade, é mesmo assaz curiosa.
Augusto M. Seabra
PUBLICO-19940619-009
PUBLICO-19940619-009
19940619
Cultura
IC
Isabel Coutinho
Colecção «Narrativa Actual» vendida em quiosques
Um sucesso nos primeiros números
«Narrativa Actual», a colecção semanal de ficção lançada pela Editores Reunidos no final do passado mês de Abril, em cerca de 5 mil quiosques, tabacarias e livrarias portuguesas, está a ser um sucesso.
José Carlos Nobre, director-geral do grupo Planeta em Portugal -- umas das empresas responsáveis pela colecção «Narrativa Actual», vendida em quiosques -- disse ao PÚBLICO que o número 1 («Memorial do Convento» de José Saramago com a oferta de «A Insustentável Leveza do Ser», de Milan Kundera, por 99500) irá vender cerca de «90 mil exemplares». «A venda ainda não está fechada, mas o que temos já é um bom número», acrescentou. A empresa ainda não tem os números totais porque os quiosques ainda não devolveram as sobras, e há locais onde os livros esgotaram e houve novos pedidos. Esta colecção de capa dura tem uma tiragem de mais de 100 mil exemplares, e a partir das duas primeiras semanas, em que fizeram ofertas de lançamento, o preço de capa passa a ser 149500 .
Apesar de serem distribuídos pela Mideza em cerca de 5 mil quiosques, durante estes dois meses apareceram livros à venda nas livrarias. Por exemplo na Barata, em Lisboa, que tem também uma secção de revistas e jornais. A «Narrativa Actual» esteve também à venda na Feira do Livro de Lisboa e do Porto. Esta operação foi de «pura pirataria» explica José Carlos Nobre, referindo-se à venda nas feiras. «A Associação Portuguesa de Editores e Livreiros (APEL) não fiscalizou, nós não demos autorização para essa venda e as editoras [Dom Quixote e Caminho] também não.» De facto os livros estiveram à venda nas feiras, no «stand» de um livreiro que também tem um quiosque, e que assim vendia, a um preço mais baixo, os mesmos títulos que se encontravam à venda ao seu lado nos «stands» das editoras. No Porto, estavam à venda na Casa do Livro, e em Lisboa eram vendidos através da Sodilivros.
Nova colecção no segundo semestre
As vendas estão a correr tão bem que a Editores Reunidos --uma «joint- venture» entre as espanholas Editora Planeta Agostini e a RBA Editores -- está a estabelecer contactos com editoras para lançar uma segunda colecção de livros em quiosque no segundo semestre deste ano. Mas tudo está ainda no segredo dos deuses.
Os primeiros números desta colecção venderam-se mais nas cidades do que nas terras do interior, o que mostra que é um produto eminentemente urbano: em Lisboa e no Porto vendeu-se quatro vezes mais do que no resto do país. Vendeu-se mais no Norte do que no Sul, e mais no litoral do que no interior. «Não quero ser injusto para ninguém, mas quer em volume de vendas, quer em unidades vendidas nos dez primeiros números já nos conseguimos colocar entre as cinco maiores editoras portuguesas», diz José Carlos Nobre.
A Editores Reunidos não faz números para esgotar porque as pessoas «sentem-se defraudadas quando vão à procura de um livro para completar a colecção e ele já está esgotado», explica. «Produzimos sempre 30 por cento a mais dos que os números que pensamos que vamos vender.» A experiência de Espanha mostra que a partir do momento em que os livros foram retirados dos quiosques, dispararam as vendas da edição normal nas livrarias. Em Portugal, essa venda na livraria está a acontecer mais com «A Insustentável Leveza do Ser», de Milan Kundera, do que com «Memorial do Convento», de José Saramago, os primeiros números desta colecção que foram lançados em simultâneo.
PUBLICO-19940619-010
PUBLICO-19940619-010
19940619
Cultura
Filipinas autorizam «Belle Epoque»
As autoridades filipinas autorizaram a exibição no país do filme espanhol «Belle Epoque», vencedor do Óscar de melhor filme estrangeiro deste ano. A película, considerada «obscena» e «absurda», estava interdita nas Filipinas desde o início do mês. A comissão de censura resolveu agora mudar de opinião e justificou-se dizendo que «a imoralidade da película é dissimulada pelo seu absurdo, o que permite que os adultos a possam ver». Antes tinha dito que «Belle Epoque», do realizador espanhol Fernando Trueba, «troçava da fé e da religião católica».
PUBLICO-19940619-011
PUBLICO-19940619-011
19940619
Cultura
Aveiro dança no Brasil
A Companhia de Dança de Aveiro (CDA) vai efectuar durante os primeiros 20 dias de Agosto uma digressão por diversas cidades brasileiras, nomeadamente Brasília, Rio de Janeiro, Salvador da Baía, Recife, Belém do Pará e Belo Horizonte.
A digressão tem o apoio da Secretaria de Projectos Educacionais Especiais (SEPESPE) do Ministério da Educação e do Desporto do Brasil e da SEC portuguesa. Para além disso, a CDA recebe ainda o apoio do Instituto Português da Juventude e da Câmara Municipal de Aveiro. No programa da digressão por terras brasileiras destaca-se um espectáculo para o corpo diplomático acreditado em Brasília e diversas actuações nas denominadas Casas de Portugal.
Esta será a segunda grande digressão internacional consecutiva da CDA, que no ano passado representou Portugal no Festival Internacional de Dança de Macau, tendo aproveitado a oportunidade para actuar em Hong Kong e estreitar relações com a Academia de Bailado de Pequim. Para o director-executivo da companhia, José Luís Pereira, as digressões internacionais «contribuem para a melhoria técnica do corpo de bailado e surgem como uma recompensa para os seus membros, que trabalham ao longo do ano em condições de grande sacrifício pessoal».
Desde a sua fundação, em 1986, a CDA tem realizado um trabalho de divulgação da Dança nas vertentes clássica e moderna que lhe valeu diversos elogios da Secretaria de Estado da Cultura. Recentemente, o delegado regional da SEC, Carlos Páscoa, chamou à CDA «a companhia residente da Região Centro do país», enaltecendo a qualidade técnica dos bailarinos, que são dirigidos pela coreógrafa Maria do Carmo Costa.
Neste momento, a CDA é composta por 13 bailarinos de ambos os sexos, todos oriundos de diversos concelhos do distrito de Aveiro. A necessidade de revitalizar a companhia levou a direcção da CDA a promover no próximo dia 24 de Junho audições para bailarinos profissionais e pré-profissionais. José Luís Pereira entende que a «CDA precisa de estagiários, pois devido à escassez de meios financeiros é muito difícil manter os bailarinos como profissionais, a trabalhar exclusivamente para a divulgação da dança». A selecção dos novos bailarinos será feita pela coreógrafa Elisa Worm, ex-presidente da Comissão Instaladora da Escola Superior de dança de Lisboa.
Antes de partir para o Brasil, a CDA vai cumprir uma curta temporada de espectáculos, que arranca já no próximo sábado com uma actuação no Castelo de Santa Maria da Feira. Seguem-se espectáculos em Aveiro (30 de Junho), Esposende (16 de Julho) e Viseu (23 de Julho). A companhia aveirense embarca para o Brasil no último dia do mês de Julho.
Rui Baptista
PUBLICO-19940619-012
PUBLICO-19940619-012
19940619
Cultura
«Em Nome do Pai» não é verdade
O filme «Em Nome Pai», sobre um homem preso por engano, acusado de ser um bombista do IRA, não deve ser anunciado como uma história verídica porque mistura factos com ficção, avisou o organismo oficial britânico Advertising Standars Authority (ASA). A United International Pictures, a distribuidora do filme, realizado por Jum Sheridan e interpretado por Daniel Day-Lewis, no papel do homem que passou 14 anos na cadeia, apresenta-o como uma história verdadeira, em cartazes e outro tipo de anúncios. «A autoridade considerou que a afirmação segundo a qual se trata de uma história verdadeira não se justifica dado o grau de liberdade dramática e interpretativa», afirmou um comunicado da ASA.
PUBLICO-19940619-013
PUBLICO-19940619-013
19940619
Cultura
Fellini
Uma grande exposição sobre o cineasta Federico Fellini, falecido em Outubro do ano passado, será inaugurada em Roma, em 20 de Janeiro de 1995, anunciou a comissão promotora da iniciativa, presidida pelo presidente da Câmara da capital italiana. Segundo a France Presse, a mostra contará com fotografias de acontecimentos marcantes na vida do realizador e da sua mulher, Giulietta Masina (falecida seis meses depois do marido) bem como desenhos do próprio, manuscritos e fatos usados nos seus filmes. O estúdio do cineasta em Roma será reconstituído na exposição, que consagrará uma secção às "mulheres de Fellini". A 18 e 19 de Janeiro, a capital italiana será ainda palco de um colóquio internacional sobre o realizador -- e, em breve, uma rua de Roma será baptizada com o seu nome. O Museu de Arte Moderna (MOMA) de Nova Iorque, Los Angeles e Tóquio receberão também esta esta exposição, posteriormente.
PUBLICO-19940619-014
PUBLICO-19940619-014
19940619
Cultura
LMA
Crítica de Música
Luís M. Alves
Saia um cartão laranja ...
Na esteira de um empolgante movimento de embevecimento da classe política pela riqueza metafórica da aplicação do conceito de cartão amarelo às coisas da governação, é altura de explorar as potencialidades da figura de cartão laranja que pigmentalmente se situa entre o amarelo e o vermelho, que como sanção fica para além da admoestação e aquém da expulsão, que no imaginário cristão condena a uma estadia entre o Purgatório e o Inferno.
Longe de mim cobrar direitos de autor aos esgrimistas do verbo politiqueiro por futuras apropriações desta coloração do instrumental punitivo -- tão mais sugestiva quanto é óbvia a sua adequabilidade ao actual quadro das ditas alternâncias democráticas que, aliás, se jogam apenas ao nível dos partidos que só elegem três deputados para o Parlamento Europeu. Se recorro a exibir a cartolina laranja -- e passe a circunstância de a Câmara de Sintra reclamar o editestrelato da iniciativa --, é porque as condições oferecidas à pianista Hélène Grimaud e ao público que assistiu ao seu recital no Palácio Nacional de Sintra, no dia 16 de Junho, merecem uma reprovação que hesito em considerar como preferível a nem sequer a ter ouvido.
Sem rodeios: proporcionar a oportunidade de ouvir uma pianista na qual se concentram muitas atenções de quem acredita que é inesgotável a reinvenção da música do passado, num espaço em que as sonoridades do piano se propagam e reflectem como se oriundas de um sino, de uma caverna, é um acto de desrespeito por quem emite e recebe o gesto reinventivo.
Se a isto se acrescentar que o que se ouviu do piano se misturou incessantemente com os sons da água brotando das fontes dos jardins, do chilrear da passarada, dos batimentos de asas dos pombos, dos ruídos do tráfego, das apitadelas dos polícias, já será suficiente para demonstrar a leviandade do propósito. Mas foi pior: nunca, em qualquer concerto a que assisti, foi tão incomodativo o ranger das cadeiras que os organizadores distribuiram pala sala. E sendo evidente que alguma excessiva irrequietude dos rabos que nelas se sentavam amplificaram o efeito perturbador, remetendo para o (pouco) público presente parte da responsabilidade pelo nefasto enquadramento da visita de Grimaud - acentuada por tosses nos momentos mais requerentes de introspecção, para não falar nos patetas aplausos a meio das obras - não se atenue a responsabilidade da organização por nem sequer ter informado o público sobre as obras que eram interpretadas, numa atitude displicente e arrogante que admite que quem assiste a um espectáculo do Festival de Sintra é obrigado a adquirir o programa geral dos 12 concertos que o constituem.
Nestas condições -- ainda prejudicadas por uma aparatosa queda da pianista quando vinha agradecer os aplausos --, é provável que Hélène Grimaud não tenha usufruído dos requisitos de concentração mental, de motivação, para nos oferecer o melhor da sua imaginação, da sua sensibilidade, ainda assim detectáveis na sublime op.109 de Beethoven (não anunciada), integrando admiravelmente na solidez estrutural da concepção mágicos «pianissimi» e desencantadas formulações dos elementos condutores (ou aglutinadores, no caso das variações do último andamento) do discurso.
A tónica na escolha de obras outonais de Beethoven (a referida op.109) e Brahms (peças op.116, 117 e 118) poderia ter ganho em consistência global de concepção do programa, se a sonata de Beethoven tivesse sido substituída pelas admiráveis 4 peças da op.119 brahmsianas. Ou, em termos meramente qualitativos, se mantendo o Beethoven, a op.119 tivesse substituído a op.117, manifestamente menos interessante. Mas, mais importante, teria sido o ter permitido ouvir Hélène Grimaud numa envolvente que deixasse reflectir com justeza o seu trabalho de recriação destas obras, designadamente no tocante às sonoridades pretendidas para uma sala concebida para ouvir música. Esperemos que o facto de o Director Artístico do Festival de Sintra ser também o Director do Serviço de Música da Gulbenkian, acrescente à intenção de nos permitir o convívio com Hélène Grimaud a possibilidade de a ouvir brevemente em condições propícias à revelação da plenitude dos seus talentos, da sua arte.
PUBLICO-19940619-015
PUBLICO-19940619-015
19940619
Cultura
Prémio Imperial japonês atribuído
O pintor francês de origem chinesa Zao Wou-Ki, o escultor americano Richard Serra, o arquitecto indiano Charles Correa, o compositor francês Henri Dutilleux e o actor britânico John Gielgud são os premiados 1994 do Praemium Imperiale, o Prémio Imperial do Japão, que é considerado um Prémio Nobel das Artes. O anúncio dos laureados foi feito quarta-feira no Museu de Arte Moderna de Nova Iorque, em presença de seis conselheiros internacionais que participam na escolha dos artistas representados: Jacques Chirac (França), Amintore Fanfani (Itália), Edward Heath (Grã-Bretanha), Helmut Schmidt (Alemanha), Yasuhiro Nakasone (Japão) e David Rockfeller Junior (Estados-Unidos). Atribuído depois de 1989 pela Associação Japonesa das Artes (Japan Art Association) este prémio tem como mecenas o grupo de comunicação japonês Fujisankei. Cada premiado recebe 15 milhões de yenes (cerca de 150 mil dólares).
PUBLICO-19940619-016
PUBLICO-19940619-016
19940619
Cultura
Internacional de Animação por Computador
Um festival sem artistas de carne e osso
Rui Martins, em Genebra
Um festival de cinema com artistas sintéticos, entre eles uma Marilyn Monroe, foi a atracção, em Genebra. Estavam em cartaz 52 filmes, todos feitos por computador, mas que podiam ser vistos de uma só vez, numa única sessão de cerca de duas horas, pois a média da sua duração era de 2,5 minutos.
Sete anos depois do primeiro Festival Internacional de Animação por Computador, muitos progressos foram conseguidos. Marilyn Monroe, que estava no cartaz do festival de 1987 e no deste ano, mudou bastante. Na primeira versão andróide, movia-se com gestos rígidos, como se tivesse acabado de sofrer um derrame. Sete anos mais tarde, não tem nenhuma ruga, melhorou as curvas e começa a ter movimentos mais ordenados, quase restabelecida do choque cerebral.
Dentro de alguns anos, a criadora dessa Marilyn e presidente do Festival, a engenheira informática da Escola Politécnica de Lausanne Nadia Magnenat Thalmann, garante uma Marilyn com a graça e o «sex-appeal» daquela que viveu em carne e osso. Ou seja, enquanto as actrizes humanas se suicidam ou envelhecem, a nova estrela criada por complexos programas e cálculos de computador fica cada vez mais jovem e poderá despertar paixões no público do futuro.
Este ano o Festival foi mais exigente -- os filmes deviam ter no mínimo 80 por cento de imagens sintéticas e não se aceitavam trucagens. E, antes de começarem a classificar os filmes, os membros do júri receberam um conselho: este não é um festival de vídeo, nem de cinema, nem de belas artes, mas antes de tudo de simulação visual.
Os cientistas da simulação de seres humanos, uma nova especialidade gerada directamente pela realidade virtual, desejam muito mais do que fazer «spots» publicitários para televisão. Sentem-se como deuses capazes de criar seres quase humanos, dotados de uma inteligência artificial e de simular uma parcela das actividades do cérebro humano. «Este novo campo de pesquisa, o da vida artificial, baseia-se na biologia e no comportamento para recriar efeitos visuais da vida», afirma Nadia Thalmann.
O objectivo final é criar seres virtuais autónomos ligados a poderosos sistemas de dados multimedia. Este novo homem sintético ou virtual será mais informado do que o homem comum e capaz de ensinar tudo quanto os humanos reais terão necessidade de aprender. Novos programas darão aos seres virtuais, além do conhecimento, autonomia e capacidade para tomarem decisões, sem se falar nos modelos de auto-aprendizagem. O risco será o de esses seres poderem interferir no mundo dos humanos, porque eles serão também praticamente vivos. Serão mais perfeitos do que o computador Hal, de «2001 -- Odisseia no Espaço» de Arthur Clarke, pois, além de sentimentos, terão uma representação visual.
Entre os filmes exibidos este ano, os objectivos eram mostrar superfícies lisas, os pelos dos animais, o reflexo da luz na água das piscinas e o uso dos músculos faciais, cuja simulação ainda não é perfeita. O filme vencedor do festival foi «KO Kid», francês, da Buf Compagnie, acerca de uma luta de boxe onde até as estrelas são sintéticas.
O prémio Silicon Graphics International foi para o filme «Rhapsody in light and blue», devido às proezas técnicas obtidas pelos cientistas da Universidade de Hiroshima. Ao explorarem o efeito da luz sobre a água das piscinas, chegam a provocar no expectador vontade de mergulhar.
O prémio Sony foi para um «spot» publicitário -- «Smirnoff Message in a Botle» -- sobre alucinações depois da passagem de uma garrafa de vodka. O público escolheu como melhor o filme «A ra Koa», também francês, do grupo Fantome Animation, que mostra uma guerra entre insectos sombrios e coloridos.
Legenda -- O estudo dos músculos faciais no filme canadiano «Alpo Parle»
PUBLICO-19940619-017
PUBLICO-19940619-017
19940619
Cultura
SCA
Festival de Curtas-Metragens de Vila do Conde termina hoje
Testemunhos da arte e da vida
Sérgio C. Andrade
Já na contagem decrescente para a entrega de prémios, o II Festival de Curtas-Metragens de Vila do Conde tem contado com um público numeroso e festivo. E também com a presença de muitos cineastas portugueses e estrangeiros, ao lado da actriz dos filmes de Wim Wenders, Solveig Dommartin, que não quer dar entrevistas. Mais prolixos têm sido os filmes, que têm mostrado e falado da vida, do cinema, da literatura, da morte... Das imagens do mundo.
A actriz Alexandra Lencastre vai ser a apresentadora da sessão de encerramento e entrega de prémios relativos à segunda edição do Festival Internacional de Curtas-Metragens de Vila do Conde, que hoje termina. A presença da estrela televisiva da SIC vem dar o toque de (apesar de tudo, despretensiosa) mundanidade num certame que tem contado com a participação de um público numeroso e festivo, que tem até sido bastante complacente com os atrasos nos horários das sessões e com os pequenos incidentes na projecção dos filmes.
A atmosfera acolhedora da esplanada do Auditório Municipal de Vila do Conde e de uma cidade já em preparativos para o S. João explicam o espírito de distensão que se vive no festival, por onde têm passado várias figuras conhecidas do cinema português -- José Fonseca e Costa, Fernando Lopes, Lauro António, Fernando Matos Silva, com a sua equipa do «Cinemagazine», e o membro português do júri internacional, Pedro Costa... --, ao lado de jovens e desconhecidos cineastas vindos de várias partes do mundo. Entre eles, a actriz dos filmes de Wim Wenders e membro mais mediático do júri, Solveig Dommartin, passeia-se rendida às delícias da cidade da foz do Ave, ao mesmo tempo que se esquiva a dar entrevistas e a falar do autor de «Tão Longe, Tão Perto» (e seu ex-marido).
Uma das curiosidades cinéfilas do programa de sexta-feira consistiu, aliás, na exibição de «Arisha, o Urso e o Anel», o mais recente exercício cinematográfico de Wim Wenders, feito imediatamente antes do filme que o cineasta alemão está agora a rodar sobre Lisboa. Com meia hora de duração, «Arisha...» é mais um divertimento cinematográfico do que um filme, mas onde Wenders permanece fiel à sua obra. Trata-se de mais um «road movie» em que o próprio cineasta surge na pele de Pai Natal, num tributo aos cidadãos do mundo e num aceno de simpatia e solidariedade para com os refugiados de países como o Vietname, a Croácia ou o Curdistão.
O programa de sexta-feira foi fértil em testemunhos documentais sobre temas como a vida, a arte cinematográfica e a literatura. Ainda pela câmara de Wim Wenders, foi mostrado «Quarto 666», filme onde o cineasta alemão pôs vários colegas, num quarto de hotel de Cannes, em 1982, a dissertar sobre a morte do cinema e outras «tragédias». Oportunidade para ouvir Godard afirmar que se o filme de cinema desaparecer «não tem importância nenhuma»; Spielberg, sempre optimista, a fazer as contas aos custos de produção de Hollywood; Susan Seidelman a falar da paixão pelos filmes; Herzog, depois de tirar os sapatos, comparar a televisão a «uma espécie de `jukebox'», que se pode desligar a qualquer momento; ou Antonioni a falar longamente da necessidade de o cineasta se ajustar aos desafios do vídeo...
Do lado da literatura, o filme «Ilusões», realizado por um colectivo de cineastas lituanos, deu espaço ao testemunho amargurado do escritor judeu lituano Jokabas Josade, que falou da luta pela liberdade como o único desejo que subsiste no fim da vida. Foi também na perspectiva, consciente, de quem está no fim do percurso existencial que falou o escritor e compositor Paul Bowles, no belo documentário «Um Americano em Tanger», do marroquino Mohamed Ulad-Mohand. Depois de viver há 59 anos naquela cidade, o autor de «Um Chã no Deserto» confessa continuar a sentir-se um turista em Marrocos, de onde não partiu, ainda, por preguiça, mas também por desencanto relativamente ao sentido da evolução da civilização ocidental. «Um Americano em Tanger» termina com o próprio Bowles a encenar um pesadelo recorrente: ver as suas malas partirem num comboio ao mesmo tempo que ele fica em terra; «Bem pior seria o contrário», confessa, no entanto, o escritor.
Dos outros filmes exibidos a concurso, o tom documental foi ainda dominante: em «Pássaro ao Vento», do iraniano Mohammad Reza Serkanian, um discurso panteísta sobre o nascimento de uma criança; em «Jerusalém. Ritmos de uma Cidade Distante», do israelita Dan Geva, uma viagem ao interior da Cidade Santa; em «Weemba», de Maurice Kaboré, do Burkina Faso, sobre o papel determinante da mulher na economia de vida de uma aldeia; a impressionante recolha de imagens de guerra, em «Recortes de Guerra», do russo Vitalij Manskij; ou o belo «O Rio Poderoso», do canadiano Fréderic Back (já visto no último Cinanima).
Do lado da ficção, merecem principalmente referência a divertida animação «Os Gogs», com que os galeses Sion Jones, Deiniol Morris e Michael Mort reinventaram uma família pré-histórica, entre a descoberta do fogo e a luta contra um dinossauro; e também o registo de humor de «No Cais», da americana Stacy Title, num texto prodigioso a gozar com o imaginário do cinema americano, a pretexto de um patrão do sindicato dos estivadores que quer produzir um filme que repare o modo negativo como o tema foi tratado em «Há Lodo no Cais», de Elia Kazan. Depois de nomeado para o Óscar da curta-metragem, não espantará que este filme surja, esta noite, na lista dos premiados em Vila do Conde.
Foto: Mário Marques
Legenda: A actriz Solveig Dommartin (à direita), uma presença mediática, mas reservada, no Auditório Municipal de Vila do Conde
PUBLICO-19940619-018
PUBLICO-19940619-018
19940619
Cultura
CRM
Coliseu do Porto quase vazio
Vitorino experimental
Pouca gente foi ao Coliseu do Porto, na passada sexta-feira, para ouvir «as mais bonitas» canções de Vitorino. A assumida intenção de transformar o espectáculo num «acontecimento de grande impacto mediático», num «marco na carreira» do cantor, saiu furada. Ficou igualmente comprometida a «guerra», declarada por Vitorino pouco antes do intervalo, contra o «excessivo domínio» anglo-saxónico no panorama musical português. Se «as coisas têm de mudar», porque «só 15 por cento da música» que por aí vai passando é feita dentro de portas, como disse o artista, isso não significa que mudem com declarações de intenção. E ainda menos com espectáculos como este.
Vitorino tem-se em muito boa conta. E farta-se de gabar toda a gente que o acompanha. O irmão Janita Salomé é «uma das vozes mais bonitas que chilreia por aí», Filipa Pais não lhe fica atrás, os cabo-verdianos Tito Paris e Maria Alice, convidados para o espectáculo, idem aspas... O que mais dói em tudo isto é que, muito provavelmente, Vitorino tem razão. Mas não chega juntar boas vozes, bonitas melodias e boas intenções para fazer um bom espectáculo.
Antes de tudo, faltou desesperadamente unidade ao «show». Depois, é mentira que se tenha feito qualquer tentativa de «fusão luso-africana», como foi anunciado. O que aconteceu, a meio da primeira parte, foi a entrada desgarrada em palco do som africano de Tito Paris e de Maria Alice, que interpretou de forma soberba uma morna cabo-verdiana. E não chega dizer que «as mornas são fados tropicais» para fundir o que quer que seja. Também a homenagem ao «mestre e amigo» José Afonso, com um tema catalogado de «surrealista» -- «Senhor Arcanjo» -- e um outro «anti-autoritário» -- «A morte saiu à rua» --, apareceu descosida do resto do espectáculo.
As coisas melhoraram muito depois do intervalo. Tudo pareceu mais fácil. Vitorino deixou-se de «experiências» e limitou-se a desfiar parte do seu rol de excelentes melodias populares, que lhe saem da cabeça com inacreditável facilidade. Temas do seu último disco de originais feito sobre letras de António Lobo Antunes e de trabalhos como «Leitaria Garrett» fizeram a alegria da plateia e quase salvavam a noite. É nas marchinhas, no recurso a reminiscências do som das bandas dos coretos de aldeia, nos fados, nos tangos, na temática musical alentejana, que o artista está como peixe na água e bate de longe toda a eventual concorrência. Ao que parece, as ambiências melódicas e temáticas de Vitorino dão-se mal com «impactos mediáticos» e imensas salas como a do Coliseu do Porto.
Carlos Romero
PUBLICO-19940619-019
PUBLICO-19940619-019
19940619
Cultura
Oliveira recebe prémio na Itália
O prémio David de Donatello não é um Óscar, mas o nervosismo do cineasta português Manoel de Oliveira era tão grande como se ele estivesse em Los Angeles. Ontem, pela manhã, Oliveira recebeu em Roma o David Especial Luchino Visconti pelo conjunto de sua obra e pela contribuição para o progresso do cinema mundial. Oliveira foi o primeiro a receber o troféu, antes da atribuição dos prémios aos melhores do ano da cinematografia de Itália, e até leu um pequeno discurso em italiano, língua que não domina.
«Estou muito contente por receber este importantíssimo prémio", disse. «Isto aproxima-me mais de um povo que amo e estimo. Este David que une dois artistas como Donatello e Luchino Visconti honra-me muitíssimo. Agradeço muito. Obrigado», emocionou-se o cineasta, que em seguida foi aplaudido de pé por uma plateia onde estavam o chefe do gabinete de Berlusconi, Gianni Letta, o presidente da assembleia municipal de Roma, Francesco Rutelli, o crítico de cinema e ex-organizador do Festival de Veneza Gian Luigi Rondi e o actual director daquele festival, Gillo Pontecorvo.
O prémio de Oliveira é o mesmo que nos últimos 20 anos foi atribuído a Orson Welles, Stanley Kubrick ou Ingmar Bergman. Mas naturalmente que os jornais italianos deram destaque aos concorrentes nacionais: Nani Moretti, que com seu «Caro Diario», já premiado em Cannes, recebeu o prémio do melhor filme; Carlo Verdone («Perdemo-nos de Vista»), considerado o do melhor realizador; Asia Argento e Giulio Scarpati, os melhores intérpretes. «Em Nome do Pai», de Jim Sheridan, foi considerado o melhor filme estrangeiro.
Manoel de Oliveira consagra-se assim como o cineasta português preferido dos italianos -- basta ver que o actor Alberto Sordi ou o cineasta Alberto Lattuada, presentes na entrega do David de Donatello, cumprimentaram-no com grande entusiasmo. E depois de José Saramago, um dos escritores estrangeiros que mais vendem em Itália, Oliveira é também a personalidade que mais ajuda a conquistar para a cultura portuguesa milhares de admiradores italianos.
Eduardo Tessler em Roma
PUBLICO-19940619-020
PUBLICO-19940619-020
19940619
Tempestade na Florida
Uma tempestade violenta abateu-se anteontem sobre a cidade de Orlando, atingindo o bairro onde se situa o Estádio Citrus Bowl, onde hoje se vai disputar o Bélgica-Marrocos. Em apenas 30', entre as 13h40 e as 14h10 locais, chuva cerrada caiu sobre a cidade, ao mesmo tempo que relâmpagos intensos iluminavam a atmosfera. Este tipo de fenómenos são quase diários nesta época do ano na Florida, mas normalmente acontecem ao fim da tarde, razão pela qual os jogos em Orlando foram marcados para a hora do almoço.
Lei seca na Colômbia
As autoridades colombianas decretaram a lei seca e a proibição de uso e porte de armas de fogo antes, durante e depois dos jogos da selecção da Colômbia no Mundial, a fim de evitar a violência. Estas restrições entram em vigor seis horas antes de cada jogo e terminam seis horas mais tarde a contar do termo das partidas. Medidas que visam, sobretudo, evitar o que aconteceu o ano passado, quando o país se qualificou para a prova: os festejos transformaram-se em tumultos violentos, que provocaram a morte de oitenta pessoas.
Câmaras atentas
Os norte-americanos não brincam em serviço, o que se comprova uma vez mais com a notícia de que o Departamento de Defesa dos EUA emprestou modernas câmaras de televisão em circuito fechado para vigiar o comportamento dos espectadores. As câmaras, cujo número não foi especificado, giram 360 graus sobre o respectivo eixo e não vão perder pitada dos excessos ou ameaças vindos das bancadas.
Reclamações belgas
O presidente da federação belga de futebol anda zangado. Reclama ele que, à excepção do Brasil e do seu próprio país, nenhuma das outras quatro nações que se qualificaram pela quarta vez consecutiva para a fase final do evento o conseguiram sobre o relvado. É que, desde 1982, quer a Argentina, a Espanha, a Itália ou a Alemanha conseguiram-no, é certo, mas ou porque tinham o estatuto de organizadores ou porque eram os detentores do título. As verdades são para serem ditas...
Com l0entes fumadas
Há gostos para tudo. Imagine-se agora que alguns jogadores da selecção holandesa -- o guarda-redes Ed de Goey e Frank e Ronald de Boer -- estão muito preocupados com o sol fortíssimo que, é certo, se vai abater nos estádios durante as partidas. Vai daí, estes três atletas pensaram, pensaram e decidiram proteger os seus olhos dos raios solares com lentes fumadas.
Um desporto brutal
Sob o título «Um desporto desagradável e brutal», o «New Yok Maganize» explica aos seus leitores que o futebol é um desporto onde os adeptos procuram a violência, onde se pode fazer batota e ganhar rios de dinheiro. O texto é acompanhado por um conjunto de fotografias onde se podem ver «hooligans», o argentino Diego Maradona em riscos de chorar e o guarda-redes alemão Harald Schumacher a agredir o francês Patrick Battiston em 1982.
O Mundial no Líbano
Beirute é uma cidade marcada pelas divisões e pela guerra, mas, apesar dos longos anos de sofrimento, há coisas de que os libaneses não se esquecem. Amantes do futebol, dezenas de milhares de habitantes da capital e de outras localidades do país decoraram as casas e os carros com as cores das suas selecções preferidas. Bandeiras, cachecóis, autocolantes, «cassettes» e camisolas inundaram as ruas e as casas. Imagine-se a loucura se o Líbano participasse no Mundial, o que, aliás, nunca aconteceu na sua história.
PUBLICO-19940619-021
PUBLICO-19940619-021
19940619
Desporto
LA
«Meeting» de atletismo Santo António com recordes em série
Sotomayor, três saltos e «adios»
O cubano Javier Sotomayor, a incontestada vedeta da sexta edição do «meeting» de Santo António, realizado ontem ao fim da tarde no Estádio Universitário de Lisboa, acabou por ser, talvez, a sua maior desilusão. Uma desilusão relativa, já se vê. Só que o cubano fez apenas o mínimo necessário para vencer, e não precisou de saltar mais que três vezes em altura para dar o seu trabalho por encerrado. Começou com 2,20m, depois foi a 2,25m e, finalmente, transpôs 2,31m. «Soto» esperou, depois, que todos falhassem essa altura e em vez de continuar, resolveu despedir-se. Foi um balde de água fria para uma assistência que levou tempo a aquecer, mas que acabaria por dar muito bem empregue o seu tempo de permanência na mais recente pista sintética portuguesa, pois pôde presenciar o melhor «meeting» jamais realizado no nosso país.
Os atletas portugueses, mesmo sendo anfitriões, não puderam discutir a supremacia na maioria das provas, mas também não quiseram sair do Universitário de mãos vazias, e por quatro vezes foram batidos recordes nacionais. Foi uma série espectacular, e o que sucedeu nos 100 metros barreiras fez lembrar um «milagre de Santo António»: Um dos recordes portugueses de menor expressão teve, na derradeira semana, uma subida impensável. Na Taça da Europa, domingo passado, a benfiquista Sandra Barreiro tinha-o passado de 13,83s para 13,74, o que já era uma subida sensível, mas no fim da tarde de ontem ele estava em..13,46s! Primeiro foi a sua companheira de clube, e rival (no bom sentido) Isabel Pereira que conseguiu 13,65s na meia-final. O que mais surpreendeu foi o facto de Isabel ter tido uma partida desastrada e mesmo assim ter chegado ao máximo por larga margem. Na final, Isabel Pereira, na pista um, e Sandra Barreiro na sete, corriam em extremos opostos, e foi certamente a pensar uma na outra que deram tudo por tudo. E os resultados confirmaram o que afinal se vira nas meias-finais, com Isabel, em quinta, a colocar o recorde já num nível europeu aceitável e Sandra, em sétima, a fazer pouco pior, com 13,52s. Venceu a ucraniana Nadezhda Bodrova, com 12,95s, adiante da cubana Aliuska López (13,04s), e pode também dizer-se que estas duas marcas foram umas de muitas de classe internacional.
Os outros recordes absolutos caíram no sector masculino. Nuno Fernandes (F.C.Porto), depois de ter obtido a melhor marca do ano ao ar livre a 5,35m, conseguiu transpôr, e com clareza, 5,50m na derradeira possibilidade, batendo o seu anterior recorde, feito há dois anos em Braga, por cinco centímetros. Esta marca é igual ao máximo de pista coberta que estabeleceu em Março. A disciplina foi ganha pelo espanhol Daniel Martí, com 5,70m (recorde pessoal), à frente de uma coorte de ex-soviéticos; o resultado ia sendo outro, no entanto, pois o júnior russo Viktor Chistyakov, depois de fazer 5,25m, esperou para voltar à competição quando todos se tinham ido embora, e falhou por um triz o recorde mundial da sua categoria a 5,81m.
No peso, caiu o recorde mais esperado. Logo no primeiro ensaio, Fernando Alves (Benfica) arremessou 17,67m, juntando dez centímetros ao máximo estabelecido o ano passado em Espanha. Os 18 metros parecem uma meta credível para muito em breve. No sexto ensaio, Fernando voltaria a fazer mais que a anterior marca, com 17,62m, em prova dominada pelo ucraniano Aleksandr Bagach (20,00m).
A última corrida da reunião foi a légua, e Paulo Guerra (Maratona) e João Junqueira (Sporting), os dois melhores mundiais dos 10 mil metros em 1994, voltaram a confirmar a sua forma. Guerra atacou a duas voltas do fim para ganhar «à queniana» em 13m25,13s, pulverizando o seu melhor tempo por mais de 17 segundos, enquanto Junqueira melhorava, finalmente, o seu registo pessoal, datado de 1987 (13m27,88s), com 13m27,31s. Um verdadeiro «enguiço» quebrado pelo sportinguista (terceiro), que juntamente com Guerra conseguiu bater a coligação etíope-queniana.
Luís Cunha, com 10,52s aos 100 metros, Vítor Jorge, com 47,22s aos 400 metros, António Abrantes em 800 m, com 1m47,80s e Pedro Rodrigues, com 50,00s e vitória nos 400 m. barreiras, estabeleceram melhores marcas nacionais do ano. São todos do Benfica. O jovem talento algarvio Rui Costa, nos 400 metros, alcançou mínimos para os mundiais de juniores com 47,40s, e o mesmo fez José Azevedo (NAM) nos 1500 metros, com 3m47,31s. Surpresa foi o triunfo nesta prova de António Travassos (Beleneses-quarto), com o belo máximo pessoal de 3m40,84s, sobre o bracarense Mário Silva (3m41,43s).
Luis Lopes
PUBLICO-19940619-022
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19940619
Desporto
LA
«Magriços» encontraram-se para falar do «Mundial» de Inglaterra
«Ó tempo volta p'ra trás»
Berta Rodrigues
Estão ligados à única boa recordação portuguesa de um «Mundial» de futebol. São os «Magriços», alguns dos quais se juntaram agora, 28 anos depois de Inglaterra, para lembrar histórias antigas. E outras, mais actuais.
As recordações não param de assomar à memória. Umas atrás das outras, ao ritmo da conversa, as histórias sucedem-se. Como a da ida à Roménia, para um jogo de apuramento para o «Mundial». Entre risos e provocações, recorda-se como Torres dormiu durante toda a viagem de avião, como sempre fazia, por ter medo das alturas. Como Carvalho sofreu um golo, ao ser empurrado para dentro da baliza agarrado à bola.
«Eram dois latagões, vieram direitos a mim, eu ainda segurei a bola, mas empurraram-me e só parei dentro da baliza», lembra o guarda-redes dos «Magriços», o nome de guerra dos homens que ficaram ligados à única boa recordação que os portugueses têm de um «Mundial» de futebol -- Inglaterra 66, o terceiro lugar para Portugal e a explosão de Eusébio.
Alguns dos elementos dessa selecção encontraram-se agora, 28 anos depois, no primeiro dia do «Mundial» dos Estados Unidos. A convite de um hotel de Lisboa, jantaram juntos e juntos assistiram ao Alemanha-Bolívia. Para pôr a conversa em dia, recordar histórias antigas, lembrar antigas fraquezas. Torres é o alvo principal das brincadeiras dos outros cinco «Magriços» presentes. A explicação é simples: Carvalho, Fernando Peres, José Carlos, Figueiredo e Lourenço são e eram do Sporting.
Provocação certa. E Fernando Peres não se faz rogado: «Ó Torres, vê lá se queres que eu conte aquela história...» Não foi preciso dizer mais nada. O antigo avançado lá se dispôs a contar como, ainda no tal jogo com a Roménia, num choque com um adversário partiu... a placa. «O lateral que me estava a marcar deu-me uma cotovelada e partiu-me a placa. Apanhei metade do chão, tirei o resto da boca, fui até à linha lateral e disse para o Cávem: `Agarra aí.' Ele pensava que era um fio, ou coisa assim, mas quando percebeu tirou a mão: `Não quero isto!'»
A lembrança da história provoca risos entre os outros. São estas histórias, e a camaradagem de quem passou em conjunto muitos e grandes momentos, que ficaram e ficarão guardadas. Para além, claro, das recordações dos jogos, daqueles jogos fabulosos do «Mundial». Como o da Coreia do Norte, em que Portugal esteve a perder por 3-0 e acabou a ganhar por 5-3, com quatro golos de Eusébio. Torres, o único titular dos presentes, lembra os minutos passados na cabina, ao intervalo: «O Otto Glória foi buscar todos os nomes que tinha no vocabulário para nos chamar. Na segunda parte abrimos o livro, concretamente o Eusébio, que nesse dia estava endiabrado. No final, com todos lavados em lágrimas, o treinador já nos chamava `queridos filhos'.»
No embalo das histórias que vai contando, Torres não resiste a uma «vaidadezinha», como ele próprio diz. Questão de contas: «O Eusébio foi o melhor marcador do `Mundial', com nove golos. Eu tive três. Mas se eu tivesse jeito para marcar os quatro penáltis que provoquei, que foram marcados pelo Eusébio, era eu o melhor marcador». Os outros, divertidos, interrompem: «Não foste tu que fizeste os penáltis, foram os outros que os fizeram sobre ti.»
Agora, passados tantos anos, aquele «Mundial» ainda provoca discussões, antigas. Torres, por exemplo, considera que foi melhor assim, ou seja, foi preferível perder com a Inglaterra na meia-final e ganhar à Rússia o jogo para o terceiro ou quarto lugar. E argumenta: «No jogo com a Rússia eu já tinha menos sete quilos, e os outros também estavam na mesma. O jogo com a Coreia desgastou-nos muito. Se tivéssemos ganho à Inglaterra e ido à final, a mentalidade portuguesa exigia a vitória. Se perdêssemos, tinha sido muito mais penoso para o nosso público do que perder com a Inglaterra e vencer a Rússia por 2-1. Assim saímos como vencedores.»
Para quem não jogou, fica sempre um sabor amargo. E Fernando Peres resume assim a frustração dos 11 jogadores que não foram utilizados em Inglaterra: «Resta saber se nós não teríamos tido oportunidade de ser campeões mundiais se o seleccionador tem arriscado no jogo da Coreia, onde o Torres, e mesmo o Simões, estavam lesionados e pediram para não entrar. Se na altura certa tivessem feito descansar os jogadores titulares, estou convencido que seríamos campeões.»
Mas frustração, mesmo, é a de quem, como Torres, esteve também no México em 1986. Foi a outra presença portuguesa num «Mundial», mas foi sobretudo o pesadelo do «caso Saltillo», que opôs os jogadores à Federação. E Torres, então seleccionador nacional, lembra-o com amargura: «Nunca mais esqueço uma reunião que tive, cinco meses antes do `Mundial', com jogadores e dirigentes. Disse que tínhamos cinco meses para resolver questões de publicidade, prémios, tudo o que mexesse com dinheiro. Os meus superiores, em acta, disseram qualquer coisa como isto: `O mais tardar até fins de Fevereiro, meados de Março, tudo o que diga respeito a dinheiro fica resolvido.'»
A questão ainda é actual. Serve, por exemplo, para lembrar mais uma ausência portuguesa, a deste ano. Como diz Torres, não está tão distante destas coisas como isso: «Basta lembrar uma entrevista recente de Carlos Queirós, em que dizia que se continuam a perder horas na Federação a discutir problemas como as cores e os feitios dos fatos. Parece uma maldição. Temos bom material, mas quando chega a hora da verdade continuamos a falhar. Falta conjugar esforços para que na hora da verdade vá toda a gente para o mesmo lado.» Para atalhar conversa, dá vontade de terminar com uma expressão de Lourenço, a propósito de recordações: «Apetece cantar aquela cantiga, a que tem um refrão a dizer `Ó tempo, volta p'ra trás'.»
PUBLICO-19940619-023
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19940619
Desporto
LA
«Pubs» irlandeses em greve no dia da estreia da sua selecção
Festa por cerveja abaixo
Os empregados dos bares da capital da Irlanda, Dublim, deram ontem um profundo golpe no tradicional espírito de festa do país, quando decidiram realizar uma greve horas antes de a sua equipa nacional se estrear no Campeonato do Mundo de Futebol, contra a Itália, em Nova Iorque.
Prevê-se que esta acção reivindicativa encerre perto de 70 por cento dos 650 «pubs» da capital, na noite em que cerca de metade da população adulta da cidade se ia dirigir a esses locais para seguir pela televisão o jogo que se disputa em Nova Iorque.
Piquetes de greve do sindicato Mandate, que representa os empregados dos bares, estavam a tomar posições no sábado à tarde no exterior dos «pubs» que estão ligados ao sindicato, mas a Licensed Vintners Association (LVA) afirmou que centenas de bares não sindicalizados vão abrir as suas portas.
«É uma vergonha ter-se chegado a esta situação. Lamentamos o que está a acontecer, mas as pessoas devem compreender as condições em que somos obrigados a trabalhar», pode ler-se num cartaz colocado no exterior do South Dublin Pub.
A greve por aumentos salariais e melhores condições de trabalho foi convocada há semanas e os responsáveis do Mandate não se cansaram de alertar para as consequências dos seus efeitos num país que concentra todas as atenções no desempenho dos seus homens de verde no outro lado do Atlântico.
«Estamos orgulhosos da Irlanda e vamos vencer», afirmou o dirigente nacional do Mandate, John Douglas, a cerca de três mil sócios do sindicato, logo após terem votado pela greve imediata, aprovada por uma margem de cinco contra quatro. No entanto, avisou os associados sobre a pressão do público e a possibilidade de os donos dos bares contratarem empregados alternativos numa noite de febre em que se espera facturar milhares de «punts» (libras irlandesas). «Isto é uma luta que tem de ser ganha. As urnas do voto falaram e não devem verificar-se acordos desonestos», disse aos membros do sindicato.
As negociações entre os proprietários dos bares e os sindicatos, que decorreram na Labour Relations Comission, prolongaram-se até às primeiras horas de sábado, mas os trabalhadores votaram contra uma proposta que previa um aumento salarial de um por cento e que chegou a receber o consentimento do seu sindicato.
O Mandate também reivindica melhores condições de trabalho, sobretudo a redução do número de horas que os empregados têm de permanecer nos pubs após o seu encerramento, para trabalhos de limpeza e reabastecimento.
A febre sobre o Mundial de Futebol fez com que dez mil adeptos irlandeses voassem esta semana para os Estados Unidos, e cativou como nunca a imaginação nacional -- à excepção talvez de há quatro anos, quando a Irlanda disputou na Itália a fase final do Mundial.
As gentes de Dublim cobriram as suas casas com as cores da bandeira nacional, verde, branco e laranja, enquanto os supermercados estão a emitir canções «pop» que saúdam o «Exército de Jack», a equipa nacional de futebol que é treinada pelo inglês Jack Charlton.
Muitos «pubs» instalaram diversos televisores, para o jogo poder ser seguido de todos os sítios do bar, e um deles, que não vai ser afectado pela greve, até instalou um monitor na casa de banho dos homens.
Cerca de dez membros do Governo estão nos Estados Unidos, mas o primeiro-ministro, Albert Reynolds, também presente em Nova Iorque, declarou que estas viagens não estão relacionadas com o Campeonato do Mundo e já estavam previstas há muito.
Um agente de apostas está a oferecer hipóteses de 50 contra um sobre os dez milhões de «pints» (5,6 milhões de litros) de cerveja Guinness, a bebida nacional irlandesa, que deveria ser consumida na noite de ontem, uma média de três «pints» (1,7 litros) por pessoa.
Andrew Hill
Reuter/Dublim
PUBLICO-19940619-024
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19940619
Desporto
LA
Sobram bilhetes para os jogos
Paul Feldman*
Segundo a organização do «Mundial 94», aproximadamente 100 mil bilhetes para os diversos jogos, incluindo o da final que se vai realizar no Rose Bowl a 17 de Julho, ainda estão por vender, apesar do evento desportivo mais popular do planeta ter começado na sexta-feira em Chicago e Dallas.
A incomum possibilidade de comprar lugares nos estádios para assistir às partidas, particularmente à final, talvez reflicta uma ligeira apatia para com o futebol entre os norte-americanos, que pela primeira vez são os anfitriões da Taça do Mundo. Mas muitos apontam também o elevado preço dos ingressos, a ineficácia da organização e o sistema bizantino de vendas.
Os organizadores oficiais do «Mundial», que foram bombardeados por centenas de queixas, insistem que o seu objectivo é proceder tranquilamente, jogo após jogo, e dizem acreditar que na hora do início dos encontros todos os lugares estarão preenchidos. Para assistir agora à final, os adeptos terão ainda de comprar bilhetes para a meia-final e para o jogo do terceiro e quarto lugares, o que deverá ser impeditivo para muitos. Basta pensar que o preço desses três bilhetes varia entre os 215 e os 430 contos, três vezes mais que do que era pedido no ano passado pelo comité organizador, sediado em Los Angeles.
«Trezentos contos? Quem é que vai pagar isso, em Los Angeles, quando ainda estamos a recuperar de tremores de terra, tumultos e de uma crise económica?», observou Fred Ross, sócio do Front Row Center Tickets na cidade californiana. «Eles são verdadeiros mestres na arte do escalpe.»
Além disso, quem compra esses conjuntos de bilhetes não sabe a que lugares se destinam e só é esclarecido quando recebe os bilhetes pelo correio. E aí as surpresas foram muitas.
Na semana passada, muitos compradores irados decidiram mover acções nos tribunais de Chicago, após receberem bilhetes para os cantos do Soldier Field. Um verdadeiro logro, depois de inicialmente terem comprado das entradas mais caras.
Entretanto, os vendedores oficiais e os especuladores também têm queixas. Segundo Ken Solby, dono da Designer Tickets & Tours, não se trata de oferta superior à procura, mas «sem dúvida que existem lugares extra». Sergio Torrico, agente de viagens em Los Angeles, disse que a sua empresa tem 50 bilhetes disponíveis para o jogo de hoje entre os Camarões e a Suécia, enviados pela organização antes do sorteio dos grupos. Com as vendas em baixa, Torrico foi pedir conselhos ao consulado sueco, mas ainda não surgiram interessados. «Até já estamos a vendê-los com apenas cerca de 900 escudos de lucro (cinco dólares), o que é inacreditável. Mas mesmo assim ninguém quer», lamentou-se.
PUBLICO-19940619-025
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19940619
Desporto
LA
Knicks em vantagem na final
Patrick Ewing e companhia puseram os New York Knicks em vantagem nas finais da NBA, a Liga Norte-Americana de Basquetebol Profissional. No Madison Square Garden, de Nova Iorque, os Knicks venceram os Rockets por 91-84 no jogo cinco da final e passaram a liderar por 3-2, vantagem que os coloca a apenas uma vitória do triunfo no campeonato.
Ewing, o «poste» dos Knicks, voltou a encontrar o caminho do cesto, depois de algumas exibições fracas. Desta vez, concretizou 11 de 21 lançamentos, marcando um total de 25 pontos, para além de bloquear oito lançamentos e ganhar doze ressaltos, cinco dos quais ofensivos. A ajudá-lo estiveram John Starks, que somou 19 pontos, seis assistências e três roubos de bola, bem como o suplente Anthony Mason (17 pontos e nove ressaltos) e o base Derek Harper (14 pontos e sete assistências).
Do outro lado, mais uma vez, foi Hakeem Olajuwon e pouco mais. O «poste» dos Rockets voltou a ser o melhor marcador da partida, com 27 pontos, mas os seus companheiros não o acompanharam. Resultado: os Knicks conseguiram, pela primeira vez nesta final, a segunda vitória consecutiva.
O jogo, mais uma vez, foi equilibrado. Os Knicks mantiveram alguma vantagem até ao terceiro quarto, altura em que os Rockets recuperaram de uma desvantagem de 13 pontos, marcando18 de uma assentada, contra apenas cinco dos Knicks. No final desse período, o resultado estava em 61-61. No último quarto, os Rockets chegaram a liderar por quatro pontos, mas os Knicks responderam. Depois de duas igualdades no marcador e quatro alterações de liderança, os homens de Nova Iorque passaram de vez para a frente, com um triplo de John Starks a 2m23s do final, que colocou o marcador a 81-80.
Hakeem Olajuwon ainda concretizou um lançamento de três pontos, mas não conseguiu travar o ímpeto dos Knicks, que marcaram mais dez -- cinco para Mason, três para Starks e dois para Harper. «Estamos habituados a isto", disse, no final, Pat Riley, o técnico dos Knicks: «É disto que se faz o espectáculo, fazer as jogadas no final para decidir o jogo."
Com emoção ou não, a verdade é que este voltou a ser um jogo com poucos cestos -- o que está já a tornar-se regra nesta final, uma vez que ainda nenhuma das equipas marcou 100 pontos. Os Knicks, aliás, são especialistas em reduzir a capacidade ofensiva dos seus adversários -- em 22 de 23 jogos dos «play-off" não sofreram mais de 100 pontos. A excepção foi o jogo três das meias-finais do Leste, em que perderam por 104-102 com os Chicago Bulls. Para ver se se mantém esta característica, resta esperar pelo próximo encontro, ou pelo outro a seguir, que só se realizará se, nesta madrugada, os Knicks não vencerem o jogo seis, em Houston.
PUBLICO-19940619-026
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19940619
Desporto
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Golfe -- Open dos EUA
Montgomerie inspirado
Colin Montgomerie deu um passo importante para se tornar no primeiro europeu, em 24 anos, a vencer o Open dos EUA, segunda prova do Grand Slam da época, que decorre desde quinta-feira no percurso de Oakmont, em Pittsburgh. O escocês assumiu a liderança do torneio ao acrescentar à sua volta inicial de 71 pancadas (par do campo) outra de 65, somando agora um agregado de 136 (seis abaixo do par), o mais baixo de sempre nas 12 ocasiões em que o torneio se disputou neste percurso.
No segundo dia de prova, os resultados melhoraram consideravelmente, devido ao amolecimento dos «greens», provocado pela chuva que caiu durante a noite. «É certo que os `greens' estavam mais receptivos, mas não é menos verdade que eu joguei muito melhor», disse o escocês, vencedor, no ano passado, da Ordem de Mérito do circuito europeu. Cinco «birdies» (nos buracos 2, 3, 11, 12 e 18), um «eagle» (9) e apenas um «bogey» (8) deram-lhe, assim, a liderança com uma margem de duas pancadas sobre os seus mais directos adversários.
Os norte-americanos Hale Irwin, de 49 anos, triplo-campeão do Open dos EUA (em 74, 78 e 90) e John Cook e David Edwards -- que, juntamente com Montgomerie, alcançaram a melhor volta do dia -- partilham o segundo lugar. Notável continua a ser o comportamento de Jack Nicklaus, de 55 anos, o melhor golfista da história da modalidade, possuidor de um palmarés que ninguém acredita venha alguma vez a ser igualado. Inspirado pelo simbolismo da sua presente actuação -- foi em Oakmont, em 1962, que ele, neste mesmo torneio, alcançou a sua primeira vitória numa prova do Grand Slam -- o «Urso Dourado», como é conhecido, voltou a bater o par do campo (69-70), encontrando-se a apenas uma pancada daqueles três jogadores, no que é igualado pelo seu compatriota Jeff Maggert.
A terceira jornada será certamente decisiva para todos aqueles que se encontram na corrida pelo triunfo. Jogadores como o sul-africano Ernie Els (menos duas), o australiano Greg Norman (par), «número um» do «ranking» mundial, Tom Watson (menos um) e Fred Couples (mais um) podem perfeitamente, com uma boa terceira volta, subir alguns degraus significativos para, no último dia, partirem ainda com aspirações ao triunfo.
Mas, entretanto, pelo caminho ficou o ainda detentor do título, Lee Janzen, cuja vitória no torneio que antecedeu o Open dos EUA fazia prever uma melhor actuação. Igualmente, fizeram as malas mais cedo dois dos maiores nomes do golfe mundial: o espanhol Jose Maria Olazabal, vencedor do Masters de 94, sem jogo para um campo com características tão penalizantes, e Nick Faldo, muito criticado por, nos tempos mais recentes, ter a ajuda da sua «caddie», a sueca Fanny Sunesson, a alinhar-lhe os «putts». «Falta de personalidade», dizem.
Resultados após a segunda ronda: 136 -- Colin Montgomerie (71-65); 138 -- Hale Irwin (69-69), John Cook (73-65); 139 -- Jeff Maggert (71-68), Jack Nicklaus (69-70); 140 -- Ernie Els (69-71), Frank Nobilo (69-71), Steve Pate (74-66), Curtis Strange (70-70); 141 -- Kirk Triplett (70-71), Tom Watson (68-73), Emlyn Aubrey (72-69), Jeff Sluman (72-69). Outros resultados: 143 -- Fred Couples (72-71); 148 -- Nick Faldo (73-75), Lee Janzen (77-71); 150 -- Jose Maria Olazabal (76-74).
Rodrigo Cordoeiro/Pluripress
PUBLICO-19940619-027
PUBLICO-19940619-027
19940619
Economia
Acordos do GATT fazem feridos em Seul
Mais de 160 pessoas ficaram feridas em confrontos entre as forças policiais e cerca de 600 estudantes que se manifestaram em Seul contra as consequências da liberalização da importação de arroz aprovada no âmbito dos acordos do GATT (Acordo Geral de Tarifas e Comércio). A polícia sul-coreana informou ontem ter detido 72 estudantes na manifestação que decorreu na Universidade de Hongik, situada nos arredores da capital. Os confrontos rebentaram quando cerca de três mil polícias dispararam granadas de gás lacrimogéneo sobre estudantes que teriam feito reféns 56 agentes das forças de segurança. Os estudantes resistiram à carga policial durante seis horas, com tubos de aço e pedras, exigindo a libertação de cerca de duas dezenas de universitários detidos anteriormente.
Vaticano com lucros
As contas do Vaticano encerraram com lucros pela primeira vez nos últimos 23 anos, no valor de 2,4 mil milhões de liras italianas (cerca de 255 mil contos), segundo anunciou aquele que é designado por «ministro das Finanças» do Papa, o cardeal norte-americano Edmund Szoka. «Não é um resultado espectacular, mas pode entender-se verdadeiramente como uma viragem na gestão da Santa Sé», afirmou, sobre os lucros apurados no final de 1993. Até agora, o Vaticano nunca tinha revelado publicamente o balanço consolidado da sua gestão. No ano passado, as receitas atingiram 265,8 mil milhões de liras e os gastos 263,5 mil milhões.
China controla preços
Preocupações com a inflação na China -- que apresentou a maior taxa de crescimento económico mundial dos últimos dois anos -- estão na origem da decisão do Governo de Pequim de impor um controlo sobre os preços dos produtos comercializados no país. A intenção de repor a ordem nos mercados é anunciada na edição de ontem do «Diário do Povo», o jornal oficial do regime chinês, onde se afirma que, além da necessidade de conter a inflação, importa limitar os ganhos elevados dos intermediários na venda de bens e serviços. O aumento dos preços está estimado, neste momento, em cerca de 23 por cento ao ano nas áreas urbanas da China, havendo categorias de produtos, como por exemplo os alimentares, em que esse valor é largamente ultrapassado.
PUBLICO-19940619-028
PUBLICO-19940619-028
19940619
Economia
Portugal e África do Sul reúnem amanhã em Joanesburgo
Cabora Bassa à procura de financiamento
A Comissão Conjunta Permanente para Cabora Bassa reúne-se amanhã e depois, em Joanesburgo, para analisar o pacote financeiro das obras de reconstrução da linha de transporte de energia entre a barragem e a África do Sul. Cerca de um terço da linha de transporte, que se prolonga por 1900 quilómetros de extensão, foi destruída na sequência da guerra civil moçambicana, tendo a sua reabilitação sido decidida no final de 1992 pelos representantes dos governos de Portugal, Moçambique, Itália e África do Sul. O abandono do projecto por parte das autoridades italianas veio atrasar os trabalhos, cujo início está agora previsto para depois das eleições moçambicanas, a realizar em Outubro próximo.
De acordo com uma informação divulgada ontem pela agência Lusa, o custo previsto para a empreitada de reconstrução é de 125 milhões de dólares (cerca de 20 milhões de contos). Portugal participa nas obras com 25 milhões de dólares e a África do Sul com 50 milhões, pelo que em Joanesburgo serão discutidas as formas de financiamento alternativas para o resto do investimento. Os 50 milhões de dólares em falta poderão vir do Banco Europeu de Investimento (BEI) ou do Governo da Noruega, que se mostrou interessado nos planos para Cabora Bassa.
Para Portugal, a proposta mais vantajosa é a do BEI, uma vez que abre possibilidade à participação de empresas portuguesas na empreitada, o que não acontecerá se o financiamento escolhido for norueguês.
A próxima reunião está a despertar um interesse particular por ser a primeira a decorrer com a participação das novas autoridades sul-africanas, e também com os novos elementos nomeados pela delegação de Pretória.
Entretanto, prevê-se que hoje decorra um encontro entre representantes da Hidroeléctrica de Cabora Bassa, da empresa de Electricidade de Moçambique e das empresas congéneres da África do Sul e do Zimbabwe. Na reunião, serão discutidos problemas ligados à projectada linha de Cabora Bassa para o Zimbabwe, o que implica a criação de uma extensão para África do Sul e, na prática, uma segunda via de transporte de energia para aquele país.
PUBLICO-19940619-029
PUBLICO-19940619-029
19940619
Economia
Nova «maratona» agrícola em Bruxelas
Uma nova «maratona» agrícola dos Doze Estados-membros da União Europeia (UE) começa amanhã na cidade de Bruxelas. Da agenda dos trabalhos faz parte a obtenção de um acordo sobre os preços agrícolas para a campanha de 1994-95, depois de terem decorrido já diversas reuniões sem que se tenha chegado a um consenso. Espera-se inclusive que o encontro de amanhã se prolongue por alguns dias.
Responsáveis do Governo grego, que asseguram a presidência da UE, estão a efectuar uma nova ronda de contactos pelas capitais dos Doze, mas, de acordo com uma fonte comunitária, «as hipóteses de se chegar a acordo são diminutas». «Se houver um entendimento entre os ministros da Agricultura, ele não servirá com certeza para a Comissão Europeia», adiantou.
Os principais diferendos nesta matéria envolvem a França e a Itália. Apesar de grande parte das actuais normas sobre matéria agrícola terem sido fixadas em 1992, no quadro da reforma da Política Agrícola Comum (PAC), a França defende uma actualização dos valores de referência para o cálculo dos prémios a atribuir aos criadores de bovinos. Entre as contas do Governo de Paris e as de Bruxelas existe uma diferença de 835 milhões de ecus (167 milhões de contos).
O outro problema a discutir, o das quotas leiteiras, envolve a oposição de países como a Grã-Bretanha, a Holanda e a Dinamarca à decisão da Comissão Europeia de conceder um aumento de 900 mil toneladas de leite à quota dos agricultores italianos, quando, de acordo com a nova PAC, todos os Estados-membros tiveram de reduzir a sua produção em um por cento.
PUBLICO-19940619-030
PUBLICO-19940619-030
19940619
Economia
Reestruturação da têxtil Sampaio Ferreira passa por «cura de emagrecimento»
Mais 350 despedimentos no Vale do Ave
Carlos Romero
Em meados da década de 80, a têxtil Sampaio Ferreira era um dos sustentáculos da economia de Riba d'Ave. Empregava mais de 1200 trabalhadores e fazia valer os seus pergaminhos de empresa quase centenária. Hoje, o melhor que se pode esperar é que «aguente» 400 dos seus 757 postos de trabalho. Mais uma grande têxtil em crise, encostada à «boa vontade» da banca e da Segurança Social, credoras de 3,5 milhões de contos.
A Sampaio Ferreira, a segunda mais antiga têxtil do país, localizada no coração do Vale do Ave, vai proceder a uma «redução significativa dos efectivos». A empresa emprega nesta altura 757 trabalhadores e, por via da desactivação de «equipamentos obsoletos que gastam muita mão-de-obra e contribuem com elevado número de defeitos», pretende «desfazer-se» de 350 postos de trabalho.
A redução de mão-de-obra é uma das medidas de um plano de reestruturação delineado pela Coopers & Lybrand, tido como absolutamente indispensável. A empresa «apresenta à partida, do ponto de vista financeiro, total incapacidade para solver os seus compromissos antigos», como afirmou ao PÚBLICO o director executivo do projecto de reestruturação, Luís Gomes.
A dívida da Sampaio Ferreira, reportada a 1987, atinge 3,5 milhões de contos, dos quais 1,5 milhões à Segurança Social e dois milhões à banca. O Banco Português do Atlântico e o Banco de Fomento e Exterior estão na posição de maiores credores, detendo, «em partes sensivelmente iguais», 65 por cento do total do crédito bancário.
A empresa conseguiu já o despacho favorável do Tribunal de Vila Nova de Famalicão para o recurso que apresentou ao abrigo do D.L. 132/93, estando marcada para Outubro a assembleia de credores para apreciar e votar a proposta de reestruturação. Para além da redução de pessoal, com «influência ligeira» num volume anual de negócios que ronda os dois milhões de contos, a Coopers & Lybrand entende que a viabilização da Sampaio Ferreira exige a «redução da estrutura produtiva», a «alteração da organização da produção», a aposta «na criação e no `design'» e o investimento num sistema de redução dos gastos energéticos (construção de uma segunda mini-hídrica no rio Ave), que levará à poupança de 45 mil contos por ano.
Derrapagem nos anos 80
A referida «alteração da organização da produção» permitirá a libertação de áreas que «vão servir para reduzir passivos». Nomeadamente 15 mil metros quadrados para futura implantação de uma zona habitacional, com um valor calculado em meio milhão de contos, e uma quinta de 30 mil metros quadrados nas imediações da fábrica, parte dela urbanizável. Para «facilitar a reestruturação», a empresa candidatou-se aos Fundos de Reestruturação e Internacionalização Empresarial (FRIE), através das empresas de capital de risco Sulpedip e Norpedip.
A vender 70 por cento da produção de tecidos de moda exterior, de gama média, para os países da União Europeia, a Sampaio e Ferreira, detida pela família do conde de Riba d'Ave, entrou em derrapagem na década de 80. «Investimentos deficientemente dimensionados», aliados a «elevadíssimas taxas de juro» e a uma crescente obsolescência do seu parque de máquinas, comprometeram irremediavelmente o equilíbrio financeiro da empresa. O acordo de credores conseguido em 1987 mostrou-se insuficiente para inverter a situação. A Sampaio Ferreira não cumpriu o estabelecido, tendo chegado agora à conclusão de que a viabilização não poderia passar apenas pela vertente financeira, mas também por dolorosas medidas de «emagrecimento», designadamente pela redução drástica do pessoal ao serviço.
Em 1987, a empresa ainda era um dos maiores pólos empregadores do concelho de Riba d'Ave, com os seus 1260 trabalhadores. Agora, o melhor que se espera da velha têxtil fundada em 1896 é que «aguente» 400 postos de trabalho. Tudo dependerá, no futuro próximo, da «boa vontade» dos credores e do «poder de encaixe» dos sindicatos para o despedimento de 350 trabalhadores.
Luís Gomes, que está a liderar o processo de reestruturação, entende que há razões para acreditar na continuação da Sampaio Ferreira. «O passivo não aumentou desde 1987», garantiu ao PÚBLICO, e ultimamente a empresa tem sentido «um fluxo de encomendas muito interessante», de empresas que engrossaram recentemente uma carteira que conta com clientes como a Marks & Spencer e a Maconde.
PUBLICO-19940619-031
PUBLICO-19940619-031
19940619
Cien_Tecn_Educ
TF
Militares querem vigiar asteróides
A Força Aérea dos Estados Unidos está disposta a executar um plano de vigilância da cintura de asteróides próxima da Terra em colaboração com a NASA, noticiou a revista «Science». A Força Aérea diz que poderá disponibilizar para este fim um ou mais dos seus telescópios militares que, nos anos da Guerra Fria, eram usados para seguir os satélites «do outro lado». O objectivo é seguir os asteróides e os cometas susceptíveis de virem um dia a chocar com a Terra. A Força Aérea garantiu, por outro lado, que passaria a avisar rapidamente os cientistas civis mal os seus telescópios detectem objectos celestes a entrar na atmosfera, de forma que seja possível colher amostras dos resíduos deixados pelos meteoritos e aprender mais sobre estes vagabundos do espaço. A ajuda agora proposta pela Força Aérea americana poderá permitir que um plano proposto pela NASA em 1992 -- chamado Spaceguard -- possa livrar-se do entorpecimento a que foi votado por causa do apertado orçamento da agência espacial norte-americana. Calculado em 50 milhões de dólares (8,6 milhões de contos), o plano propõe a criação de uma rede de telescópios capaz de elaborar um mapa das órbitas dos asteróides e dos cometas potencialmente perigosos.
PUBLICO-19940619-032
PUBLICO-19940619-032
19940619
Cien_Tecn_Educ
JVM
AZT seguro para grávidas
O AZT, a droga mais usada no tratamento da sida, não parece causar quaisquer defeitos congénitos nos bebés cujas mães a tomaram durante a gravidez, diz o Centro de Controlo de Doenças dos Estados Unidos (CDC) -- o organismo responsável pelo controlo epidemiológico naquele país. Segundo o CDC, cerca de dois por cento dos bebés cujas mães tomaram AZT durante a gravidez apresentavam deficiências congénitas, enquanto a mesma percentagem na população em geral é de três por cento. Este estudo dos CDC vem na sequência de um estudo franco-americano anterior, divulgado em Fevereiro, que concluiu que o AZT é eficaz para evitar a transmissão do vírus da sida de mulheres infectadas aos seus filhos durante a gravidez. Nessa altura, os CDC disseram que era necessário estudar o possível impacto negativo da administração da droga para o bebé.
PUBLICO-19940619-033
PUBLICO-19940619-033
19940619
Cien_Tecn_Educ
TF
Cientista ganha ao Estado
Por ordem de um tribunal russo, o Ministério Público pagará uma indemnização de 20 milhões de rublos (1.700 contos) ao cientista Vil Mirzayanov, ilegalmente preso e acusado de divulgar segredos de Estado. Foi a primeira vez, em 70 anos de história do sistema judicial da ex-União Soviética, que um indivíduo ganhou uma causa contra o Estado. Mirzayanov, um químico do Instituto de Química Orgânica, foi acusado de trair os segredos de Estado ao publicar em 1992 um artigo onde escreveu que a Rússia desenvolveu até àquele ano um novo gás letal que afecta o sistema nervoso. Isto quando oficialmente as autoridades garantiam que a produção de armas químicas tinha sido suspensa em 1989. O Ministério Público arquivou o caso em Março passado, porque não descobriu provas suficientes contra Mirzayanov, mas o cientista processou o Estado. O Instituto de Química Orgânica terá também de pagar uma indemnização de dez milhões de rublos (870 contos) ao investigador.
PUBLICO-19940619-034
PUBLICO-19940619-034
19940619
Cien_Tecn_Educ
AGRS
Efeitos nefastos dos implantes mamários de silicone postos em causa nos EUA
Tirar um peso do peito
Há cerca de dois anos, os implantes mamários feitos à base de gel de silicone foram acusados de causar diversas doenças nas mulheres que os usavam e foram retirados do mercado americano. Agora, o maior estudo de sempre sobre o tema, realizado também nos Estados Unidos, levanta dúvidas sobre a alegada relação entre estes implantes e os problemas de saúde.
Investigadores americanos da célebre Mayo Clinic realizaram um estudo sobre a relação entre os implantes mamários de silicone e diversas doenças que estes implantes têm sido acusados de favorecer. E afirmam não terem encontrado «qualquer relação entre [estes] implantes mamários e as doenças estudadas». O estudo, que envolveu mais de 2.200 mulheres, acaba de ser publicado na revista médica americana «The New England Journal of Medicine».
Este trabalho é apenas o mais recente capítulo de um amplo debate desencadeado nos EUA há cerca de dois anos em torno dos efeitos dos implantes mamários sobre a saúde. Em inícios de 1992, na sequência de vários relatórios sobre eventuais perigos para a saúde dos implantes de silicone, a Food and Drug Administration (FDA, a agência federal americana que regula os medicamentos e produtos de saúde) decretou uma moratória sobre a sua utilização enquanto não existissem fortes provas científicas da sua segurança (ver «A luta das próteses mamárias», PÚBLICO de 10.2.92). Isto contribuiu para difundir a ideia de que os implantes eram de facto perigosos.
Em Abril do mesmo ano, a FDA anunciou que iria permitir a utilização destes implantes só para fins de cirurgia reconstrutiva e só no âmbito de ensaios clínicos, mantendo portanto a proibição do seu uso para fins de cirurgia cosmética. A empresa californiana Mentor é hoje, segundo diz a Reuter, o único fabricante de implantes de silicone habilitado a realizar estes ensaios. Quanto à empresa Dow Corning, o maior fabricante deste tipo de implantes, deixou de os fabricar em Março de 1992. Este e outros fabricantes têm sido desde então processados por milhares de mulheres, o que os levou a criarem um fundo de 4,3 mil milhões de dólares para pagarem indemnizações.
Os dados da Mayo Clinic -- que segundo um editorial publicado na mesma edição do «New England Journal» são «os melhores de que se dispõe» na matéria -- vão sem dúvida tornar-se um elemento importante do debate médico-jurídico. Bruce Burlington, director do ramo da FDA responsável pela regulamentação dos implantes, disse por seu lado que o estudo agora publicado é «importante», acrescentando porém que não basta um estudo para alterar a posição actual da sua agência.
Entorpecimento matinal
Os autores do estudo analisaram os ficheiros médicos de 749 mulheres residentes no condado de Olmsted, no Minnesota, onde se encontra situada a clínica Mayo. Entre Janeiro de 1964 e Dezembro de 1991, estas mulheres tinham recebido um implante mamário. Os investigadores seguiram os casos destas mulheres durante oito anos em média. As histórias clínicas destas mulheres foram comparadas com as de um grupo de controlo integrado por 1.498 mulheres da mesma população que não tinham recorrido a implantes.
O estudo analisou a incidência nos dois grupos de doenças como a artrite reumatóide, o lupus eritematoso, a esclerose sistémica e outras doenças dos tecidos conjuntivos que fazem parte dos problemas de saúde que têm sido citados durante as audiências da FDA e as audiências parlamentares em relação à segurança dos implantes.
Os dados revelaram que cinco das mulheres portadoras de implantes sofriam de uma das doenças em causa, enquanto este era o caso de 10 das mulheres do grupo de controlo. Por outro lado, 25 das mulheres com implantes apresentavam sinais ou sintomas de artrite, enquanto este era o caso de 39 mulheres do grupo de controlo. Dado que em termos absolutos o grupo de controlo era duas vezes maior do que o outro, os respectivos números são equivalentes em termos percentuais. De facto, o único factor em que os cientistas observaram um aumento significativo no grupo de mulheres com implantes foi o «entorpecimento matinal».
Dado que quase todos os habitantes da área são pacientes da clínica Mayo, os ficheiros médicos pormenorizados que aí se encontram oferecem uma rara oportunidade de realizar estudos aprofundados. Porém, os investigadores admitem que a população abrangida pelo estudo é demasiado pequena para analisar a incidência das formas mais raras de doença que os implantes têm sido acusados de favorecer. Sherine Gabriel, líder do estudo, disse que estariam «mais satisfeitos se os números fossem maiores».
Bomba-relógio
Nos Estados Unidos, cerca de dois milhões de mulheres receberam implantes mamários de silicone. Porém, mesmo se estes implantes ocasionassem problemas de saúde em muitas mulheres, nada garante que seriam detectados por estudos deste tipo. Talvez fosse necessário, para os observar, realizar estudos que envolveriam até 200.000 mulheres, observadas durante pelo menos 10 anos. Vários estudos em grande escala estão aliás actualmente em curso.
Contudo, Sherine Gabriel diz que espera que os resultados aliviarão os receios de muitas mulheres com implantes mamários: «Há muitas mulheres realmente preocupadas. Será que o futuro nos reserva uma horrível doença? Já ouvi quem falasse em `bomba-relógio'».
O «New England Journal of Medicine» tem criticado a moratória imposta pela FDA sobre os implantes mamários de silicone, qualificando-a de excessivamente paternalista e desnecessariamente alarmista. Michael Jackson, porta-voz da Dow Corning, declarou por seu lado na passada quarta-feira que o estudo da Mayo Clinic «confirma mais uma vez o que a empresa nunca deixou de dizer: que não parece haver uma relação científica entre implantes e doença». Segundo Jackson, o estudo não deverá interferir com o pagamento pela sua empresa das indemnizações acordadas.
Os críticos dos implantes mamários não demoraram muito em atacar o estudo. Sidney Wolfe, director executivo da associação privada Public Citizen's Health Research Group, qualificou o estudo como «incrivelmente enganador», declarando que a população envolvida no estudo era demasiado pequena para se conseguir obter resultados significativos. E também citou outros estudos recentes que indicam que os gels de silicone utilizados nos implantes têm diversos efeitos complexos sobre o sistema imunitário.
Wolfe disse ainda que, nos ficheiros médicos em que o estudo está baseado, a incidência dos problemas poderá não ter sido sistematicamente registada. As pessoas que «se sentem reconfortadas pelo estudo estão a fazer um raciocínio errado ou louco», acrescentou.
Aaron Levine, o advogado de uma de uma das queixosas que integra um grupo nomeado pelo tribunal para discutir as indemnizações, pôs em causa o financiamento do estudo. Embora o «New England Journal of Medicine» cite como fontes de financiamento os National Institutes of Health americanos (o organismo governamental que gere a investigação médica nos EUA) e a Fundação de Ensino da Cirurgia Plástica, Levine diz ter apresentado documentos que provam que uma fatia de pelo menos 174.000 dólares do financiamento do estudo veio de fabricantes de implantes e de organismos médicos com interesses directos no desenlace da controvérsia.
«Não estou a dizer que a Mayo Clinic foi comprada pelas empresas -- ao que tudo indica, o estudo foi correctamente concebido. Mas o facto de terem omitido a proveniência de metade do financiamento, o que poderia ter feito com que os médicos pusessem em causa a imparcialidade real do estudo, é um defeito óbvio».
Um porta-voz da Dow Corning disse na quarta-feira que não dispunha de informação no que respeita ao facto de a sua empresa ter ou não financiado o estudo. Sherine Gabriel disse por seu lado que a proveniência dos fundos era irrelevante, salientando que o estudo já tinha sido concebido e iniciado muito antes da atribuição dos financiamentos. «Fosse qual fosse a origem dos fundos, teríamos realizado o estudo exactamente da mesma maneira», declarou.
John Schwartz («The Washington Post») e PÚBLICO
PUBLICO-19940619-035
PUBLICO-19940619-035
19940619
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JAM
O espelho de Magalhães em fase de fabrico
O espelho que vai equipar o supertelescópio Magalhães já começou a ser construído. Com 6,5 metros de diâmetro, tem o seu segredo na forma como é fabricado. O Magalhães será instalado perto de La Serena, Chile, a 2300 metros de altitude e poderá obter informações inéditas sobre a evolução das estrelas.
Um dos maiores especialistas do mundo no fabrico de espelhos para telescópios, Roger Angel, já começou a construir o espelho que vai equipar o supertelescópio Magalhães, que deverá estar operacional em 1998. O telescópio será instalado no Observatório de Las Campanas, perto da cidade chilena de La Serena, onde já funcionam vários telescópios norte-americanos, e será financiado pela Universidade do Arizona e pelo Instituto Carnegie de Washington -- que gere o Observatório de Monte Palomar (Califórnia), além do Observatório de Las Campanas.
O instrumento terá uma cúpula especial com ar condicionado e controlo termostático activo de todas as fontes de calor, que serão reduzidas ao mínimo, de forma a não interferir com as observações.
Além de usufruir de tempo de observação no futuro telescópio, a Universidade do Arizona beneficia também do facto de o espelho do Magalhães ser feito nos laboratórios ópticos do Observatório Steward, pertencente à Universidade. Com 6,5 metros de diâmetro, o espelho deste supertelescópio pesará pouco mais de nove toneladas, um feito notável quando se compara este peso com o de espelhos congéneres.
Enquanto os espelhos dos telescópios mais modernos apresentam um peso de 2,7 toneladas por metro de diâmetro -- no caso dos espelhos que equiparão o VLT (Very Large Telescope) -- ou de 1,7 toneladas por metro de diâmetro -- no caso do NTT (New Technology Telescope) --, o espelho do Magalhães apresentará apenas uma relação de 1,4 toneladas por metro de diâmetro.
Espessura reduzida
Esta característica deve-se ao facto de o espelho ser feito com base numa estrutura alveoliforme, que permite reduzir significativamente a espessura do vidro e, por consequência, o peso do espelho, tornando-o assim menos sensível às deformações típicas dos espelhos telescópicos, causadas pelo peso do próprio espelho e pelo meio ambiente.
O segredo está obviamente na forma como o espelho será fabricado. Numa primeira fase, o vidro bruto será colocado num molde constituído por centenas de pequenos hexágonos de cerâmica refractária, por entre os quais o vidro escorrerá durante a fundição. Depois de devidamente acondicionado nos pequenos favos, o vidro de borossilicato será levado ao forno e aquecido até à fusão, que ocorrerá quando atingir uma temperatura de 1100 graus centígrados.
Durante esse período, o forno entrará em rotação e pouco a pouco, por acção da força centrífuga gerada pela rotação, o vidro ganhará uma forma parabólica cujo raio de curvatura será definido pela velocidade de rotação do forno. Após o arrefecimento, que demorará mais de um mês, os técnicos libertarão o vidro do molde cerâmico, ficando o espelho com a estrutura alveoliforme adquirida durante a fundição do vidro. Por fim, será submetido a um processo de polimento de precisão que o transformará finalmente num verdadeiro espelho de telescópio.
As condições atmosféricas existentes em Las Campanas, a 2300 metros de altitude, permitirão ao telescópio Magalhães tirar o máximo proveito das suas capacidades ópticas e obter informações inéditas sobre a evolução das estrelas e das galáxias mais distantes.
José Augusto Matos
PUBLICO-19940619-036
PUBLICO-19940619-036
19940619
Cien_Tecn_Educ
JVM
Singapura quer satélites
Singapura pretende lançar os seus primeiros satélites de comunicações para o espaço em 1999, anunciou o diário daquele país «The Sunday Times», citando responsáveis da Autoridade de Telecomunicações de Singapura. Este país solicitou já junto da União Internacional de Telecomunicações (UIT) a concessão de seis posições orbitais geo-estacionárias. Singapura tornar-se-á assim o quarto país do sudeste asiático a lançar satélites para o espaço, depois da Tailândia (que pediu à UIT 12 posições orbitais), da Indonésia (com 11 pedidos) e da Malásia (com 2 pedidos). Quanto às seis órbitas geo-estacionárias que Singapura solicitou a UIT três encontram-se sobre o Equador, uma sobre Singapura e duas sobre o oceano Índico. Os satélites destinam-se à transmissão de telefone, telégrafo e televisão. «Ainda que as nossas necessidades domésticas de telecomunicações sejam muito pequenas, precisamos de telecomunicações fiáveis e eficientes com os outros países, devido às nossas intensas actividades económicas», disse Lim Choon Sai, presidente da Autoridade de Telecomunicações de Singapura.
PUBLICO-19940619-037
PUBLICO-19940619-037
19940619
Cien_Tecn_Educ
MFRR
Astronomia
Máximo Ferreira
Abrigos para telescópios
É provável que o leitor interessado pelas coisas dos astros tenha já pensado em adquirir um telescópio. Se acaso não conhece bem como funcionam tais instrumentos, o único pormenor em que terá pensado estará relacionado com a questão mais frequente: "Quanto é que vou querer que ele aumente?".
Trata-se, na verdade, de uma curiosidade natural, que a maior parte dos construtores de telescópios explora a seu favor, ao indicar que determinados aparelhos de brinquedo aumentam duzentas ou trezentas vezes, coisa praticamente impossível. Existem vários factores que limitam a ampliação de um telescópio, uma das quais está directamente relacionada com o diâmetro da objectiva (espelho nos telescópios reflectores e lente nos refractores ou lunetas). De facto, é a luz colectada pela objectiva que vai produzir a imagem que veremos através da ocular, o que significa que quanto maior for o seu tamanho menor será a intensidade luminosa, do que resulta, obviamente, uma progressiva perda de contraste e definição.
Teoricamente, o valor da máxima ampliação de um qualquer telescópio é obtido multiplicando 2,4 pelo número de milímetros que mede o diâmetro da sua objectiva. Assim, não se poderá esperar que um telescópio de 100 mm, por exemplo, aumente mais do que 240 vezes, na melhor das hipóteses. No entanto, esse limite mais favorável só será alcançado mediante a satisfação de um razoável número de condições: boa qualidade óptica da objectiva, boa estabilidade da estrutura de apoio do tubo do telescópio (em particular a base ou tripé) e estabilidade da atmosfera -- circunstâncias que só excepcionalmente se verificam simultaneamente. Daí que seja razoável fazer a multiplicação referida por um valor mais baixo --1,5, por exemplo --, o que significa que o telescópio de 100 mm dará boas imagens com ampliações até 150 vezes.
Acontece porém que a estrutura de apoio do tubo (a que normalmente se chama "montagem") de um telescópio instalado ao ar livre, por muito boa que seja, oscila com o vento, o que é notável a partir de certo valor de ampliação. Por outro lado, se quisermos realizar observações durante algumas horas, o frio da noite acaba por nos incomodar, mesmo que se trate de uma agradável noite de verão. Se a tudo isto juntarmos a necessidade de que (para a maior parte das observações) o eixo principal do telescópio esteja rigorosamente alinhado com o eixo de rotação da Terra -- tarefa muito morosa, que tem de ser efectuada com precisão -- diremos existirem boas razões para procurarmos instalar um bom telescópio, em permanência, num local convenientemente abrigado.
Convém que o abrigo (ou cúpula) possa girar sobre si próprio -- e, por isso, seja relativamente leve -- que tenha uma pequena porta de acesso e que possua uma estreita, mas longa, janela. Esta permitirá que o tubo do telescópio aponte para o exterior sem deixar entrar demasiada luz ambiente... nem muito vento! Embora possam ser adoptadas outras soluções quanto à forma, a mais conveniente é criar um cilindro com o diâmetro desejado -- dois, três, quatro ... (ou mais) metros, de acordo com o equipamento a instalar e os objectivos da sua utilização -- colocando-lhe "em cima" uma meia esfera. Modernamente tem sido utilizada a fibra de vidro como matéria-prima principal, embora sejam indispensáveis alguns componentes metálicos -- de preferência de aço inoxidável -- em particular para as partes móveis.
Como se trata de um produto pouco procurado, não são muitos os construtores de tais abrigos espalhados pelo mundo, localizando-se estes principalmente nos Estados Unidos e (alguns) na Europa ocidental.
Há poucos meses, o Museu de Ciência da Universidade de Lisboa procurou importar da Alemanha uma destas cúpulas, mas teve de abandonar este propósito face ao seu preço -- mais de seis mil e quinhentos contos. Mas, finalmente, conseguiu encontrar um "voluntário" português para a aventura de iniciar a construção de um modelo simplificado em que, essencialmente, foi possível reduzir os custos a bastante menos de metade. O protótipo, de 3,5 metros (ver foto) está praticamente pronto a instalar no terraço do referido Museu, onde abrigará permanentemente um telescópio de 400 mm, mas o seu autor -- um habilidoso e jovem mestre em iniciativas arrojadas -- admite aperfeiçoar esta versão e construir depois um modelo mais pequeno -- em tamanho e preço -- que possa ser adquirido por astrónomos amadores. Uma boa notícia para quem goste de «fazer astronomia»!
PUBLICO-19940619-038
PUBLICO-19940619-038
19940619
Cien_Tecn_Educ
Nuno Castel-Branco
Cacau ou chocolate?
O que valem o cacau e o chocolate? São bons alimentos, como já ouvi defender ou, como também já os classificaram, apenas «comida de gulosos»?
F. M. C. G. (Lisboa)
A primeira vez que na Europa se ouviu falar em cacau e chocolate foi por volta de 1520, quando o explorador espanhol Fernando Cortez trouxe frutos de cacaueiro ao seu rei, porque vira o grande uso que deles se fazia na corte do rei asteca Montezuma. Os frutos do cacaueiro têm a forma de um pequeno melão oblongo que contém dentro dele umas 20 a 25 «nozes» grandes, posteriormente torradas para libertarem a verdadeira semente que é triturável e dá o cacau em pó bem conhecido de todos. À gordura do fruto que envolve as «nozes» dá-se-lhe o nome de manteiga de cacau, rica em ácidos gordos saturados.
O cacau usava-se dissolvido em água, como um tónico restaurador da força muscular, nas regiões que são hoje o México, América Central e Antilhas. Tomavam-no as pessoas debilitadas pelo cansaço do trabalho, pela doença e pela velhice. Montezuma, por exemplo, tomava-o como afrodisíaco e revigorante sexual. Talvez tivesse sido esta a origem de um certo secretismo quanto ao cacau, que levou Cortez a oferecê-lo ao rei de Espanha, Fernando de Aragão.
A divulgação na Europa a partir da Espanha e Portugal, que detinham o monopólio do seu comércio, deu-se por meados do século XVII. Entretanto, os espanhóis espalharam o cacaueiro pela América do Sul e pelas Filipinas, os portugueses pelo Brasil, São Tomé e Príncipe e Angola, enquanto os ingleses o introduziram depois nas suas colónias da Nigéria e da Costa do Ouro.
Foi na Europa que o cacau se passou a beber misturado com leite e adoçado com açúcar, servido em estabelecimentos públicos como o chá e o café. A primeira destas lojas situava-se em Oxford, a partir de onde o seu proprietário estendeu o negócio até Londres. O chocolate em barras para mastigar só apareceu, também em Inglaterra, nos alvores da era vitoriana, e consistia em pó de cacau misturado com açúcar, gordura -- do próprio cacau e/ou outras --, baunilha e outros aromatizantes. As barras eram envolvidas em folha fina de alumínio, as famosas «pratas», para defender o chocolate da humidade e exposição ao ar.
O cacau é um excelente alimento para quase todas as idades, além do seu valor energético, é um dos maiores fornecedores de potássio e magnésio de que dispomos. Bebido com água ou leite -- inteiro, semidesnatado ou magro -- e adoçado com pouco açúcar ou com os seu sucedâneos, é talvez a bebida mais recomendável para iniciar o dia, ao pequeno-almoço. Nestas condições de preparação, não põe quaisquer problemas para jovens ou adultos saudáveis.
O chocolate já tem o problema do açúcar e sobretudo da gordura com que é fabricado, pelo que não pode ser recomendado com o mesmo à vontade do cacau. As barras e os bombons, com recheios vários e misturas de cereais e frutas secas são alimentos com uma densidade energética enorme e poderão, quando consumidos em exagero, ser nocivos à saúde. No entanto, são excelentes tranquilizantes, conhecidos pela designação popular de «ansiolíticos de pastelaria».
PUBLICO-19940619-039
PUBLICO-19940619-039
19940619
Cien_Tecn_Educ
CP
Congresso ibérico
Começa amanhã em Cascais o I Congresso Luso-Espanhol de Consumo. Esta iniciativa, que se prolonga até terça-feira, é organizada pelos institutos do Consumidor de Portugal e de Espanha, Associação Nacional de Municípios, Federação Espanhola de Municípios e Câmara Municipal de Cascais. Os congressistas vão proceder a uma análise da situação actual na península relativamente à política municipal de informação, formação e protecção do consumidor que permitirá extrair conclusões quanto à definição de estratégias futuras naquela área. Além de quadros e técnicos dos dois países que trabalham na área da defesa do consumidor, está prevista a participação do chefe do Serviço Político de Consumidores (SPC) da União Europeia. A comissária europeia para a política de consumo, Christianne Scrivener, preside à sessão de encerramento.
PUBLICO-19940619-040
PUBLICO-19940619-040
19940619
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Santos Luís
Falência e subsídio de desemprego
Aufiro rendimentos de trabalho dependente, que é também o meu rendimento principal. Além disso, sou um pequeno comissionista com receitas importantes para a minha economia familiar, mas que não me obrigam a ter escrita organizada. A empresa onde trabalho encontra-se numa situação económica bastante difícil que pode levar ao seu encerramento. Assim, gostaria de saber se, no caso de a empresa em que presto trabalho dependente encerrar, uma vez que também sou comissionista, perderei o direito ao subsídio de desemprego?
A. M. R. (Alfornel)
A protecção no desemprego, até 1985, não se encontrava integrada nos regimes de segurança social e a sua concepção assentava numa óptica predominantemente assistencialista, uma vez que a atribuição dos subsídios dependia do reconhecimento da carência económica do trabalhador desempregado.
Só com o Decreto-Lei nº 20/85, de 17 de Janeiro, o subsídio de desemprego passou a constituir um direito na titularidade do desempregado, sem que a sua atribuição ficasse sujeita a prova de recursos, passando apenas a estar dependente do preenchimento do prazo de garantia e da involuntariedade do desemprego.
O diploma referido manteve-se até 1979, quando passou a vigorar o Decreto-Lei nº 79-A/89, de 13 de Março, alterado pelo Decreto-Lei nº 418/93, de 24 de Dezembro. A protecção no desemprego apenas abrange os beneficiários do regime geral de segurança social que sejam trabalhadores por conta de outrem. Encontram-se, assim, excluídos da protecção nesta eventualidade os denominados trabalhadores independentes. As situações de desemprego que determinam as respectivas prestações decorrem da situação de inexistência total e involuntária de emprego do beneficiário com capacidade e disponibilidade para o trabalho, uma vez preenchido o prazo de garantia.
O desemprego involuntário é o que decorre da cessação do contrato de trabalho por decisão unilateral da entidade empregadora; caducidade do contrato não determinada por atribuição de pensão; rescisão com justa causa por iniciativa do trabalhador; mútuo acordo, desde que integrado num processo de redução de efectivos, quer por motivo de reestruturação, viabilização ou recuperação da empresa, quer por quaisquer outros motivos que permitam o recurso ao despedimento colectivo.
Embora prevista, a protecção nas situações de perda parcial de emprego carece da respectiva regulamentação para vigorar.
A atribuição do subsídio de desemprego está dependente do preenchimento prévio do prazo de garantia de 540 dias de trabalho por conta de outrem com contribuições para a segurança social nos 24 meses imediatamente anteriores à data do desemprego, bem como da inscrição, como candidato a emprego, no centro de emprego da área da residência.
O montante diário do subsídio de desemprego é de 65 por cento da remuneração diária obtida através da média da remunerações com contribuições para a segurança social dos doze meses que precedem o segundo mês anterior ao da data do desemprego.
O período de concessão do subsídio de desemprego é estabelecido em função da idade do beneficiário à data do requerimento. Situa-se, pois, entre os 10 meses -- se possui idade inferior a 25 anos -- e os 30 meses-- para quem possuir idade igual ou superior aos 55 anos (neste caso pode aceder à pensão de reforma quando atingir os 60 anos de idade).
Se o desemprego persistir no final da concessão do subsídio e os rendimentos «per capita» do agregado familiar forem iguais ou inferiores a 80 por cento do salário mínimo, passa a beneficiar do subsídio social de desemprego por período correspondente a metade do período de concessão do subsídio de desemprego, tendo em conta a idade do beneficiário à data em que cessou a concessão do subsídio de desemprego.
O montante do subsídio social de desemprego varia entre 70 por cento da remuneração mínima mensal para os beneficiários isolados e 100 por cento dessa mesma remuneração para os agregados familiares que tenham, pelo menos, quatro pessoas, passando por 90 por cento da remuneração mínima mensal para os agregados familiares que tenham menos de quatro pessoas.
O subsídio social de desemprego também é concedido a quem não preencher o prazo de garantia que lhe permita aceder ao subsídio de desemprego, desde que não possua um rendimento «per capita» do agregado familiar superior a 80 por cento da remuneração mínima mensal.
O subsídio de desemprego ou o subsídio social de desemprego a que os beneficiários tenham direito pode ser pago globalmente, de uma só vez, nos casos em que os interessados apresentem projecto de criação do seu próprio emprego e desde que o mesmo seja aprovado.
O pagamento das prestações de desemprego suspendem-se quando o beneficiário exercer actividade profissional por conta de outrem ou por conta própria; ou, pela frequência de curso de formação profissional com compensação remuneratória ou subsídio (nestes casos, se os montantes forem inferiores, o subsídio de desemprego corresponderá à diferença de valor entre ambos).
Cessa o direito às prestações de desemprego se o desempregado recusar emprego conveniente ou trabalho necessário; se recusar formação profissional; se faltar pela segunda vez, sem justificação, a convocação do centro de emprego; se utilizar meios fraudulentos para obter o subsídio; se não comparecer nem justificar quando requerida a sua presença pessoal no centro regional de segurança social para pagamento do subsídio.
O subsídio de desemprego fica suspenso com o exercício de actividade profissional por conta de outrem ou conta própria e cessa se essa actividade se prolongar pelo período consecutivo de 540 dias.
Em suma, e no que especificamente diz respeito ao leitor, não possui de facto direito ao subsídio de desemprego uma vez que aufere rendimentos de trabalho que se manterão por via do exercício de actividade profissional, embora como independente.
PUBLICO-19940619-041
PUBLICO-19940619-041
19940619
Cien_Tecn_Educ
CP
Supermercados «pedagógicos»
Um «dossier» pedagógico sobre supermercados é o primeiro título de uma nova colecção de publicações que o Instituto do Consumidor (IC) começou a editar para apoiar o trabalho dos professores na área da educação do consumidor na escola. Adaptada de uma edição elaborada pelo organismo congénere espanhol (Instituto del Consumo), esta publicação é constituída por fichas que abrangem os seguintes temas: visita a um supermercado, compras com lista, o expositor de produtos, a escolha de produtos, caça às ciladas, análise comparativa no ponto de venda, higiene e limpeza no ponto de venda e o papel do embrulho. Estão previstos outros títulos nas áreas da publicidade, saúde e segurança.
PUBLICO-19940619-042
PUBLICO-19940619-042
19940619
Cien_Tecn_Educ
CP
Mediador de saúde
O Gabinete de Mediação, criado em Janeiro do ano passado na Suíça para regular os conflitos e prestar informações relativas aos seguros de saúde e às relações com os organismos de segurança social, tem sido alvo de uma avalanche de perguntas, revela a revista «J'Achète mieux», especializada em assuntos de consumo. Na lista das questões que são mais frequentemente colocadas pelos consumidores incluem-se as relativas aos reembolsos da segurança social (e, em particular, a informação sobre a comparticipação nos tratamentos dentários), inscrições e quotizações.
PUBLICO-19940619-043
PUBLICO-19940619-043
19940619
Cien_Tecn_Educ
CP
Publicitação do tarifário do telemóvel é da responsabilidade dos seus operadores
Publicidade (muito) discreta
Carlos Pessoa
Quem deve divulgar o tarifário relativo ao serviço móvel terrestre, quando a chamada é feita de um telefone normal para um telemóvel? A responsabilidade é das empresas que exploram este último, considera o Instituto das Comunicações de Portugal (ICP), que se pronunciou sobre o assunto a pedido do PÚBLICO. Tanto a Telecel como a TMN afirmam cumprir os seus deveres de informar os consumidores, mas será que toda a gente sabe quanto custa uma chamada telefónica feita de um telefone normal para um posto móvel?
A responsabilidade de informar os consumidores acerca do tarifário do serviço móvel terrestre é dos operadores deste serviço, considera o Instituto das Comunicações de Portugal (ICP) em resposta a um pedido de esclarecimento do PÚBLICO. O tarifário do serviço móvel terrestre, vulgarmente conhecido por telemóvel, «é definido pelos operadores que prestam tal serviço, independentemente de se tratar de chamadas móvel-móvel, móvel-fixo ou fixo-móvel», acrescenta o ICP em texto assinado pelo seu secretário-geral, Renato Homem. Esta resposta foi enviada ao PÚBLICO duas semanas depois de ter sido colocada a seguinte questão, que na altura ficou sem resposta: quem tem obrigação de publicitar junto dos utilizadores o tarifário das chamadas com origem na rede básica e destinado à rede do telemóvel -- os operadores públicos de telecomunicações (TLP e Telecom Portugal) ou os operadores da rede móvel (ver «Tarifário na clandestinidade», PÚBLICO de 8.5.94)?
Para o ICP não há lugar a dúvidas nesta matéria:
«Sendo [o serviço móvel terrestre] uma actividade concorrencial, a definição [do tarifário] é efectuada com total liberdade pelos operadores licenciados, a quem deverão pois ser dirigidas as questões relacionadas com as respectivas políticas tarifárias». Assim, concluiu aquele organismo regulador da actividade no sector das telecomunicações em Portugal, «a responsabilidade de publicitação destes tarifários cabe aos operadores do Serviço Móvel Terrestre».
Com esta posição, tudo levaria a crer que ficava esclarecida uma dúvida levantada pelo nosso jornal no âmbito do citado artigo, em que era referida a deficiente e insatisfatória informação pública do tarifário praticado nas comunicações através da rede móvel. No entanto, tanto a TMN como a Telecel consideram estar a cumprir a lei. Ilda Rosa, da direcção de «marketing» da TMN, revelou ao PÚBLICO os procedimentos efectuados pela sua empresa: publicação do tarifário no «Diário da República» e inclusão, em Fevereiro passado, de um anúncio com as diferentes modalidades de preços em «dois jornais de maior tiragem nacional», como estabelece uma cláusula da licença de exploração do serviço por parte da referida empresa. Além destas diligências, aquela empresa fornece aos seus próprios clientes uma informação detalhada do tarifário em vigor no momento da assinatura do contrato.
A Telecel procede também à publicação do tarifário em «Diário da República» através de um aviso, «como decorre da regulamentação em vigor», segundo nos informou Teresa Orvalho, responsável pelas relações públicas daquele operador móvel. Além disso, acrescentou, «o tarifário é entregue aos clientes». No entanto, ao contrário do seu concorrente directo, este última empresa nunca procedeu à publicação do tarifário em órgãos de informação.
Com os procedimentos atrás referidos, argumentam a TMN e a Telecel, ambos os operadores cumprem o seu dever de informar. No entanto, é difícil aceitar que a publicação do tarifário no jornal oficial e em anúncios de imprensa esgotem toda a capacidade de informar os consumidores. Se é verdade que não existe insuficiência de informação relativamente aos clientes de telemóvel, já no caso concreto das chamadas com origem em posto fixo (isto é, todos os utilizadores de telefones comuns), subsiste mesmo uma lacuna informativa que nenhum dos meios referidos pelos operadores móveis consegue suprir. Com efeito, como o PÚBLICO pôde constatar, nenhum consumidor está em condições de saber de forma imediata quanto custa uma chamada feita naquelas condições porque essa informação só se encontra disponível... nos operadores.
Ciente desta realidade, Teresa Orvalho sustenta que o tarifário aplicado neste último tipo de conversações deveria ser publicitado nas listas telefónicas pelos operadores da rede fixa, os TLP e a Telecom Portugal. Colocada perante essa possibilidade, Ilda Rosa declarou ao PÚBLICO que essa hipótese deveria ser colocada directamente a estas duas últimas empresas.
Quem discorda frontalmente da posição do ICP é Jorge Morgado, secretário-geral da Associação Portuguesa para a Defesa do Consumidor (Deco). Em declarações ao nosso jornal, aquele responsável afirmou que «a Deco continua a pensar que os TLP e a Telecom também deveriam divulgar o tarifário do serviço móvel através das listas para um bom esclarecimento dos consumidores». O que está em causa, conclui, é a «transparência das regras de funcionamento do mercado», e isso não se obtém com um «cumprimento mínimo do dever de informar estabelecido por lei».
Tarifário do telemóvel: os consumidores não são informados
PUBLICO-19940619-044
PUBLICO-19940619-044
19940619
Mundo
JAF
Ganhar guerras sem matar ninguém?
Um piloto americano em missão de manutenção de paz, impedido de matar em combate, lança cola que prende os pneus de um avião pronto a levantar, ou cobre tanques e armas com produtos químicos que dissolvem o metal. Uma «bala» acústica é disparada por uma arma e ecoa como um violento sopro de um instrumento desafinado, deixando o soldado inimigo inconsciente. Outros soldados inimigos são cegos por uma arma que dispara feixes electromagnéticos.
Estes são apenas alguns dos sistemas de armamento que estão a ser desenvolvidos, as armas não letais, e os seus inventores garantem que elas vão ser as estrelas dos campos de batalha num futuro não muito distante.
Estas armas variam desde o ridículo ao grotesco. Transformam petróleo em geleia e vertem substâncias sobre os seus alvos em movimento. Algumas parecem verdadeiras tolices, mas os seus efeitos podem ser cruciais nos campos de batalha.
Outras armas não letais podem causar danos terríveis. As novas armas laser podem cegar os soldados, e os órgãos internos podem sofrer lesões graves devido sons de baixa frequência.
Um relatório elaborado por um instituto sueco especializado no controlo de armamento, SIPRI, diz que as armas que usam alta tecnologia são instrumentos mais atractivos quando uma situação que não requer armas letais.
«Os defensores das armas não letais pensam que o próximo conflito em que os Estados Unidos se vejam envolvidos servirá para mostrar a capacidade destas novas armas, tanto quanto a Guerra do Golfo, em 1991, testou os projécteis teleguiados de alta de precisão», diz o SIPRI.
Este instituto, que recorre a fontes oficiais e não oficiais para elaborar os seus conceituados relatórios, diz que os EUA são o único país que está a desenvolver estas armas, mas que a Rússia e a Grã-Bretanha estão também envolvidos no processo, mas numa fase mais atrasada.
O SIPRI cita o Centro de Engenharia, Pesquisa e Desenvolvimento de Armas e Armamento, dos EUA que está a desenvolver pesquisas para «incapacitar aviões, mísseis, veículos blindados, armas pessoais e outro equipamento, com o mínimo de estragos colaterais [baixas civis]». E afirma que os teóricos militares consideram que estas armas podem revolucionar a guerra, diminuindo os custos, tanto em vidas humanas como em termos financeiros.
Algumas armas não letais foram usadas durante a Guerra do Golfo, como os mísseis de cruzeiro cheios de fibras de carbono que caíram sobre as centrais de energia do Iraque, curto-circuitando os transformadores e cortando a electricidade. «A intenção foi evitar a destruição dos geradores que demorariam muito tempo a ser reparados e cuja falta causaria sofrimento na população civil», diz o instituto.
Os telespectadores podem ter ficado impressionados com as imagens das bombas «inteligentes» procurando os tanques iraquianos e os aviões durante a guerra, mas os militares dizem que vão ser introduzidos melhoramentos e que, no futuro, as bombas serão ainda mais precisas. «O Laboratório Nacional Lawrence Livermore [nos EUA] está a desenvolver uma forma de pequenos `rockets' poderem guiar-se com tanta precisão que poderão entrar na boca de uma arma e destrui-la sem ferir o soldado que a manobra».
Os investigadores norte-americanos vêem as armas não letais como algo que pode preencher o vazio entre «as armas convencionais, as armas letais e as medidas diplomáticas», diz o SIPRI.
O instituto considera que as novas armas podem ter também um papel importante na luta contra o terrorismo, e cita os exemplos do cerco à embaixada americana em Teerão em 1979, e o caso de Waco, no Texas, que envolveu os seguidores da seita de David Koresh. «Em Waco foi usado gaz lacrimogéneo, mas chegou a ser considerado o uso de armas não letais de tecnologia `exótica', mas não sabemos quais».
Simon Haydon/Reuter, em Estocolmo
PUBLICO-19940619-045
PUBLICO-19940619-045
19940619
Mundo
ALPS
Guiné-Bissau a duas semanas de eleições
Acusações a «Nino» azedam campanha
António Soares Lopes, em Bissau
O endurecimento da campanha eleitoral está a dar uma nova dinâmica à política guineense. Mas alguns temem a derrapagem para um arriscado clima de agressividade. Kumba Yalá, líder dum dos partidos da oposição, acusa o Presidente de mandar assassinar alguns dos seus próprios colaboradores.
A CALMA e o civismo que têm vindo a caracterizar a campanha eleitoral na Guiné-Bissau podem em qualquer altura ser substituídas por situações de maior agressividade, de contornos imprevisíveis. Esta ideia vem ganhando consistência à medida que os discursos políticos sobem de tom e começam a surgir acusações «graves» que ultrapassam a mera propaganda para serem questões do foro judicial.
Numa primeira fase, os observadores políticos na capital guineense rendem-se perante o clima de paz que se tem vivido no país, mas hoje reconhecem que ele pode ser quebrado ao mais pequeno descuido. E as acusações de que o Presidente cessante, João Bernardo Vieira, «Nino», tem sido alvo trazem novas achas para uma «fogueira» que dificilmente as chuvas tropicais, que este ano até caíram mais cedo, poderiam apagar.
No maior comício feito em Bissau, desde o início da campanha eleitoral, o candidato às presidenciais Kumba Yalá, líder do Partido da Renovação Social, acusou o Presidente de ter mandado assassinar o seu antigo assessor de imagem, o português Jorge Quadros, e o major das Forças de Intervenção Rápida Robalo de Pina. Quadros foi assassinado na sua própria casa com arma branca, em circunstâncias misteriosas, em Novembro do ano passado. Robalo de Pina, considerado um homem próximo de «Nino» Vieira, foi baleado a 17 de Março do ano passado, durante uma movimentação militar a que o regime mais tarde viria a apelidar de «tentativa de golpe de estado».
As mais de 20 mil pessoas presentes no comício respondiam às acusações com gritos de «abaixo, abaixo»... o que galvanizaria Yalá, ao ponto de prometer, caso venha a ser eleito Presidente, desapropriar todas as explorações agrícolas pertencentes ao líder do PAIGC e entregá-las aos antigos combatentes.
Desvios, corrupção e crimes são uma constante na mensagem deste filósofo de origem balanta licenciado em Lisboa, e que imputa inteiramente ao PAIGC a responsabilidade do atraso em que se encontra o país.
Carlos Domingos Gomes, o empresário candidato, também não poupa os actuais governantes, acusando-os de todos os males de que enferma a sociedade, e convida «Nino» para um debate público, a fim de «esclarecer certas coisas que não estão bem e pôr os pontos nos is».
Incidentes
Nos últimos dias registaram-se incidentes envolvendo apoiantes do regime e opositores, nas províncias Norte e Leste. Curiosamente, o homem que simboliza o PAIGC e o Governo não responde às acusações, optando nos seus comícios por apelos à concórdia, disciplina e respeito, reclamando sempre o seu protagonismo na luta de libertação e nas mudanças operadas nos últimos anos. Os seus comícios nas regiões do interior continuam muito concorridos e nos locais por onde passa é normalmente alvo de grandes manifestações de apoio.
Para além de «Nino» Vieira, só Domingos Gomes Fernandes, líder do Movimento Bafatá, Bubacar Djaló, apoiado pela União para a Mudança, Carlos Gomes, apoiado pelo Partido da Convergência Democrática, e Kumba Ialá conheceram banhos de multidão.
PUBLICO-19940619-046
PUBLICO-19940619-046
19940619
Mundo
APC
Activista dos direitos humanos assassinado em Argel
Progressos da barbárie
Alexandra Prado Coelho
Os civis continuam a ser assassinados na Argélia, a um ritmo quase diário. A violência voltou depois de um período de acalmia durante o qual um dirigente da FIS escreveu uma carta, entendida como «moderada», ao Presidente Zéroual. Belhadj, conhecido pelos seus dons de orador, propunha um debate televisivo. O regime parece cada vez mais dividido.
Youssef Fatallah, responsável de um dos grupos argelinos de Direitos Humanos, foi ontem assassinado no seu escritório numa área comercial do centro de Argel. Os serviços de segurança argelinos não forneceram pormenores sobre as circunstâncias do atentado, mas sabe-se que Fatallah foi morto a tiro por um grupo de homens armados.
Existem suspeitas de que o atentado, realizado em pleno dia, seja da autoria de fundamentalistas islâmicos, até porque a organização de Fatallah era, segundo a Reuter, considerada mais próxima do regime militar argelino do que o outro grupo de defesa dos Direitos Humanos do país.
Mas a France Presse indica, por seu lado, que ele foi um dos membros da comissão de inquérito sobre o assassínio do antigo Presidente Mohamed Boudiaf, cuja morte em Junho de 1992 nunca foi inteiramente esclarecida. Como membro dessa comissão, Fatallah terá pedido o encerramento dos centros de detenção no Sara, onde o regime mantinha os militantes islâmicos.
A morte de Fatallah, que era também advogado -- foi o quarto advogado assassinado na Argélia desde o passado dia 17 de Abril --, foi anunciada pela rádio estatal, que noticiou igualmente outro atentado, desta vez contra uma família de três pessoas, mortas na sua casa na província de Ain Defla. As vítimas foram um homem de 73 anos, a sua mulher e um filho do casal, de 30 anos.
Sexta-feira tinha sido assassinada a família de um polícia reformado. Os atacantes degolaram a a mulher, uma filha de nove anos e um filho de 23. O antigo polícia, outro filho e uma filha de oito anos sobreviveram apesar de lhes terem sido também cortadas as gargantas.
Estes atentados surgem depois de um período de acalmia na guerra de desgaste que opõe os fundamentalistas da Frente Islâmica de Salvação (FIS, vencedora das eleições de Dezembro de 1991, anuladas pelos militares) e o regime. As forças de segurança anunciaram esta semana uma nova ofensiva contra os grupos islâmicos armados, e a morte de 68 fundamentalistas.
Um confronto televisivo?
Durante a anterior fase de acalmia, a notícia mais surpreendente foi a carta de um dos principais dirigentes da FIS, Ali Belhadj -- detido na prisão de Blida, juntamente com Abassi Madani, o líder oficial do movimento -- dirigida ao chefe de Estado, Liamine Zéroual. Os analistas interpretaram a mensagem de Belhadj, considerado o mais radical dos chefes da FIS, como um sinal de moderação e de alguma disponibilidade para dialogar com o poder. O líder islâmico propôs a Zéroual que lhe facilite o acesso à televisão e à rádio para um debate sobre a crise argelina. «Porque é que receia um confronto televisivo?», pergunta.
A «moderação», segundo a jornalista José Garçon do diário francês «Libération», nota-se sobretudo no facto de Belhadj, pela primeira vez, não ter repetido as habituais condições da FIS para iniciar um diálogo, nomeadamente o «julgamento e afastamento dos responsáveis pela repressão».
Por outro lado, a carta tenta dissociar Zéroual das «minorias ideológicas», uma referência às figuras próximas do poder que se opõem radicalmente à hipótese de um diálogo com os fundamentalistas, e que, segundo Belhadj, «exercem pressão» sobre o Presidente. Em relação ao Exército, que é o suporte do regime, o dirigente islâmico distingue também entre a «hierarquia» -- onde estão representados elementos destas «minorias ideológicas» -- e a restante estrutura militar. Este «separar de águas» não é surpreendente, sobretudo tendo em conta que o movimento islâmico está infiltrado praticamente em todo o lado, incluindo naturalmente o Exército.
Quando Zéroual tomou posse como Presidente, a 1 de Fevereiro, prometeu tentar resolver a crise argelina através do diálogo nacional. Surgiram depois, de facto, sinais de que esse diálogo poderia iniciar-se, com rumores sobre contactos secretos com os líderes islamistas presos em Blida. Os analistas consideraram que o novo chefe de Estado estava a tentar romper com o passado e que, no seio do regime, os «erradicadores» -- os que querem erradicar os fundamentalistas e recusam o diálogo -- estariam a ser ultrapassados por uma corrente mais moderada. Mas no último mês os observadores voltaram a olhar com pessimismo para a situação argelina.
As capitais europeias, com a França em primeiro lugar, esperavam que as negociações com o Fundo Monetário Internacional e o recente reescalonamento da dívida externa, permitissem à Argélia iniciar as reformas económicas de que o país precisa desesperadamente. Mas agora volta a falar-se num reforço da posição dos «erradicadores» no seio do Exército.
Só que, sublinhava há dias o «Financial Times», começa a aparecer uma nova geração de militares que não conheceram a guerra da libertação contra a França e que pensam que a política de «erradicação» tem custos demasiado altos. Segundo o jornal, os observadores estrangeiros receiam que uma divisão entre os militares relativamente à política a seguir com os fundamentalistas, possa conduzir a um golpe de Estado e à guerra civil generalizada.
PUBLICO-19940619-047
PUBLICO-19940619-047
19940619
Mundo
JAF
Duas Coreias acordam cimeira
O Presidente sul-coreano, Kim Young Sam, aceitou ontem uma proposta do seu homólogo do Norte, Kim Il Sung, para a realização de uma histórica cimeira inter-coreana que será dedicada à crise nuclear e à reconciliação dos dois países.
Com o anúncio da aceitação de uma cimeira por Seul, torna-se mais provável a suspensão do processo de sanções contra contra Pyongyang, iniciado por Washington, comentaram analistas sul-coreanos.
«O Presidente Kim Young Sam aceitou voluntariamente esta proposta e exprimiu a sua intenção de se encontrar com o Presidente norte-coreano, Kim Il Sung, independentemente do local e da data», anunciou a Presidência da República em Seul. A proposta foi transmitida pelo antigo Presidente dos Estados Unidos, Jimmy Carter, que regressou ontem à Coreia do Sul após uma visita de três dias à Coreia do Norte.
Seria um acontecimento inédito uma cimeira entre os presidentes dos dois países -- a Coreia do Norte comunista, isolada do mundo e sob a suspeita de estar a desenvolver uma arma nuclear, e a Coreia do Sul, defendida por 37 mil soldados americanos colocados no país após a guerra da Coreia (1950-53).
Carter anunciou que Kim Il Sung aceitou congelar o programa nuclear norte-coreano e autorizar a entrada de inspectores internacionais. Dois inspectores da Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA) presentes em Yongbyon serão autorizados a permanecer no local de um reactor de cinco MW e de onde pode ser extraído plutónio para fabricar uma arma nuclear.
«Considero [que estes compromissos] poderão servir de base para uma solução do contencioso», declarou ontem, em Seul, Jimmy Carter. Nma conferência de imprensa, o antigo chefe da Casa Branca afirmou que as sanções teriam pouca eficácia e seriam interpretadas como «um insulto» para a Coreia do Norte e Kim Il Sung.
Carter, que efectua uma visita privada, procurou também esclarecer os equívocos provocados pelas suas declarações sobre as sanções em Pyongyang, que lhe valeram ser desautorizado pelo Presidente Bill Clinton.
Indicou ter sido autorizado pela administração norte-americana a assegurar a Coreia do Norte de que os Estados Unidos não lançarão ataques nucleares contra o país. Explicou ainda que as declarações que fez à CNN em Pyongyang (nas quais revelou ter anunciado a Kim Il Sung que Washington tinha renunciado a pedir à ONU a imposição de sanções) foram reproduzidas «fora de contexto». Esta promessa foi desmentida na sexta-feira por Bill Clinton, que afirmou prosseguirem na ONU as iniciativas sobre as sanções.
«Pretendo encontrar-me o Presidente Kim Young Sam o mais cedo possível, sem quaisquer condições», disse Kim Il Sung na sua mensagem, segundo o porta-voz sul-coreano. «Aceitei voluntariamente a proposta do Presidente Kim Il Sung. Quando mais cedo melhor», declarou o Presidente.
Segundo o seu porta-voz, o chefe de Estado sul-coreano disse que estava disposto a discutir a questão nuclear e todos os problemas inter-coreanos em suspenso, incluindo a reconciliação. Precisou ainda que o seu governo foi encarregado de organizar reuniões de trabalho preparatórias.
Ao citar Kim Il Sung, Carter afirmou que uma solução para a solução nuclear poderia «oferecer uma nova ocasião para rápidos progressos entre a Coreia do Norte e do Sul». «Ele pretende seguir esta ideia e desejou que transmitisse ao Presidente Kim Young Sam a sua esperança de que este encontro possa ser organizado sem muitas demoras», declarou Carter.
Zeno Park/AFP, em Seul
PUBLICO-19940619-048
PUBLICO-19940619-048
19940619
Mundo
FS
Colômbia
Presidenciais sem penaltis
Fernando Sousa
Liberais e conservadores disputam hoje a sucessão de César Gavíria na Presidência da Colômbia. Samper e Pastrana têm possibilidades semelhantes, mas o Mundial de Futebol e a abstenção são os grandes inimigos dos concorrentes. Para agravar a situação, a Igreja meteu-se no assunto e apelou ao voto no candidato conservador.
Mais perigoso que os guerrilheiros marxistas ou os cartéis da droga, o Mundial de Futebol é o grande inimigo da segunda volta das presidenciais colombianas de hoje, pois poderá aumentar ainda mais a taxa de abstenção da primeira volta do dia 29 de Maio: 67 por cento.
O liberal Ernesto Samper e o conservador Andrés Pastrana, praticamente empatados na primeira volta, com 45,2 por cento contra 44,9 por cento, de entre os quais há-de sair hoje o sucessor de César Gavíria na Presidência da Colômbia, poderão não ter força suficiente para contrariar esse fenómeno habitual no país que é a abstenção e o prestígio da equipa colombiana do campeonato.
A corrida não pode acabar em penaltis: ganha o que conseguir mais votos. Uma das incertezas, até há dias, passava pelo eventual apoio do antigo guerrilheiro António Navarro, hoje líder do M-19, que não tenciona convocar os seus 3,8 por cento de eleitores, tantos como os que o derrotaram o mês passado, para ajudar qualquer dos concorrentes, preferindo manter-se na oposição.
Assim, se vencer Ernesto Samper, 43 anos, a Presidência permanecerá mais quatro anos na mão dos liberais, com a vantagem das legislativas de Março passado ter dado ao partido 90 lugares no Parlamento, contra apenas 51 dos conservadores. Se vencer Andrés Pastrana, filho do antigo Presidente Misael Pastrana, o problema vai ser ao contrário.
A hipótese de uma vitória conservadora não é de afastar. Uma sondagem realizada no dia 10 de Junho creditava a Pastrana 49 por cento das intenções de voto contra apenas 47 por cento de Samper e quatro por cento de indecisos. Há quatro anos, César Gavíria venceu o seu opositor conservador Álvaro Gomez por 48 por cento contra 24 por cento; na primeira volta do mês passado, Pastrana recebeu 44, 9 por cento.
Igreja vota nos conservadores
A recente posição de uma parte da influente Igreja colombiana, que na semana passada meteu-se no assunto pela boca do arcebispo Bucaramanga (noroeste do país), depois pela do Núncio Apostólico e finalmente pela do presidente da Conferência Episcopal da Colômbia, afirmando que é preferível um voto em branco do que votar em Samper, poderá contribuir também para favorecer o seu rival, quanto mais não seja através do aumento das abstenções.
Não seria a primeira vez que a Igreja colombiana invocava Deus contra um candidato em liça. Em 1990, o facto de Álvaro Gomez ter defendido o direito das mulheres a abortar custou-lhe a maldição -- e a derrota. Agora, a maldição vai no sentido oposto. O Núncio Apostólico, Paolo Romero, defendeu o arcebispo Dario Castrillon afirmando que é direito da Igreja denunciar o que, nos programas dos partidos, não está de acordo com a sua doutrina. A argumentação, aparentemente equitativa, e até facilitada pelo facto de os programas liberal e conservador não serem muito diferentes, ficou depois prejudicada com a intervenção do presidente da Conferência, monsenhor Pedro Rubiano, segundo o qual se os protestantes fizeram uma aliança com os liberais, podem os católicos chamar por sua vez a atenção para o perigo que para eles representa tal aliança.
Enfim, como se não bastasse o Mundial de Futebol e o convite explícito da Igreja à abstenção, nenhum dos candidatos deu de si próprio uma imagem agradável, Samper suspeito de estar por detrás da instalação de microfones na sede de Pastrana, este a acusar o adversário de ter amigos que o foram também de Pablo Escobar, o célebre traficante de droga do cartel de Medellín, abatido pelas forças de segurança no dia 2 de Dezembro do ano passado.
Cedendo de bom grado o lugar, quer ao seu antigo ministro para o Desenvolvimento quer ao filho de Misael Pastrana, depois de ter sofrido a pesada herança que lhe deixou, há quatro anos, Virgílio Barco, César Gavíria, quanto a ele, parte para a Organização dos Estados Americanos, onde vai substituir no cargo o brasileiro João Baena Soares.
Ajudado embora pelo seu protagonismo durante a IV Cimeira Ibero-Americana, que terminou quarta-feira em Cartagena das Índias, e pela inflexibilidade que demonstrou na luta contra a guerrilha e os cartéis da droga, Gavíria, que antes de abandonar o cargo ainda deverá receber, no dia 6 de Agosto, os ministros dos Negócios Estrangeiros dos 21 países que foram àquela estância balnear, parte no entanto com algumas beliscaduras.
Pendente fica a declaração de «indignidade» por ter autorizado a entrada e permanência no país de forças americanas, alegadamente importadas para fazer estradas e escolas, mas cuja missão era ajudá-lo na luta contra os barões da droga.
Para trás deixa também as respostas que nunca deu sobre o envolvimento das forças de segurança colombianas no atropelo aos direitos humanos, envolvimento -- ou cumplicidade -- que durante anos o regime de alternância liberal-conservadora foi negando ao mesmo tempo que atribuía os desacatos aos rebeldes das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia e aos narcotraficantes.
Os militares colombianos continuam impunes pelos desmandos. Desde 1986 morreram na Colômbia mais de 20 mil pessoas em consequência da violência política, por exemplo. Muitas morreram em resultado de recontros entre forças governamentais e guerrilheiros, mas a maioria eram camponeses que viviam nas zonas de conflito.
O Governo culpou sempre rebeldes e traficantes. Efectivamente uns e outros cometeram idênticos abusos, mas, segundo documentação reunida pela Amnistia Internacional, o exército esteve por detrás da maioria dos atropelos -- que na sua maioria continuam impunes.
PUBLICO-19940619-049
PUBLICO-19940619-049
19940619
Mundo
JAF
Duas Coreias acordam cimeira
O Presidente sul-coreano, Kim Young Sam, aceitou ontem uma proposta do seu homólogo do Norte, Kim Il Sung, para a realização de uma histórica cimeira inter-coreana que será dedicada à crise nuclear e à reconciliação dos dois países.
«O Presidente Kim Young Sam aceitou voluntariamente esta proposta e exprimiu a sua intenção de se encontrar com o Presidente norte-coreano, Kim Il Sung, independentemente do local e da data», anunciou a Presidência da República em Seul. A proposta foi transmitida pelo antigo Presidente dos Estados Unidos, Jimmy Carter, que regressou ontem à Coreia do Sul após uma visita de três dias à Coreia do Norte.
Seria um acontecimento inédito uma cimeira entre os presidentes dos dois países -- a Coreia do Norte comunista, isolada do mundo e sob a suspeita de estar a desenvolver uma arma nuclear, e a Coreia do Sul, defendida por 37 mil soldados americanos colocados no país após a guerra da Coreia (1950-53).
Com o anúncio da aceitação de uma cimeira por Seul, torna-se mais provável a suspensão do processo de sanções contra contra Pyongyang, iniciado por Washington, dizem analistas sul-coreanos.
Carter anunciou que Kim Il Sung aceitou congelar o programa nuclear norte-coreano e autorizar a entrada de inspectores internacionais. Dois inspectores da Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA) presentes em Yongbyon serão autorizados a permanecer no local de um reactor de cinco MW e de onde pode ser extraído plutónio para fabricar uma arma nuclear.
«Considero [que estes compromissos] poderão servir de base para uma solução do contencioso», declarou ontem, em Seul, Jimmy Carter. Durante uma conferência de imprensa, o antigo chefe da Casa Branca afirmou que as sanções teriam pouca eficácia e seriam interpretadas como «um insulto» para a Coreia do Norte e Kim Il Sung.
Carter, que efectua uma visita privada, procurou também esclarecer os equívocos provocados pelas suas declarações em Pyongyang, que lhe valeram ser desautorizado pelo Presidente Clinton. Indicou ter sido autorizado pela administração norte-americana a assegurar a Coreia do Norte de que os Estados Unidos não lançarão ataques nucleares contra o país. Explicou ainda que as declarações que fez à CNN em Pyongyang (nas quais revelou ter anunciado a Kim Il Sung que Washington tinha renunciado a pedir à ONU a imposição de sanções) foram reproduzidas «fora de contexto». Esta declaração foi desmentida na sexta-feira por Bill Clinton, que afirmou prosseguirem na ONU as iniciativas sobre as sanções.
«Pretendo encontrar-me o Presidente Kim Young Sam o mais cedo possível, sem quaisquer condições», disse Kim Il Sung na sua mensagem, segundo o porta-voz sul-coreano. «Aceitei voluntariamente a proposta do Presidente Kim Il Sung. Quando mais cedo melhor», declarou o Presidente.
Segundo o seu porta-voz, o chefe de Estado sul-coreano disse que estava disposto a discutir a questão nuclear e todos os problemas inter-coreanos em suspenso, incluindo a reconciliação. Precisou ainda que o seu governo foi encarregado de organizar reuniões de trabalho preparatórias.
Ao citar Kim Il Sung, Carter afirmou que uma solução para a solução nuclear poderia «oferecer uma nova ocasião para rápidos progressos entre a Coreia do Norte e do Sul». «Ele pretende seguir esta ideia e desejou que transmitisse ao Presidente Kim Young Sam a sua esperança de que este encontro possa ser organizado sem muitas demoras», declarou Carter.
Zeno Park/AFP, em Seul
PUBLICO-19940619-050
PUBLICO-19940619-050
19940619
Mundo
APC
A demissão de Occhetto abre uma crise no maior partido da esquerda italiana
O pós-pós-comunismo
Alexandra Prado Coelho
Os ex-comunistas italianos têm, ao mesmo tempo, que escolher um líder para suceder a Occhetto e descobrir uma nova orientação para a esquerda. Depois da derrota nas europeias e da confirmação do «fenómeno Berlusconi», o PDS abriu o debate. Mas vai começar pela liderança, e deixar as ideias para mais tarde.
«O meu futuro será aquele que o partido me oferecer», dizia o líder do PDS (ex-Partido Comunista Italiano), Achille Occhetto, durante a campanha eleitoral para as europeias. Foi uma campanha triste aquela que os jornalistas classificavam como «a última viagem eleitoral de Occhetto como secretário-geral do PDS».
E foi, de facto, a última. Depois do partido ter visto os seus votos diminuirem mesmo em relação às legislativas, realizadas há apenas três meses, Occhetto anunciou a sua demissão, pedida já há algum tempo por certos sectores dentro do PDS. A questão agora é saber o que é que vai acontecer àquele que foi outrora o maior Partido Comunista da Europa Ocidental e que continua hoje a ser o maior partido da esquerda italiana, a única oposição possível ao poder cada vez mais reforçado do primeiro-ministro Silvio Berlusconi e da sua aliança de direita.
A guerra pela sucessão de Occhetto já começou e o PDS parece ter mergulhado num período de confusão, com as diferentes tendências a defenderem vias diferentes. É preciso mudar qualquer coisa, é preciso reencontrar um discurso, uma linguagem, uma identidade que permita à esquerda italiana apresentar-se como uma verdadeira alternativa a Berlusconi.
A possibilidade da escolha do novo líder ser adiada até Outubro, altura do Congresso do partido, foi entretanto afastada. O secretário-geral será escolhido no Conselho Nacional marcado para o próximo dia 30, e a linha política do partido será definida no Congresso.
Por enquanto, os dois principais candidatos à liderança do partido são o «número dois», Massimo D'Alema, e o director do jornal «L'Unitá», Walter Veltroni. O diário «La Repubblica», considerado de esquerda, entrou na «guerra» da sucessão ao afirmar recentemente que «se o sucessor for D'Alema, a demissão de Occhetto terá sido completamente inútil». Ou seja, D'Alema, apesar da tradicional rivalidade com o ex-líder, representa a continuidade do aparelho partidária e, segundo o jornal romano, o que é necessário é a ruptura.
Veltroni é, indiscutivelmente, a figura preferida dos jornalistas. Enquanto D'Alema é habitualmente descrito como «frio», «gélido», com um bigode que faz lembrar o de um comissário de polícia ou um barbeiro de província, Veltroni é o homem do «pós-comunismo e televisão e do mito Kennedy», segundo as descrições do diário «La Stampa». Aparentemente, D'Alema, com as suas «paixões contidas e rápidos, secretos sorrisos», «transmite segurança ao partido». Veltroni, o «kennedyano», é um «pós-comunista liberal que sonha com `uma bandeira vermelha e um computador'», alimenta-se de gelados, chocolate e coca-cola e tem uma cara de miúdo mimado, muito diferente do rosto fechado de D'Alema -- um homem de quem o próprio Occhetto dizia que lhe lembrava um «meio Estaline».
Quem somos? O que defendemos?
Durante a campanha para as europeias, Occhetto tinha dito: «Devemos passar à segunda fase da formação do PDS, a da inovação no terreno organizativo. Penso num partido com uma articulação federal e com ramificações na sociedade». Seria este, para o líder, o caminho a seguir pelo partido que ele próprio tinha conduzido na difícil fase de transição do comunismo para o pós-comunismo.
O antigo PCI dividiu-se então entre o novo PDS e a Refundação Comunista, que reuniu os ortodoxos «puros e duros». Mas a discussão sobre a identidade do partido já tinha começado e não foi um debate fácil para os militantes. Quem somos, o que queremos, o que defendemos?, perguntavam, angustiados. Occhetto deu algumas respostas, mas não todas. O PDS apresentou-se, a partir daí, como um partido defensor da integração europeia, da presença da Itália na NATO, do liberalismo económico, das privatizações, mas também de uma política social importante, de combate ao desemprego, de assistência social, de apoio estatal às empresas.
Foi este o discurso que o colocou, no final de 93, à frente nas sondagens. Mas era ainda o período pré-Berlusconi. Depois, face ao discurso do «milagre económico» do líder da Força Itália e actual primeiro-ministro, o PDS afundou-se. Os italianos queriam optimismo e não realismo, queriam arrojo e não prudência, e preferiram as promessas de um milhão de novos empregos feitas por Berlusconi aos discursos sobre a política social dos ex-comunistas.
E agora? O PDS pós-Occhetto tem que reunir a esquerda numa grande aliança, tal como Berlusconi reuniu a direita, afirmam alguns. Encontrado o líder dos progressistas será depois preciso encontrar um líder para esta aliança de esquerda. Aí surgem outros nomes: o do presidente da Câmara de Veneza, o filósofo Massimo Cacciari (que foi um dos principais críticos, nas últimas semanas, não só de Occhetto mas de toda a direcção do PDS), ou Walter Vitali, presidente da Câmara de Bolonha.
Cacciari é apresentado pela comunicação social como um político com «posições originais» no seio da esquerda e que pensa que esta continuará do lado dos perdedores enquanto se mantiver ligada aos «velhos modelos» de organização e de pensamento. O responsável de Veneza defende uma grande coordenação entre os progressistas e considera que estes devem escolher um líder fora dos aparelhos partidários. Ele é, precisamente, uma figura desse género, um independente que concorreu para as municipais nas listas do PDS.
Mas a grande questão é sempre a mesma: com que discurso, com que posicionamento político é que a esquerda se vai renovar? O risco para o PDS, neste momento, é perder-se nas incontornáveis lutas internas pelo poder e trocar o debate sobre a crise da esquerda pelo debate sobre a sucessão de Occhetto.
Numa recente entrevista ao «La Repubblica», uma figura histórica da esquerda italiana como Vittorio Foa, resistente e antigo líder sindical, afirmava: «Renovação significa abertura a novos horizontes e a novas forças. O PSD deve sair da paralisia, da sua não existência como oposição, da vocação para a simples denúncia, da incapacidade para compreender o que é que mudou e como. Basta pensarmos como o PDS geriu a formação da frente progressista para as eleições de Março: oferecendo postos em troca de apoios, num puro estilo comunista».
PUBLICO-19940619-051
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19940619
Mundo
MSL
França e EUA disputam influência na Argélia
O MINISTRO dos Negócios Estrangeiros Alain Juppé foi, no passado dia 10 de Maio, a Washington, explicar a posição de Paris em relação a Argélia, mas em vez de assustar os americanos com um cenário catastrofista se os fundamentalistas muçulmanos assumirem o poder, foram os EUA que, aparentemente, deixaram a França apreensiva ao defender a Frente Islâmica de Salvação (FIS) como uma organização não-terrorista.
Juppé descreveu a FIS como um movimento extremista e hostil ao Ocidente, que, se chegasse ao Governo, poderia reforçar as ameaças islamistas em Marrocos e na Tunísia. A solução francesa, que passa por um ajuda financeira, é encorajar as autoridades argelinas a iniciar um diálogo com «forças democráticas», para que o país volte a ser «um Estado de direito, de acordo com os nossos princípios».
Os americanos ouviram os conselhos do responsável francês, mas logo de seguida revelaram uma política diferente para a região, ditada por interesses económicos e pela disputa de influência no Magrebe. Assim que Juppé partiu, o responsável para o terrorismo no Departamento de Estado esclareceu os jornalistas que os EUA não têm provas do envolvimento da FIS em actos de violência e, por isso, não a podem catalogar como organização terrorista.
Para Washington, explicou o islamólogo egípcio Fahmi Howeidi, no jornal saudita «Asharq al-Awsat», as acções terroristas são obra do Grupo Islâmico Armado (GIA), «que a FIS não controla», ou do Movimento Islâmico Armado (MIA), «cujas relações com a FIS não são claras». E mesmo que a FIS esteja envolvida em actos violentos, está mais próxima do Hamas palestiniano, porque tem um programa político, do que da Jihad Islâmica, que prega a violência pura.
Ao contrário da paternalista França, a solução dos EUA passa por negociações entre o regime argelino e a FIS, para reactivar o processo eleitoral. E se a FIS ganhar, como aconteceu na primeira volta das legislativas de Dezembro de 1991 -- vitória que levou à sua dissolução --, os americanos aceitarão desta vez o resultado. Já não acreditam na teoria do dominó, segundo a qual se um regime árabe for vencido pelos fundamentalistas, outros na região terão o mesmo destino, embora admitam um choque psicológico nos países vizinhos.
O que interessa à Administração Clinton é que os integristas argelinos não se opõem à liberalização da economia e iniciativa privada, ou seja, não são obstáculo à penetração dos capitais americanos nos negócios regionais do petróleo e do gás. Washington facilitou um acordo com o FMI e está a incentivar a constituição de empresas mistas.
Os franceses, indignados com esta «ofensiva», começam a interrogar-se por que razão têm sido vítimas dos fundamentalistas argelinos na guerra que estes declararam aos estrangeiros, enquanto até agora nenhum cidadão americano foi molestado.
Margarida Santos Lopes
PUBLICO-19940619-052
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19940619
Mundo
JAF
Adeus aliados, adeus Berlim: os três aliados ocidentais estacionados em Berlim desde 1945 -- Estados Unidos, França e Grã-Bretanha -- despediram-se ontem da capital alemã com uma grande parada que atravessou a avenida 17 de Junho (data da revolta anti-comunista de Berlim-Leste, em 1953) em direcção à Porta de Brandeburgo (símbolo da antiga divisão da cidade). O presidente do município, Eberhard Diepgen agradeceu o contributo ocidental na defesa da cidade durante o bloqueio soviético de 1948-49. «Fostes berlinenses [...] sem o vosso compromisso, não teria podido haver uma Berlim livre [...] nem a reunificação alemã». Se esta despedida marca o fim da guerra fria, os berlinenses viram partir os aliados com alguma nostalgia. «Os aliados faziam parte do nosso quotidiano», disse à AFP Wolf Reiner, 42 anos, que com eles cresceu em Berlim. «Sem eles estaríamos perdidos», acrescentou Gisela, 60 anos, uma fiel espectadora destas paradas. Os russos não foram convidados, mas terão direito a um desfile separado no próximo dia 25, em Berlim-Leste. Haverá ainda novas cerimónias, com Boris Ieltsin, em 31 de Agosto, e com os chefes de Estado aliados, em 8 de Setembro.
PUBLICO-19940619-053
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19940619
Mundo
JAF
Líbano
O regresso dos cristãos da montanha
Cerca de sete mil soldados libaneses tomaram ontem posição na montanha Chouf, a sueste e leste de Beirute, para garantir a segurança e acelerar o regresso dos cristãos à região onde viveram com os drusos durante muitos anos até que a guerra civil, em 1975, os obrigou a fugir.
O retorno de 150 mil cristãos ao Chouf foi particularmente saudado pelo líder druso, Walid Jumblatt, um antigo senhor da guerra que hoje é ministro das Pessoas Deslocadas. O assassínio, em 1977, do pai de Walid, Kamal Jumblatt, provocou o massacre e o êxodo de muitos cristãos do Chouf. O próprio Walid foi responsável por um massacre na aldeia de Bhamdoun, em 1993, que forçou outros milhares de cristãos a abandonar as suas povoações.
Hoje, Walid, reconhece que os drusos «não conseguiram preencher o vazio e recuperar o fulgor económico que a montanha conheceu com os cristãos». Foi ele que incentivou o Parlamento libanês a votar um orçamento de 475 milhões de dólares, para cinco anos, com o objectivo de financiar o regresso dos deslocados.
A montanha Chouf faz parte da região do Monte Líbano, onde a presença cristã, segundo os historiadores Boutros Labaki e Khalil Abou Rjeily («Bilan des guerres du Liban, 1975-1990», L'Harmatan, Paris), data dos primeiros tempos do cristianismo. A presença drusa remonta à segunda metade do século XII.
A primeira fuga da população cristã teve lugar em Ayn el-Assad, numa pequena localidade de cem habitantes. Atacada por guerrilheiros palestinianos residentes numa povoação sunita vizinha, na noite de 14 de Abril de 1975, os cristãos fugiram para Debbiyé e depois para Beirute. Na sequência deste ataque, outros cristãos de localidades mistas refugiaram-se em Beirute Oriental.
A partir do início de 1976, e após a tomada do bairro de Quarantine pela milícia do partido cristão Kata'eb (Falange) e o deslocamento da população muçulmana que ali se encontrava, as chamadas forças «palestiniano-progressistas» invadiram o litoral do Chouf, executando centenas de civis, em Jiyyé e Damour, e forçando a fuga dos restantes habitantes. Estes incidentes multiplicaram-se noutras zonas e, entre 1975 e 1976, o êxodo da população cristã ascendia a cem mil pessoas.
A maior parte dos deslocados regressou aos seus lugares de origem no início de 1977, com a entrada das tropas sírias no Líbano. Mas, em Março do mesmo ano, após o assassínio do líder druso Kamal Jumblatt, mais de 200 cristãos do Chouf foram massacrados como represália. Jumblatt foi morto por agentes sírios, mas nessa altura, Damasco era um aliado dos cristãos. Depois destes massacres, 25 mil pessoas deixam definitivamente a região.
«Os cristãos tornaram-se reféns e prisioneiros nas suas próprias aldeias, à mercê do menor incidente», salientaram Labaki e Rjeily. «Eles abandonam progressivamente a região para se estabelecerem em Beirute Oriental e nos seus subúrbios a Leste e Norte».
A invasão israelita, em Junho de 1982, permitiu o regresso ao Chouf dos cristãos deslocados, mas foi um retorno marcado por fricções com os drusos, incentivadas pelos invasores. Muitos cristãos voltam a fugir, outros ficam até Agosto de 1983, data de um massacre na aldeia cristã de Bhamdoun, sob controlo das tropas sírias, após a retirada parcial dos israelitas.
Começou então a «guerra da montanha» entre cristãos e drusos, estes apoiados por guerrilheiros palestinianos. Balanço: 163.670 deslocados, 1.155 mortos e 2700 desaparecidos. A maior parte das aldeias cristãs no Chouf ficaram desvastadas. Restaram apenas 3000 pessoas, ou seja, menos de 1 por cento da população cristã inicial.
Margarida Santos Lopes
PUBLICO-19940619-054
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19940619
Mundo
JAF
Incertezas e tensões no Conselho Nacional dos socialistas franceses
Rocard põe em jogo o seu futuro
Ana Navarro Pedro, em Paris
O primeiro-secretário do PSF vai tentar o milagre da ressurreição do partido num Conselho Nacional amedrontado, resignado a dar-lhe um voto de confiança só porque não há ninguém desejoso de substituir Rocard. Por enquanto.
Michel Rocard põe hoje em jogo o seu futuro político -- que é, no fundo, toda a sua razão de existir -- nas mãos do Conselho Nacional do Partido Socialista Francês. E ninguém sabe com que armas vai lutar o primeiro-secretário nesta assembleia "parlamentar" do partido. Na quarta-feira, depois de ter anunciado ao "bureau" executivo do PSF que iria pedir hoje um voto de confiança, Michel Rocard desapareceu. Fechou-se sozinho numa casa, algures no campo, ou talvez à beira-mar, "para fazer o ponto da situação" -- dizem os seus amigos -- e para preparar as propostas que deve apresentar hoje ao Conselho Nacional.
O silêncio do primeiro-secretário (apesar das ameaças de vários caciques do PSF, que queriam conhecer o texto de antemão) e a forma como reagiu ao recente desaire eleitoral, dão matéria para todo o tipo de análises e de hipóteses. É que, há oito dias, Rocard ficou branco e vacilou como se tivesse recebido um murro na cara, quando lhe anunciaram o resultado do PSF nas eleições europeias: 14,5 por cento. É preciso regressar aos finais dos anos 60, ainda no tempo da antepassada do PSF, a Secção Francesa da Internacional Operária (SFIO), para se encontrar um tão fraco resultado.
A primeira reacção de Michel Rocard foi demitir-se. Terá sido necessário "quase sequestrá-lo" para que abandonasse a ideia. E os mesmo amigos e conselheiros tiveram ainda de rasgar o texto que Rocard se aprontava a ler na televisão, e no qual assumia pessoalmente a responsabilidade do desaire dos socialistas. Mas ninguém conseguiu dissuadi-lo de fazer uma autocrítica no "bureau" executivo: «Quando lhes quero falar de esforço, de futuro, de esperança, os franceses percebem complexidade, incompreensão, banalidade».
Estas foram as suas últimas palavras públicas. As que irá pronunciar hoje, serão fruto de que balanço pessoal, de que reflexões? Entre a apresentação de um verdadeiro plano de batalha para a redinamização do PSF, e a demissão pura e simples, todas as hipóteses são plausíveis. A mais remota parece ser, apesar de tudo, a da demissão. "Se Rocard tencionasse demitir-se da direcção, já o teria feito", dizem todos os observadores. Além do mais, ninguém no seio do PSF deseja vê-lo partir nesta fase.
Não porque haja uma grande amizade e respeito pelo primeiro-secretário - mas, simplesmente, porque não existe nenhuma personalidade que deseje substituí-lo nesta altura. Mais do que a cólera, ou a vontade dos ajustes de contas, é o medo de um desaparecimento puro e simples do partido que reina entre os caciques e chefes de correntes. É por essa única razão que, desde o desaire de domingo, os ataques internos contra Michel Rocard têm sido relativamente moderados.
Delors não fala
No fundo, os seus adversários desejam-vê-lo morrer de "morte lenta": é mais doloroso, e dá tempo ao aparelho partidário para encontrar um novo dirigente.
Ora, o nome desse dirigente anda em todas as bocas: Jacques Delors. Mesmo se o presidente da Comissão Europeia recusa discutir de qualquer assunto de política interna francesa antes do fim do se mandato, em Dezembro deste ano, há sempre maneira de se dar a entender desejos e intenções. Desde há meses que correm boatos sobre uma eventual determinação de Delors em não se candidatar, em circunstância alguma, às presidenciais de 1995. Os "deloristas" quiseram ter as ideias claras: «Se é verdade que não quer ser candidato em 1995, deve dizê-lo publicamente na segunda-feira». Jacques Delors não disse nada.
Michel Rocard conhece todas esta manobras. E sabe também que o único plano de transição foi rejeitado no meio de uma grande desconfiança: Jack Lang, o antigo ministro da Cultura socialista de 1981 a 1993, propunha-se assumir a liderança do partido até Dezembro, e depois retirar-se para deixar o terreno livre a Delors. Não é a devoção de Lang que está em causa. É o seu gosto pelo poder e a sua falta de noção do ridículo que assustam os seus «amigos» socialistas.
Na realidade, as apostas vão na maioria para um jogo de «tudo ou nada» por parte de Michel Rocard. Utilizando todas as forças que lhe restam, o primeiro-secretário tentaria acabar de vez com as funestas correntes do partido, imporia a eleição por escrutínio maioritário de todos os órgãos dirigentes do PSF e relançaria o sonho de uma federação de todos os movimentos de esquerda. Os comentadores franceses já encontraram um nome para esta estratégia: «roleta russa».
PUBLICO-19940619-055
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19940619
Mundo
JAF
Ruanda
A guerra internacionaliza-se
A FRENTE Patriótica Ruandesa (FPR) lançou ontem, em Bruxelas, um apelo a «todos os ruandeses no interior do país e na diáspora» para que se mobilizem contra a França.
«Mobilizai-vos, para fazer malograr a traição francesa. Ao fim e ao cabo, sois ruandeses, deveis viver e morrer no Ruanda e não noutros lados», diz o comunicado assinado por Jacques Bihozagara, membro do Bureau Político da FPR, cuja guerrilha parece estar a levar a melhor nos combates encetados há dois meses e meio.
O «Apelo à Mobilização Geral» é particularmente duro em relação à França e faz temer que a prevista intervenção humanitária gaulesa no Ruanda venha a deparar com o mesmo tipo de dificuldades que se levantaram à intervenção norte-americana na Somália.
A FPR, constituída à base de elementos tutsis que durante duas décadas viveram exilados no Uganda, pediu prudência aos países africanos que «desejem seguir a França na concretização do seu sinistro plano»: «Talvez tenhais dívidas a pagar à França, mas encontrai outros meios que não sejam o sangue dos ruandeses».
O Presidente François Mitterrand indicara ontem mesmo que a criação de uma «força de protecção humanitária» era uma questão «de horas e de dias», não de semanas ou de meses, pelo que muito em breve a França enviaria para o Ruanda entre mil e dois mil homens, mal obtivesse luz verde das Nações Unidas.
Ao falar num colóquio sobre desenvolvimento, Mitterrand dissera surpreendentemente que recebera «uma carta calorosa de agradecimento dos dirigentes da Frente Patriótica Ruandesa».
No entanto, pouco depois, no texto distribuído em Bruxelas, a FPR comentava: «A França voa em socorro dos carrascos desesperados. Agora os ruandeses já conhecem o papel francês na elaboração do plano de genocídio de que foram vítimas os seus pais, irmãos e irmãs».
A França isolada
Paris solicitou na sexta-feira autorização ao Conselho de Segurança da ONU para uma intervenção rápida no Ruanda, a fim de acabar com as chacinas antes de novos capacetes azuis serem para lá enviados. Mas Mitterrand reconheceu ontem que só dois ou três estados africanos, e nenhum europeu, se prontificaram até agora a acompanhar os franceses na sua intervenção militar.
Uma fonte ruandesa disse ao PÚBLICO que os presidentes africanos com que a França estaria a contar em primeiro lugar para esta sua campanha seriam Omar Bongo, do Gabão, e Mobutu Sese Seko, do Zaire, muito necessitado de reabilitação aos olhos da comunidade internacional.
Entretanto, em Dacar, o ministro francês dos Negócios Estrangeiros, Alain Juppé, anunciava que o Senegal era um dos poucos países dispostos a dar soldados para esta nova campanha da África Centro-Oriental.
A célula de urgência do ministério gaulês de Acção Humanitária prevê encaminhar para o Ruanda, a partir de agora, dois combóios semanais de dois camiões cada, a fim de facilitar ajuda às populações vítimas da guerra que se reacendeu em Abril, após a morte em condições estranhas do Presidente Juvénal Habyarimana.
A França foi durante muito tempo um sustentáculo daquele político, mas num jornal de Bruxelas, «Le Soir», já saiu a notícia de que militares franceses teriam disparado o morteiro que destruiu o avião em que se encontrava Habyarimana.
PUBLICO-19940619-056
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19940619
Mundo
JAF
Haiti
Vudu contra Clinton
O Haiti é apoiado por forças ocultas para lutar contra os seus inimigos, declarou recentemente Emile Jonassaint, o presidente provisório que não é reconhecido pela comunidade internacional. Se estas afirmações fizeram sorrir os diplomatas, não surpreenderam os haitianos, familiarizados com este tipo de crenças e da sua utilização política.
A religião popular do Vudu, à qual Jonassaint se contentou a fazer alusões sem pronunciar o seu nome durante um discurso no passado domingo, pode segundo os seus seguidores atingir uma pessoa à distância, através do que os haitianos designam por «expedições».
Sem as nomear, o Presidente referiu-se ao destino de duas personalidades favoráveis à utilização de métodos duros contra o Haiti: o ex-Presidente venezuelano Carlos Andrés Perez, actualmente preso sob a acusação de práticas de corrupção, e o ex-primeiro-ministro canadiano Brian Mulroney, cujo partido foi afastado do poder após uma humilhante derrota eleitoral.
«O Presidente Clinton terá uma crise cardíaca, um acidente de automóvel ou sérios problemas políticos se invadir o Haiti», declarou um empregado de comércio adepto da religião Vudu, acrescentando com um ar misterioso: «Joinssaint é um grande místico».
«É tudo tretas e crendices», retorquiu um homem de idade madura, antigo funcionário e católico praticante, ao reconhecer que a maioria dos haitianos acredita no poder do Vudu e nos seus poderes ocultos.
Num estudo recente intitulado «O Haiti arrasta a desgraça!», e publicado no matutino «Le Matin», Georges Michel, um respeitado historiador haitiano devido, considera que o Haiti «leva a desgraça a todos os que o atacam e, em particular, nunca deu sorte aos presidentes americanos que o mantiveram sob ocupação militar».
O primeiro, o democrata Woodrow Wilson, que ordenou em 1915 a sua invasão pelos «marines», teve um fim miserável, sublinhou o historiador. Atingido por uma paralisia, assistiu à derrota do sue partido nas eleições de 1920 e teve como desgosto supremo a recusa pelo Senado do Tratado de Versalhes, que considerava a coroação da sua carreira política. Nunca recuperou a saúde e morreu num estado de demência psíquica em 1924.
Quanto a Warren Gamaliel Harding, que reforçou a ocupação após ter prometido o seu fim durante a campanha eleitoral, morreu misteriosamente nas suas funções em 1923 -- falou-se de envenenamento -- não ser antes ter sido atingido pelo escândalo «Tea Pot Dome», uma primeira versão do Watergate.
O terceiro, John Calvin Coolidge, também não teve melhor sorte. Após ter cumprido o seu mandato regular (1924-1928), morreu ainda jovem em 1933, alguns anos após ter abandonado a Casa Branca.
O quarto Presidente da ocupação, Herbert C. Hoover, não morrer mas teve que enfrentar a Grande Depressão e o «crash» bolsista da quinta-feira negra, 24 de Outubro de 1929, um mês que marcava, como se sublinha no Haiti, o décimo aniversário do assassínio pelos americanos do chefe da resistência popular haitiana ao ocupante, Charlemagne Péralte.
Franklin D. Roosevelt pôs termo à ocupação do Haiti mas morreu no poder devido a um ataque de apoplexia, sem assistir ao triunfo dos exércitos aliados, pelo qual tanto se bateu. Para o historiador George Michel «o Presidente Bill Clinton deveria ter cuidado, para não colocar o seu nome no final desta lista...».
Dominique Levanti/ AFP, em Port-au-Prince
PUBLICO-19940619-057
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19940619
Local
AC
Torres Novas
Torres Novas melhora estradas
Beneficiar e recuperar quatro importantes troços de estradas municipais com um custo total de 171 mil contos é um dos objectivos prioritários da Câmara Municipal de Torres Novas, que para o efeito concorreu ao Programa Operacional da Região de Lisboa e Vale do Tejo (PORLVT).
A autarquia quer ver melhoradas as estradas Torres Novas-Pedrógão, Torres Novas- Ribeira Grande, Pedrógão-Pafarrão e Assentis-Fungalvaz, pelo que concorreu aos fundos do PORLVT, para o período de 1994-96. No entanto, a forma como foi elaborada a candidatura mereceu a crítica da vereadora Manuela Tolda (PSD), para quem estes «assuntos muito importantes para o concelho devem ser reflectidos e analisados por todo o executivo camarário».
PUBLICO-19940619-058
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19940619
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AC
Sampaio e Constâncio confrades de mérito da Colegiada dos Enófilos de S. Vicente
Honras a Baco na Tapada
Nos jardins da Tapada da Ajuda, em território do Instituto Superior de Agronomia, há uma festa a não perder, quer pelo magnífico passeio e paisagem que proporciona, como pelo vinho e objectos associados à sua cultura que ali se podem encontrar.
Livros, revistas, copos com um design específico ligado ao vinho, ou idênticos aos que são utilizados pelos provadores, cerâmicas com motivos de Rafael Bordalo Pinheiro e até T-shirts, com reproduções de rótulos de antigas marcas de vinho, além do vinho propriamente dito, fazem parte da vasta gama de produtos expostos nos 28 stands, erguidos nos jardins da Tapada, junto do secular Pavilhão de Exposições do Instituto Superior de Agronomia (ISA).
Em honra a Baco e à cultura vinícola, o ISA associou-se a duas outras entidades -- o Instituto do Vinho do Porto e a Colegiada dos Enófilos de S. Vicente -- e propuseram a Lisboa-94 incluir nas suas manifestações uma iniciativa capaz de dignificar o sector vinícola. Da ideia passaram à acção e, para organizar «O Vinho na Festa da Cultura 94», como lhe chamaram, beneficiaram parte da Tapada para ali mostrar e fazer provar vinhos de qualidade.
O local escolhido não poderia ser melhor, os jardins e o próprio Pavilhão de Exposições -- uma estrutura construída em 1884, para albergar uma exposição sobre o mundo agrícola -- onde até dia 26 estará patente uma mostra dos cartazes e dos rótulos que ao longo de muitas décadas têm promovido e identificado as garrafas de vinho português.
Para entrar na festa, contudo, há que pagar, mas por mil escudos, tem-se direito a um copo especial para provas, com o qual se pode depois experimentar, em cada um dos espaços ocupados pelas várias empresas lá representadas, os produtos que comercializam.
«A ideia é não só promover o vinho, como, em particular o vinho a copo, que em Portugal deixou de ser comerciado nos restaurantes, ou quando o é, não tem qualidade. E, afinal, esse é um problema facilmente ultrapassável. Basta que os estabelecimentos tenham vinho de qualidade e um aparelho capaz de criar vácuo, para travarem a possibilidade de estragar garrafas não totalmente consumidas depois de abertas», disse ao PÚBLICO, Belo Moreira, professor do ISA e um dos elementos da organização.
Além da festa na Tapada, outros acontecimentos fazem parte desta iniciativa . Ontem, um deles, surpreendeu muita gente no Rossio, quando dezenas de enófilos, de confrarias portuguesas e estrangeiras (Itália, França, Grécia e Espanha) desfilaram da Praça D. Pedro IV até aos Paços do Concelho.
Na linha da frente, trajando as vestes características da sua confraria, barretes pretos e longas capas em negro e branco, seguia a Colegiada dos Enófilos de S. Vicente, que decidiu atribuir à Câmara Municipal de Lisboa -- na pessoa do seu presidente, e de três vereadores, Rui Godinho, Macário Correia e Pedro Feist -- bem como ao comissário de Lisboa-94, Vítor Constâncio, o título de «confrades de mérito» da Colegiada.
Por regra, para se ser membro de uma confraria enófila, é necessário que uma pessoa se destaque em qualquer actividade que dignifique o vinho. Neste caso, não foram as pessoas, mas as instituições, «cujo mérito consistiu em terem apoiado a iniciativa a decorrer na Tapada da Ajuda», como disse ao PÚBLICO João Ghira, grão-mestre da Colegiada dos Enófilos de S. Vicente e antigo presidente do Instituto do Vinho e da Vinha.
Mas uma vez entronizados, os novos confrades de mérito desta confraria terão de passar a fazer jus ao título. Não lhes bastará beber vinho, porque esse não é o requisito principal para o dignificar. Só nas vestes, que acompanham a investidura, o novo título poder-lhes-á sair caro. Algumas custam mais de 50 contos. Apenas as dos enófilos da Confraria dos Jornalistas tem trajes menos despendiosos, mas esse não é o caso de Sampaio, nem de Constâncio, ou dos restantes investidos no título.
Fernanda Ribeiro
PUBLICO-19940619-059
PUBLICO-19940619-059
19940619
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Não é um polvo, mas parece. Macrocéfalo, o edifício-sede da Caixa Geral de Depósitos, à Avenida João XXI, teima em lançar os «tentáculos» sobre as zonas envolventes. Há poucos meses atrás tentou construir um muro a meio da faixa de rodagem da Avenida Marconi, próximo da Praça de Londres. Na altura, fosse pela contestação dos moradores ou pelo relato na imprensa da insólita situação, as obras pararam. Esquecido o problema, eis que a instituição bancária volta agora à carga e, como quem não quer a coisa, um novo muro está a nascer no mesmo local. A reincidência, classificada como «escandalosa» por alguns moradores, vai ter como consequência, caso o muro se concretize desta feita, o emparedamento dos prédios 14 e 16 da Avenida Marconi. Isto, com a agravante de se tratar de uma artéria sem saída, onde passará a ser impraticável, ou pelo menos bastante difícil, qualquer manobra de inversão de marcha. Explicações para esta «invasão» da via pública procurou-as o PÚBLICO, na sexta-feira, junto do gabinete de relações públicas da Caixa Geral de Depósitos. Porém sem êxito, porque, segundo um funcionário, o departamento estava em mudanças. Porventura, também à procura de mais espaço.
PUBLICO-19940619-060
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19940619
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O camartelo avança para a Charneca
Alto do Lumiar vai sacrificar zona rural
Ana Henriques e José António Cerejo
O Alto do Lumiar foi um sonho de Abecasis. Entre a Segunda Circular e o Forte da Ameixoeira, a Alameda das Linhas de Torres e o Aeroporto, deveria nascer uma nova cidade. Com ela resolvia-se o problema do realojamento dos habitantes da Musgueira e requalificava-se uma vasta área até aqui degradada. Jorge Sampaio mandou rever o plano que herdou e quis que ele desse lugar a um verdadeiro prolongamento do eixo histórico de Lisboa. Mas o pior foi mesmo a História. O que é que fica e o que é vai abaixo? A preservação da velha aldeia da Charneca está no centro da controvérsia.
A revisão do plano do Alto do Lumiar -- uma gigantesca urbanização que deverá receber 40 a 50 mil habitantes em 300 hectares das freguesias da Charneca, Ameixoeira e Lumiar -- está praticamente pronta para ser aprovada na Câmara de Lisboa. O que não terminou ainda foram as polémicas ligadas ao núcleo histórico ali existente, que os novos prédios irão parcialmente destruir. O problema foi responsável pelo arrastamento da conclusão do plano desde o final do ano passado, mas os partidários do camartelo parece terem já ganho a partida.
Os espanhóis encarregados de rever o plano desta mega-urbanização, liderados pelo arquitecto Eduardo Leira, entendem que a parte poente da Charneca do Lumiar -- constituída pelos largos do Médico e das Peneireiras e ruas anexas -- não vale a sua preservação. Os serviços camarários, ao contrário, defendem a reabilitação e integração na futura malha urbana.
A última versão do plano encomendado pela Sociedade Gestora do Alto do Lumiar (SGAL) aos espanhóis prevê a destruição de 96 fogos, num total de 247 existentes, incluindo ruas, largos e becos inteiros. Trata-se, em grande parte, do casario existente no Largo do Médico, no Largo das Peneireiras e em duas pequenas ruas anexas, para onde está prevista a implantação de uma grande rotunda, a que os projectistas chamam o «novo Saldanha» de Lisboa. Entre os edifícios cuja demolição está programada encontram-se algumas quintas centenárias, como a Quinta Grande, a Quinta do Médico, a Quinta de São João, com as suas colunas quinhentistas, e a Quinta dos Bonecos. Nesta última, que consta do inventário municipal do património e já se encontra fora da zona de intervenção da Charneca, existem painéis de azulejos do século XVIII.
Projectistas e Câmara em confronto
Alguns técnicos e serviços da Câmara de Lisboa mostram contudo uma oposição feroz à destruição do casario e das quintas que, apesar do seu interesse histórico e patrimonial, pouco mais são do que um vasto conjunto de habitações degradadas. Portas, janelas e marquises de alumínio substituíram as madeiras. As persianas são de plástico e algumas fachadas foram revestidas de azulejos tipo casa de banho. Embora permaneça como a memória de um espaço rural às portas da cidade, o aspecto geral da Charneca -- globalmente classificada pela Câmara como um núcleo de interesse histórico -- é de um grande desleixo, que só uma profunda intervenção poderia reabilitar. Dois pátios, inventariados pelo Grupo de Pátios e Vilas da Câmara, não escapam a este estado de coisas.
A degradação é, de resto, um dos principais aspectos em que os projectistas espanhóis se têm apoiado para defender o desaparecimento destes arrabaldes, onde, já no século XVII, algumas famílias nobres se instalavam para usufruir o campo às portas da capital. Mas, além de degradado e «lumpenizado», justificam os projectistas, o subnúcleo construído entre a igreja da Charneca e o Largo do Médico não tem valor intrínseco, nem identidade própria. Sobretudo, não justifica a diminuição da rentabilidade que a impossibilidade de lá construir acarretaria para a nova urbanização.
Por isso mesmo, a equipa de Eduardo Leira tem argumentado que a construção da futura Rotunda Norte da Alameda do Alto do Lumiar é a melhor solução para acabar com esta e futuras polémicas. Ou seja: aponta-se a rotunda, naquele local, como um elemento absolutamente indispensável do plano e justifica-se, sem mais discussão, a inevitabilidade das demolições. Ganha-se espaço para construir, evitam-se os custos da recuperação e mantém-se a filosofia urbana do plano.
A única coisa que vale a pena preservar, na opinião da SGAL, é o imenso Campo das Amoreiras, a vizinha Quinta do Alegre, pertencente à Misericórdia de Lisboa e classificada como Imóvel de Interesse Público, e o Largo dos Defensores da República.
Na perspectiva dos técnicos do Departamento de Planeamento Estratégico e da Direcção Municipal de Reabilitação Urbana, porém, a zona do Largo dos Médicos é indispensável para assegurar a preservação do núcleo histórico da Charneca e a rotunda é dispensável naquele local. A sua deslocação para sul, em direcção à Segunda Circular, permite salvaguardar aquela área, garantindo simultaneamente a adaptação da rede viária à configuração do terreno, coisa que, segundo os críticos do plano, não aconteceria com a rotunda nos largos em questão. Isto sem pôr em causa a estrutura básica do desenho urbano proposto pelos espanhóis.
Pondo de lado a lógica da mais-valia imobiliária como critério central do planeamento, os técnicos camarários defendem assim a recuperação total do património edificado, estimando os seus custos globais -- incluindo a área central do Campo das Amoreiras e o subnúcleo dos largos do Médico e Peneireiras -- em cerca de quatro milhões de contos.
Câmara não mostra o jogo
Para ultrapassar estas divergências, a equipa projectista da SGAL reuniu-se com os responsáveis do planeamento estratégico da autarquia, no princípio de Janeiro deste ano. O resultado saldou-se no protelamento da questão essencial, remetendo-se para uma futura decisão da Câmara. Ao que o PÚBLICO apurou, desde então até agora não houve nenhuma clarificação definitiva do assunto, mas tudo aponta no sentido de que a proposta da equipa de Eduardo Leira venha a obter acolhimento no executivo municipal.
Fonseca Ferreira, o principal interlocutor camarário da SGAL, escusa-se a desvendar os termos do acordo estabelecido com os projectistas e garante que «os elementos patrimoniais serão preservados». Mas o subnúcleo poente, na zona onde está prevista a rotunda Norte, mantém-se ou não? O director do Planeamento Estratégico rodeia a pergunta e diz que em Julho se saberá, quando a revisão do plano for submetida à Câmara. Sobre o conjunto, limita-se a afirmar: «Não fica como os espanhóis queriam nem como os fundamentalistas desejavam. E foi por isso que os acertos finais demoraram tanto tempo...»
Mas nem só a demolição faz franzir as sobrancelhas dos especialistas da Câmara.
O modo como serão preservadas certas áreas antigas -- Campo das Amoreiras, Quinta Alegre e ainda a igreja e o cemitério do Largo dos Defensores da República -- é mais um ponto controverso. Ainda que mantidas, todas estas edificações correm o risco de ficar muradas pelas novas construções ou mesmo amputadas, quais alienígenas no meio dos novos edifícios de múltiplos andares.
PUBLICO-19940619-061
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19940619
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Cidade prolongada até quase às Galinheiras
Lisboa ganha 3,5 quilómetros
A futura urbanização do Alto do Lumiar deverá permitir o prolongamento do eixo histórico de Lisboa, desde o Campo Grande até às proximidades das Galinheiras, numa extensão de 3,5 quilómetros. Planeada no tempo de Kruz Abecasis, a ocupação dos 300 hectares abrangidos por esta intervenção foi depois objecto de uma profunda revisão por parte da equipa de Jorge Sampaio. É esse trabalho que está agora em fase de conclusão e que deverá ser presente à Câmara no decurso do próximo mês.
Na versão herdada de Abecasis, o Alto do Lumiar deveria receber mais de 60 mil habitantes, em 21 mil fogos, e teria uns 15 por cento de área ocupada por serviços. Para os actuais responsáveis municipais, o plano original configurava claramente uma urbanização/dormitório. «O conjunto ficava isolado da cidade e não fazia sentido urbanístico», sintetiza Fonseca Ferreira, o actual número um do planeamento municipal.
Logo no primeiro mandato de Sampaio, foi decidido rever todo o plano anteriormente negociado entre a Câmara e a Sociedade Gestora do Alto do Lumiar, uma empresa criada por algumas das maiores empresas de construção civil portuguesa, que acordou com Kruz Abecasis, há quase uma década, as condições gerais daquele prolongamento da capital.
«O objectivo é integrar o Alto do Lumiar na cidade, em termos de acessibilidades e em termos sociais. Queremos dar condições de vida e de cidade àquela zona, criando novas centralidades», continua Fonseca Ferreira.
Para isso foi solicitado à SGAL que aumentasse para 25 por cento a área ocupada pelos serviços, permitindo assim o aumento do emprego, em detrimento da habitação, que descerá para 40 a 50 mil pessoas. Simultaneamente, apostou-se na ideia de transformar a urbanização numa autêntica extensão da cidade, prolongando o seu eixo histórico até à zona do Forte da Ameixoeira, no topo norte do novo bairro.
Quanto à estrutura urbana do plano inicial, abandonou-se o conceito de núcleos ou ilhas em que ele estava organizado, em benefício da quadrícula que caracteriza as Avenidas Novas.
Com estas directrizes, a equipa da SGAL, coordenada pelo arquitecto Eduardo Leira, e em estreita colaboração com os serviços camarários, procedeu à revisão geral do plano, que está agora em vias de conclusão.
Nos termos da proposta negociada entre os projectistas e a Câmara, a ligação da cidade ao Alto do Lumiar far-se-á através de uma nova avenida, que nascerá no cruzamento da Avenida do Brasil com o Campo Grande e que conduzirá, por trás do quartel do Campo Grande, a uma gigantesca rotunda, a construir em cima da Segunda Circular, por trás do Júlio de Matos. Nessa zona será erguida a futura central de camionagem da Rua das Murtas, que substituirá o terminal da Casal Ribeiro e que terá ligação directa à estação de metropolitano de Calvanas, a construir no local. A rotunda da Segunda Circular terá uma dimensão invulgar e será organizada em três níveis: um de superfície, para distribuir o trânsito que circula pelo eixo histórico, e dois nos níveis inferiores, para o trânsito da Segunda Circular e para os veículos oriundos da Av. Santos e Castro (antiga Estrada das Amoreiras, nas traseiras do aeroporto).
Uma alameda com 70 metros de largura
Desta rotunda para norte, e sempre a subir, seguirá a Alameda Central do Alto do Lumiar, uma via que constituirá o tal prolongamento do eixo histórico e que terá o seu termo numa outra grande rotunda a construir num dos nós da Circular Regional Interior de Lisboa (CRIL), não muito longe do Forte da Ameixoeira. A alameda terá uma largura de 70 metros, com pelo menos três vias em cada sentido, e contará com duas rotundas intermédias. Da primeira sairá uma avenida em direcção à Alameda das Linhas de Torres e a segunda deverá ser construída em cima dos largos do Médico e das Peneireiras.
Quanto à avenida que ligará à Alameda das Linhas de Torres, o plano inicial dos espanhóis previa um viaduto a atravessar a Quinta das Conchas e a Quinta dos Lilazes, dois parques municipais que serão preservados e que separam a Alameda dos bairros degradados da Musgueira. Face à oposição camarária, chegou-se a um acordo que prevê uma via ao nível do parque e com acesso pedonal a partir das áreas urbanas adjacentes. A integridade deste espaço verde não deixará, contudo, de ser afectada, na medida em que o arruamento em questão terá 31 metros de largo, duas vias em cada sentido, separador central, estacionamento em espinha e passeios.
O conjunto da rede viária desenhada para a urbanização tem estado a ser sujeito a alguns acertos, uma vez que acarretava a realização de volumosos aterros e desaterros, tendo a Câmara optado por uma solução «mais agarrada ao terreno».
Visto que a Alameda Central termina num nó da CRIL, um dos aspectos que tem estado a ser reformulado é o da articulação dessas duas vias, por forma a desencorajar a entrada na cidade através da alameda. A alternativa residirá na Av. Santos e Castro, que delimita a urbanização ao longo da vedação do aeroporto e que desemboca na grande rotunda da Segunda Circular.
Com a revisão do plano praticamente concluída, resta saber quando é que o sonho se tornará realidade. É que se ninguém critica o negócio feito entre Abecasis e a SGAL -- que deverá ceder à autarquia 4500 fogos para realojamento das barracas a demolir na zona, como contrapartida dos terrenos em que vai construir --, muitos são os que lhe apontam uma falha grave: não impõe qualquer espécie de prazo para a construção do Alto do Lumiar. A.H./J.A.C.
PUBLICO-19940619-062
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19940619
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No magnífico cenário dos jardins da Tapada da Ajuda e do seu Pavilhão de Exposições decorre a iniciativa «O vinho na Festa da Cultura». A partir das 10h e até às 24h há exposições de cartazes e rótulos, mostras de vinhos de todo o país e, sobretudo, provas dos mesmos. À noite há animação programada pela Lisboa 94.
Na Loja Municipal de Loures, até às 20h00, Ricardo Paula expõe a sua pintura em torno da temática de «Coisas em tamanho `s'».
A partir das 22h30, na sala Café Teatro da Comuna, Aldina Duarte e Camané proporcionam mais uma das «Noites de Fado» que acompanham o caldo verde, o chouriço assado, o pão saloio e o vinho tinto.
A Sala do Trono do Palácio Nacional de Queluz recebe, às 17h00, um concerto pela pianista Marina Greco, que interpretará Beethoven, Busoni e Chopin.
O V Festival de Folclore da Região de Turismo do Ribatejo vai animar a tarde da localidade de Valada, no concelho do Cartaxo.
A Orquestra do Caribe, que acompanha o cantor cubano Omara Portuondo, leva à Voz do Operário os ritmos quentes do outro lado do Atlântico. Das 20 às 24h, no âmbito das Festas da Cidade de Lisboa.
Quem preferir jantar antes do passo de dança poderá fazê-lo no restaurante Varanda de Lisboa, onde, também integrada nas Festas da Cidade, decorre a iniciativa «Comeres de Lisboa de Ontem e de Hoje». No cardápio figuram sopa de ameijoas e filetes de linguado fritos.
O «MiniMal Show», dos catalães Sergi Belbel e Miquel Górriz, assentou arraiais para uma curta série de espectáculos no Teatro da Cornucópia, ao Bairro Alto. Hoje, a dramaturgia espanhola contemporânea sobe ao palco às 17h.
Esta manhã, o Largo 5 de Outubro, em Cascais, foi o sítio escolhido para uma arruada com seis bandas de música do concelho com a apresentação de uma peça inédita do maestro Luís Fernando Silva Pereira. À tarde, pelas 18h, no largo Cidade de Vitória, actuam as Marionetas de Santo Aleixo.
Eduardo Costa mostra, no Centro de Juventude de Setúbal, as suas aptidões para a fotografia, numa exposição aberta das 18h ás 24h.
Para quem preferir a arte cénica, o Teatro de Animação de Setúbal apresenta, a partir das 22h, mais uma representação de «A Casa Assombrada», de Vicente Sanches. O pano sobe no Teatro de Bolso.
«The adventures of Ginocchio», por Hugo e Inês, é apresentado às 15h, no pequeno auditório da sede da Caixa Geral de Depósitos, em Lisboa, integrado no ciclo «As Novas Marionetas».
No Museu Abel Manta, em Gouveia, é inaugurada a exposição de fotografias de August Sender (1906-1956), numa estreia nacional da nova montagem da obra do fotógrafo alemão realizada pelo Goethe-Institut.
PUBLICO-19940619-063
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19940619
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Tomar
Canto Firme constrói auditório
Na sequência de uma candidatura para comparticipação em equipamento de utilização colectiva, feita no âmbito da Direcção-Geral do Ordenamento do Território, a associação cultural Canto Firme, de Tomar, foi contemplada com um subsídio de 63 mil contos para construir um auditório, anunciou José Pereira, presidente da direcção da associação.
O dirigente considera que "este apoio representa o reconhecimento feito pelo trabalho que a associação tem vindo a realizar e vai ser útil para toda a comunidade, de forma particular para a juventude tomarense". A próxima etapa, disse, "vai ser aproveitar já o Verão e arrancar com a construção do auditório"
O auditório, que disporá de 300 lugares sentados, será ainda equipado com uma cabine de projecção com tradução simultânea para as primeiras filas e um grande palco, "que possibilitará vinda a Tomar de uma orquestra completa", acrescentou José Pereira.
O total da área a construir é de 2752 metros quadrados, com um custo estimado de 106 mil contos. Quando concluído, 16 freguesias poderão beneficiar do empreendimento, o que abrangerá cerca de 50 mil pessoas. Até ao momento, a localidade mais próxima que dispõe de um equipamento idêntico é Santarém, a cem quilómetros de Tomar. J.M.S.
PUBLICO-19940619-064
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19940619
Reunião pública em Santa Suzana
Alcácer não quer aterro industrial
«Se o único resíduo que este concelho produz é a casca de pinhão, que não polui e até serve para aquecer as escolas no Inverno, porque é que Alcácer do Sal terá que receber um aterro de resíduos tóxicos?», interrogava ontem o presidente do município. Rogério de Brito (CDU) fazia o comentário após uma visita da vereação ao que resta da mina carbonífera de Jungeis, um dos três locais do Alentejo listado para a possível instalação de um aterro de resíduos industriais, na freguesia rural de Santa Suzana, e uns 20 quilómetros a nordeste de Alcácer do Sal.
Depois de Grândola -- que alberga as duas outras hipóteses de localização do aterro para a região Sul, as minas de Caveira e Lousal --, foi a vez de Alcácer protestar publicamente contra o aterro, numa reunião da Assembleia Municipal feita na pacata aldeia de Santa Suzana, à beira da barragem de Pêgo do Altar, onde a eventualidade é vista com uma desconfiança exasperada por muitos dos cerca de 300 habitantes.
Os contras com que a Câmara argumenta vão mais longe que a baixa produção de lixo industrial de um concelho que vive do pinhão e da cortiça. «O aterro não pode ficar em pleno sistema de drenagem que alimenta a barragem, nem numa zona de sismicidade de risco médio, nem pondo em perigo um sistema biológico raro, tal como é reconhecido nos trabalhos preliminares encomendados pelo Governo para estudo das possíveis localizações. Nunca será possível impedir a contaminação dessas linhas de água», disse Rogério de Brito.
Para Santa Suzana -- que tem nos caçadores, pescadores e desportistas náuticos a principal fatia de turistas --, uma degradação da imagem da barragem seria a asfixia económica. Para o município, o aterro traz o medo da fuga dos investimentos turísticos que começaram a surgir -- prevê-se a aprovação, a médio prazo, de dois conjuntos de habitações turísticas em torno da albufeira.
Por isso, muitos compareceram, ontem à tarde, à sessão plenária da Assembleia Municipal realizada no teatrinho de Santa Suzana, uma sala construída no início dos anos 50 por um «senhor da terra». O encontro mostrou que todos os partidos vêem no eventual aterro um perigo para o rio Sado, para a nova «galinha dos ovos de ouro» que é o turismo e para os habitantes desta bacia hidrográfica.
«O rio Sado é sagrado», disse ao PÚBLICO, a meio dos trabalhos, o secretário de Estado do Ensino Superior, Pedro Lynce (PSD), membro da Assembleia e natural de Alcácer do Sal. «Quem destruir o rio destrói o futuro deste concelho», comentou, depois de apoiar a intervenção no mesmo sentido feita pelo presidente da Câmara.
No termo de uma reunião calma -- uma vez cortada pelos gritos de «Não queremos a lixeira» --, os representantes do concelho aprovaram um texto recusando liminarmente o aterro e dizendo-se dispostos a «acções de esclarecimento e mobilização da população» contra essa eventualidade. Reconheceram que é preciso tratar e armazenar os lixos, mas no seu concelho é que não.
Santa Suzana soube há muito poucos dias que à sua beira se admitia criar um aterro de resíduos industriais. A desactivada mina de Jungeis, juntamente com as de Caveira e de Lousal, ambas no concelho de Grândola, fazem parte de uma lista de locais possíveis para armazenagem de resíduos industriais na região Sul.
O trabalho que levou a essa lista considera que o relativo isolamento e o baixo valor agrícola do solo favorecem a instalação da estrutura. Mas reconhece haver «inconvenientes de algum vulto»: os danos que traria para um conjunto de fauna e flora de valor reconhecido e o perigo de risco sísmico, por exemplo. De qualquer modo, o mesmo documento considera que todos os três locais têm fraca aptidão para a deposição de resíduos industriais.
E à noite, porque era sábado, ouve baile no teatro miniatural desta aldeia alentejana, tão alarmada durante o dia. F.N.
PUBLICO-19940619-065
PUBLICO-19940619-065
19940619
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Câmara cria biblioteca braille, mas sobra muito por fazer
Coimbra, a armadilha para os cegos
Dulce Neto
A Câmara de Coimbra assinou esta semana um protocolo que prevê a instalação de um biblioteca braille. Medida aplaudida pelos cegos que aproveitam o impulso para lembrar que com medidas simples se poderiam resolver outros problemas. É que Coimbra é uma cidade difícil para quem não vê. Há muitos semáforos sem sonorização, passadeiras que não se percebem, carros estacionados nos passeios, buracos não assinalados. Se fechar os olhos verá o que é um mapa de armadilhas.
«Cuidado!» José Mário não dá nem mais um passo. A bengala continua livremente, sem assinalar qualquer obstáculo, mas a escassos centímetros do seu nariz está uma parede de metal, com saliências. Um camião estacionado num espaço reservado a peões, na rua Ferreira Borges, está a carregar tubos de ferro de um palco construido para um espectáculo do 10 de Junho. «Este é um dos autênticos perigos que a cidade nos oferece». Bengala apontada ao chão, passada larga e voz bem disposta, José Mário, 24 anos e finalista de Psicologia mostra como andar nas ruas de Coimbra é um desafio permanente para um cego, como ele.
Os obstáculos -- que para quem tem visão completa não passam de pequenos pormenores quase nunca identificáveis e nunca demasiado preocupantes -- tornam-se aflitivos, por vezes dramáticos, para quem não vê. E, nalguns casos, «a solução seria bem simples e resolveria os problemas das pessoas cegas», lembra José Mário.
A advertência em jeito de apelo chega na mesma semana em que a Câmara de Coimbra firmou um protocolo com a Associação dos Cegos e Amblíopes de Portugal (Acapo) que estabelece a criação de uma biblioteca braille e sonora. A Acapo cede as instalações no qual será prestado serviço de leitura a todos os deficientes visuais do concelho, independentemente da sua qualidade de sócios da Associação. E a autarquia cede, a titulo de empréstimo os materiais existentes na biblioteca municipal para cegos e amblíopes, dispõe-se a comprar, «sempre que possível» livros em braille e destaca um técnico municipal da área de biblioteca e documentação.
As passadeiras imperceptíveis
José Mário evita a tempo um buraco no passeio da rua onde está a Acapo (onde já cairam alguns cegos) e insiste em que «com um pouco de boa vontade se acabavam com verdadeiros quebra cabeças para os invisuais». Por exemplo, na mesma avenida, a dos Combatentes da Grande Guerra, e mesmo em frente à associação há uma passadeira. Mas os três traços brancos pintados no asfalto escuro de pouco servem para quem não vê. «Como é que nós sabemos que aqui está a passadeira?» A pergunta repetira-se várias vezes em diversas zonas de Coimbra, no fim de tarde em que José Mário conduziu o PÚBLICO pelas armadilhas das ruas da cidade.
Para quem, que como ele, ainda tem um resto de visão que lhe permite aperceber-se dos contrastes, nem tudo está mal. Mas «e para os outros?» Os passeios ligeiramente rebaixados na zona das passadeiras não são muitos e as faixas de tinta que são um pouco salientes também não se generalizam pela cidade.
E, no entanto, no final do ano passado foi assinado um protocolo no âmbito do Programa de Desenvolvimento Integrado da Acção Social do Distrito de Coimbra, entre o Governo Civil e os17 municípios da região. O acordo, para além de estipular o rebaixamento de um passeio para assinalar o Dia Mundial do Deficiente, ia mais longe. Comprometia os autarcas a fazer o mesmo em todos os arruamentos a construir e tinha uma grande vertente de sensibilização.
Como defende o governador civil ao PÚBLICO «o que importa é compreender que não fica mais caro baixar um passeio na fase da construção». Só que, lamenta Pedroso Lima, «o protocolo, de uma forma genérica, não está a ser cumprido».
O que a bengala não descobre
Enquanto percorre a Rua da Sofia, José Mário vence algumas barreiras. Como a de uma esplanada, logo ao início da rua, não sinalizada. Depois de bater com a bengala numa das cadeiras, José fica sem saber em que direcção caminhar, pois desconhece a orientação da esplanada. Mais à frente é alguém que, muito apressado, tropeça na bengala e a faz cair. Sem problemas, José apanha-a e continua o seu percurso, fugindo «in extremis» de vários postes e pequenos caixotes do lixo suspensos em varas metálicas. Perto do supermercado Pingo Doce, as dificuldades são outras. Há quem deixe os carrinhos das compras no meio do passeio...
A ocupação dos passeios é um dos problemas para os cegos. Principalmente quando os carros aí estacionam, como é o caso em muitas zonas de Coimbra. Teresa Maia, presidente da Acapo de Coimbra aflige-se: «a nossa alternativa é ir para a rua e aí há carros a passar...»José Mário choca com alguns estacionados no passeio perto do Hotel Bragança e na Rua dos Combatentes. O pior são os camiões na carga e descarga-- a bengala passa por baixo, não detecta qualquer obstáculo, mas ele está lá. A cara de José ostenta uma cicatriz de um «desses encontros». «E as portas dos carros que as pessoas deixam abertas, enquanto procuram qualquer coisa?»
E há ainda os buracos para obras e não sinalizados ou então rodeados de uma pequena fita de plástico colocada muito alto --«passamos por baixo e caimos no buraco» -- ou tão fraca que o impulso do corpo a rompe. As pegas dos caixotes do lixo nos passeios arranham-lhes as mãos, as esquinas das caixas de electricidade têm «arestas vivas» que «magoam que se farta», os expositores dos quiosques atrapalham. E «umas coisas largas em cima e estreitas em baixo, com publicidade?». São os «mupies» que a bengala não descobre.
Os semáforos mudos
Ao sair da rua Adelino Veiga, em direcção à Estação, José Mário depara com mais uma «dor de cabeça para os cegos»: «pelo ruido e pelo cheiro (da pastelaria da esquina) sei que é uma via com muito trânsito, a Fernão de Magalhães». Há semáforos mas...ele não vê. O governador civil recorda que o Projecto Distrito, além de ter rebaixado alguns passeios sonorizou semáforos, apesar de alguns moradores se terem queixado do ruído que faziam à noite. Nem todos e muitos já não funcionam. Na semana passada Pedroso Lima remeteu às autarquias dados sobre novas técnicas de sonorizar os semáforos.
«O problema é que somos uma minoria e há uma prática de desresponsabilização por parte dos cidadãos», queixa-se Teresa Maia. Pedroso Lima não desiste. Sabe que o caminho é o da sensibilização e lembra uma lista apresentada no ano passado com 13 tarefas a realizar pela câmara. Entre elas, figuram pedidos como cortar as silvas nos muros rentes ao passeio, tirar os escaparates dos quiosques de cima dos passeios, sinalizar os buracos das obras a baixa altura, reformular os «mupies», desocupar os passeios ou sinalizar as esplanadas. Coisas aparentemente simples e que fariam de Coimbra uma cidade para todos.
«Não sei se Coimbra é melhor ou pior do que Lisboa ou Porto, mas sei que é uma cidade difícil para os cegos» sentencia Teresa Maia.
PUBLICO-19940619-066
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19940619
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Gil Vicente de cor e salteado
Terminou na noite de sexta-feira, no Teatro Cinearte, em Lisboa, o III Festival Vicentino para a Juventude, uma iniciativa da Barraca que começou no dia 4 de Junho e reuniu em Lisboa duas dezenas de grupos de teatro provenientes de outras tantas escolas complementares e/ou secundárias de Norte a Sul do país.
De Valongo do Vouga e Vila das Aves até Odemira e Angra do Heroísmo, passando por Portalegre, Almada, Setúbal ou Funchal, subiram ao palco do Cinearte dezenas de espectáculos baseados em peças de Gil Vicente. O Sul do país esteve em maioria e Lisboa fez-se representar pela Escola Filipa de Lencastre e pelo Grupo Crinabel.
As escolas de Feijó, Odemira, Funchal, Évora e Setúbal obtiveram menções honrosas. Os açorianos, com o espectáculo intitulado "Perspectivas dos Descobrimentos", obtiveram o 3º prémio (mas não puderam estar presentes na cerimónia da entrega). O 2º prémio coube "ex-aequo" às escolas de Vouzela (que também esteve ausente na sessão de encerramento) e Portalegre, que representou algumas cenas de "Dom Duardos".
Vencedor absoluto do Festival foi o grupo da escola de Vila Nova de Santo André. Os actores da vila costeira alentejana (um dormitório-satélite de Sines, que já usou o nome pomposo de Cidade de Santo André) encenaram o "Auto da Índia", que continua a ser a peça vicentina preferida pelos grupos de teatro, tanto amadores como profissionais.
O espectáculo, dirigido por Mário Primo, destinou-se incialmente a ser mostrado nas ruas e praças de Santo André. Fez sucesso e acabou por triunfar agora na capital. A encenação é de uma grande simplicidade e a cenografia é mínima: um colchão, uma colcha, uma arca, dois caixotes. Mas o trabalho dos actores é rigoroso, quase profissional, principalmente o do trio masculino (Hugo Lopes, Nuno Silva, Raul Oliveira) e o espectáculo é cem por cento eficaz.
Outro "Auto da Índia", com direcção do actor Francisco Brás, foi apresentado pelo grupo Crinabel, formado por jovens deficientes da escola lisboeta do mesmo nome. Ganhou quatro menções honrosas -- pelo espectáculo, pela encenação, pela interpretação e pela cenografia.
Os vencedores do 1º e 2º prémios participarão nas Festas do Infante, em Lagos, promovidas pela Comissão dos Descobrimentos, que patrocina o Festival Vicentino, juntamente com a Câmara Municipal de Lisboa, a Fundação Gulbenkian, o Ministério da Educação e o Instituto da Juventude.
Manuel João Gomes
PUBLICO-19940619-067
PUBLICO-19940619-067
19940619
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Merani, os jovens bailarinos da Geórgia, actuam hoje no Coliseu dos Recreios, às 16h00, enquanto à noite, pelas 21h30, na mesma sala, estarão os bailarinos seniores, os Georgian State Dancers.
No Terreiro do Paço, às 22h00, o último espectáculo de Arte Equestre Portuguesa.
No Chiado, frente à Brasileira, às 17h30, o Coral Publia Hortênsia.
No cinema Tivoli, às 15h30 há matinée infantil, com a exibição do filme «Caça ao Tesouro», enquanto à noite, às 21h30, no ciclo Cinema Lisboa, pode voltar a ver Vasco Santana em «O Pai Tirano» de António Lopes Ribeiro.
«Múltiplas Dimensõs», uma exposição em que se integra o Museu de Alta Definição, patente no Centro Cultural de Belém. «Japão agora», (11h00) «O Poder da Televisão de Alta Definição», (11h30) «A Natureza no Japão» (12h40) são os vídeos a exibir pela manhã, enquanto à tarde pode ver «Mundo de Fantasia, Imagens de Sombra» (17h00) «Museu D'Orsay» (18h00) e «Museu Ermitage» (19h00).
No Museu da Cidade, ao Campo Grande, a exposição «Lisboa em Movimento», que hoje se estende à zona oriental da cidade, em passeios de eléctrico gratuitos, entre o Alto de S. João e o Terreiro do Paço, a bordo do 283, um antigo carro da Carris, de 1903, habitualmente estacionado no Arco do Cego.
PUBLICO-19940619-068
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19940619
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AC
Queijas separa resíduos sólidos
A estação de triagem de resíduos sólidos de Queijas, concelho de Oeiras, foi ontem inaugurada, em simultâneo com o lançamento de um projecto piloto de recolha selectiva de embalagens para efeitos de reciclagem. «Até agora os cidadãos deitavam o lixo todo para um saco. Agora o que lhes pedimos é que o dividam em dois sacos», explicou à Lusa o chefe da divisão de resíduos sólidos urbanos da Câmara de Oeiras. Nos sacos azuis deverão ser postas as embalagens de cartão, plástico e metálicas e nos pretos deverão sere colocados os resíduos orgânicos.
De acordo com a mesma fonte, a triagem dos resíduos feita na estação de Queijas é «a única forma que a indústria tem para aproveitar e reciclar os materiais com a garantia de que eles não serão contaminados com produtos orgânicos». A partir de hoje, em Queijas, a recolha dos sacos azuis e pretos far-se-à em dias alternados. A ministra do Ambiente e o presidente da Câmara de Oeiras, que participaram no acto, realçaram a importância deste projecto que é um entre nove, do mesmo tipo, que estão a ser ensaiados nos países da União Europeia.
PUBLICO-19940619-069
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19940619
Local
AC
Falta de água em Loures
Várias localidades do concelho de Loures foram atingidas, nos últimos dias, por dificuldades no abastecimento de água. Entre as zonas afectadas encontram-se os sítios de Casal Novo, Trigache, Monte Verde, Flor do Minho, Casal da Silveira e Casal do Bispo. De acordo com os Serviços Municipalizados de Água e Saneamento do minicípio, a falta de água ficou a dever-se ao anormal aumento de consumo que se verificou durante a semana passada. Por essa razão, quase que se esvaziou o reservatório dos Pombais, esperando a Câmara que a situação seja restabelecida durante a próxima semana.
A partir de Agosto, garante a autarquia, os riscos de esvaziamento do reservatório deixarão de colocar, na medida em que está em fase final de instalação uma conduta de 2 kms e de grande débito que custará cerca de 100 mil contos.
Entretanto, as localidades de Pinheiro de Loures e da Quinta do Galeão deverão sofrer hoje, entre as 6h30 e as 15h00, algumas dificuldades de abastecimento motivadas por um corte de energia da responsabilidade da EDP, que afectará os sistemas de bombagem.
PUBLICO-19940619-070
PUBLICO-19940619-070
19940619
Local
AC
Sobre Toiros
Domingos Costa Xavier
Monumental solidão
Santarém, em termos de cartéis, redimiu-se das montagens do ano transacto e a sua feira taurina teve graça.
No dia 10 Junho ocorreu na Monumental a corrida do programa Despertar da Rádio Renascença, que Manuel Gonçalves há várias anos e sempre com a mesma fórmula vem organizando. Este ano ficaram, ao invés do que tem acontecido, bilhetes por vender, certamente devido à mudança de local de realização 3ª Feira para a Quinta das Cegonhas, afastando os milhares de pessoas que a frequentam da praça de toiros. E terem deixado a Monumental sozinha, em época de calores como os que decorreram, é motivo bastante para que os menos aficionados se recusem à deslocação.
Bem vistas as coisas, a Quinta da Cegonha até nem fica longe, visto que pelo atalho que existe atrás da Casa do Campino, somente uns oito minutos a pé bastam para que se vença a distância. Mas, à boa maneira portuguesa, tratou-se da transferência sem cuidar dos pormenores, e um bom acesso bastaria para que o Campo do Cevadeiro ficasse mais perto das novas instalações; poderiam assim ter o espaço tradicional acrescido, com vantagens várias, entre as quais, e não é de somenos, o continuarmos a encontrar os amigos que à feira costumam acorrer, o que este ano não aconteceu, visto que, havendo que optar entre a praça e a feira, eu, a titulo de exemplo, nem à feira fui. Celestino Graça, de quem a praça leva o nome, decerto não teria feito assim.
Mas, deixemo-nos de considerações e falemos da corrida. Lidaram-se, por ordem de antiguidade e a concurso, toiros de seis ganadarias.
Moura houve-se, e de que maneira, com o de Pinto Barreiros, estando francamente por cima do toiro, o que, apesar do calor, o frio público presente na praça parece não ter entendido; luziu-se também a sua quadrilha, composta por Grenho e Vilaverde, e Gonçalo da Cunha Ferreira, dos Amadores de Santarém, fechou-se à primeira numa pega fácil.
A Paulo Caetano coube o exemplar da Condessa de Sobral, um negro comprido e com cara, que o cavaleiro lidou com extrema classe, tanta, que mais parecia que repousadamente treinava num tentadero e não foi entendido, pois só lhe tributaram uma ovação grande ao cravar o quarto curto, diga-se que um dos melhores ferros da corrida. Estêvão Oleiro, dos Amadores de Alcochete, concretizou a pega de caras ao terceiro intento graças à abnegação do primeiro, ainda João Pedro Bolota.
Bastinhas enfrentou o toiro enviado por David Ribeiro Telles, um toiro com qualidade que possibilitou aliás o prémio para o melhor toiro ao ganadeiro, para a melhor lide ao cavaleiro e para a melhor pega ao forcado Filipe Sepúlveda, por Santarém, prémios em nosso entender justos. Injusto é não haver um prémio para a melhor brega, o que indigna muita gente, nomeadamente o bandarilheiro retirado Manuel Barreto, de quem aqui fica o recado.
Dizíamos que Bastinhas se creditou com uma excelente actuação, alegre entusiástica, toureira, que não raro nos fez recordar o estilo de José Mestre Baptista, seu padrinho de alternativa. Três compridos de praça a praça aproveitando a investida franca e mexendo bem no toiro para a colocação de dois curtos com tudo bem feito em sorte frontal e o seu par de assinaturas motivaram ovações de luxo -- e o cavaleiro de Elvas bem andava precisado de um triunfo redondo capaz de o moralizar e recolocar no seu sítio. Quanto à pega, que como já se disse mereceu o prémio em disputa, foi valorosa e de largo, o que em Santarém é manisfesta temeridade.
António Telles lidou o exemplar dos Herdºs. do Conde de Cabral e esteve muito por cima do toiro, toureando a primor, mexendo muito bem e cravando ferros curtos e de palmo que suscitaram ovações grandes. António Manuel Cardoso, por Alcochete, fechou-se à primeira numa pega tecnicamente perfeita, fechado de pernas e braços e realizando uma das boas pegas da tarde.
Rui Salvador lidou o toiro enviado pelos Herdºs. de Maria do Carmo Palha e teve uma actuação discreta. Manuel Murteira, por Santarém, fechou-se à primeira, numa belíssima pega, para cujo sucesso muito contribuiu a soberba primeira ajuda de Pedro Salazar de Sousa.
João Salgueiro fechou praça toureando o exemplar de Ortigão Costa e nos curtos esteve enorme, montando «Herói». Amâncio Grilo, primoroso com o capote, também se afirmou neste toiro e Sidónio Rosa, por Alcochete, fechou-se sem história à segunda.
Uma corrida tradicional do calendário taurino, que se viu com muito agrado.
Dia 12, o interesse maior residia na reaparição em Portugal de Paco Ojeda, mas foi José Luís Gonçalves que colheu os louros da jornada. Lidaram-se toiros novilhos de António Charrua, que não contribuíram por aí além para ao sucesso do espectáculo, sendo que o único toiro em praça foi lidado a duo pelos cavaleiros João Salgueiro e José Manuel Duarte, coisa aborrecida, entediante e demorada, só havendo alguma emoção nas três tentativas de pegas efectuadas por Pedro Braz Pereira, do Grupo de Santarém.
Ojeda toureou um novilho negro, de cabeça mais que cómoda, e com o capote teve graça num quite por parones. Bartissol, num novilho que se tirava no momento da reunião, creditou-se com um bom par de bandarilhas e o matador, acusando a falta de varas, não se confiou nem por segundos e só teve algum aroma em dois derechos e mesmo assim apoiado nos calcanhares.
José Luís Gonçalves deixou Constância lanceando à verónica e desenhando chicuelinas ao primeiro do seu lote. Ojeda saiu ao quite, e as verónicas e reboleras desmaiadas que executou, mesmo atrasando o traseiro, foram o seu melhor nesta tarde scalabitana.
Depois, José Luís bordou toureio numa faena grande e pinturera, em que só pecou por ter afogado um pouco o novilho, mas em que de qualquer forma triunfou, variado e com pormenores muito bonitos, a evidenciar maturidade.
João Salgeiro lidou o quarto da ordem, em execelente estilo, num actuação redonda, escolhendo muito bem os terrenos em que colocou o negro pouco bragado que estava a tourear, e cravando ferros de muito mérito. Bem esteve também Manuel Gama, ao fechar-se à primeira numa pega muito rija.
José Manuel Duarte não foi profeta na sua terra ao lidar o negro acochinado e com pouca cara que lhe tocou enfrentar sozinho, conquanto que importe reconhecer que andou de menos a mais, entusiasmando até nos dois últimos ferros curtos. Miguel Suspiro, por Santarém, mal com o toiro em duas tentativas, recolheu à enfermaria; e pega acabaria de cernelha por Gameiro e Cachado, em que Gameiro brilhou pela decisão nas entradas.
O sexto novilho somente permitiu brilho a Bartissol com outro grande par de bandarilhas; Ojeda, envelhecido e sem chama, definitivamente deve ter pensado que não era em Santarém que seria agarrado e do seu toureio, a aliviar-se, nada se viu, o que os presentes premiaram com um bom coro de assobios.
José Luís fechou praça lidando um novilho negro cornicurto e baixo, solto e fujão, em que à custa de muito porfiar ligou a faena possível, nos terrenos em que o bicho o consentiu e ao sabor das suas fugas; mostrou contudo que se sabe colocar nos sítios, e cá continuamos à espera de um triunfo sonoro numa praça que o lance em definitivo no plano que a sua tauromaquia merece. Assim foi Santarém, a par de um feira que ao mudar de poiso deixou a feira taurina em solidão.
PUBLICO-19940619-071
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19940619
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AC
O som: algo de maravilhoso
Jorge Patrício*
Embora não pareça, o som é o meio de comunicação privilegiado entre as espécies da natureza viva. Ou não fosse a nossa principal forma de relacionamento a linguagem falada.
Graças ao som, podemos comunicar com o mundo que nos rodeia sob múltiplas e variadas formas. Pelo som, podemos diferenciar o canto de um pássaro do apito de um comboio, distinguir entre sentimentos de ódio ou amor, apreciar sublimemente a grandiosidade e a mensagem de uma composição musical e/ou poética, etc., etc. É com o som do acto de chorar no nascimento que temos uma das nossas primeiras manifestações de vida.
Mas há som e há ruído!
Para muita gente, se não para a maioria, o som é algo nobre, rico, importante, ao passo que o ruído tem um carácter intrusivo, incómodo e repulsivo.
Tecnicamente, o ruído é um som sem conteúdo informativo e desagradável para o auditor. Pelo facto, dada, por um lado, a natureza do próprio estímulo sonoro e, por outro, a subjectividade da sua apreciação é, em muitos casos, difícil quantificar e destrinçar o que é som e o que é ruído.
Sempre que se fala em meio ambiente, e da necessidade da sua protecção, fala-se em situações de desastre ecológico tais como marés negras, destruição de «habitat», lixos radioactivos, poluição do ar, buraco do ozono, e tantas outras coisas mais. E pouco ou quase nada se fala de um dos maiores flagelos da vida moderna e das sociedades contemporâneas que dá pelo nome de poluição sonora, cujas consequências são tão graves como as devidas a outras componentes degradadas do meio ambiente, embora talvez menos visíveis.
Falar em poluição sonora é, pois, falar em ruído.
Infelizmente, o ruído tem aumentado assustadoramente, de forma progressiva e contínua, ao longo do território nacional (se me é permitido usar esta visão macroscópica), devido às novas vias de tráfego rodoviário, ao licenciamento de bares e discotecas anexos a áreas residenciais, à disseminação de unidades industriais e fabris e ao fraco controlo exercido pelas autoridades e entidades competentes.
O ruído pode provocar doenças e lesões graves. Umas de foro físico, outras do foro psíquico, podem ser temporárias ou permanentes e muitas vezes irreversíveis, como é o caso da perda de audição.
Na agressividade do incremento da poluição sonora encontra-se, em geral, a permanente passividade da sociedade, no seu todo. Passividade das pessoas que, não se encontrando devidamente sensibilizadas para o problema, não reagem e não encetam acções adequadas com vista a pressionar os organismos competentes, e passividade das autoridades que, embora Ihes cabendo um papel divulgativo, formativo e fiscalizador relativamente ao problema, pouco fazem, ainda, para a consecução desse objectivo.
Existem diplomas legais que possibilitam já a tomada de acções conducentes à minoração dos malefícios devidos ao ruído (Decreto-Lei n¡ 251/87, de 24 de Junho, e Decreto-Lei n¡ 72/92, de 28 de Abril). O primeiro estabelece o conjunto de normas em que se apoia um quadro legal adequado a uma política de prevenção e combate ao ruído, no sentido da promoção de um ambiente menos traumatizante e mais sadio, e o segundo estabelece o quadro geral de protecção dos trabalhadores contra os riscos decorrentes da exposição ao ruído durante o trabalho. Contudo, salvo honrosas excepções, só são feitas queixas ou pedidos de verificação do cumprimento das disposições contidas nos diplomas enunciados em situações extremas. E, assim, o flagelo do ruído dos camiões, das sempre odiadas motorizadas, dos bares e das discotecas e do matraquear de certas unidades fabris contínua a entrar-nos pela porta adentro invadindo-nos a paciência e privando-nos do necessário sossego.
Com o retalhamento do país, devido ao desenvolvimento da rede rodoviária nacional, tem-se levado a zonas recônditas (onde o ruído incomodativo existente não passava do trinado de uma cigarra nos dias quentes de Verão) o buzinar frenético das ultrapassagens, o estridar das motorizadas, o chiar dos sistemas de travagem, o guinchar dos pneus e muitas outras coisas mais.
Até aqui bem perto, na urbanização das Laranjeiras, em Sete Rios, Lisboa tem agora o grato prazer de ver motoristas de camiões TIR passarem em frente de janelas privativas num cumprimento de familiaridade que a todos certamente inveja.
Longe de mim, apesar do que refiro, não ser adepto do desenvolvimento, com fins únicos de defesa de uma política de protecção da paz de espírito e das noites bem dormidas deste ou daquele. Não! O que julgo é que tem que existir um empenhamento mais activo e íntegro no que respeita ao acompanhamento de um projecto ou de um processo de implantação, de potenciais focos de poluição sonora, por parte das entidades competentes, licenciadoras e/ou fiscalizadoras, e deixar de se atribuir às exigências de qualidade do meio ambiente, relativamente à componente ruído, no seu todo, ou em particular, um papel perfeitamente lateral materializado na elaboração de projectos de avaliação de impacto ambiental ou de pareceres de ocasião apenas para cumprimento de programas e de normas.
Apesar da entrada de Portugal na esfera dos países ditos desenvolvidos, vulgo CE, tem-se ainda, em relação à poluição sonora, uma política algo envergonhada e pouco expedita. Quantas e quantas novas vias rodoviárias agridem a tranquilidade dos pacatos cidadãos de tantas pequenas vilas e aldeias sem que sejam tomadas medidas adequadas. E não é preciso ir muito longe. Basta percorrer alguns troços da auto-estrada Loures-Malveira para se tomar contacto com situações destas. Quantos e quantos bares, discotecas, serrações, instalações fabris e unidades de conforto higrotérmico incomodam moradores vizinhos, sem que seja objectiva e facilmente possível pôr cobro a tal, de uma forma rápida e eficaz. Quantos e quantos trabalhadores estão ainda expostos, nos seus locais de trabalho, a níveis sonoros excessivos que sejam submetidos a rastreios audiométricos periódicos ou, se for caso disso, serem alvo da obrigatoriedade de uso de protectores auriculares?
Muitos e muitos mais exemplos poderiam ser dados.
Todavia, e verdade seja, também, dita, não podemos, à nossa boa maneira portuguesa, culpar sempre os terceiros. Todos temos uma quota parte de culpa, neste cartório negativo, nem que seja pela ausência de alguma pressão social sobre os potenciais "infractores".
Isto porque, segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde), a saúde não pode ser só entendida como um completo bem-estar físico, mas também psíquico e espiritual.
* Engenheiro no Laboratório Nacional de Engenharia Civil
PUBLICO-19940619-072
PUBLICO-19940619-072
19940619
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AC
Torres Novas
Museu de Riachos tem situação clarificada
A Câmara Municipal de Torres Novas e a Associação de Defesa do Património de Riachos (ADPR) acordaram um protocolo para a utilização do Museu Agrícola de Riachos, cujo acervo museológico pertence ou está à guarda da associação, enquanto que as instalações são propriedade da autarquia, desde o ano passado.
O protocolo, válido por um ano, mas automaticamente renovável caso não seja denunciado pelo incumprimento das suas cláusulas, vem pôr fim à situação de indefinição que se vivia desde 1993, altura em que a autarquia adquiriu as instalações aos antigos proprietários, que desde 1984 -- data da fundação do museu -- estavam cedidas a título gratuito.
Constituído por um rico espólio da tradição rural de Riachos, o museu agrícola passará a pertencer, «em pé de igualdade com os restantes, à rede de museus, núcleos ou sítios museológicos do concelho de Torres Novas», passando a autarquia a responsabilizar-se pela sua divulgação e promoção com o outro património cultural do município.
A indicação de um técnico auxiliar de museografia, apoio técnico e humano, a conservação das instalações e pagamento das despesas correntes, como a água e a luz, serão assegurados pelo executivo torrejano. Por seu lado, a ADPR compromete-se a «não dar outro fim às instalações municipais onde funciona o museu» que não seja o desenvolvimento do projecto museológico.
O museu prevê, com base nos seus planos anuais, a realização de mostras e exposições temporárias e o desenvolvimento de iniciativas de promoção e divulgação do seu espólio.
PUBLICO-19940619-073
PUBLICO-19940619-073
19940619
Local
AC
Três mortos no IP4
Dois acidentes ocorridos na sexta-feira à noite no Itinerário Principal (IP) 4, entre Vila Real e Amarante, saldaram-se pela morte de três pessoas, ferimentos ligeiros em outros dois automobilistas e danos em 19 viaturas.
Segundo a GNR de Vila Real, citada pela Lusa, um choque frontal entre duas viaturas na ponte sobre o rio Sor, causado por excesso de velocidade, levou á morte imediata dos três ocupantes dos veículos, Carlos Manuel Pinheiro e Cristiano Morais, ambos de 18 anos e naturais de Amarante, e José Luís Fernandes, de 53 anos, e natural de Vizela (Guimarães).
Mais tarde, devido ao intenso nevoeiro que se fazia sentir perto da Pousada do Marão, um choque em cadeia envolveu 17 viaturas, de que resultaram dois feridos ligeiros, para além dos avultados prejuízos materiais.
PUBLICO-19940619-074
PUBLICO-19940619-074
19940619
Local
AC
Férias originais no zoo de Lisboa
Brincar ao faz de conta é a proposta que o Jardim Zoológico de Lisboa tem este Verão para os jovens com idades compreendidas entre os 6 e os 15 anos. Quem conseguir inscrever-se terá a oportunidade de dar largas à imaginação, vestindo a pele de fotógrafo, de repórter, de vigilante, de tratador de animais ou de jardineiro. No programa das festas incluem-se também visitas à Costa da Caparica, Lagoa de Albufeira, parques recreativos e desportivos da margem sul do Tejo, Palácio da Pena, Museu dos Coches, Torre de Belém e Museu da Marinha.
Ao longo dos dois meses que durará a iniciativa funcionarão quatro turnos de duas semanas cada, o primeiro dos quais se inicia a 4 de Julho, com actividades diárias entre as 8h45 e as 18h00. Os participantes terão direito o almoço e lanche e o preço das inscrições -- a efectuar junto do Gabinete Pedagógico do Zoo -- é de 25 mil escudos.
PUBLICO-19940619-075
PUBLICO-19940619-075
19940619
As luzinhas da Ribalta
Um pouco em todos os canais e desde que a SIC lançou a Chuva de Estrelas, tem-se repetido o modelo do programa de lançamento de novos talentos. Você envia a sua cassete, feita em casa, e depois se tiver sorte e engenho poderá ser seleccionado para ir actuar na televisão. Luzes da Ribalta, exibido às sextas-feiras à noite na TVI, não foge à regra, tendo como particularidade o facto de contar com seis modalidades diferentes: bandas, dança, circo, fados, manequins e cantores a solo.
Sem nunca alcançar a chama de Chuva de Estrelas, realizado num cenário pobrezinho e com uma abertura que lembra o Festival da Canção, Luzes da Ribalta vive da prestação sempre desigual dos nossos artistas amadores. Vimos um grupo de adolescentes cantar «hard-rock» português, um duo portuense dançar ao som da lambada, um trio de palhaços da Baixa da Banheira esforçar-se para fazer rir a plateia, um torneiro mecânico de Almeirim cantar o fado, e a noite foi decorrendo, morna e sensaborona, à frente de um televisor que já nos deu dias melhores.
Sem aquecer nem arrefecer, Luzes da Ribalta é um daqueles produtozinhos à moda dos portugueses, feito com parca imaginação e recursos baratos que são a imagem de marca da nossa televisão. Para quem não tem mais nada de interessante a fazer às sextas-feiras à noite.
Nuno Ferreira
PUBLICO-19940619-076
PUBLICO-19940619-076
19940619
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AC
Bailarinos acrobatas
Hoje, à noite, última oportunidade para assistir ao virtuosismo dos bailarinos da Companhia de Dança de Folclore do Estado da Geórgia (Georgian State Dancers). Mas antes, à tarde, o Grupo Merani, do mesmo Estado, constituído por jovens bailarinos, de idades compreendidas entre os sete e os catorze anos, apresentam também um programa de danças tradicionais da Geórgia. Um espectáculo para os mais novos.
O espectáculo apresentado pela Georgian State Dancers é constituído por um reportório de dezanove danças rituais e cerimoniais, originalmente associadas ao trabalho ou às cerimónias de casamento. Danças femininas, masculinas ou mistas, a solo, pares ou grupos, em que se estabelece uma diferença radical entre o virtuosismo acrobático e atlético dos homens, e a austeridade e distanciamento do movimento das mulheres.
Os homens, numa demonstração de virilidade e poder, rodopiam sobre os joelhos, dançam sobre as pontas dos pés, saltam vigorosamente, manipulam com perícia facas e tambores, exibindo a sua agilidade face às mulheres, ou disputando o poder entre eles. As mulheres, por seu turno, a quem não é exigida uma técnica vigorosa, ostentam poses delicadas e altivas, andam deslizando, ao mesmo tempo que movimentam com sensualidade os braços e mãos. Uma diferenciação na atitude e posturas da dança de ambos os sexo que reforça a tradicional diferença entre eles na vida quotidiana. A energia e a delicadeza das danças tradicionais da Geórgia. Maria José Fazenda
Lisboa. Coliseu dos Recreios, hoje, às 16h.
Coliseu dos Recreios, hoje, às 21h30
PUBLICO-19940619-077
PUBLICO-19940619-077
19940619
Diversos
A rediabolização da resistência
Alfredo Margarido*
Os últimos meses portugueses tinham permitido pôr em evidência as múltiplas tentativas de proceder à «branquização» ou à «lavagem» das técnicas de repressão que tanto marcaram o nosso fascismo, que, sendo embora ruralizante, não dispensou -- nem podia fazê-lo -- as técnicas da violência irracional. Face ao carrasco, a vítima voltou a encolher-se, permitindo que os insultos chovessem e a diminuíssem.
Este processo de lavagem da memória nacional não pode agir como peça isolada, pelo que possui ou suscita o seu complemento necessário: a rediabolização da resistência. Se o anticomunismo perdeu as suas funções práticas, manteve-se contudo como lugar e razão da rejeição social e política. As cerimónias do 10 de Junho, que já foi o «dia da raça», permitiram que viesse de novo à superfície a importância dessa corrente, que, não podendo continuar a agir de maneira universal, concentra o seu ódio em algumas vítimas propiciatórias.
O que realmente se pretende é eliminar da memória nacional a importância das vítimas e o espectro dos combatentes. Estes seriam apenas aqueles que um feiíssimo monumento levantado em Belém, entre o Centro Cultural e a Torre, pretende impor aos portugueses. Foi em nome desses «autênticos combatentes» que acabou por ser recusada a condecoração que fora prometida a Hermínio da Palma Inácio. Face à crispação do marechal António de Spínola, o Presidente da República recuou, embora já tenha sido obrigado a prometer que irá condecorar este combatente da liberdade em outro momento.
Como somos um país de inconfidentes natos, soube-se rapidamente, com efeito, que Palma Inácio fora rudemente vetado pelo marechal António de Spínola e pelo arquitecto Ribeiro Telles, que certamente estão ligados pelo seu monarquismo, implícito o do primeiro, explícito o do segundo. Para agravar a situação, Palma Inácio lembrou que o marechal o quisera manter na cadeia em Abril de 1974, em nome da fidelidade ao direito penal, recusando-lhe a intenção e a prática políticas. E, como ódio velho não cansa, o marechal aproveitou agora esta oportunidade para tentar expulsar Palma Inácio do lugar histórico que lhe cabe, queira ou não queira o marechal (ex-?)nazista.
Parecia que as ordens honoríficas eram um lugar tranquilo, onde uns cavalheiros, mais ou menos reformados, e umas senhoras, mais ou menos entre modas e chás, iam distribuindo ao longo do ano condecorações e comendas, que não desempenham papel algum na sociedade portuguesa, que ainda se não apaixonou pelos penduricalhos que serviram à burguesia para adquirir alguns atributos aristocratizantes. Basta pensar que a dra. Leonor Beleza recebeu, ainda há pouco, uma condecoração que lhe foi entregue pelo Presidente da República sem que a cerimónia tivesse provocado o menor sobressalto.
Ora, a ex-ministra e ex-deputada não é uma personalidade sem máculas políticas, algumas das quais graves, ou por envolverem a própria gestão do ministério, ou por atingirem alguns doentes que ou já morreram ou vão morrer em consequência das escolhas técnico-político-comerciais da excelentíssima senhora. Não podemos esquecer o cadáver político do eng. Costa Freire, que vai certamente regressar um dia destes à cadeia, tal como não devemos esquecer os efeitos da importação de sangue contaminado austríaco, que foi injectado a alguns hemofílicos portugueses. Não consta que os dois cérebros das ordens honoríficas tenham levantado o mínimo protesto. O Presidente da República não só entregou a condecoração à dra. Leonor Beleza, mas permitiu-se uma intervenção lírica, que forneceu mais uma peça fundamental ao novo género literário do «madrigal político».
Este surto lírico não ficaria mal ao Presidente da República, embora tenha de se reconhecer que este arroubo lírico -- que faz «pendant» com aquele já manifestado em relação à mesma senhora pelo prof. Cavaco Silva -- não parecia o mais adequado, no caso de se pretender defender a clareza das operações políticas. Por aqui se vê que se pode branquear num lado para diabolizar melhor no outro.
Verifica-se, contudo, uma preocupante tendência para proceder à limpeza da memória nacional sempre que está em causa a direita mais oficial, o que faz parte da velha panóplia de anticomunismo que fora organizada pelo antigo regime ditatorial. Há vícios que custam a desaparecer e, se bem que o perigo comunista de Leste tenha desaparecido, mantiveram-se os reflexos. Pavlov já mostrara que os comportamentos dependem do treino e dos hábitos adquiridos: é notoriamente difícil expulsar o antigamente e as suas sequelas.
Será pedir de mais aos gestores das famosas «ordens honoríficas», que tanto contribuem para o brilho do 10 de Junho, onde continua a persistir a sombra do garbo da raça, que levem realmente em conta o perfil social e político dos candidatos? Se bem que não ligue grande importância aos penduricalhos, sou obrigado a fazê-lo, pois em princípio o condecorado bem mereceu da nação. Ora, não há nada mais incómodo do que assistir às grandes fornadas de condecorados que saem dos fornos onde se gerem e geram as «ordens honoríficas».
O que pode censurar o marechal nazi (ou já será apenas um ex-nazi?) António de Spínola ao combatente da liberdade Palma Inácio? Essencialmente o facto de este ter «recuperado» o dinheiro necessário ao financiamento do seu grupo político numa agência do Banco de Portugal. Não podia ele agir de outra maneira -- como mais tarde fizeram também Isabel do Carmo e os seus amigos --, pois não dispunha dos meios financeiros de que se serviu o marechal para fazer a «sua» guerra na Guiné. O Ministério das Finanças sempre se mostrou uns mãos rotas para as Forças Armadas, mas recusou sempre qualquer «subsídio» aos veros combatentes da liberdade.
Fiel aos valores que o levaram a abandonar Portugal em 1945, receando as consequências da vitória das democracias ocidentais, o marechal António de Spínola trouxe na sua bagagem de «observador» na frente leste o ódio ao soviético e ao comunista. Por esta razão não pode sequer procurar compreender a lógica daqueles que tiveram a coragem de enfrentar a bestialidade dos regimes totalitários. António de Spínola é um amante da famosa «paz dos cemitérios», que, como disse algures Georges Bernanos, é a «paz dos totalitarismos».
Não é surpreendente o facto de o velho marechal continuar a diabolizar a resistência ao regime que tão profundamente amou e defendeu. O que choca nesta operação é o facto de se permitir que um oficial superior que passou a vida a defender as ideias e as práticas da extrema-direita possa continuar a ditar as regras de um país que, sendo embora uma democraciazeca, aprendeu contudo as regras mínimas da democracia. Se nos custa alcançar os valores e as práticas mais democráticas, tal se deve à sobrevivência de lixos ditatoriais que os nossos «brandos costumes» não deitam definitivamente fora.
O esforço de branquização levado a cabo, com tranquilo impudor, pelos antigos carrascos dos combatentes da liberdade encontra o seu complemento lógico e necessário na tentativa de voltar a diabolizar esses mesmos combatentes. Trata-se das duas faces da mesma moeda falsa, que procura tirar o máximo proveito das instituições democráticas para as subverter. A táctica é antiga, e o marechal António de Spínola pode encontrá-la evocada nas páginas do «Mein Kampf» do seu mestre inolvidável e inolvidado, Adolf Hitler.
Lamente-se que, num caso que possui uma tão forte conotação simbólica, se tenha registado um tão evidente recuo do Presidente Mário Soares, como se houvesse ainda um certo ressentimento do antigo dirigente socialista face ao criador da LUAR. Esta vitória da direita mais arcaica, mesmo se provisória, confirma o carácter perigoso das suas intervenções na sociedade portuguesa. Era indispensável mandar o marechal António de Spínola para o museu, preferiu-se retirar a condecoração prometida a Palma Inácio.
Não se pode dizer que o nosso espírito de justiça política tenha sido bem servido.
* professor da Faculdade de Letras
Destaque:
Não é surpreendente o facto de o velho marechal [Spínola] continuar a diabolizar a resistência ao regime que tão profundamente amou e defendeu. O que choca é o facto de se permitir que um oficial superior que passou a vida a defender as ideias e as práticas da extrema-direita possa continuar a ditar as regras de um país que (...) aprendeu as regras mínimas da democracia.
PUBLICO-19940619-078
PUBLICO-19940619-078
19940619
Diversos
Escolas de condução
As escolas de condução, e um certo conceito de liberdade, fazem com que qualquer cidadão que se queira habilitar à árdua tarefa de conduzir nas estradas portuguesas se enfrente, quase inevitavelmente, com a corrupção que assola as nossas escolas. E, se pensam que é fácil fugir dela, enganam-se, principalmente se vivem num meio pequeno como o meu.
Certas práticas, que se prolongam já há demasiado tempo, entraram nos hábitos, nos costumes e na própria formação cultural das pessoas, o que as fez perder, com clarividência, certos valores e a noção que deles tinham.
Confunde-se a ilicitude com a honestidade, porque honesto é aquele que aceita pagar o suborno e desonesto o que se recusa. Certas práticas, tais como o suborno para facilitar o exame, são vistas como normais e como uma manifestação de liberdade. Diz-se com frequência: só dá quem quer. Mas será assim! E, se é assim, será legítimo que o seja?
Fala-se, sem receios, como se de uma partida de futebol se tratasse, que fulano deu 30 contos para passar; que a outro, que é emigrante, lhe pediram 150, para o sr. engenheiro o passar. Tudo se passa com toda a naturalidade e mesmo aqueles que aceitam pagar o suborno estão satisfeitos. Por um lado, já podem conduzir nas estradas; por outro, entendem que ninguém os obrigou. Isto é, foram livres na sua acção.
Mas, terão tido a liberdade de recusar? Tendo a liberdade um sentido positivo e um outro negativo, não será que esta liberdade oprime, na medida em que mantém sobre o cidadão o espectro da reprovação, tanto mais certa quanto maior for a recusa em aceitar pagar o suborno. Todos sabem que é quase impossível obter a carta de condução se, depois de cumprido o acordado, se não cumprir o que já nem é preciso acordar. (...)
Rodrigo Lopes
Marco de Canaveses
PUBLICO-19940619-079
PUBLICO-19940619-079
19940619
Diversos
Quem anda a tramar a Polícia Judiciária?
Vem esta na sequência das últimas notícias, saídas em vários jornais, a propósito do relatório da inspecção levada a efeito pelo Ministério Público à Polícia Judiciária. (...) Da leitura atenta das mesmas, ressalta como conclusão que a investigação criminal em Portugal não tem meios logísticos e recursos humanos, prometidos mas não atribuídos ainda pelo Governo.
As perguntas que urge fazer são: por que razão o Governo ainda não deu esses meios (logísticos e humanos) à PJ? Será que o Governo fica mais descansado ao saber que, por exemplo, a investigação da corrupção em Portugal se tem revelado deficiente? Ou estará à espera de que os processos por fraudes do Fundo Social Europeu se extingam por prescrição do procedimento criminal?
Quem souber que responda. Pela nossa parte, estamos em crer que não. Mas já tivemos mais certezas!
Talvez por estas e por outras, o ex-director-geral adjunto da PJ, sr. juiz Nuno Gomes da Silva, o qual teve a seu cargo a Direcção Central de Investigação da Corrupção, Fraudes e Infracções Económico-Financeiras, bateu com a porta, isto é, pediu a demissão dois meses após ter tomado posse do cargo. Melhor sorte se deseja, desde já, para o dr. Jacinto Meca, seu sucessor.
Disto nos deu conta o PÚBLICO no passado dia 6, em notícia na pág. 20 intitulada «O primeiro dia de Jacinto Meca», subscrita pelo jornalista Eduardo Dâmaso. Este jornalista dá novamente conta da carência de agentes em todos os sectores da PJ, mormente nos acima referidos e no da investigação do tráfico de estupefacientes. Concluiu escrevendo que «sem meios não há investigação criminal que resista» e perguntando mesmo se haverá uma estratégia.
Apetece também perguntar: onde está o Governo, o ministro da Justiça (que organicamente superintende na PJ) e o procurador-geral da República (que funcionalmente a dirige)? É deles, principalmente dos dois primeiros, que o cidadão-contribuinte espera uma resposta serena, mas breve e eficiente.
Importa trazer à colação que dois dos valores fundamentais que o Estado (Governo) deve prosseguir são a justiça e a segurança e, para que tal aconteça, o cidadão mandata os seus governantes, votando em eleições várias, bem como contribui, esforçadamente, com inúmeros impostos.
Dizia-me, neste fim-de-semana, um advogado do meu tempo o seguinte: não compreendia como é que é possível que, havendo tanta falta de recursos humanos na PJ, ele e outros 29 advogados tivessem sido admitidos em Setembro de 1993, num concurso público aberto em 1991, para inspectores desta polícia e ainda não tivessem sido contactados para iniciar funções. A conversa interessou-me, por manifesta actualidade, e ele ainda me deu outra novidade, que passo a referir: auscultada a PJ a propósito das razões do atraso desse concurso público para inspectores-advogados, foi dito, por várias vezes, que a principal razão era a falta de dinheiro.
Novas perguntas apetece fazer a quem de direito. Isto é ou não verdade? E, se for, como é que isto é possível numa democracia de sucesso? Será assim tão caro, ao Governo, formar recursos humanos para a PJ, ainda que sejam candidatos a inspectores? Interessará a alguém, em especial, esta situação? (...) Quem anda a tramar a Polícia Judiciária? Dão-se alvíssaras a quem souber.
Manuel Rufino Soares
Porto
PUBLICO-19940619-080
PUBLICO-19940619-080
19940619
Diversos
Habitar de borla em Portugal
Como se pode admitir que presentemente estejam proprietários de boas vivendas a receber de renda três (3!) miseráveis contos (e muitos proprietários recebem ainda menos) por boas vivendas, quando nos nossos dias a renda que se pede por uma simples «casota» é de sessenta (60!) contos?
Há senhorios que com aquelas rendas miseráveis não podem proporcionar à sua família uma vida decente e nem sequer têm dinheiro para permitir aos próprios filhos um curso superior numa universidade, enquanto os inquilinos, esses, vão vivendo «à grande e à francesa» com quartos ilegalmente arrendados a trinta contos e descaradamente fazem-se de vítimas!
Mas, no fundo, o responsável por esta vergonha social, geradora de conflitos (...) é o Governo, pois com esta lei de arrendamento urbano que temos pactua, porque os membros do Governo que são proprietários, a esses não lhes dói, pois até têm as suas «villas» nos Algarves. (...) Habitar de borla em Portugal é o que está a dar. Quando vai ter o Governo coragem de mudar esta «dinossáurica» lei das rendas -- injusta, escandalosa, idiota e terceiro-mundista?
Vicente Morais
Porto
PUBLICO-19940619-081
PUBLICO-19940619-081
19940619
Diversos
O sexo informático poderia parecer «safe sex», mas afinal é perigoso. Leia o caso do Lopes...
Sexo virtual
Se já há muito que são conhecidas as virtualidades do sexo, já a sexualidade dos mundos virtuais está ainda por explorar. E com graves riscos, como pode concluir-se pela história de João Lopes.
Programador informático numa empresa gráfica há mais de 11 anos, lembrou-se de introduzir no disco rígido de um computador do seu local de trabalho um «programa pornográfico exterior à empresa que, posto em funcionamento, fazia surgir no ecrã do computador e a toda a dimensão deste a imagem em movimento de um homem e uma mulher a praticarem relações sexuais, sendo visíveis os órgãos sexuais de ambos».
Estava Lopes de férias quando o director administrativo da empresa decidiu vasculhar o computador e, ao deparar com um directório Lopes/P. Exe, carregou no «P». Imediatamente, sem necessidade de qualquer «password», apareceram as insólitas imagens em movimento.
O director administrativo fez o que pôde para salvar a situação: «Procurou ocultar [as imagens] dos demais presentes, colocando as mãos sobre o ecrã.» Apesar deste louvável esforço, um dos trabalhadores presentes «viu algumas imagens». Esclareça-se que na sala onde estava o computador trabalhavam, além do Lopes, mais cinco trabalhadores, sendo que dois eram duas e que todos, por vezes, o utilizavam. Havia também um «guichet» de acesso ao público em frente do ecrã do computador.
O gerente da empresa deu ordens para se manter o programa no computador e foram avisados todos os eventuais utilizadores do computador, «a fim de evitarem inadvertidamente chamá-lo ao ecrã». Quando regressou das suas férias, Lopes foi confrontado com o ocorrido e com um processo disciplinar que veio a terminar com o seu despedimento com justa causa.
Lopes recorreu ao Tribunal de Trabalho, impugnando o seu despedimento. O seu caso foi julgado pela juíza Ana Luísa Geraldes, que, numa brilhante sentença de 10 de Agosto de 1992, publicada na «Subjudice» nº 5, concluiu que, embora o comportamento de Lopes fosse censurável, não era de molde a merecer a sanção de despedimento que lhe fora aplicada.
Nos termos da lei, constitui justa causa de despedimento o comportamento do trabalhador que, «pela sua gravidade e consequências», torne imediata e praticamente impossível a manutenção da relação laboral. Como se refere na sentença, o despedimento é a mais grave das sanções disciplinares e só deve ser aplicada quando o comportamento culposo do trabalhador for de tal modo grave que determine uma crise irremediável, não havendo espaço para outras sanções.
No caso concreto, não se apurou se Lopes visionava ou não o referido programa, a que horas o fazia, se dentro ou fora do horário de serviço, se quaisquer outros trabalhadores ou elementos do público alguma vez o tinham visto. E o tribunal, ao apreciar um despedimento, deverá, nos termos da lei, atender, no quadro da gestão da empresa, ao grau da lesão dos interesses da entidade empregadora e ao carácter das relações entre a entidade patronal e o trabalhador ou entre o trabalhador e os seus colegas.
Nada se apurou em tribunal, no caso de Lopes, quanto à sua personalidade e ao seu relacionamento com colegas e superiores, mas tão-somente que nunca fora punido ao longo dos 11 anos que trabalhara para a sua entidade patronal. E não se apurou, igualmente, que tivesse havido quaisquer prejuízos para a empresa nem que Lopes negligenciasse o seu trabalho em virtude do referido programa.
E, por tudo isso e porque se estava perante um facto isolado, embora salientando que «qualquer relação de trabalho se deve pautar pela seriedade, boa educação, por critérios de diligência profissional, comportamentos urbanos e dignos (...) e preservando a imagem e o bom nome da empresa», a juíza de 1ª instância considerou, de uma forma desassombrada, sem efeito o despedimento e ordenou a sua reintegração.
A entidade patronal decidiu prosseguir a sua cruzada pela purificação dos espaços informáticos e recorreu para o Tribunal da Relação de Lisboa. Aí, os juízes desembargadores Andrade Borges, Cunha e Silva e Soares de Andrade, num acórdão de 13 de Outubro de 1993, foram implacáveis: com a mesma matéria de facto, já atrás referida, consideraram que o comportamento de Lopes era não só culposo, mas também grave e «com consequências nefastas para a entidade empregadora, tanto pelo panorama que terá gerado ou poderia gerar dentro da empresa, como pela má nota ou descrédito desta no exterior».
Para o Tribunal da Relação, Lopes tinha utilizado «um instrumento de trabalho, no local de trabalho e para fins reprováveis», e tinha de entender-se que o seu comportamento «foi objectivamente grave, bem como as suas consequências o foram ou poderiam ser e isto, independentemente dos prejuízos materiais imediatos sofridos» pela entidade patronal. E, por isso mesmo, revogaram a sentença da 1ª instância e confirmaram o despedimento.
Sem pôr em causa a falta cometida por Lopes, não pode deixar de se sublinhar que foi com base em «panoramas» que teriam sido ou poderiam ter sido gerados, com base em consequências que terão sido ou poderiam ter sido graves, isto é, sem apurar minimamente as circunstâncias e consequências em concreto do comportamento de Lopes, que a Relação, de uma forma ineludivelmente moralista, confirmou o despedimento. O programa era pornográfico, mas a solução judicial não melhorou o panorama...
PUBLICO-19940619-082
PUBLICO-19940619-082
19940619
Que diálogo com as seitas?
Sempre defendi que o medo provocado pelo avanço das seitas não deve levar-nos a cultivar os métodos que nelas, com ou sem razão, condenamos. Isto aborrece algumas pessoas que, assustadas com o seu avanço, gostariam de ver os seus dirigentes religiosamente julgados e esmagados
Frei Bento Domingues, O.P.
1. «Que português verdadeiro pode viver a estreiteza de uma só personalidade, de uma só nação, de uma só fé? Que português verdadeiro pode, por exemplo, viver a estreiteza estéril do catolicismo, quando, fora dele, há que viver todos os protestantismos, todos os credos orientais, todos os paganismos mortos e vivos, fundindo-se portuguesmente no paganismo superior? Não queiramos que fora de nós fique um único deus! Absorvamos os deuses todos!»
Esta megalomania de concentração religiosa foi em Fernando Pessoa descontraída e compensada pelos muitos heterónimos que criou para sentir tudo de todas as maneiras», sem repouso, sem parar em nenhuma forma de unidade nem de multiplicidade, porque nunca se curou da «doença do mistério da vida» (cf. Anselmo Borges, «Fernando Pessoa e a questão de Deus», in «Humanística e Teologia», t. IV/1983, pp.161-193).
Não vem ao caso avaliar aqui e agora o programa do neopaganismo português, nos seus traços comuns e nos seus ramos divergentes, nem saber o que resta dele com alguma força de interpelação teológica original.
É preciso reconhecer, no entanto, que a Igreja Católica, de forma oficial, só no Vaticano II abriu «a estreiteza estéril do catolicismo» a todos os protestantismos, credos orientais, paganismos mortos e vivos, para de novo usar as palavras de F. Pessoa. Antes desse momento, o diálogo ecuménico e inter-religioso foi obra de pioneiros vigiados e censurados .
O Papa deseja entrar no ano 2000 com a Igreja de consciência limpa dos erros e pecados de intolerância cometidos ao longo da sua história, num clima de convívio com as religiões abraâmicas e de unidade com as Igrejas cristãs, sobretudo com a ortodoxa. São objectivos santos. Seria uma bênção poder virar, de uma vez por todas e sob o signo do perdão e da paz, as páginas de tristeza. É, porém, um erro grave gastar as energias todas a resolver questões do passado.
É tempo de um diálogo inter-religioso que não deixe nada de fora, na afirmação da diferença, tarefa bem mais difícil e saudável que a de «absorver os deuses todos».
2. Há, no entanto, em muito boa gente, a convicção firme de que o diálogo com as seitas ou os «novos movimentos religiosos» é uma perda de tempo. O que importa é desmascarar a sua charlatanice pseudocientífica e as artes de fazer dinheiro à custa da solidão e do sofrimento. A invocação de Deus, da Bíblia, da fé, de secretas sabedorias milenárias ou de súbitas iluminações divinas, serve apenas para dar cobertura a indivíduos sem vergonha na exploração da aflição e da ignorância.
O Instituto de Sociologia e Etnologia das Religiões da Universidade Nova de Lisboa preferiu , como é normal, outro caminho. Dedicou a «IV Semana de Estudos das Religiões» a uma abordagem positiva desse fenómeno novo da paisagem religiosa portuguesa. Abriu, de facto, um espaço de escuta da voz das seitas e de partilha das investigações sobre elas realizadas segundo os métodos das ciências humanas, da filosofia e da teologia. Contribuiu para que o exercício da razão dialogante se sobreponha ao dos rótulos criados pela paixão.
Não pude estar em todas as conferências, testemunhos e debates. Mas quero, em homenagem a esta iniciativa fundamental, deixar aqui algumas perguntas que presidiram a todo o programa da Semana e para as quais não há respostas breves:
Serão estes movimentos religiosos um fenómeno urbano, rural ou de subúrbio? Quais os estratos sociais que neles estão envolvidos? Procuram responder a novas necessidades espirituais do homem do século XXI? Que oferecem estes movimentos aos fiéis que eles não encontram nas velhas Igrejas? Têm um conteúdo teológico e salvífico ou restauram apenas a função do encontro e da solidariedade que os adros das capelas e as festas populares desempenhavam? O que buscam os seus adeptos? Que textos bíblicos privilegiam e quais menosprezam? Serão movimentos da cultura portuguesa ou, antes, de origem estrangeira e qual a relação que mantêm com os movimentos de origem? O sermão tradicional estará ultrapassado ou, simplesmente, necessita de novos «media»? A instituição paroquial católica terá envelhecido? Que futuro se prevê para estes movimentos: criadas as estruturas do poder religioso, instalar-se-ão por sua vez no conformismo social? Haverá indícios de que estes movimentos permanecerão autónomos ou acabarão por se fundir nas igrejas cristãs já existentes? Serão factores de renovação das igrejas estabelecidas, aguilhões de mudança pastoral e litúrgica e indicadores de um desejo de criatividade e de dinamismo religioso?
3. Somos um país onde a intolerância religiosa foi muito feroz. Nesta coluna, sempre defendi que o medo provocado pelo avanço das seitas não deve levar-nos a cultivar os métodos que nelas, com ou sem razão, condenamos. Isto aborrece algumas pessoas que, assustadas com o seu avanço, gostariam de ver os seus dirigentes religiosamente julgados e esmagados.
Quem desejar respeitar a natureza do diálogo e do encontro inter-religioso não pode adoptar os critérios e os métodos de debate praticado entre dirigentes de partidos políticos. Estes têm que lutar para derrubar o poder do adversário. O debate religioso deve tentar, pelo contrário, abrir condições para que o diálogo venha a ser possível no futuro. O diálogo deve alimentar-se das interrogações que coloquem os intervenientes na urgência de nascerem todos de novo. A proclamação da diferença deve respeitar a insondável unidade plural de deus e a fragilidade do nosso regateio teológico.
Este não é apenas um desejo pessoal. É a letra e o espírito de um documento, humilde como a terra, elaborado por vários Secretariados do vaticano em 1986 a partir das respostas de cerca de 75 Conferências Episcopais intitulado: «Fenómeno das Seitas ou dos Movimentos Religiosos -- Desafio Pastoral» («Doc. Católica», nº 104-105/1986, pp.1-14).
Em vez de normas de acção a partir de grandes certezas, relança em toda a Igreja Católica, num clima ecuménico, o espírito de investigação. Investigação servida por um novo temário e por uma excelente bibliografia geral, repartida por continentes.
Tem a coragem de dizer logo na introdução: «O espírito sectário, isto é, uma atitude de intolerância unida a um proselitismo agressivo, não é necessariamente o facto constitutivo de uma `seita' e, em todo o caso, não a caracteriza. Estas atitudes podem ser encontradas também em grupos cristãos ou dentro de algumas igrejas ou comunidades eclesiais».
PUBLICO-19940619-083
PUBLICO-19940619-083
19940619
Diversos
Meias rotas e poliester
Miguel Vale de Almeida
Esta historinha baseia-se em coisas que ouvi e não em factos jornalisticamente comprovados. No entanto, «a ser verdade», é um caso exemplar do estado das mentalidades no nosso país. Sobretudo da orientação política destas, feita a partir do poder político.
O que me contaram é, grosso modo, o seguinte: o último número da revista que a TAP oferece a bordo teria na capa a fotografia de uma camponesa fazendo um qualquer trabalho agrícola; como pormenor, ostentava umas meias onde se viam um ou dois buracos. O primeiro-ministro português, indo a bordo numa viagem para algures, teria ficado impressionado com a «má imagem» que a dita foto poderia dar do país. Vai daí, a administração da companhia teria mandado retirar de circulação todos os exemplares da revista. Consta que, como solução, vai ser feita uma nova edição, cuja capa terá que ver com uma coisa chamada «Challengers' Trophy».
Estão-se a rir? Pois é. Mas são episódios como este que servem de sinal a mudanças mais profundas, ou que indicam atitudes mais prevalecentes. Assim como a Maria Antonieta que sugeria os brioches como alternativa para os pobres que gritavam que não tinham pão.
O primeiro-ministro teria interpretado nos buracos das meias da camponesa sinais de «atraso» e «pobreza». E teria visto no Challengers' Trophy sinais de «progresso» e «bem-estar».
As imagens de camponeses rotos, suados, sofridos ou festivos têm constituído um espólio imaginário para os mais diferentes tipos de elites. Para as de esquerda foram símbolo de exploração mas, ao mesmo tempo, de exaltação da «identidade», do que é «puro» e «não burguês», do que é «nacional». Idem para as de direita: o campesinato seria o depósito da «alma nacional», e os sinais de pobreza mais não seriam do que demonstrações de «humildade», de recusa da alienação moderna e urbana. Finalmente, na economia internacional do turismo, estas imagens passaram a ter a conotação de «típico», de «genuíno»; tradução: em vias de extinção.
Todas estas atitudes são de uma imoralidade assustadora: une-as a recusa de darem voz aos anseios dos ditos camponeses, nomeadamente os anseios de não serem nem pobres, nem humildes, nem típicos, nem representantes de coisa nenhuma, que não de si próprios como pessoas.
Nas sociedades que escolheram a «via socialista», a meia rota foi cuidadosamente substituída pela imagem do camponês-operário limpo e bem vestido, funcionário do Estado, abelha da imensa colmeia. No Estado Novo, o camponês passou a pai de família e pequeno agricultor, um crente simultaneamente preocupado com a higiene do corpo e da alma, tendo desaparecido como por magia a imensa multidão de jornaleiros e gente sem terra. Nas sociais-democracias, passou a cidadão igual aos outros, mas que aos domingos e dias de festa devia vestir os «trajos regionais» para receber camionetas de turistas. O primeiro-ministro português, por sua vez, inventou uma coisa nova: não há camponeses.
O que não está muito longe da verdade: à beira da extinção económica com a política agrícola actual e da extinção demográfica com o envelhecimento, o primeiro-ministro apenas se estaria a adiantar um pouco aos tempos. À falta de imagem reciclável do camponês, só se lembrou da do jovem gestor.
Eu nem sei muito bem o que é isso de Challengers' Trophy. Mas parece-me que são uns concursos desportivos para gestores, vestidos com poliester de marcas desportivas, em que se exaltam os novos valores culturais de «excelência», «competitividade» e outros mal traduzidos do anglo-americano. Correm por monte e vales. Correm entre florestas de eucaliptos. Correm perante o olhar espantado de alguns camponeses sobreviventes. Uma mulher, com as meias rotas, olha-os e suspira.
PUBLICO-19940619-084
PUBLICO-19940619-084
19940619
Domingo, 12
· Realizam-se eleições para o Parlamento Europeu em oito países da União Europeia.
· Em Portugal, vence o Partido Socialista por escassa margem e a abstenção atinge o valor recorde de 64 por cento...
· ... Pesada derrota do PSOE, do primeiro-ministro Felipe Gonzalez, em Espanha...
· ... vitória da CDU, do chanceler Helmut Kohl, na Alemanha...
· ... e da Força Itália, do magnata Silvio Berlusconi, em Itália...
· ... Em França, vitória dos partidos da coligação de maioria governamental (RPR-UDF).
· Na Áustria, regista-se uma vitória folgada do "sim" no referendo sobre a adesão à União Europeia.
· Hanning Christophersen, comissário europeu responsável pelas questões económicas, considera, em Basileia, na Suíça, que há poucas possibilidades de até 1997 se conseguir uma moeda única europeia.
Segunda-feira, 13
· O Papa João Paulo II declara, no discurso de abertura do encontro extraordinário de cardeais, na Cidade do Vaticano, que a Igreja Católica Romana deve ter a coragem de admitir os seus erros históricos.
· A Coreia do Norte anuncia que se vai retirar imediatamente da Agência Internacional de Energia Atómica.
· O comandante militar da Frente Patriótica Ruandesa, general Paul Kagamé, anuncia que as forças sob o seu comando conquistaram a estratégica cidade de Gitarama, no coração da República.
· O Governo angolano decreta dois dias de luto nacional em memória de 89 crianças mortas devido a um erro da sua própria aviação, que julgava estar a alvejar instalações da UNITA na zona de Waku-Kungo, província do Kuanza Sul.
· Vinte e um cubanos refugiam-se na embaixada da Alemanha em Havana, depois de forçarem o portão das instalações com um camião.
Terça-feira, 14
· O Presidente da República, Mário Soares, e o primeiro-ministro, Cavaco Silva, participam em Cartagena das Índias, na Colômbia, na cimeira de chefes de Estado e de Governo da América Latina, Espanha e Portugal.
· A Bolsa de Valores de Lisboa estreia as novas instalações, na Rua Soeiro Pereira Gomes, mas as telecomunicações entram em colapso e os responsáveis decidem anular todas as operações efectuadas no mercado de cotações em contínuo.
· O ministro do Planeamento e Administração do Território, Valente de Oliveira, acompanhado por oito secretários de Estado, apresenta à Associação Nacional de Municípios uma proposta de transferência de competências do Governo para as câmaras.
· Um guarda prisional é detido pela Polícia Judiciária à saída da cadeia de Custóias, por alegado envolvimento numa rede de tráfico de droga.
· Dados divulgados pelo Instituto Nacional de Estatística, para o mês de Maio, revelam que a inflação em Portugal continua a descer.
· O compositor Henry Mancini, autor da banda sonora de «A Pantera Cor-de-Rosa», morre na sua residência em Beverly Hills, nos Estados Unidos.
Quarta-feira, 15
· Reabertura da Assembleia da República, depois de um interregno para as eleições europeias.
· O presidente do Governo Regional da Madeira, Alberto João Jardim, afirma que Cavaco Silva "não estava no seu estado normal" ao criticar os resultados do PSD-Madeira. E adianta que "houve copos a mais no avião" que conduziu o primeiro-ministro até Caracas, para a cimeira de Cartagena.
· Os dirigentes dos sindicatos dos professores reagem contra o despacho do Ministério da Educação que começa a chegar às escolas: chamam "presente envenenado" às novas regras da avaliação dos alunos do 11º ano.
· A Polícia Judiciária da Guarda apreendeu 200 mil contos de notas falsas, nos arredores de Palmela, fruto de uma das mais perfeitas operações de falsificação de notas de cinco mil escudos.
· Jimmy Carter inicia uma visita à Coreia do Norte, sendo o mais alto dignitário americano a visitar alguma vez o país de Kim Il Sung.
· O Estado de Israel e o Vaticano estabelecem relações diplomáticas plenas, selando um acordo histórico de reconciliação e reconhecimento mútuo.
Quinta-feira, 16
· Alberto João Jardim defende uma aliança com o CDS em 1995, se o PSD não conseguir a maioria absoluta e Cavaco Silva não quiser assumir a liderança do Governo.
· Uma explosão registada num fábrica de pirotecnia localizada em Vale de Loura, no concelho de Vila Nova da Barquinha, provoca cinco mortos, dois feridos graves e três feridos ligeiros.
· O relatório anual do Observatório Internacional das Prisões, publicado em Paris, critica com severidade o estado das prisões portuguesas.
· Israel liberta um grupo de 150 prisioneiros palestinianos, entre os quais se encontram os dois mais importantes líderes do movimento fundamentalista Hamas.
· Sir Norman Fowler, um dos fiéis do primeiro-ministro britânico, John Major, anuncia a sua demissão da presidência do Partido Conservador.
· O Parlamento da Grécia decide que o antigo primeiro-ministro conservador Constantin Mitsotakis deve ser julgado por um tribunal especial sob acusação de ter ordenado escutas telefónicas ilegais aos seus oponentes políticos.
Sexta-feira, 17
· É tornado público pelos semanários "O Independente" e "Tal & Qual" o caso do sangue contaminado com o vírus da sida: durante anos, um indivíduo contaminado com o HIV2 foi dador de sangue a vários hospitais do Porto.
· Abertura do Campeonato do Mundo de Futebol 1994, nos EUA. O jogo inaugural, disputado entre a Alemanha e a Bolívia, em Chicago, deu a vitória à Alemanha por 1-0.
· A RTP é impedida pelo Tribunal Administrativo de Lisboa de transmitir os jogos do Mundial de futebol na TV2. Estas transmissões foram consideradas como uma "violação do sentido de serviço público" do canal.
· O ministro das Obras Públicas, Ferreira do Amaral, visita aquele que vai ser o maior nó de transportes de Lisboa: o interface do Cais do Sodré.
· O FC Porto e o Parma chegam a acordo, nas Antas, sobre a transferência de Fernando Couto para o Parma.
· A Casa Branca desmente que os Estados Unidos da América tenham interrompido o processo de consultas sobre um pacote de sanções a aplicar pelas Nações Unidas à Coreia do Norte. A afirmação foi feita pelo antigo presidente norte-americano Jimmy Carter, de visita à Coreia.
Sábado, 18
· A Comissão Nacional do Partido Socialista reúne-se em Lisboa. A pensar nas legislativas de 1995, os socialistas avançam com os Estados Gerais da Esquerda para Uma Nova Maioria.
· O jornal «Expresso» divulga que o Governo decidiu acabar com a Dinfo e fundir num único organismo o Serviço de Informações Militares e o Serviço de Informações Estratégicas de Defesa. A proposta de lei foi ontem entregue à Assembleia da República por Fernando Nogueira.
· Na Figueira da Foz, inicia-se o Congresso Extraordinário da Liga dos Bombeiros. A grave situação económica das corporações e a melhoria das condições de trabalho são os pontos dominantes do encontro.
· Os trabalhadores do comércio retalhista de Lisboa concentram-se na Rua Augusta, onde exigem o "respeito pelo descanso semanal" e a "actualização dos salários".
· No Estádio Universitário de Lisboa, decorre o VI Meeting de Santo António em Atletismo. O cubano Javier Sotomayor, recordista mundial de salto em altura (2,45 metros), é uma das principais "estrelas" do encontro.
· Iniciam-se, em Nova Iorque, os "Jogos Gay", competição desportiva organizada por homossexuais e que reúne muitos milhares de atletas.
PUBLICO-19940619-085
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19940619
Retrato da Semana
Duas vitórias em seis meses! Uma tangencial, outra mais folgada, mas vitórias. Desde que é líder do PS, António Guterres já ganhou duas eleições e não perdeu nenhuma. Nunca o PS teve tão bons resultados em eleições europeias. Nunca o PS tinha tido tão bons resultados, em eleições municipais, como teve em 1993. Tem o maior número de deputados em Estrasburgo. Tem o maior número de Câmaras, incluindo Lisboa, Porto, Braga, Coimbra, Setúbal, Gaia, Sintra, Cascais... O «score» é impressionante!
E, no entanto...
Não é fábula. Nem parábola. É uma história verdadeira.
Após ter vencido as eleições europeias e logo a seguir a ter desvendado a sua palavra de ordem «uma nova maioria», qual é a primeira medida política do PS? Qual é? Um projecto de lei apresentado no Parlamento sobre o... estatuto da oposição! Será um seguro de vida? Para mais cinco anos? Alguém dizia que as derrotas começam dentro de si próprio.
Acabou a recessão. É oficial. O Governo decretou. A partir de agora, é sempre a abrir. Já há sinais da retoma. Há quem os veja em Tóquio e Nova Iorque. Devem estar a chegar à Europa. Podem-se perceber, ao lusco-fusco, em Frankfurt. Quer isto dizer que até Lisboa é um passo.
Aliás, por aqui, os sinais desenham-se no céu. A inflação não desce, mas também não sobe. As exportações de duas ou três mercadorias deram um sinalzinho... A confiança é boa, é uma ordem. As expectativas são grandes, foi dito por despacho. O espírito dos ministros nunca esteve tão alto. Já nem se inquietam com o miserabilismo. Apenas estão preocupados com a remodelação, que está na forja. E que não é uma remodelação, bem entendido. É um ajustamento. Ninguém tem o lugar cativo. Nem na Cultura...
Começou a encenação. Começou a ser feito o refogado dos indicadores económicos e sociais que justifique moralmente os aumentos que aí vêm. A função pública terá um aumento intercalar, depois outro, substancial, lá para Janeiro. Ou então, um só, importante, anunciado em Setembro, inscrito no Orçamento de Estado em Outubro, aprovado em Novembro, publicado em Dezembro, regulamentado em Janeiro e efectivamente pago ao destinatário lá para Março... Vou mais por este último. É como as inaugurações, pouco a pouco, gradualmente. As coisas boas não são para se fazer, são para irem sendo feitas.
Ao lado da função pública, pensionistas e reformados: são mais de dois milhões! De beneficiários. E de votos. Sem contar o abono de família e outros subsídios. E o salário mínimo nacional, que talvez possa subir antes do previsto, se os sindicatos se portarem bem. E o segundo Quadro Comunitário, isto é, o segundo pacote de fundos, retido até agora pelo Governo, vai ser libertado a tempo.
Se há coisa de que gosto, na democracia, é de este calendário infernal: quem quer ser eleito tem de fazer por isso. Alguém fica a ganhar com esta disciplina chamada manipulação financeira das eleições. O primeiro-ministro é nela doutorado. Por eufemismo, chama-lhe «finanças públicas»... Como dizia o próprio, numa revista da Universidade Católica, nos tempos em que andava às voltas no deserto, o principal objectivo de um político no poder é o de se manter no poder. Fiel às verdades académicas, agora que montou tenda no oásis, o berbere aplica à letra a receita científica.
O pior é que, em 1993, Portugal se afastou mais da União Europeia. E, em 1994, um pouco mais ainda. E a produtividade, que não sobe de modo significativo. E o desemprego, que se mantém ou aumenta. E a turbulência cambial, que não pára. E as pressões sobre o escudo, em parte causadas pelos desentendimentos entre o Governo e o Banco de Portugal, ou mesmo dentro do Banco de Portugal. E as taxas de juro, que não há meio de descerem. E o défice público, que desce tão pouco. E a produção agrícola e o rendimento dos agricultores, que tiveram as maiores quebras da história...
Mas que são essas minudências?
Parabéns a Valente de Oliveira. Tomou a iniciativa de descentralizar mais competências para os municípios em áreas como a educação, a saúde, o ambiente, o comércio, a indústria, etc. Não sei, sinceramente, se não se trata de uma armadilha, isto é, de transferência de competências, sem financiamento nem receitas. Mas a iniciativa está tomada e compete aos autarcas procederem à negociação adequada.
A verdade é que os autarcas já reagiram. Negativamente. Em palavras cruas, estão nas encolhas. Receiam não ter dinheiro. E suspeito que não queiram ter maçadas. Mas deveriam aceitar. E reclamar dinheiro e capacidade para obter receitas. E mais competências, pois o Governo ainda é excessivamente controlador. Por que diabo não poderá a Câmara de uma grande cidade ser capaz de licenciar, sem recorrer à administração central, um supermercado? E uma empresa industrial?
Há todavia algo que Valente de Oliveira deveria iniciar mas parece recear. Por um lado, encarar a divisão gradual dos grandes concelhos (Lisboa, Porto, etc.) em diversas Câmaras. Por outro, tratar as Câmaras e as freguesias de modos diferentes, conforme a dimensão, a população e as suas capacidades técnicas e administrativas. Por que não criar um quadro legal que permita essa diversificação? Por que não criar uma administração local a várias velocidades ou de geometria variável, como se diz agora? Por que não fazer dos grandes organismos centrais, cheios de gente e de equipamento, serviços a que as Câmaras possam recorrer, quando precisem e o entendam, para estudo e assistência? É tão simples verificar isso: há as que podem e as que não podem!
O Tribunal Constitucional respondeu afirmativamente ao Presidente da República: a lei do Bilhete de Identidade não é constitucional! Só me apetece dizer coisas simplórias tais como «Viva o Tribunal Constitucional!» e «Viva o Presidente!»... De qualquer modo, e antes de saber o que se vai seguir, eu, à cautela, continuo a não usar o BI. E só usarei quando for facultativo. Juro!
A magna e douta decisão foi só tomada por maioria. É pena, mas é assim. Vistas bem as coisas, parece que os juízes- conselheiros se dividiram quase todos pelas suas simpatias e dependências partidárias. Terão votado contra o acórdão os designados pelo PSD. Está de ver. Os juízes designados pelas instituições judiciais votaram, neste caso, com a esquerda. Em conjunto, a esquerda e os magistrados votaram pelos cidadãos e contra o Estado. Muito bem. No entanto, e apesar de se tratar de uma vitória da liberdade, não se pode deixar de estranhar que este tribunal esteja tão partidariamente dividido. Ou antes, que os juízes-conselheiros não estejam mais soltos, mais distantes das suas origens políticas!
As vigarices das cartas de condução: eis assunto aqui várias vezes referido e que provocou extraordinária quantidade de correspondência de leitores. Pois o tópico conheceu agora viragem curiosa: alguns dos «tansos» decidiram dar a cara e denunciar os instrutores e examinadores que tinham organizado «vaquinhas». O assunto promete. A direcção-geral e os tribunais já estão metidos. Que fique uma moral da história: às vezes, só é levado quem quer.
Durante a noite das eleições, o professor Aníbal Silva, com um sorriso amarelo, referiu-se, na televisão, ao «professor Marcelo Sousa»... Já não há maneiras!...
PUBLICO-19940619-086
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19940619
Segunda-feira, 20
· Abertura do congresso da Ordem dos Engenheiros -- «Engenharia portuguesa na viragem do século» --, na Fundação Calouste Gulbenkian.
· I Congresso Luso-Espanhol de Consumo, em Cascais.
· II Conferência Europeia sobre Ambiente e Saúde, organizada pela Organização Mundial da Saúde (OMS), em Helsínquia.
· «Improvisação na música do século XX», com Miguel Azguime, Irene Schweizer e Carlos Zíngaro Trio, no Teatro São Luiz em Lisboa.
· Ténis: começa em Londres o Torneio de Wimbledon.
Terça-feira, 21
· Julgamento, no Tribunal de Alcobaça, do ex-presidente da Câmara da Nazaré, Luís Monterroso.
· Encontro Cara a Cara 94 -- II Encontro Nacional de Telemática Educativa, na Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa.
· Início da Conferência «Fé cristã e inimizade humana», em Moscovo.
· Festival Latino de Budapeste com a presença do cantor português Paulo Bragança e de Titina, de Cabo Verde.
Quarta-feira, 22
· Assinatura, em Bruxelas, do acordo de Parceria para a Paz entre a União Europeia e a Rússia.
· Seminário «Toxicodependência em meio laboral», no Convento da Arrábida, uma iniciativa da Prosalis.
· Inauguração da exposição «Os Judeus em Portugal entre as Descobertas e a Diáspora», na Fundação Calouste Gulbenkian.
· Início da Feira Internacional de Equipamentos e Serviços para a Protecção do Meio Ambiente, na Exponor, em Matosinhos.
Quinta-feira, 23
· Celebra-se nas ruas do Porto, na noite de 23 para 24, o S. João.
· XXXII Congresso da Associação dos Jornalistas Europeus, em Helsínquia, com a presença do Presidente da República, Mário Soares.
· A administração pública promove uma acção de rua, no Terreiro do Paço.
· Leilão de vinhos portugueses, nos jardins da Tapada da Ajuda, no âmbito da iniciativa «O vinho na festa da cultura 94».
· Estreia da peça «O Valentão do Mundo Ocidental», de John Millington Synge, no Teatro da Malaposta.
Sexta-feira, 24
· Conselho Europeu de Corfu, na Grécia.
· Início da 10ª edição do Festival Internacional de Cinema de Tróia.
· Espectáculo «As mais Bonitas», de Vitorino, no Coliseu dos Recreios de Lisboa.
· Começo, no Parque Eduardo VII, em Lisboa, da Feira Alternativa do Cidadão, com a participação de organizações ambientais, anti-racistas e culturais.
· Dia do Ardina.
Sábado, 25
· III Fórum Política XXI, em Coimbra.
· Comemoração do 20º aniversário do Centro de Informação e Documentação Amílcar Cabral (CIDAC), no Clube dos Jornalistas.
· Encontro de confraternização de jornalistas e radialistas que exerceram a profissão em Angola, em Tomar, no Manjar dos Templários.
· «Uma noite ao sabor de Viena», com a Orquestra da Ópera de Viena, no Palácio da Bolsa do Porto.
· Grande Prémio da Holanda de velocidade, em motociclismo.
Domingo, 26
· Eleições presidenciais na Ucrânia.
· O Presidente da República do Brasil, Itamar Franco, inicia uma visita oficial de quatro dias a Portugal.
· Dia Mundial contra o Abuso e o Tráfico de Droga.
PUBLICO-19940619-087
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19940619
Nacional
ED
Votos vão contar-se hoje na casa das centenas
Boicotes às eleições repetem-se
Os boicotes das eleições europeias em várias freguesias do país vão hoje repetir-se. São quase 17 mil votos que não vão beneficiar ninguém, apesar da expectativa criada pela magra vantagem socialista sobre os sociais-democratas no sufrágio de domingo passado. Não será hoje que o PSD verá reduzida a margem da derrota tangencial. Resta-lhe esperar pelos cerca de 20 mil votos dos emigrantes, que serão conhecidos terça-feira. Hoje, só se prevê, com certeza, a eleição em duas secções de voto que no passado domingo não funcionaram por falta de mesa constituída.
As populações das freguesias de Mamarrosa, Bustos, Palhaça e Troviscal (Oliveira do Bairro) e Sosa e Ouca (Vagos), no distrito de Aveiro, em luta contra a construção de um aterro de resíduos industriais numa zona florestal, não vão hoje de novo às urnas, como ficou estabelecido numa reunião de autarcas na passada sexta-feira.
Cerca de dois terços dos votos que hoje vão estar em disputa concentram-se nestas localidades, pelo que o interesse da repetição do acto eleitoral dependia em grande medida da decisão que as juntas de freguesia viessem a tomar.
Durante toda a semana, os autarcas das seis freguesias de Oliveira do Bairro e Castelo de Paiva auscultaram o sentir das populações, que terão expressado a vontade de repetir o boicote eleitoral como forma de protesto contra a prevista lixeira.
Na reunião de sexta-feira, os presidentes de juntas de freguesias em luta decidiram enviar uma delegação a Lisboa para falar com a titular da pasta do Ambiente, Teresa Patrício Gouveia, o que poderá suceder na terça-feira, dois dias depois do segundo boicote às eleições europeias.
Também no distrito de Aveiro, a população de Pedorido, em Castelo de Paiva, vai repetir hoje o boicote às urnas. Neste caso, o encerramento das minas do Pejão está na origem do protesto. Embora a acção não tenha um carácter tão organizado como a das populações em em luta contra o aterro de resíduos tóxicos -- excepção feita a vinte eleitores, a população da vizinha freguesia de Raiva optou pela abstenção generalizada contra o fecho das minas --, as informações em poder do Governo Civil de Aveiro apontam para um novo boicote.
A população e a Junta de Freguesia de Santa Cruz de Trapa, no concelho de S. Pedro de Sul, no distrito de Viseu, também não está disposta a ceder e vai continuar o movimento de contestação ao anunciado encerramento do posto de correios local. Apesar das tentativas da administração dos CTT para convencer a Junta de Freguesia de que vai melhorar os seus serviços na região, embora sacrificando o posto, a autarquia não abre mão das suas reivindicações e as urnas vão ficar mesmo vazias. A mesma disposição tem a população de Silva, Barcelos, que exige um atravessamento subterrâneo da linha férrea, face aos acidentes verificados numa passagem de nível sem guarda.
Os boicotes eleitorais estenderam-se ainda a três mesas de voto das freguesias de Adeganha (Torre de Moncorvo, Bragança), Misquel (Parambos, Carrazeda de Ansiães) e Piedade (S. Simão, Setúbal). Neste último caso, a população decidiu já em plenário, com a participação do presidente da Junta, voltar a boicotar as eleições, protestando contra a falta de água, que se faz sentir há mais de um mês, situação atribuída pelos Serviços Municipalizados de Água e Saneamento de Setúbal a uma ruptura na canalização no local que abastece a zona afectada.
Satisfeitos com a repetição do sufrágio estarão apenas os 1611 eleitores inscritos nas secções de voto de Nossa Senhora da Anunciada, em Setúbal, e Penha de França, em Lisboa. É que, no passado domingo, os que quiseram ir votar não o puderam fazer por não haver mesa de voto constituída e não em consequência de qualquer protesto.
Feitas as contas, nenhum partido subirá hoje uma décima que seja na percentagem de votação obtida nas eleições europeias.
PUBLICO-19940619-088
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19940619
Nacional
ED
Soares em Porto Rico
O Presidente da República, Mário Soares, encontra-se desde ontem em Porto Rico, onde foi recebido pelo governador deste estado livre associado dos EUA, Pedro Rossello, com quem anunciou os resultados da IV Cimeira Ibero-americana, referindo-se ainda à situação que se vive em Cuba. Mário Soares convidou o governador de Porto Rico a visitar Portugal e prestou uma homenagem ao Infante D. Henrique depondo uma coroa de flores no monumento erguido na cidade de S. Juan. Antes de deixar Cartagena das Índias, o Presidente português convidou o escritor Gabriel Garcia Márquez, Prémio Nobel da Literatura, a visitar Portugal.
Cavaco responde a madeirenses
O primeiro-ministro, em visita oficial à Venezuela, respondeu ontem a críticas da comunidade madeirense neste país sobre o facto de não ter integrado na sua delegação um membro do governo regional. «Nas minhas visitas venho apenas acompanhado pelos membros do Governo que são necessários para cumprimento das agendas acordadas com o país que visito», declarou Cavaco Silva à agência Lusa. A comunidade portuguesa na Venezuela é constituída por cerca de meio milhão de portugueses e luso-venezuelanos, mais de 70 por cento dos quais é proveniente da Madeira, a que se seguem os naturais da região de Aveiro.
PSD nas obras
Um grupo de deputados do PSD, liderado por Duarte Lima, inicia amanhã uma visita de dois dias ao Norte e Centro do país com o objectivo de apreciar as obras públicas em curso naquelas regiões. A visita começa no lanço do IP4 entre Penafiel e Amarante, seguindo-se outros percursos ainda em construção daquela via de ligação do Porto a Bragança. Os deputados sociais-democratas partem de seguida para Tondela, passando pelas obras em curso no IP2, entre Vila Nova de Foz Côa e Trancoso. Daí seguem para o IP3, onde observarão o estado das obras do troço Fail-Tondela. O primeiro dia da deslocação termina em Condeixa e na terça-feira visitam as obras do IC8, em Pombal, incluindo a ponte sobre o rio Zêzere. Os deputados do PSD deslocam-se ainda a Abrantes e Torres Novas para apreciar o andamento dos trabalhos em curso no IP6.
PUBLICO-19940619-089
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19940619
Nacional
ED
Guterres avisa: «Quem não quer ganhar eleições que se vá embora»
Críticos têm guia de marcha
Eduardo Dâmaso
O tom da reunião foi morno, mas o secretário-geral aproveitou para uma pequena prova de força. Recolheu apoio, viu reiterada a solidariedade da Comissão Nacional à sua direcção, e abriu a porta de saída a quem «não quiser ganhar eleições». Apelou à paz nas federações, que vão ter eleições em Setembro, para que a unidade interna não seja afectada. De tarde foram todos a banhos ou ver o futebol.
A reunião da Comissão Nacional do PS decorreu, ontem de manhã, sob o signo da unanimidade em torno do secretário-geral, que se apresentou com um discurso de força, direccionada para o combate ao tradicional pessimismo interno e recolheu alguns aplausos entusiasmados. Não houve contestação ao resultado dos socialistas nas eleições europeias nem à forma como foi conduzida a «performance» mediática que se seguiu ao encerramento das urnas na reivindicação da vitória. Isto é, não apareceu ninguém a contestar a forma como Jorge Coelho, o responsável pelo aparelho socialista, surgiu perante os ecrãs televisivos a recolher os louros do triunfo do PS e a falar de uma «profunda derrota do PSD», 20 minutos após o início da contagem dos votos. Pelo contrário, Jorge Coelho recebeu da Comissão Nacional uma ovação maior do que o próprio Guterres.
Perante este cenário, numa reunião com gente mais ansiosa em ir desfrutar a tarde amena que se adivinhava, à beira-mar ou de olhos postos no Mundial de futebol, Guterres entrou com um ar despachado e não perdeu tempo. Apresentou a sua interpretação dos resultados eleitorais, reiterando a ideia de vitória do PS, mas falou sobretudo sobre o futuro e recusou a ideia de que o eleitorado insiste em pôr os ovos de um lado e o cesto noutro. Ou seja, vai dando ao PS vitórias nas autárquicas e nas europeias, que lhe retira em eleições legislativas, onde o chamado «efeito Cavaco» se faz sentir de um modo mais intenso. Guterres não acredita nesta tese e pensa que o eleitorado socialista se encontra em mudança, acentuando, por isso, a necessidade de os socialistas trabalharem mais na captação das grandes manchas urbanas, onde se decidem eleições. Para o líder socialista não basta esperar pelas ajudas que a derrapagem da economia possa dar e, por isso, apelou a um maior esforço e empenhamento dos militantes. Isto apesar de terem sido muito comentadas as declarações do ministro das Finanças, Eduardo Catroga, que apontam para o crescimento do desemprego até 1996 e para uma uma previsível subida das taxas de juro.
Em síntese, para o líder socialista, tal como para a Comissão Nacional, estão reunidas «as condições políticas objectivas» para que o PS possa apelar aos portugueses, «com credibilidade», que o apoiem na construção de uma alternativa ao PSD e ao seu governo.
A Comissão Nacional recebeu do líder socialista uma mensagem de confiança, e retribuiu-lhe com a manifestação da sua solidariedade, o que foi votado por uma forte maioria, registando-se apenas uma abstenção. Mas Guterres foi claro a falar para dentro do partido: «Quem não quiser ganhar eleições que se vá embora». Abriu a porta a quem queira sair, num gesto que foi interpretado como um recado para os que, no interior do PS, possam cair na tentação de simpatizar com os ventos que sopram de Belém...
Eleições federativas
Deixado o recado, enunciou a revisão constitucional, a elaboração de um novo programa de governo e a realização dos estados gerais para uma nova maioria, em diálogo «com personalidades, quadros qualificados, agentes sociais da mudança...», como as grandes metas do PS para os próximos meses. Objectivos a que Guterres tenciona imprimir uma dimensão mobilizadora do partido e que, sobretudo, não quer ver prejudicados pelas eleições nas federações do partido, marcadas para o próximo dia 30 de Setembro. Nesse sentido, apelou a que os eventuais confrontos que se travem em torno das federações não se transformem em lutas fratricidas e sejam marcados pelo consenso. Por isso, demonstrou interesse em falar com todos os potenciais candidatos que se perfilem na luta pelo poder dentro das federações.
O processo eleitoral para as estruturas distritais do PS poderá conhecer um simbólico arranque à escala nacional quando, dentro de duas semanas, o número dois de Guterres, Jorge Coelho, avançar com a sua candidatura à Federação da Área Urbana de Lisboa (FAUL), liderada por João Soares. O avanço de Jorge Coelho é um dado praticamente adquirido, já que, apesar de não ter ainda endereçado convites, efectuou vários contactos exploratórios e não parece disposto a entrar em negociações.
Também em Coimbra se prevê a possibilidade de o deputado João Rui Almeida, um sampaísta, avançar com uma candidatura contra a do actual presidente da Federação coimbrã, o gestor público Fausto Correia.
Ainda a Comissão Nacional não terminara já Arons de Carvalho se apresentava aos jornalistas com um comunicado sobre a reunião, que terminou à hora de almoço. No comunicado, a Comissão Nacional congratulava-se com o resultado das eleições e sublinhava a sua solidariedade ao secretário-geral e à direcção do partido, «incitando-os a que prossigam o aprofundamento do projecto autónomo do PS cuja concretização já permitiu, em seis meses, a obtenção de duas vitórias eleitorais sucessivas». Isto apesar das «críticas isoladas de um ou outro militante...», como o próprio Arons de Carvalho diria na conferência de imprensa.
A Comissão Nacional dos socialistas manifestou também o empenhamento destes no «combate cívico» pela mobilização dos cidadãos. A forte abstenção do passado dia 12 é, para o PS, uma prova clara da «necessidade de uma exigente modernização do sistema político», aludindo a uma maior responsabilização dos eleitos, mais transparência na vida pública, mais iniciativa aos cidadãos, mais descentralização e controlo eficaz dos actos da administração.
Uma reunião descontraída dos socialistas, enquanto esperam que acabe a contagem dos votos das europeias para ver confirmada a eleição do seu décimo deputado, o autarca minhoto Fernando Moniz, um importante apoio de Guterres na federação de Braga, a mesma a que pertence Parcídio Summavielle, o crítico «não representativo», como lhe chamaram na Comissão Nacional...
PUBLICO-19940619-090
PUBLICO-19940619-090
19940619
Sociedade
O apartheid suíço
OS FILHOS de imigrantes nascidos na Suíça vão continuar a ser estrangeiros. Os portugueses que, na sua emigração, subiram aos Alpes, não terão filhos seus integrados na comunidade helvética, como acontece nos países da União Europeia.
Assim decidiu, no último referendo, um eleitorado de velhos, zelosos de proteger a sua cidadania como se se tratasse de uma raça pura alpina. A Suíça, depois de mostrar o seu isolacionismo, revela agora ter um «apartheid» mais rígido do que a segregação que existia na África do Sul. Mesmo branca e loira (quanto mais negra e árabe) uma criança, nascida e crescida nas suas montanhas, só será suíça se tiver o sangue suíço.
Com os seus dois «nãos» à formação de um contingente de capacetes azuis para se integrar nas forças de paz da ONU e à facilitação da cidadania para os jovens estrangeiros, os eleitores de maioria suíça-alemã mostraram a sua cor. Felizmente, nesta estranha democracia directa, o povo suíço pode legislar contra o Parlamento, mas não pode escolher os seus governantes pelo voto directo. Se pudesse, estariam no conselho federal os representantes das forças mais reaccionárias e racistas do país.
E por isso, resta a pergunta: até quando um povo anti-ONU e anti-Europa aceitará ter um ministro dos Negócios Estrangeiros desejoso de aderir à ONU e à União Europeia? Ou ter um ministro do Interior favorável à naturalização dos jovens e à livre circulação das pessoas em desacordo com o pensamento da maioria do povo?
A União Europeia já fez a triste experiência de acreditar nos bons propósitos da junta suíça e ver acordos, como o de transportes pelos Alpes, anulados pela intervenção de referendos. Que credibilidade a Suíça poderá ter, a partir de agora, com a adesão dos austríacos à União Europeia, que a isola no meio da Europa com todos seus particularismos?
Embora a classe política suíça tenha passado a semana a tentar digerir e minimizar o choque dos «nãos» populares, existe um clima de crise, que noutros países provocaria uma demissão colectiva do governo. É impensável uma reforma na Constituição para restringir as votações directas e ampliar o poder dos representantes do povo.
Enquanto isso aprofunda-se o fosso entre os suíços-franceses e os suíços-alemães, embora o Valais tenha ficado, desta vez, com os germânicos. Na questão da facilitação da naturalização para os estrangeiros, alguns cantões alemães mais urbanos votaram «sim». Foram os pequenos cantões centrais, de agricultores e criadores, que formam a chamada Suíça profunda, os maiores adversários da cidadania suíça aos jovens estrangeiros e dos capacetes azuis.
Os suíços-franceses gostariam de diminuir o peso destes pequenos cantões, para encontrar um certo equilíbrio nas votações, mas sabem que qualquer iniciativa nesse sentido seria rejeitada. O espirito de abertura dos suíços-franceses em choque constante com o isolacionismo dos suíços-germânicos, só poderá favorecer as ideias de uma futura secessão.
Pereira Martins, em Genebra
PUBLICO-19940619-091
PUBLICO-19940619-091
19940619
Sociedade
Imprensa regional tem dois presidentes
A DIRECÇÃO da Associação Portuguesa de Imprensa Regional (APIR) enviou esta semana uma carta a todos os periódicos associados dando conta da «situação dramática» que está a viver. Os responsáveis da APIR acusam o presidente da Assembleia-Geral de «não cumprir o estipulado nos estatutos» da associação, e mesmo «na Lei Geral», limitando-se, refere a carta, «a dar guarida a interesses pouco claros, alheios aos órgãos sociais legalmente eleitos em Fátima, em 1991».
A carta, enviada pela direcção liderada por João Fernandes, director do «Falcão do Minho», de Viana do Castelo, marca mais um capítulo nas profundas divergências entre os «patrões» da imprensa regional que desde há alguns meses insistem em manter em funcionamento duas lideranças da APIR, em duas sedes diferentes.
Situação que tem motivado uma troca de processos judiciais interpostos pelas partes em conflito, provocando uma verdadeira guerra pelo controlo da estrutura que representa 200 empresas proprietárias de jornais regionais portugueses.
Vasco de Carvalho, director do "Notícias de Barcelos", é um dos presidentes da APIR, eleito em Novembro, em Águeda, mas João Fernandes impugnou a eleição do director do semanário de Barcelos e continua a exercer as suas funções na associação. Invoca para tal a legitimidade de um mandato que, em sua opinião, só terminou a 31 de Março e não em Novembro de 93, como o fez concluir Ribeiro Cardoso, o presidente que se zangou com Fernandes e apoiou a lista de Vasco Carvalho, que acabaria por integrar.
A direcção liderada pelo director do "Notícias de Barcelos" entende que foi legalmente eleita, e que Fernandes está a dirigir uma associação fantasma. Este, pelo seu lado, não reconhece o acto e impugnou-o judicialmente, com base em alegadas violações estatutárias de Ribeiro Cardoso, do "Povo de Fafe". Acusa ainda a nova lista de "fazer uma assembleia apenas com 16 membros, sem quotas pagas, convocados pelo telefone ".
Esta situação trouxe ao movimento associativo das empresas proprietárias de jornais de âmbito regional uma conflitualidade verdadeiramente caricata. João Fernandes e os restantes cinco membros que sobraram da anterior direcção, apesar de não possuirem presidente, não abandonam as funções e continuam a exercer o seu mandato, realizando encontros e emitindo notas de informação aos sócios na sede que a associação tem no Porto.
Também Vasco de Carvalho e Ribeiro Cardoso gerem a APIR com a legitimidade que entendem, efectuando reuniões, emitindo comunicados e tomando decisões. Prometem que vão despejar, por via judicial, João Fernandes da sede que este ocupa na rua 5 de Outubro.
Na carta endereçada esta semana aos reclamados associados, a direcção de João Fernandes solicita o pagamento das respectivas quotas para a referida sede na 5 de Outubro, reclamando para a APIR uma estrutura dirigente «forte e não partidária».
Por trás desta conflitualidade -- cuja resolução não parece estar à vista -- estarão razões de ordem pessoal e concepções diferentes de gestão dos interesses das empresas e dos jornais regionais. A direcção liderada por Vasco Carvalho e Ribeiro Cardoso considera que a sua existência é uma questão de legalidade de um acto eleitoral, enquanto o director do «Falcão do Minho» acusa Ribeiro Cardoso de "armar toda a trama" por pretender continuar a participar nas comissões técnico-paritárias, estrutura que define os subsídios de apoio aos jornais.
João Fernandes vai mais longe nas suas acusações: "[Cardoso] autonomeou-se representante da APIR na comissão paritária, sem o consentimento dos restantes membros da direcção. Quando soubemos que o seu jornal, depois de já ter obtido um subsídio de 4500 contos, recebeu outro de 9500 denunciámos toda a situação, porque pensámos que nessa altura revelou as intenções porque pretendia estar na comissão à revelia dos órgãos que dirigem a associação".
Alfredo Leite e Francisco Fonseca
PUBLICO-19940619-092
PUBLICO-19940619-092
19940619
Sociedade
DP
Internamento de estrangeiros aprovado no parlamento
A ASSEMBLEIA da República aprovou na quinta-feira o diploma que «regula o acolhimento de estrangeiros, por razões humanitárias ou de segurança, em Centros de Instalação Temporária». A proposta de lei do Governo foi aprovada com os votos a favor do PSD e CDS e com a oposição do PS, PCP e PEV.
O diploma foi remetido ao parlamento na quarta-feira, o mesmo dia em que se efectuou o balanço das europeias e foram aprovadas as alterações à lei de Imprensa, o que fez com que a discussão deste diploma quase passasse despercebida. A situação foi denunciada, anteontem, no Porto, em conferência de imprensa, pelo movimento Interpovos, que acusou o Governo de ser responsável «pela construção de um edifício legislativo progressivamente mais autoritário, xenófobo e racista».
Os centros para cidadãos estrangeiros são contestados pelo Procurador Geral da República, Cunha Rodrigues, que, em Abril de 1993, requereu ao Tribunal Constitucional a declaração de inconstitucionalidade dos artigos da Lei de Imigração que prevêem a sua criação.
O diploma aprovado na quinta feira, que vem regular o funcionamento dos centros, será uma forma de contornar algumas das objecções levantadas por Cunha Rodrigues, nomeadamente o facto de o parlamento não ter sido ouvido aquando da criação legal dos centros.
O diploma, aprovado na generalidade, prevê que a instalação de estrangeiros se possa fazer por razões humanitárias, a pedido dos próprios, caso não tenham recursos para prover à sua subsistência, ou por razões de segurança determinadas judicialmente. Neste último caso, o imigrante poderá ser obrigado a permanecer nos centros como «garantia do cumprimento de uma decisão de expulsão», pela «necessidade de assegurar a comparência perante a autoridade judicial» e perante o «perigo de lesão de interesses fundamentais diversos dos que determinam a expulsão».
Sérgio Vinagre, do movimento Interpovos criticou este último fundamento, afirmando que «qualquer pretexto pode servir para determinar a detenção». Segundo a proposta de lei, a instalação também pode ser forçada para qualquer estrangeiro que permaneça mais de 48 horas na zona internacional do aeroporto, por lhe ter sido recusada a entrada no país.
Durante o debate do diploma, que decorreu com o hemiciclo quase vazio, a oposição reiterou críticas já formuladas há um ano, criticando o Governo, a quem acusou de pretender criar «centros de detenção» em que o estrangeiro fica sujeito a todas as arbitrariedades. A oposição contestou ainda o facto de o diploma prever que, num único edifício, possam ser instalados os dois regimes previstos, frisando que serão criados locais que são «metade prisões preventivas e metade centros de lazer».
O diploma baixou, para discussão na especialidade, à Comissão de Direitos Liberdades e Garantias que, na próxima terça-feira, deverá ouvir opiniões de diversas pessoas ligadas à imigração. Uma delas será Maria Barroso, que solicitou uma audiência à comissão.
David Pontes
PUBLICO-19940619-093
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19940619
Sociedade
Nascidos em Stonewall
Octávio Gameiro
Começou ontem em Nova Iorque a 4ª edição das Olimpíadas Gay. Depois, a Parada do Orgulho Gay reunirá homossexuais de todo o mundo. Dois acontecimentos que comemoram os 25 anos dos motins de Stonewall e a transformação das práticas homossexuais numa identidade com direito de cidadania.
Fundados em S. Francisco, em 1982, pelo atleta olímpico Tom Waddell, a 4ª edição das Olimpíadas Gay teve ontem a sua cerimónia de abertura no Estádio Wien da Universidade de Columbia, em Nova Iorque. O encerramento está previsto para o estádio Yankee, dia 25, na mesma cidade. Com o apoio do governador Mario Cuomo e da câmara de Nova Iorque, apresentam duas vertentes. Uma desportiva, em que participam 11 mil atletas de mais de 40 países. E outra cultural, com destaque para o espectáculo do actor britânico Sir Ian Mckellen, intitulado «A Knight Out». No total prevê-se uma afluência de 500 mil espectadores, o que corresponderá a uma entrada de receitas turísticas estimada em 111 milhões de dólares, compensando largamente o orçamento posto à disposição dos organizadores (6 milhões e meio).
O décor da cerimónia de abertura é de Jerry Sirlin, o mesmo de «O beijo da mulher aranha» e a cerimónia de fecho promete ser apresentada por «três sexos»: Julia Sweeney (locutora do Saturday Night Live, um dos programas televisivos mais célebres nos EUA), Cindy Lauper e os Queen Latifah apresentarão uma versão reggae de «Girls Just Wanna Have Fun».
Durante a semana está prevista uma representação de Sandra Bernhard (a actriz que se dizia amante de Madonna) no OUTrageous Comedy `94, um espectáculo da Bill T. Jones/ Arnie Zane Dance Company (o primeiro é seropositivo e o segundo era seu amante e morreu com sida), uma retrospectiva do artista plástico Keith Haring, um espectáculo multi-media sobre a sida, intitulado «The Electric Blanket», etc.
Em defesa de um outro conceito de normalidade (ver PÚBLICO 11/6/94), as Olimpíadas Gay não são exclusivo dos homossexuais, o que é uma forma de mostrarem que aceitam os heterossexuais tal como eles são, sendo que o contrário nem sempre é verdade. Natação, diversos tipos de futebol, basquetebol, «skating», triatlo, maratona, halterofilia, artes marciais, ciclismo e mesmo o americaníssimo «wrestling», são algumas das provas a realizar por toda a área metropolitana de Nova Iorque.
Cultos cívicos e "orgulho"
Simultaneamente, decorrem diversas comemorações dos 25 anos dos motins de Stonewall. O destaque vai obviamente para a célebre Gay Pride Parade, o «desfile do orgulho gay» que este ano seguirá diferentes percursos e se prepara para um ponto alto junto ao edifício das Nações Unidas. Está já garantida a presença de delegações representando mais de 80 países, que desfilam por ordem alfabética, com o país anfitrião no fim. Tudo culminará no Central Park, num misto de mega-comício e espectáculo.
Nos dias anteriores, as manifestações e espectáculos suceder-se-ão a um ritmo alucinante e a tónica promete ser recorrente. Discursos reivindicativos e divertimentos mais ou menos exuberantes. Manifestações de «orgulho» e afirmações de «diferença». Demonstrando assim que não há identidade sem cultos cívicos, mesmo quando fogem ao padrão tradicional. No dia 24, a Gala de Prémios dos 25 anos de Stonewall, no Jardim de Inverno do World Financial Center, distinguirá 25 gays, lésbicas, travestis ou «transgenders» pela sua «diferença». Tudo em traje de cerimónia. O Baile de Stonewall, designado como «o primeiro acontecimento travesti da década», decorrerá no muito futurista Hotel Marriott Marquis. O «Stonewall 25 dance in New York", no gigantesco Coliseu, parece ainda assim ter um carácter mais informal. Há também festas em mega-discotecas, com as mais diversas configurações e para todos os gostos.
O Pridefest 94 e o Festival Internacional (a 24, 25 e 26) adoptam um perfil mais popular, sendo organizados respectivamente pela "Heritage of Pride" e pelo Centro de Visiantes Gay e Lésbicos de Nova Iorque e compondo-se basicamente de espectáculos de rua. Com uma lista tão completa e a acreditar no número de visitantes previstos, compreende-se melhor o regozijo da indústria hoteleira nova-iorquina, já desesperada com o fracasso do Mundial de Futebol em termos de taxas de ocupação.
Stonewall, uma identidade
Mas, finalmente, o que foram os motins de Stonewall? Em 28 de Junho de 1969, quando uma patrulha da polícia irrompeu num bar homossexual de Nova Iorque, deparou pela primeira vez com uma resistência violenta aos seus raides habituais. O levantamento durou cinco dias. Tinha nascido o mito fundador da identidade homossexual. O próprio nome do bar - Stonewall (muro de pedra) - conferiu-lhe a mística necessária.
Ainda que imemoriais, as práticas homossexuais eram até então consideradas como comportamentos desviantes. A mentalidade vigente foi sucintamente descrita pelo escritor americano Edmund White. "Os três crimes mais hediondos conhecidos do homem eram o comunismo, o vício da heroína e a homossexualidade." ("Um belo quarto vazio", D.Quixote, 1992). Uma identidade de fora para dentro, negativa, levava a atitudes de auto-flagelação. Nos anos 60, com os novos movimentos sociais e as políticas do corpo, os homossexuais foram ganhando visibilidade e uma postura gradualmente mais reivindicativa. A 29 de Maio de 1965 alguns pioneiros do movimento gay realizaram um protesto junto da Casa Branca, reclamando igualdade de oportunidades sociais para os homossexuais. No último número da revista "The New Republic", Bruce Bawer defende inclusive que foram estes os verdadeiros heróis, uma vez que puseram em risco os seus empregos. Os de Stonewall não passariam inicialmente, e segundo ele, de travestis e prostitutos sem nada a perder.
Sendo uma identidade na qual convergem indivíduos com as mais diversas origens sociais, étnicas, nacionais e religiosas, os homossexuais tornaram-se por isso mesmo num fenómeno sociológico de contornos inéditos e difusos. As suas práticas identitárias transmitem aos seus membros um sentimento de pertença que não se apreende em família ou em comunidades de origem, como nas identidades tradicionais. Têm a função de os aproximar daqueles com quem compartilham interesses e posturas semelhantes. Um processo em tudo idêntico ao emergir dos estilos de vida das sociedades urbanas contemporâneas. Tal como os bairros gay, que ajudam a criar aquilo que o sociólogo Anthony Giddens chama de "casulo protector", o qual garante aos seus membros um mínimo de segurança. Todavia, a maioria dos homossexuais permanece solidária com as suas comunidades de origem.
O modo como E. White descreve o dia seguinte a Stonewall é exemplificativo do quanto a recente visibilidade social dos homossexuais foi imprescindível à afirmação dos seus direitos como minoria. "Fomos à rua comprar os matutinos para ver como tinha sido descrito o Levantamento de Stonewall. `É, realmente, o nosso Dia da Bastilha', disse Lou. Mas não conseguimos encontrar uma única referência na imprensa ao ponto-charneira das nossas vidas.»
PUBLICO-19940619-094
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19940619
Sociedade
LPN
Atenção, o desenho do Vasco é paginado no máximo da largura! O texto deve ser apertado. Obrigado.
Rui Cardoso Martins.
Quem é que chamou a mãe?
Ah, saborosa e leve vida moderna, se estás tão perto quando é que chegas de vez? Quando é que desce às ruas o número de telemóveis que chegue para acabar com as caras convencidas dos que já têm o aparelhinho (e os olhos avarentos dos que não têm)? Quando é que os bolsos das nossas calças deixarão de se romper com tanta moedinha à solta e tudo, mas mesmo tudo, se pague com um cartão de plástico? E acabem os problemas de fluidez monetária e o crédito se faça eterno?
Portugal dará então para sempre a mão ao resto do mundo, suspirando comoventes «bips» electrónicos, dia e noite, e pessoas como Miguel nunca mais farão a triste figura que se vai contar.
Pois Miguel tinha aquilo que afinal não tinha: um cartão de crédito que não lhe dava crédito. Pior ainda, um cartão com sentença de morte estampada na banda magnética. Só que alguma coisa falhou no circuito, ninguém o avisou a tempo e Miguel acabou por ser preso.
Na linha da frente da modernidade lusitana, comissionista de vendas com telemóvel e conta bancária em Paris, Miguel parou num self-service gasolineiro e encheu com a própria mão o seu depósito. Vai daí parou na caixa, cumprimentou o empregado, tirou a carteira e entregou delicadamente o seu cartão de crédito. O empregado pegou no cartão -- muito bonito, todo azul e com uma pombinha brilhante estampada -- e passou-o pela máquina. Tamborilou os dedos na mesinha e, de repente, embatucou. Alarme! Alarme! É favor contactar a empresa que representa o cartão em Portugal! Fazendo ainda de conta que não há problema, o empregado pegou no telefone e fez uma chamada. Recebe uma ordem: o cartão não é válido e deve ser destruído.
Miguel começou a desconfiar que algo de mal se passava. O empregado diz-lhe que o cartão não é válido. Miguel discorda. Nova chamada. O cartão deve ser destruído, é o que dizem os ficheiros internacionais. Miguel discorda, diz que o seu cartão tem que lhe dar crédito e que tem ainda um ano de validade. Miguel pega no telemóvel e liga para o número de atendimento do cliente. Só lá está um gravador. Há nova chamada do empregado (mas para um número secreto que só se dá às lojas) e termina-se aqui a conversa porque o cartão tem mesmo que ser destruído.
Então, sem mais aquelas, o empregado corta o cartão em dois e, perante o cliente embasbacado, pergunta-lhe como é que vai pagar os nove contos de gasolina. Miguel não tem dinheiro consigo.
Nisto passam umas horas em deliciosa conversa até que chega a polícia. Miguel não pode pagar e mais do que isso, não quer pagar de qualquer outra maneira. A polícia pede-lhe os documentos do carro. Não os tem, o carro é da mãe.
Vão para a esquadra. O polícia que o prendeu telefona à mãe. Esta confirma que o carro lhe pertence e que Miguel é seu filho. Depois o polícia tem uma bonita ideia que partilha com a mãe de Miguel.
«O que eu não aceito é que seja quem for ligue à minha mãe para contar uma história destas!» diz Miguel, já no tribunal, meio amachucado de uma noite inteira enfiado «numa cela malcheirosa com criminosos a fumar charros», como irá descrever mais tarde. O polícia perguntou à mãe de Miguel, que estava com os seus 75 anos a dormir na Parede, se não queria ir até Lisboa, mesmo de comboio, pagar a dívida do filho. «Eu não admito isso! Eu tenho 40 anos!»
E se é assim, decide-se de vez Miguel, a mãe fica proibida de sair de casa pois as coisas vão mas é resolver-se em tribunal. Na primeira sessão, conclui-se que é preciso chamar um funcionário da empresa que representa o cartão e adia-se o julgamento. Na segunda sessão, o advogado leva um fax, chegado de França, em que o responsável de uma empresa se assume como fiador sempre que Miguel exceder o crédito da sua conta. E que, assim, não se percebe por que estúpida razão o banco francês cortou o crédito ao seu cliente quando o dinheiro tem sido sempre depositado, mais tarde ou mais cedo. E sem avisar Miguel. Mas o documento está escrito em francês, a lei obriga que seja oficialmente traduzido e o caso acaba por transitar para um tribunal comum.
Miguel sublinha o que mais o irritou, e fez daquilo uma questão de dignidade e se chateou tanto com a história do telefonema à mãe: «Uma coisa é um guarda chegar ao pé de mim e dizer `tem que pagar!' e outra `como é que deseja pagar?' Uma coisa é um empregado perguntar `como é que deseja pagar?' e outra é chamar a polícia! Foi para dizer isto que eu passei a noite na prisão!»
Ora bem, e os meus nove contos?, resmunga irritado um gerente de bomba de gasolina pelos corredores do Tribunal de Polícia.
PUBLICO-19940619-095
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19940619
Sociedade
Hiroshi Nakajima
Sida: governos só prometem
Hiroshi Nakajima, director da Organização Mundial de Saúde, disse ontem, no fim da reunião preparatória sobre sida de ministros da Saúde de todo o mundo, que «os chefes de Estado fazem muitas declarações, mas depois esquecem-se, não estão comprometidos em relação aos fundos».
Por isso, disse Nakajima, a cimeira sobre sida que em princípio vai reunir, em Dezembro, e de novo em Paris, chefes de Estado e de Governo dos países mais ricos, «pode ser uma contribuição decisiva na luta contra a sida». A França, país que propôs e organizou a reunião de ontem, sugeriu que fosse a 1 de Dezembro, Dia Mundial da Sida.
Ontem, os mais de 40 ministros da Saúde e representantes de comissões de sida -- Portugal não esteve representado -- fizeram um apelo para que o Norte partilhe a ajuda a dar aos países pobres.
Mas apesar do compromisso que a reunião e os discursos revelaram, da reunião de Paris, que durou dois dias, não resultou nenhuma certeza em relação a fundos para o Terceiro Mundo. Nem sequer foram apresentados cálculos sobre quanto será necessário juntar.
Numa declaração conjunta aos media, os participantes sublinharam a necessidade de aumentar a solidariedade entre ricos e pobres. Os líderes políticos, disseram, têm que «garantir que nenhum continente, nenhum país, nenhum grupo populacional ou indivíduo é marginalizado».
PUBLICO-19940619-096
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19940619
Sociedade
Vedeta do futebol americano, assassino da ex-mulher, rende-se após fuga transmitida na televisão
A prisão em directo de um ídolo
Nunca se vira coisa assim. Em directo pela televisão, durante oito horas, a América seguiu a espectacular fuga de um dos seus filhos mais queridos. Acusado de ter degolado a ex-mulher, a quem amará «para sempre», e de um homem, O.J. Simpson, ex-vedeta do futebol americano, deu o pretexto para uma verdadeira recriação do ambiente dos filmes de série-B de Hollywood. Não faltou, sequer, a multidão de fãs que o aplaudia pelas ruas, quando era perseguido por dezenas de carros de polícia e helicópteros da TV. Nem a ameaça de suicídio.
O.J. Simpson, lenda do futebol americano dos anos 70, actor, célebre apresentador de televisão e acusado do brutal homicídio da sua ex-mulher e de um amigo desta, entregou-se ontem à polícia após uma espectacular fuga pelas estradas de Los Angeles transmitida em directo pela televisão.
Logo que se soube que o ídolo tinha escapado de carro, a reacção das cadeias norte-americanas foi imediata, acompanhando o drama do homem que, desde a primeira hora, era o principal suspeito da morte por degolação, no domingo passado, da sua ex-mulher Nicole Brown Simpson, de 35 anos, e do empregado de mesa e aspirante a modelo Ronald Goldman, de 25.
Helicópteros com equipas de reportagem em directo interromperam as programações para transmitir a perseguição policial que durou mais de oito horas, ao longo de 100 quilómetros pelas auto-estradas e ruas de Los Angeles.
O. J. Simpson, de 46 anos, acompanhado de um amigo e antigo colega de desporto, Al Cowlings, tinham conseguido fugir na sexta-feira da casa deste último, quando se encontravam sob vigilância policial, dentro de uma viatura Ford Bronco branca. Simpson foi depois localizado pela polícia e contactado através do seu telemóvel, dando-se início a uma caçada ao homem. Mas, acreditando no suicídio do fugitivo, que apontou uma arma à própria cabeça e exigia conversar com a mãe, um verdadeiro comboio de carros de polícia limitou-se a perseguir à distância a viatura, conduzida pelo seu amigo.
As longas horas do drama transformaram-se numa autêntica recriação ao vivo dos policiais negros, os filmes série-B de Hollywood. A circulação pelas auto-estradas de Los Angeles foi interrompida e de todos os lados apareciam peões que aclamavam o apresentador televisivo. Apareceram cartazes de apoio a dizer «Nós amamos o Jus», lembrando a sua alcunha de «Orange Juice» (Sumo de Laranja) quando Simpson fazia tremer as defesas adversárias ao serviço dos Buffalo Bills, nos anos 70.
O carro parou finalmente diante da casa de Simpson, em Brentwood, um bairro da zona alta de Los Angeles. Mas depois da ameaça de terminar com a vida, e após uma hora de negociações com as autoridades, o fugitivo saiu simplesmente para a rua, segurando não a pistola mas duas fotografias da família. A arma foi mais tarde encontrada no carro.
Simpson foi então conduzido para a sede da polícia da cidade, onde lhe foram tiradas as impressões digitais e o fotografaram. Fizeram-no entrar numa cela vigiada, própria para pessoas com pulsões suicidas.
Amor «para sempre»
Mas apesar da selvajaria do duplo homicídio -- Nicole Brown Simpson foi degolada com uma arma branca dentro de casa e o seu companheiro lutou desesperadamente para evitar a morte -- os norte-americanos continuam a ter o seu ídolo no coração. E muitos recusam-se a acreditar que tenha sido ele o assassino, em particular desde a divulgação de uma carta de adeus de Simpson. Aí, ele abriu a hipótese do suicídio e negou categoricamente ter morto Nicole, a quem, escreveu, «amarei para sempre». Apesar do seu divórcio, em 1992, ao fim de sete anos de casamento em que tiveram dois filhos, de nove e seis anos.
Foi com grande estupefacção que milhões de norte-americanos reagiram à inculpação oficial do seu herói, um dos homens que encarnava uma grande parte do «sonho americano», pois nasceu num subúrbio pobre de negros e transformou-se numa estrela, rico e célebre.
Havendo provas importantíssimas contra O.J., segundo as autoridades, os seus admiradores têm multiplicado manifestações de apoio. A tal ponto que o Procurador de Los Angeles, Gil Garcetti, acabou por ameaçar punir como cúmplices todos aqueles que tentassem ajudar um homem que ele próprio classificou como «herói americano.»
Também muitos dos agentes da megapólis do oeste americano tinham demonstrado respeito pela envergadura do antigo desportista, que conseguiu escapar quando era o principal suspeito desde a primeira hora. Sexta-feira, finalmente, Simpson foi declarado pessoa armada e perigosa.
Se for condenado pelos dois homicídios, Simpson, lenda viva dos EUA, poderá ser sentenciado à morte ou, pelo menos, a prisão de 30 anos.
A sua perseguição e detenção surgiu no mesmo dia em que o Presidente Bill Clinton disse que «o cancro de crime e da violência» ameaçam a sociedade norte-americana e pediu ao Congresso que apoie novas medidas anti-crime: alargar as hipóteses de sentença de morte, banir certas armas de assalto e aumentar o número de polícias nas ruas em 100 mil agentes.
Na carta em que desmentia ter morto a mulher, O.J. Simpson dizia também. «Não me lamentem. Tive uma vida extraordinária. Como é que cheguei a isto?»
PUBLICO-19940619-097
PUBLICO-19940619-097
19940619
ESCOLA ASSALTADA NO PORTO -- A Escola Secundária de António Nobre, no Porto, foi assaltada ontem, entre as 7h e as 15h. De acordo com a PSP, que registou a ocorrência e foi chamada ao local pela direcção do estabelecimento, os assaltantes entraram nas instalações através de uma janela das traseiras, que estroncaram e escalaram. No interior de um dos pavilhões forçaram a porta da papelaria, mas ainda não se sabe se algo foi furtado. Quando os polícias chegaram ao local, diversas notas estavam espalhadas pelo chão, junto à porta arrombada.
PUBLICO-19940619-098
PUBLICO-19940619-098
19940619
IRLANDA SURPREENDE ITÁLIA -- A Irlanda cometeu ontem a primeira grande proeza do Mundial, ao bater a Itália por 1-0, no primeiro jogo do Grupo E, disputado em Nova Iorque perante um estádio cheio de irlandeses e italianos residentes nos EUA. Um golo de Houghton fez o resultado logo aos 11', numa jogada típica das equipas britânicas, com o médio irlandês a chutar à baliza sem grande convicção, mas a beneficiar do adiantamento excessivo do guarda-redes Pagliuca. Foi a primeira vitória da Irlanda sobre a Itália em sete encontros já disputados entre as duas selecções.
A Itália foi uma desilusão, incapaz de criar situações de perigo junto à baliza de Pat Bonner, falhando sistematicamente o último passe, muito por culpa da desinspiração de Roberto Baggio. Ao contrário, a Irlanda manteve-se fiel ao seu estilo prático de futebol directo, baseado num meio-campo povoado com cinco homens que servia de primeira barreira às iniciativas italianas e que se desdobrava para o contra-ataque. Na Itália, salvou-se Signori, único capaz de importunar Bonner, enquanto a Irlanda conseguiu construir os lances mais perigosos, como aconteceu aos 75', quando Sheridan atirou ao poste de Pagliuca. A festa ontem foi da minoria irlandesa de Nova Iorque.
PUBLICO-19940619-099
PUBLICO-19940619-099
19940619
LEI DA CAÇA NO TRIBUNAL CONSTITUCIONAL -- A Procuradoria-Geral da República (PGR) vai requerer ao Tribunal Constitucional (TC) a declaração de inconstitucionalidade da Lei 30/86, a lei da caça, com a fundamentação de que este diploma legal, que enquadra a criação das polémicas reservas de caça associativas, contraria o princípio do direito à propriedade, consagrado na Constituição. A decisão da PGR foi ontem divulgada pela Federação Nacional de Caçadores e Proprietários que, em nome do «regime de caça livre», tem liderado a contestação às reservas associativas e turísticas.
«Demos um passo importante para vencer esta guerra», afirmou ontem Eduardo Biscaia, presidente daquela federação, que há cerca de três meses tinha solicitado à PGR e à Provedoria de Justiça a fiscalização da constitucionalidade da lei da caça. A abertura da época venatória, cujo calendário é fixado pelo Conselho Nacional da Caça, ainda não está decidida, embora tradicionalmente decorra a partir do início do mês de Julho.
Para a Federação Nacional de Caçadores e Proprietários, que se afirma representativa dos interesses dos mais de 200 mil caçadores, a decisão do TC deverá confirmar a apreciação da Procuradoria-Geral da República, inviabilizando o funcionamento das mais de 1200 reservas associativas e as cerca de seis dezenas de reservas turísticas existentes em todo o país.
Daniel Oliveira
PUBLICO-19940619-100
PUBLICO-19940619-100
19940619
TRÊS MORTES NO IP4 -- Três mortos e dois feridos ligeiros é o balanço dos dois acidentes de viação registados na sexta-feira à noite, no Itinerário Principal 4, entre Vila Real e Amarante, que envolveram um total de 19 viaturas.
Segundo fonte da GNR de Vila Real citada pela agência Lusa, um choque frontal entre duas viaturas, na ponte sobre o rio Sor, ao início da noite, levou à morte das três ocupantes que nelas viajavam. Carlos Manuel Nunes Pinheiro e Cristiano Manuel Machado Morais, ambos com 18 anos de idade e naturais de Amarante, e José Luís Henriques Fernandes, de 53 anos, natural de Vizela (Guimarães), tiveram morte imediata no acidente, provocado, ainda segundo a GNR, por excesso de velocidade.
Horas depois, um choque em cadeia envolveu 17 viaturas, também no IP4, perto da Pousada do Marão. Deste acidente, provocado pelo intenso nevoeiro que afectou a zona na noite de sexta-feira, resultaram apenas dois feridos ligeiros, para além de se terem registado elevados prejuízos materiais.
PUBLICO-19940619-101
PUBLICO-19940619-101
19940619
Desporto
LA
RECORDE NA NATAÇÃO -- O russo Alexander Popov bateu ontem o recorde do mundo dos 100 metros livres, com o tempo de 48,21 segundos, na reunião internacional de natação a decorrer no Mónaco. O anterior recorde pertencia ao norte-americano Matt Biondi, com 48,42 segundos, alcançado a 10 de Agosto de 1988, nos Estados Unidos.
PUBLICO-19940619-102
PUBLICO-19940619-102
19940619
Economia
U-E-Tapie
Tesouro «confisca» colecção de Tapie
O Tesouro francês, que conjuntamente com o banco Crédit Lyonnais é o maior credor do empresário e político Bernard Tapie, acaba de reclamar a penhora de alguns dos seus bens pessoais, entre os quais se inclui o recheio de uma mansão do século XVI localizada em Paris. Uma colecção de peças de mobiliário e de arte, que segundo o próprio Tapie representam 40 por cento do valor total do seu património pessoal, estimado em 800 milhões de francos (24,6 milhões de contos), são os bens que o departamento estatal pretende penhorar para liquidar as dívidas e fraudes fiscais do polémico dirigente do Marselha. As autoridades francesas, que pediram a suspensão da imunidade que o mandato de deputado confere a Bernard Tapie, levantaram até ao momento seis processos distintos contra o empresário, todos por motivos de fuga e fraude fiscal.
PUBLICO-19940619-103
PUBLICO-19940619-103
19940619
CLINTON DESAPROVADO -- Um inquérito a publicar amanhã pela «Newsweek» dá conta da insatisfação do público americano com a maneira como o Presidente Clinton está a actuar na crise coreana. Cerca de 42 por cento dos inquiridos estão insatisfeitos com a política presidencial (contra 35). A maioria, 68 por cento, é favorável a que os EUA retomem as negociações com a Coreia do Norte para a convencer a aceitar inspecções às suas instalações nucleares. Entretanto, o Departamento de Estado norte-americano reagiu com prudência à notícia de que o Presidente sul-coreano aceitara uma cimeira com o seu homólogo do Norte, Kim Il Sung (ver pag. 19). «Todas as diligências para eliminar a tensão na península são bem recebidas», disse um porta-voz. E remeteu mais comentários para depois do regresso a Washington do antigo Presidente James Carter, cuja missão «privada» às Coreias pôs em causa a coerência da política americana perante Pyongyang, com Clinton a desautorizar declarações de Carter.
PEREGRINAÇÃO A SAVIMBI -- O vice-ministro dos Negócios Estrangeiros de Angola, João Miranda, declarou ontem em São Tomé que o seu governo não fará novas concessões à UNITA na busca de uma solução para o conflito no país. Após um encontro com o Presidente Miguel Trovoada, esclareceu que «não haverá mais propostas fora do quadro do que já foi sugerido». Informa a enviada da Lusa que, em Lusaca, não se registam quaisquer progressos nas negociações, tendo a delegação governamental viajado para Luanda a fim de receber instruções, enquanto o enviado norte-americano, Paul Hare, deverá entregar pessoalmente a Jonas Savimbi, uma carta do Presidente Clinton. Savimbi deverá também receber o embaixador português Rocha Páris, o russo Mikhail Butcharnikov e o mediador da ONU, Alioune Beye. Notícias militares provenientes de Luanda dão conta de intensos combates nas províncias do Huambo e do Bié.
ÁDEN CONTINUA DEBAIXO DE FOGO -- Áden voltou a ser ontem de manhã violentamente bombardeada pela artilharia nortista, cujos intensos ataques provocaram desde quinta-feira um total de 53 mortos e 155 feridos entre a população civil. Os bombardeamentos deste fim de semana foram os mais violentos desde o início, em 5 de Maio, dos combates entre sulistas e nortistas, que se encontram a cerca de 20 km da cidade. O principal dirigente do sul, Ali Salem al-Baïd, voltou a apelar ontem ao envio de observadores internacionais para a região, após considerar que os acontecimentos no país são «um caso muito perigoso» e acusar as forças nortistas de serem compostas por «extremistas».
CROATAS E MUÇULMANOS BÓSNIOS ACEITAM PLANO -- Responsáveis oficiais da Croácia e do governo bósnio, de maioria muçulmana, indicaram ontem que estariam dispostos a aceitar uma proposta de divisão territorial da Bósnia-Herzegovina apresentada pelo Grupo de Contacto, que inclui representantes dos Estados Unidos, Rússia e União Europeia. O ministro croata dos Negócios Estrangeiros, Mate Granic, garantiu que a recém-formada federação croato-muçulmana não pretende bloquear o acordo de paz e estará provavelmente disposta a aceitar o mapa sobre a partilha étnica apresentado pelas principais potências. Uma fonte diplomática afirmou ontem em Genebra que os ministros dos países que integram o Grupo de Contacto se poderão reunir quarta ou quinta-feira, na cidade suíça, para aprovarem em definitivo o plano de paz para a Bósnia.
PUBLICO-19940619-104
PUBLICO-19940619-104
19940619
Nacional
ED
Faria de Oliveira critica empresários
O ministro do Comércio e Turismo, Faria de Oliveira, a acompanhar Cavaco Silva na visita à Venezuela, criticou ontem os empresários portugueses por não utilizarem os instrumentos disponíveis para o desenvolvimento das exportações. Faria de Oliveira considerou «injustificáveis» as fracas relações comerciais entre Portugal e a Venezuela bem como a «utilização diminuta» dos incentivos à exportação. O ministro, citado pela Lusa, alertou para o facto de as exportações portuguesas para o mercado venezuelano serem 30 vezes menos que as da Espanha, 40 vezes inferiores às da França e 50 vezes mais baixas que as da Itália. A elevada concentração da comunidade portuguesa no sector do comércio é um factor que, na opinião do ministro, pode contribuir para a intensificação das relações comerciais entre os dois países. Entretanto, o Banco de Fomento Exterior assinou ontem uma linha de crédito de médio prazo de 200 milhões de contos com o Banco Provincial da Venezuela, para apoio a acções de cooperação entre empresários portugueses e venezuelanos.
PUBLICO-19940619-105
PUBLICO-19940619-105
19940619
Nacional
ED
Macau atrai investimento
O governo de Macau vai adoptar nova legislação sobre a fixação de residência no território para facilitar o investimento e atrair quadros qualificados. Esta medida foi ontem anunciada pelo governador do território, Rocha Vieira, que espera levar este diploma a debate do plenário do Conselho Económico de Macau no próximo mês de Julho. «Trata-se de um diploma em que a tónica é a economia, sem descurar os aspectos ligados à segurança, e que visa criar condições para que, em determinadas circunstâncias, os investidores possam vir para Macau e os quadros com mais quaificação possam fixar residência», declarou Rocha Vieira. O novo diploma visa estimular a atracção de investimento e foi anunciado pelo governador durante a cerimónia que assinalou o início das obras do aterro da Concórdia, um espaço de 33 hectares situado na zona oeste da ilha de Coloane e que vai dispôr de um parque industrial e uma zona habitacional e comercial.
PUBLICO-19940619-106
PUBLICO-19940619-106
19940619
Sociedade
CF
Avião cai em Virgínia -- Doze pessoas, oito adultos e quatro crianças, morreram, ontem, num acidente de aviação, numa zona arborizada perto de Chantilly, no estado da Virgínia, nos EUA. De acordo com a Lusa, o aparelho, quando se despenhou, pelas 14h30 de Lisboa, preparava-se para aterrar no aeroporto de Dulles, em Washington. As vítimas, que poderão ser mexicanas, iam assistir ao encontro de futebol México-Noruega, que hoje se realiza em Washington. Estas informações foram fornecidas pelo porta-voz da Administração Federal de Aviação. Contudo, um porta-voz da selecção de futebol do México prestou declarações contraditórias. Segundo este, não era esperada, ontem, a chegada de qualquer avião. Por sua vez, a embaixada mexicana não conseguiu confirmar a identidade das vítimas, indicando que aguardava informações provenientes do México. O avião, um Lear Jet 25, estava registado no México.
PUBLICO-19940619-107
PUBLICO-19940619-107
19940619
Hospitais do Porto sob inquérito
Ordem dos Médicos exige indemnizações para seropositivos
O Conselho Nacional da Ordem dos Médicos (OM) reunido, ontem, em Lisboa, defendeu o pagamento de indemnizações a todos os cidadãos infectados com o vírus da sida em unidades de saúde públicas. A tomada de posição da Ordem tem por base as notícias divulgadas, na última sexta-feira, pelos semanários «O Independente» e «Tal & Qual», sobre a utilização em hospitais do Porto, entre os quais o pediátrico Maria Pia, de sangue de um dador contaminado com o vírus HIV2. Admite-se que pelo menos 13 crianças seropositivas tenham sido infectadas por esta via. A Ordem dos Médicos anunciou ainda que irá proceder a um rigoroso «inquérito para averiguar as eventuais responsabilidades médicas neste caso». Disponibilizou-se também a proceder a «uma avaliação nacional global nas unidades de saúde, sobre as condições e garantias de segurança nas manipulações dos produtos de sangue». Em comunicado enviado à comunicação social a OM lembra «que em devido tempo o Ministério da Saúde foi alertado para eventuais falhas existentes nos serviços de sangue e, nessa altura, um responsável médico foi penalizado pela denúncia pública de tal facto». Na sexta-feira, o ministro da Saúde, Paulo Mendo, também ele médico, e ex-director do Hospital de Santo António, no Porto, considerou as notícias dos semanários «um insulto à classe médica».
PUBLICO-19940619-108
PUBLICO-19940619-108
19940619
Sociedade
BR
s-Porto.perigo
Porto
População: 302. 535
Desemprego: 7,3%
Estação da Trindade, baixa portuense
Problemas: Tanto de dia como de noite é a zona com maior registo de delitos em toda a cidade. São vulgares os assaltos com recurso a violência, os esticões, os carteiristas e a última moda: os roubos sob ameaça nas caixas de multibanco. A prostituição espalha-se por diversas ruas com os consequentes desacatos. Zonas referenciadas como especialmente perigosas são as que rodeiam as estações de São Bento e Trindade e a Rua de Santo Ildefonso. Já a caminho da parte oriental da cidade, mas com as mesmas características de perigosidade é referenciada, pelas forças policiais, a Rua de Santos Pousada. Um perigo que se multiplica à noite, quando o centro do Porto, quase desabitado, se transforma num verdadeiro «no man's land».
Bairro do Aleixo
População local: 1500
Problemas: «Como não fazer» parece ter sido a cartilha levada à letra na construção deste bairro virado para o Douro. Cinco torres de 13 andares, num espaço quase fechado, para onde foram deslocadas as populações da tradicional Ribeira/ Barredo. A pobreza, a degradação das condições de vida levaram muitas pessoas a dedicarem-se ao tráfico de droga nas áreas que circundam as torres. Um estranho que entre neste espaço ou é cliente, ou é suspeito. «Olha que eu sou do Aleixo» é uma ameaça usada nos meios marginais do Porto, por uma população que se habituou a ver o seu bairro olhado «como aquilo que há-de pior no Porto». O bairro começou a ser objecto de um programa específico de intervenção da junta de freguesia da Câmara.
Bairro de Aldoar
Problemas: Nos mapas da polícia são poucas as ocorrências que têm este bairro como cenário, apesar de muitas vezes referenciado como local de residência declarada por autores de delitos. Isto, e a proximidade de um acampamento de ciganos, instalado junto à Circunvalação, estará na raiz do receio que alguns taxistas confessam sentir quando levados em serviço para o Aldoar.
Bairro do Azevedo, Campanhã
Problemas: É mais um bairro camarário com problemas relacionados com a toxicodependência, mas, afinal, com cerca de 80 mil pessoas (tanto como a população de Braga) a habitar as casas camarárias não era de admirar que a Câmara do Porto tivesse que enfrentar estes problemas. É o tráfico, no bairro e nas barracas que nasceram à sua sombra, mas são também os problemas do consumo. «Nunca vi uma coisa assim. Há alguns locais em que o chão parece atapetado com as caixas das seringas», disse ao PÚBLICO uma das assistentes sociais que trabalha na zona. Não parece ser uma zona perigosa para quem se desloca lá.
Bairro do Lagarteiro, Campanhã
Problemas: Bairro com inúmeros problemas sociais. Os taxistas não se importam de lá ir buscar pessoas, mas levar é outra conversa. Queixam-se de que os clientes não costumam pagar. Mais do que uma zona perigosa é uma zona de suspeição.
Centro Histórico
Problemas: O tráfico de droga abunda na zona. Há assaltos e alguns locais onde a polícia não entra facilmente. Um território marcado pelas Rua do Souto, Bainharia, Viela do Anjo e Rua da Fonte Nova, mas que no caso da prostituição também se estende aos Caldeireiros, à Cordoaria e à Rua do Loureiro. A própria face «burguesa» desta zona, a Rua de Mouzinho da Silveira, começa a ser um local de difícil travessia para quem vai para a Ribeira.
Quinta da Mitra
Problemas: É uma zona de pré-fabricados para onde a Câmara do Porto deslocou desalojados do centro histórico. É neste momento uma das áreas «mais duras da cidade». O tráfico faz-se na rua, provocando verdadeiros congestionamentos dos automóveis. A descrição é de um responsável da GNR que foi ao local tentar capturar um suspeito: «Nunca tinha visto nada igual. Eram dezenas de carros em constante movimento, rapidamente atendidos pelos inúmeros passadores. Só me senti bem porque estava armado. O carro-patrulha da PSP passou por lá, deu uma volta e foi embora. Eles [os passadores] quase nem disfarçaram.» Mesmo as assistentes sociais preferem deslocar-se ao local escoltadas por alguém conhecido no bairro.
Bairro de S. João de Deus
Problemas: Roubos, tráfico e consumo de droga. Desacatos entre a comunidade cigana e caboverdiana residente no local. "Às vezes roubam os vales já nas caixas dos correios, mas o mais usual é tentarem enganar os carteiros que são novos e receberem aquilo que não é para eles", conta um carteiro que chama ao bairro «Tarrafal». É um bairro avesso a estranhos mas também pouco dado a crimes (se exceptuarmos as cenas de pancadaria) no seu interior.
PUBLICO-19940619-109
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19940619
Sociedade
BR
s-caixa método
O método do Atlas
O PÚBLICO fez uma pergunta -- «Quais são os locais mais perigosos em termos de crime na região em que trabalha?» -- a um grupo de profissões de Norte a Sul de Portugal, Madeira e Açores. Polícias (PJ, PSP e GNR), carteiros, médicos de serviço nocturno ao domicílio, assistentes sociais, bombeiros, funcionários dos telefones, transportes (públicos e taxistas) e serviços camarários foram as profissões escolhidas por serem aquelas que mais directamente fazem deslocações, constantes, aos vários pontos das cidades e vilas portuguesas, independentemente de eles serem ou não receados.
As respostas destes profissionais a 28 correspondentes do PÚBLICO e às redacções de Lisboa e Porto foram organizadas por regiões e são a base dos mapas destas páginas.
O objectivo foi chegar, quando possível, ao nome da rua ou área onde os profissionais sentem receio de entrar ou não entram de todo. As informações foram depois cruzadas e discriminado o tipo específico de problemas e causa do medo. E no caso dos dados prestados pelas polícias, incluem-se também os locais onde qualquer cidadão, indepentemente da sua actividade, tem mais hipóteses de ser vítima de roubo à mão armada ou de sofrer um assalto no seu carro, casa ou loja.
Os locais referidos nestas páginas não pretendem representar a totalidade dos lugares considerados perigosos em Portugal. Por outro lado, poderá haver alguns em relação aos quais os moradores da região considerem a sua inclusão despropositada. Mas praticamente todos foram referenciados por mais de uma das profissões escolhidas.
Feito o inquérito, mais de metade dos concelhos contactados acabou por não encontrar locais dignos de referência neste Atlas, pelo que são regiões onde, aparentemente, a criminalidade não é localizada e é só sentida pontualmente.
Nas cidades, principalmente em toda a cintura urbana de Lisboa, houve alguma dificuldade em distinguir com precisão as ruas ou bairros onde há reais e constantes situações de perigo -- roubos, assaltos, ofensas corporais e homicídios -- daqueles onde há sobretudo uma sensação exterior de insegurança, o que a Polícia Judiciária descreve como «zonas de suspeição». Na Grande Lisboa, um bom exemplo será o Bairro de Santa Filomena, visto com muita desconfiança pela população da Amadora, mas cuja má fama suplanta em muito o papel relativo que ocupa nas estatísticas criminais.
PUBLICO-19940619-110
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19940619
Sociedade
BR
s-Centro.perigo
Alenquer
População: 34. 098
Desemprego: 5,5% (1991)
Urbanização da Barrada, Carregado
Problemas: Esta é uma extensa urbanização deixada a meio por falência da empresa promotora. Famílias de etnia cigana ocupam uma das torres. São frequentes os conflitos e troca de tiros e há acusações de tráfico de droga. Os vendedores do mercado do Carregado denunciam o uso, à noite, das suas bancas para actos sexuais. «Isto é uma miséria autêntica. Tenho que lavar e desinfectar isto todas as manhãs. A praça devia estar vedada», disse ao PÚBLICO um dos vendedores.
Almada
População: 151.783
Desemprego: 10.8%
Zonas escuras do Bairro do Pica Pau Amarelo
Problemas: Junto às traseiras do Hospital Garcia de Orta são comuns as desavenças, talvez por ser um local de tráfico de droga.
Trocatas e Pragal
Problemas: Local de concentração de consumidores de droga. Zona de assaltos também, onde os taxistas, por exemplo, não gostam de ir.
Mata de S. António, Costa da Caparica
Problemas: Zona clandestina densamente aglomerada. A própria polícia tem medo de lá entrar. Não raras vezes, embora sem eco público, verificam-se confrontos entre «gangs» de negros e cabeças rapadas.
Jardim da Cova da Piedade
Problemas: Local de concentração de toxicodependentes.
Barrocas, Cova da Piedade
Problemas: Local de concentração de toxicodependentes. Assaltos. Os taxistas sentem-se inseguros.
Quinta do Rato e Bairro da Fundação, Laranjeiro
Problemas: Idem.
Quinta de Stº António e Bairro de S. João, Feijó
Problemas: Idem.
Bairro Fundo Fomento, Vale Figueira
Problemas: Idem.
Charneca e Vila Nova da Caparica
Problemas: Assaltos a carros e vivendas. Os taxistas sentem-se inseguros.
Bairro Campo da Bola na Costa da Caparica, zonas de praia na própria vila, Marisol e zona da Fonte da Telha
Problemas: Local de concentração de toxicodependentes. Assaltos à mão armada. Os taxistas sentem-se inseguros.
S. Pedro da Trafaria, zona 2º Torrão
Problemas: Droga e assaltos. Os taxistas sentem-se inseguros.
Ruelas de acesso ao cais de embarque, Cacilhas
Problemas: Entreposto fluvial. Zona de chegada e partida de «mulheres do alterno» e «utentes» do «bas-fond».
Imediações do Asilo 28 de Maio, Porto Brandão
Problemas: Criminalidade de todo o tipo, com predominância para o tráfico de droga.
Cova do Vapor, Trafaria
Problemas: Os taxistas receiam trabalhar nesta zona.
Bairro Amarelo, Monte da Caparica táxis
Problemas: Local de concentração de toxicodependentes. Assaltos.
Amadora
População: 177.167
Desemprego: 6,7% (1991)
Alto da Cova da Moura, Buraca
Problemas: É um dos bairros onde há maior número de homicídios e ofensas corporais, «sobretudo por causa do álcool», segundo o inspector João de Sousa, da Polícia Judiciária. Um bairro de lata onde «entramos com algum cuidado», admitiu também ao PÚBLICO Francisco Pereira Calvão, coordenador da PJ para a área dos furtos e roubos. «Começou por ser mal conotado por questões racistas, a população é sobretudo caboverdiana, o que levou à estigmatização do bairro. Mas não temos registos de muitos problemas. Não vou dizer que não haja tráfico de droga...». Mas lá dentro, médicos e taxistas não se sentem nada à vontade.
Zona dos hipermercados Continente, Jumbo e Aki, Alfragide
Problemas: Segundo a PJ, esta é uma área de grande incidência de furtos e assaltos, a pessoas e carros estacionados nos parques. A PSP apenas realça assaltos dentro dos estabelecimentos.
Bairro das Fontaínhas e 6 de Maio, Venda Nova
Problemas: Zona de suspeição para os taxistas e para a PJ.
Bairro de Stª Filomena
Problemas: Bairro degradado com ruas muito estreitas, onde as pessoas de fora se sentem ameaçadas. A maioria da população da Amadora conhece este bairro maioritariamente africano apenas da janela do comboio. Zona de suspeição.
Alfornelos, perto da Brandoa
Problemas: Centro da prostituição da Amadora, onde pára a famosa «Cicciolina».
Barreiro
População: 85.768
Desemprego: 13,7%
Imediações do Estádio Alfredo da Silva, Lavradio
Problemas: Concentração de consumidores de droga.
Caldas da Rainha
População: 43.205
Desemprego: 15%
Triângulo dos Espreitas (Estrada Atlântica), Foz do Arelho
Problemas: Um local ermo a 200 metros do mar. Encontros de namorados e amantes foram aos milhares até ser tornado público um caso de tentativa de violação e homicídio de um casal. Os espreitas e «voyeurs» continuam a marcar presença no local, mas só os menos informados para lá vão. Os que conhecem as histórias têm medo do Triângulo dos Espreitas.
Edifício da Estação, Av. 1º de Maio
Problemas: Junto à Estação da CP das Caldas da Rainha, um prédio de 11 pisos está abandonado há mais de uma década. É um local de concentração de marginais. «Quanto mais para o topo da construção mais degradação», disse ao PÚBLICO um vendedor ambulante que costuma parar naquela zona «por causa dos passageiros dos comboios», justificou. Durante a noite ninguém se aproxima do seu interior e «até a polícia tem medo de passar por ali», admitiu o comissário Costa, comandante da PSP das Caldas da Rainha.
Cascais
População: 153.294
Desemprego: 6,9% (1991)
Bairro das Marianas
Problemas: Os taxistas consideram este bairro como um local de perigosidade de tomada e largada de passageiros. Não entram.
Bairros do Fim do Mundo e da Galiza, S. João do Estoril
Problemas: Idem.
Bairro do Manique, São João do Estoril
Problemas: Zona de suspeição para os taxistas.
Coimbra
População: 139.093
Desemprego: 6,2%
Jardim da Sereia
Problemas: Jardim junto à Praça da República frequentado durante o dia por crianças e namorados que, à noite, se transforma em local privilegiado para o consumo e tráfico de droga. A estas horas, só lá vai quem quer, e quem o faz não tem por hábito apresentar queixas na PSP.
Avenida Cidade Aeminium, conhecida por Marginal do Mondego
Problemas: Separada do centro de Coimbra pela linha férrea, esta avenida é apenas utilizada durante o dia por quem procura estacionamento e por condutores em fuga ao trânsito da Avenida Fernão de Magalhães. Durante a noite torna-se palco de encontros homossexuais. A PSP considera-a um dos locais menos seguros de Coimbra.
Bota Abaixo e zona envolvente à Estação Nova
Problemas: Em pleno centro de Coimbra, a Avenida Fernão de Magalhães é uma das mais movimentadas ruas da cidade, durante o dia. Mas à noite é quase exclusivamente utilizada por prostitutas e respectivos clientes. Não é, no entanto, considerado um local perigoso, a não ser para as próprias prostitutas que, por vezes, são agredidas e maltratadas.
Leiria
População: 102.762
Marachão
Problemas: Uma zona de passagem situada ao longo da margem esquerda do Rio Liz. As situações de insegurança referidas verificam-se sobretudo à noite. Trata-se de um espaço de passeio e de lazer durante o dia e com um ambiente social radicalmente diferente à noite, frequentado por prostitutas e proxenetas.
Bairro Francisco Sá Carneiro, freguesia dos Marrazes
Problemas: As opiniões dividem-se entre os que afirmam recear frequentar o local e os que adiantam ser mais uma questão de preconceito. Trata-se de um local onde foram realojadas muitas famílias provenientes das ex-colónias e que estiveram, numa primeira fase, no antigo RAL 4 (Regimento de Artilharia de Leiria). Urbanização tradicionalmente referenciada por situações de tráfico, consumo de droga e prostituição. São conhecidas algumas dificuldades de convivência entre a população dos Marrazes e os residentes deste bairro social.
Quinta do Alçada, freguesia dos Marrazes
Problemas: Zona residencial construída na segunda metade da década de 70, considerada na altura como uma das grandes urbanizações da cidade. Trata-se de uma das áreas suburbanas com mais casas para alugar e com rendas mais baixas. A má fama do local, devido aos fenómenos de prostituição e droga, é considerada factor dissuasor para novos residentes que pretendam aqui instalar-se.
Loures
População: 322.158
Desemprego: 6,2% (1991)
Póvoa de Santa Iria
Problemas: São frequentes os furtos em residências das pessoas que vão trabalhar para Lisboa.
Santo António dos Cavaleiros
Problemas: Idem.
Bairro da Torre, Camarate
Problemas: Zona de suspeição para os taxistas.
Bairro da Sacor, Bobadela
Problemas: Idem.
Casal da Câmbra
Problemas: Idem.
Estrada Militar, Catujal
Problemas: É uma estrada com barracas dos dois lados. Os taxistas consideram este bairro como um local de perigosidade de tomada e largada de passageiros.
Quinta do Mocho, Sacavém
Problemas: Os taxistas consideram este bairro como um local de perigosidade de tomada e largada de passageiros.
Serra da Luz
Problemas: Os taxistas consideram este bairro como um local de perigosidade de tomada e largada de passageiros.
Vale do Forno
Problemas: Idem.
Marinha Grande
População: 32.234
Casal do Malta
Problemas: Bairro social construído no início da década de 70, onde foram alojadas algumas famílias da região com condições sociais degradadas. Prostituição e droga são considerados os motivos principais da insegurança vivida nesta zona residencial, situada nas proximidades de uma escola secundária. É um local conhecido por algumas rusgas da polícia que envolvem por vezes tiroteios. Mesmo assim a situação melhorou substancialmente nos últimos anos.
Moita
População: 65.086
Desemprego: 13.9% (1991)
Vale da Amoreira e Alhos Vedros
Problemas: Assaltos diários aos estabelecimentos de ensino e assaltos a menores na via pública, bem como «vandalismo sobre os equipamentos colectivos [no concelho] , com especial incidência» nestas duas freguesias, «gerando um sentimento generalizado de insegurança na população», denunciou recentemente a Câmara Municipal da Moita.
Oeiras
População: 151. 342
Desemprego: 6,9% (1991)
Pedreira dos Húngaros, Linda-a-Velha
Problemas: Bairro de barracas habitado maioritariamente por caboverdianos e ciganos e referenciado como o local de tráfico de droga por excelência da região. Quase colado a Linda-a-Velha (que nos últimos anos se transformou num local de residência da classe média e média alta) é talvez a zona de maior suspeição desta área suburbana. Oa taxistas não entram. Esperam o passageiro fora do bairro.
Alto de Stª Catarina, Cruz Quebrada
Problemas: O término das carreiras da Carris para o Dafundo e Cruz Quebrada (eléctrico nº 15) é considerado um dos mais perigosos da rede. São frequentes os furtos ao guarda-freio. Também os taxistas consideram este bairro um local perigoso quer para tomar quer para deixar passageiros. Normalmente não entram.
Bairro Sá Carneiro, Laveiras, Caxias
Problemas: Os taxistas consideram este bairro como um local perigoso para tomar e deixar passageiros.
Casal da Choca, Porto Salvo
Problemas: Idem.
Peniche
População: 25.880
Desemprego: 18%
Ribeira Velha
Problemas: A antiga praça de recepção de visitantes de Peniche transformou-se no ponto de encontro para todo o tipo de negócios. Traficantes de droga ou contrabandistas de tabaco passeiam-se por ali com um à vontade tão grande que quase ninguém percebe o que se passa. Mas quem sabe escolhe outros locais para circular. «É verdade que quando os negócios correm mal, tudo pode acontecer», queixa-se um taxista que já por várias vezes se arrependeu de andar na Ribeira Velha. É uma das zonas mais bonitas de Peniche.
Vila Maria
Problemas: É um dos maiores bairros de Peniche, a cerca de um quilómetro do centro da cidade, e está a crescer. Depois da saída de muitos jovens da prisão os problemas têm-se multiplicado. «O problema é a lei da amnistia» queixa-se um agente da PSP que acredita que «a criminalidade vai aumentar». Os esfaqueamentos por tudo e por nada são já uma rotina. «Ainda outro dia um vizinho passou por um grupo de gandis e disse-lhes para se portarem bem, a resposta foi uma série de facadas», disse ao PÚBLICO um morador preocupado. As grandes concentrações de jovens são à porta de um café e «a maior parte nem mora nesta zona, é gente cigana e desempregados ou então marginais que todos sabemos o que fazem», concluiu outro morador.
Bairro Peniche 3
Problemas: Depois de algumas detenções no início do ano, o Bairro Peniche 3 ficou mais desafogado de problemas. A polícia com os poucos meios que tem acredita que a situação vai voltar a ser regra. «Ali dentro ninguém entra sem ser olhado do pés à cabeça», explicou ao PÚBLICO um agente da PSP. É uma construção tipo gueto com três grandes edifícios que formam um «U» e um pátio enorme. À sua frente há um grande muro e no meio um portão. Um local escondido onde se faz de tudo. «Isto já era de imaginar», disse um autarca próximo do presidente da Câmara que acusa a forma como o Fundo de Fomento da Habitação planeou este tipo de bairros sociais.
Santarém
População: 62.621
Desemprego: 5,5% (1991)
Freguesia de Marvila
População local: 9812
Problemas: Sucessivos assaltos ao comércio, na área que é a principal zona comercial da cidade. Os pontos mais críticos são a Calçada das Figueiras, onde existe uma decadente prostituição feminina; o Salão de Jogos, centro de tráfico de droga; o Largo de Sá da Bandeira, largo do Seminário contíguo ao Jardim da República, dois centros de tráfico de droga e prostituição dos dois sexos. A droga também afasta -- ou aproxima -- as pessoas do bairro do Alfange, na zona ribeirinha, local de tráfico e consumo.
Rodoviária do Tejo, São Nicolau
População local: 7133
Problemas: Tráfico de droga.
Planalto da Escola Secundária Sá da Bandeira, freguesia S.Salvador
População local: 8082
Problemas: Neste espaço junto do antigo Liceu de Santarém há prostituição masculina, local onde a PSP identifica regularmente homens frequentadores de «todas as idades, classes sociais e profissões».
Bairro Suíço
Problemas: Um dos bairros mais pobres do concelho, onde vivem sobretudo ciganos, conhecido como local de tráfico de droga e objectos.
Seixal
População: 116.912
Desemprego: 13%
Jardim junto ao coreto, Paio Pires
Problemas: Consumo e pequeno tráfico de droga. Rixas com ciganos.
Sesimbra
População: 27.246
Desemprego: 10,8%
Área junto ao cemitério de Sesimbra
Problemas: Refúgio de toxicodependentes.
Areais da Califórnia e antigo Macorrilho
Problemas: Zonas de consumo de droga.
Sintra
População: 260.951
Desemprego: 6,6% (1991)
Ferro de Engomar
Problemas: Também conhecido como o «lugar do Ferrinho», é o ponto -- ermo, de acesso ao bairro da Estefânia -- de paragem das prostitutas de Sintra.
Vila Franca de Xira
População: 103.571
Desemprego: 8,9% (1991)
Parque Nacional da Vialonga
População local: 16.000 (freguesia de Vialonga).
Problemas: É uma extensa urbanização lançada pela Icesa, que faliu e não terminou a construção. Cerca de 950 fogos pertencem agora ao IGAPNE, que os atribuiu sobretudo a famílias de imigrantes dos PALOP. Parte das torres (com um máximo de 10 andares) não foi acabada. «Pela estrutura habitacional e estado de degradação em que se encontram, é um risco ir a uma torre daquelas, sem elevador, sem luz. Nunca sabemos o que vamos encontrar. Por vezes tropeçamos em corpos de pessoas alcoolizadas», disse ao PÚBLICO uma assistente social que trabalha na região. «Cheguei a encontrar grades a meio da escadaria de um dos prédios. Parecia que os habitantes da parte de cima tinham medo dos de baixo. As pessoas deixam de ir de férias com receio de, no regresso, encontrarem a casa ocupada». São muito frequentes situações de assalto e de tráfico de droga.
PUBLICO-19940619-111
PUBLICO-19940619-111
19940619
Sociedade
BR
Lisboa
População: 663.404
Desemprego: 7,3% (1991)
Marquês de Pombal e Avenida da Liberdade
Problemas: A grande linha recta desde o alto do Parque Eduardo VII até aos Restauradores é, provavelmente, a zona mais perigosa de Portugal no que respeita a roubos à mão armada a pessoas, e furtos em residências e lojas. Os pontos da criminalidade estendem-se por todas as artérias e ruas envolventes, incluindo as Amoreiras, «descendo» até ao Largo do Rato, à Av. Alexandre Herculano, à Rua Castilho e, do lado oposto, à Fontes Pereira de Melo. Só em Março, segundo as estatísticas da Polícia Judiciária, nesta faixa de Lisboa registaram-se 18 furtos em residências (crime normalmente diurno), o furto de 68 lojas (crime nocturno) e 48 roubos à mão armada, um número «regular» sempre com tendência para aumentar. O centro principal dos crimes, no que respeita a pessoas atacadas, é a própria Rotunda do Marquês, com o seu incessante movimento de pessoas, agora muito abrandado com as obras no Metro. «A partir das 10 da noite, é mais perigoso passear no Marquês de Pombal do que no Casal Ventoso», disse ao PÚBLICO Francisco Pereira Calvão, coordenador para a área de furto e roubo da Polícia Judiciária.
Parque Eduardo VII
Problemas: À noite, o enorme e mal iluminado Parque Eduardo VII transforma-se num centro de prostituição feminina e masculina. São frequentes os assaltos, através de intimidação com arma branca ou seringa -- supostamente ou não infectada pelo vírus da sida --, aos muitos pares de namorados que ainda procuram os recantos mais discretos do Parque, a pé ou dentro do carro. Muitos dos assaltantes serão toxicodependentes. Local de consumo de droga.
Cais do Sodré
Problemas: É considerada pela Polícia Judiciária a segunda zona mais perigosa de Lisboa. Abrange as imediações da estação de caminhos de ferro, a R. Nova de Carvalho, com a sua predominância de discotecas e bares, o Largo de S. Paulo e as ligações até ao Terreiro do Paço. Apesar do número de agentes da PSP há um risco considerável, sobretudo à noite, de se ser assaltado -- uma das razões parece ser o facto de os polícias se concentrarem em apenas alguns dos pontos. Em Março foram declarados 18 furtos em residências, 68 em lojas e 48 roubos à mão armada.
Alfama
Problemas: É no Verão, com o afluxo de turistas, que o castiço Bairro de Alfama se destaca como um dos centros de assaltos à mão armada, principalmente de carteiras, máquinas fotográficas e de vídeo. Os crimes podem ocorrer tanto de dia como de noite em todas as suas ruas, mas com maior probabilidade nos largos do Terreirinho, de Santa Clara (Feira da Ladra) e até ao Largo da Graça.
Av. 24 de Julho
Problemas: A Polícia Judiciária destaca como risco grave, em particular nos últimos seis meses, a «estranha» hipótese de, nas várias discotecas que existem aqui, um cliente ser espancado depois de uma discussão com os seguranças dos locais nocturnos. Os casos de ofensa corporal grave, incluindo ossos partidos, têm ocorrido com bastante frequência. São também comuns os assaltos a lojas e a veículos dos que aí acorrem, milhares ao fim-de-semana, para frequentar os bares e discotecas. Há risco de roubo à mão armada. Por tudo isto, este é um local onde a PSP tem agentes à civil.
Hospital de Santa Maria, Metro e carreira nº46 da Carris (entre Santa Apolónia e a Damaia)
Problemas: Estes são os três locais preferidos dos carteiristas.
Igreja dos Anjos (Almirante Reis) e R. da Palma (até ao cruzamento com a R. de Angola)
Problemas: São frequentes os roubos à mão armada, principalmente à noite. Zona de muitos sem-abrigo (a «Sopa dos Pobres» é mesmo em frente à igreja) e toxicodependentes.
Estação de Metro da Rotunda
Problemas: Para os funcionários do Metro e para a Polícia Judiciária a Rotunda é a estação mais perigosa de toda a rede, a «qualquer hora do dia, mas sobretudo a partir do fim da tarde». Agora está em obras, ou seja, fechada. Na velha estação, além de serem vários os corredores de ligação à rua, eram muito longos. Percorre-los à uma manhã, quando estão desertos, para fechar os portões, foi sempre encarado como um risco. Não só por serem longos, mas por fazerem ligação ao Marquês de Pombal e ao Parque Eduardo VII. Madeira Alves, director adjunto do gabinete de segurança do Metro, esclarece outra dúvida: «A estação do Intendente é mais um mito do que outra coisa. Não há grande perigo.»
Estações de Metro de Roma, Alameda, Arroios e Alvalade
Problemas: São consideradas pelo Metro as quatro estações mais perigosas «à superfície», mal se sai para a rua. «A partir das dez da noite, o ambiente à saída torna-se mais complicado, mas não passa cá para baixo», disse ao PÚBLICO Madeira Alves, director adjunto do gabinete de segurança do Metro. «Sobretudo o pequeno assalto, o roubo por arrastão, os assaltos a quem vai aos multibancos.» Os números da PJ confirmam em parte esta percepção. Em Março houve, só em Alvalade, 10 assaltos a residências, 20 a lojas e 34 roubos à mão armada.
Alto dos Moinhos
Problemas: Zona onde, à noite, os taxistas e os motoristas dos médicos que fazem serviço nocturno ao domicílio têm receio de ir buscar clientes ou esperar na rua.
Alto da Ajuda
Problemas: Quando se entra na Rua do Cruzeiro parece entrar-se de repente, e apenas ao longo de uns metros, numa aldeia degradada, onde já há várias barracas. No Alto da Ajuda, ao pé de uma escola primária que existe imediatamente antes de se entrar no Parque do Monsanto, é considerado um local de risco. Os taxistas, por exemplo, não gostam de lá ir.
Bairro do Relógio
Problemas: Há muitas rixas e de vez em quando troca de tiros, sobretudo entre tendeiros que discutem por causa de negócios ou espaços de venda. «Andam todos armados, normalmente com armas legalizadas», disse ao PÚBLICO Francisco Pereira Calvão, coordenador para a área de furtos e roubos da Polícia Judiciária. É um daqueles locais onde os motoristas que transportam os médicos que fazem serviço nocturno ao domicílio não se sentem seguros enquanto esperam, na rua, que a consulta termine.
Casal Ventoso
Problemas: Os assaltos, furtos, ou o risco de agressão física não acontecem normalmente dentro mas nas margens deste bairro de péssima reputação. Local por excelência do tráfico e consumo de cocaína e heroína em Lisboa, o Casal Ventoso abriga uma rede muito extensa de traficantes, e há centenas de assaltos por semana nas redondezas. Objectos que são roubados e imediatamente trocados por droga, e assaltos a lojas, como as farmácias. Lá dentro é diferente. Quem vai ao Casal Ventoso ou mora lá, ou vai comprar estupefacientes. E destes, quem é assaltado não apresenta queixa. É uma das zonas de Lisboa em que a Carris regista maior número de fraude (passageiros que não pagam bilhete).
Bairro do Camboja
Problemas: O retrato é muito semelhante ao do Casal Ventoso. Os problemas de criminalidade estendem-se em particular à Av. Gago Coutinho. A PJ considera esta uma zona de suspeição.
Parte da Av. Gago Coutinho
Problemas: Passear nesta avenida, entre o cruzamento da Av. Estados Unidos da América e a Rotunda do Relógio, não é aconselhável, sobretudo à noite, dado que a avenida se transforma numa espécie de autoestrada. A proximidade com o bairro de lata do Camboja -- centro de tráfico de droga -- faz com que haja frequentes assaltos a carros e pessoas.
Bairro Marquês de Abrantes («Bairro Chinês»)
Problemas: Zona onde, à noite, os taxistas e os motoristas dos médicos que fazem serviço nocturno ao domicílio têm receio de ir buscar clientes ou esperar na rua. A PJ considera esta uma zona de suspeição.
Bairro da Romeira, Serra da Luz
Problemas: Idem.
Bairro da Musgueira
Problemas: Bairro degradado, sobretudo a Musgueira Norte (quase só barracas). É um dos locais onde há mais apredrejamentos contra autocarros da Carris e de vez em quando furtos e agressões aos motoristas. Os taxistas vão levar pessoas mas raramente aceitam ir buscar passageiros. Local de tráfico de droga e residência de traficantes.
Quinta das Galinheiras
Problemas: Idem.
Bairro Cruz Vermelha
Problemas: Local de tráfico de droga. Os taxistas não gostam de lá ir. A PJ considera esta uma zona de suspeição.
Bairro Padre Cruz
Problemas: A Carris considera ter neste bairro uma das oito carreiras mais inseguras de toda a sua rede, embora o perigo seja «mais sensação» do que baseado em casos concretos de apredrejamento ou furtos aos motoristas. Esta «sensação» é sobretudo sentida quando o autocarro contorna o Regimento de Engenharia 1 para o topo da Serra da Luz, considerado também um bairro de suspeição pela PJ.
Charneca
Problemas: Bairro degradado colado à Musgueira e às Galinheiras, a cinco minutos do Lumiar, zona onde há várias torres de apartamentos de luxo. Os profissionais dos transportes, públicos ou privados, sentem-se inseguros a qualquer hora do dia.
Zona J de Chelas
Problemas: Bairro onde, nos anos 60, foram instaladas centenas de famílias cujas casas foram destruídas na grande cheia de Lisboa, em 1963. A ideia de Oliveira Salazar era colocar pobres e ricos a viver juntos para que houvesse uma boa integração social. Mas o resultado não foi o mais feliz e hoje Chelas é um dos bairros mais degradados da cidade. A zona J é a mais perigosa, mas na N2, N1 e L qualquer estranho se sente ameaçado. Na enorme Av. João Paulo II e na Rua do Sol, por exemplo, trafica-se droga à luz do dia.
Quinta da Curraleira
Problemas: Zona de tráfico de droga muito degradada. A PJ considera esta uma zona de suspeição.
Rotunda da Encarnação
Problemas: À noite, mas também de dia, o isolamento da Rotunda da Encarnação, que dá acesso ao Prior Velho, assusta quem tem que passar por lá em trabalho.
PUBLICO-19940619-112
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19940619
Sociedade
BR
s-Madeira.perigo
Funchal
População: 115.403
Desemprego: 4,4% (total Madeira)
Rotunda do Infante
Problemas: Ponto de "engate" de prostitutas ou de assédio sexual a menores, a zona da Rotunda do Infante não é recomendada aos visitantes, sobretudo à noite, quando são tentados a subir o Parque de Santa Catarina em direcção à zona hoteleira da capital madeirense. Poderão ser surpreendidos por marginais que também actuam, de madrugada, na zona velha da cidade.
Câmara de Lobos
População: 31 mil
Desemprego: 4,4% (total Madeira)
Estreito de Câmara de Lobos
Problemas: Localidade de grande produção e consumo de vinho, apresenta, em consequência disso, o maior índice de criminalidade do arquipélago. As tabernas ou as barracas nos arraiais servem de cenário para rixas entre familiares ou vizinhos que, sob o efeito do vinho ou da poncha, terminam, muitas vezes, à facada.
PUBLICO-19940619-113
PUBLICO-19940619-113
19940619
Sociedade
BR
s-Norte.perigo
Barcelos
População: 111.733
Quinta do Bessa
Problemas: Numa rusga no ano passado, a PJ e PSP detiveram sob a acusação de tráfico de droga quase todos os homens deste acampamento de ciganos, localizado junto à Escola Secundária de Barcelos. Nove homens e duas mulheres foram julgados e condenados. Recentemente o Conselho Directivo da escola alertou a PSP e pediu a intervenção da PJ porque os alunos presenciavam diariamente situações de tráfico e consumo de droga. Vários carros foram assaltados e à noite alguns alunos tiveram problemas com a vizinhança. Uma rusga recente fez com que o tráfico desaparecesse.
Chaves
População: 40.940
Bairro da Várzea
Problemas: Vem de longe, dos tempos do contrabando, a má fama deste bairro, situado na estrada em direcção a Braga, perto de Curalha, a cerca de 100 metros do matadouro da cidade. O contrabando morreu com o fim das fronteiras, mas continuaram as zaragatas e mesmo os tiroteios. Recentemente morreu uma pessoa. Mesmo assim ultimamente as coisas têm acalmado porque, dizem as pessoas da região, «a maior parte dos gatunos ou está preso ou morreu». Dizer, em Chaves, que alguém «é da Várzea» continua a soar como uma acusação e até os jornalistas da imprensa regional têm medo de entrar no bairro.
Guimarães
População: 157.589
Desemprego: 11%
Castelo de Guimarães
Problemas: Prostituição, roubos e tráfico de narcóticos. Os problemas caem com a noite no «berço da nação». O morro com o castelo que domina a cidade torna-se, com as suas áreas obscuras, o abrigo ideal para actividades menos claras.
Bairro de Nossa Senhora da Conceição
População local: 3000
Problemas: Droga. Conhecido pelo «bairro dos jagunços». A grande maioria da população é cigana e de escassos recursos económicos. Grande absentismo escolar. Está marcado como sendo o pólo dos maiores problemas de criminalidade da cidade.
Matosinhos
População: 151.781
Desemprego: 7,3%
Bairro do Seixo, freguesia de S. Mamede de Infesta
População local: 966
Problemas: Consumo e tráfico de drogas. Assaltos a residências e a lojas à média de quase três por dia, segundo números da GNR. No bairro residem 27 famílias de etnia cigana provenientes de diversos locais do concelho. «Transportar pessoas até lá ainda aceitamos. Agora ir lá buscar gente é que não», diz um taxista.
PUBLICO-19940619-114
PUBLICO-19940619-114
19940619
Sociedade
BR
s-Portugal sereno
Dos 305 concelhos portugueses, só 34 têm zonas que metem medo
O Grande Atlas do Portugal Perigoso
Bárbara Reis e Rui Cardoso Martins*
Que locais evitam hoje as pessoas em Portugal? Que cidades e vilas criaram dentro de si zonas perigosas ou onde as pessoas sentem medo? Construir um Atlas do Portugal Perigoso revelou o óbvio: Lisboa é o lugar mais perigoso do país e a droga a causa mais comum do receio. Mesmo assim encontrámos mais de 130 locais onde as pessoas se sentem inseguras. Muitos deles são ruas e bairros onde a maioria da população nunca entrou e prefere até pensar que não existem. E há também algumas surpresas, de norte a sul do país.
Em Portugal a noção de local perigoso está quase sempre associada à droga. Bairros e ruas onde se faz tráfico, ou que são simplesmente pontos de encontro de toxicodependentes, aparecem em quase metade da lista de locais que o PÚBLICO seleccionou a nível nacional através de um extenso inquérito em todo o país a um grupo de onze profissões.
Neste Grande Atlas do Portugal Perigoso -- que destaca os pontos que aparecem mais vezes nas estatísticas do crime mas também o simples medo que certos locais provocam a quem a eles se desloca em trabalho -- Lisboa vem à frente como a cidade mais perigosa. O que não espanta, num país apesar de tudo sereno, pequeno, em que as grandes cidades são raras.
Fora da capital há evidentemente locais perigosos, onde as probabilidades de haver assaltos, furtos a pessoas ou propriedades, e ofensas corporais são maiores. Mas dos 305 concelhos portugueses só em 34 apareceram lugares onde as profissões inquiridas pelo PÚBLICO -- Polícias (PJ, PSP e GNR), carteiros, médicos de serviço nocturno ao domicílio, assistentes sociais, bombeiros, funcionários dos telefones, transportes (públicos e taxistas) e serviços camarários -- sentem receio.
Um receio que, apesar de tudo, segundo dizem, não os impede de entrar em praticamente nenhum lugar, mesmo os de pior nome. A excepção são os taxistas, da Grande Lisboa, que explicitam várias zonas onde pura e simplesmente não entram ou, se o fazem, é porque realizaram, com o cliente, acordos prévios que chegam a incluir garantias bancárias. É o caso do interior do Casal Ventoso, um dos bairros emblemáticos do tráfico de droga em Lisboa.
«Aqui todos se conhecem»
O espanto de muitos profissionais perante a pergunta do PÚBLICO -- «Quais são os locais mais perigosos em termos de crime na região em que trabalha?» -- e a reacção de vários comandos distritais de polícia, que quase se ofenderam quando perguntámos «Têm medo de entrar em algum lugar?», revela a situação de pacatez nacional e explica, em parte, a ausência de várias capitais de distrito nos mapas destas páginas. Em relação a Santarém, por exemplo, a resposta foi exemplar (mesmo se esta é uma cidade que entra na nossa lista): «O concelho não tem grandes aglomerados periféricos e todos se conhecem», disse ao PÚBLICO o sub-chefe Azevedo, das Relações Públicas da PSP de Santarém.
Em relação a Lisboa ninguém poderia dizer isto, o que favorece a criminalidade. «A confusão ajuda os ladrões. É quase mais fácil assaltar uma casa na Av. Alexandre Herculano [uma transversal da Av. da Liberdade, centro de Lisboa] do que um apartamento em Carnaxide [periferia de Lisboa], onde há sempre alguém no prédio e há mais relações entre os vizinhos», disse ao PÚBLICO Francisco Pereira Calvão, coordenador para a área dos furtos e roubos da Polícia Judiciária.
Aliás, para a PJ é evidente que quem estiver às dez da noite na zona do Marquês de Pombal -- quem for por exemplo passear para o Parque Eduardo VII, «e ainda há muitas pessoas que vão namorar para lá» -- terá muito mais hipóteses de ser agredido ou assaltado do que às cinco da manhã em muitos dos locais de capitais ou vilas de província que, no contexto local, são olhados com muita desconfiança.
À cabeça de um Atlas do Portugal Perigoso deveriam estar indicados os locais onde há mais homicídios e violações. Mas o homicídio, por exemplo, «não escolhe lugar nem hora» que permitam apontar com o dedo os sítios onde há mais ocorrências, como diz o inspector João de Sousa, do departamento de homicídios e ofensas corporais da Polícia Judiciária. Restam-nos portanto as estatísticas nacionais: em 1993 houve 83 homicídios (33 no primeiro semestre, 50 no segundo), e entre 1 de Janeiro e 31 de Maio, 49.
As diferentes
percepções
Num inquérito que envolve profissões tão diversas como carteiros, serviços médicos e polícia, o retrato do Portugal perigoso é necessariamente visto com olhos diferentes. Se a Carris (transportes públicos de Lisboa), considera o Elevador da Glória, o que dá acesso ao Bairro Alto, um dos locais mais perigosos das suas carreiras (para os seus funcionários) -- «há pessoas a saltar para o tejadilho» --, a Polícia Judiciária e a PSP não consideram este um local digno de referência.
Do mesmo modo, para os TLP o Rossio e o Cais do Sodré são «as zonas de maior agressividade» em Lisboa, pelo facto simples de ser aí que se regista o maior número de destruição de cabines telefónicas. A seguir vem a recta Campo Pequeno/Areeiro, depois o Cacém e em último a linha de Cascais, especialmente nas estações de comboio e tendo como alvo as cabines que funcionam com moedas. «Desde Janeiro foram vandalizadas 1300 cabines telefónicas», disse Rogério Santos, do Departamento de Comunicação dos TLP. Outro tipo de perigos os TLP não sentem, porque quando vão a casa das pessoas «vão ajudar e os cortes são feitos na central».
Já a EDP, a única entidade contactada que não aceitou participar neste inquérito nacional, tem que fazer os cortes directamente nas casas dos seus clientes, pelo que os funcionários enfrentam «algumas situações perigosas», sobretudo «quando o pessoal vai fazer um corte por falta da pagamento», disse Rui Campos, da direcção para o Tejo das Relações Públicas da EDP. «Às vezes são muito mal recebidos.»
As cidades-aldeias
Geograficamente, tornou-se óbvio que o crime de rua que implica violência, os assaltos a casas e lojas, é mais comum no litoral do que no interior do país. Mas também é no litoral que estão concentrados a maior parte dos portugueses, muitos deles a habitar bairros periféricos, e portanto, mais pobres.
No outro extremo, surgem casos como o de Elvas, no Alto Alentejo, que se transformou, segundo o seu presidente da Câmara, numa cidade perigosa: «Em cada 100 elvenses, 90 dirão que é perigoso sair à rua na sua cidade», disse Rondão de Almeida ao PÚBLICO. A 20 de Maio, dias depois de um homicídio numa rua principal da cidade, a população organizou uma invulgar manifestação contra a falta de polícias na rua e o aumento da criminalidade, sobretudo de tráfico de droga com Badajoz (Espanha). A Câmara Municipal pediu ao Ministério da Administração Interna um reforço dos efectivos da PSP -- cujo quadro de mais de cem agentes está preenchido apenas por metade, pelo que «poucos se vêem na rua», segundo Rondão de Almeida.
Como exemplo, o autarca elvense diz que à noite só há um agente de serviço dentro da esquadra e outro a fazer ronda, à civil. O comandante da PSP da cidade, João Capela, responde que não é verdade e que «há mais pessoal à civil pela cidade». Reconhecendo, porém, que há graves problemas de toxicodependência e tráfico de droga relacionados com a proximidade com Badajoz, o responsável da esquadra de Elvas acrescenta que «as pessoas podem sair à noite» porque «é uma cidade com características de aldeia».
Elvas, um caso excepcional -- por ser interior - acaba afinal por reproduzir, no seu microcosmos, a inquietação crescente, tanto psicológica como factual, de que a droga é hoje o primeiro factor do crime em Portugal.
*com David Pontes, Luís Filipe Sebastião e os correspondentes do PÚBLICO que encontraram zonas de relevo nos respectivos concelhos e distritos: Alexandrina Baptista, Santarém; Carlos Camponez, Leiria; Carlos Dias, Beja; Francisco Fonseca, Barcelos; Graça Barbosa Ribeiro, Coimbra; Idálio Revez, Faro; Jorge Talixa, Vila Franca de Xira; José Parreira, Peniche; Luís Paulo Rodrigues, Famalicão; Manuela Teixeira, Matosinhos; Pedro Garcias, Vila Real; Raul Oliveira, Sines; Raul Tavares, Setúbal; Tolentino de Nóbrega, Funchal
PUBLICO-19940619-115
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19940619
Sociedade
BR
Algarve
População: 341.480
Desemprego: 12/15% (Dezembro de 93)
Namorar à noite nas praias não iluminadas
Problemas: Os riscos de se ficar sem a carteira, na melhor das hipóteses, são razoavelmente comuns. Na pior das hipóteses, sem roupa.
Beja
População: 35.827
Freguesia de São João Batista
População local: 6.054
Problemas: Aqui estão instalados dois Centros Comerciais onde se trafica e consome droga «ao vivo». São o Centro Comercial do Lidador, junto à Praça do Ultramar, onde se trafica droga, e o Centro Comercial do Carmo, que é considerado um espaço pouco recomendável por ser também zona de prostituição. Beja, no entanto, é geralmente considerada uma cidade segura pela sua população. Mas está interiorizado um medo recente e indefinido, resultante de uma série de boatos que circularam há dois meses, dando conta de violações a jovens estudantes por parte de «gangs» que viriam de fora. A polícia não comprovou qualquer violação. Também uma falada «onda de raptos» não se confirmou, com excepção de um caso em Cercal do Alentejo. A grande e unânime preocupação em Beja é o crescimento do número de toxicodependentes.
Freguesia de Santa Maria da Feira
População local: 2.398
Problemas: Aqui está localizado o Castelo de Beja, em cuja zona exterior há consumo de droga. Próximo está instalado o ensino superior de Beja, no Antigo Hospital da Misericórdia, local já marcado com alguns assaltos a viaturas ou a estudantes.
Elvas
População: 24.474
Praça da República
Problemas: Medo de sair à noite, essencialmente por falta de policiamento. A partir da meia-noite, disse ao PÚBLICO o presidente da Câmara, Rondão de Almeida, há apenas dois agentes da PSP de serviço: um na esquadra, outro à civil que circula de automóvel. O comandante da PSP, João Capela, responde que não é verdade e que «há mais pessoal à civil pela cidade». Reconhece, porém, que há graves problemas de toxicodependência e tráfico de droga relacionados com a proximidade com Badajoz, Espanha.
Rua da Carreira
Problemas: A 12 de Abril um homem foi mortalmente apunhalado nesta rua, uma das principais da cidade, por dois jovens que rebentavam uma cabine telefónica. O homem assassinado apenas interpelou verbalmente os dois jovens, detidos mais tarde, mas que na altura fugiram facilmente. O homem foi morto às 23 horas e a 75 metros da esquadra de Elvas, e foi o pretexto de uma grande manifestação da população contra a falta de policiamento, dias depois. O comandante da PSP João Capela disse ao PÚBLICO que este foi um caso entre outros que já aconteceram na cidade e que tal não faz da rua um sítio muito perigoso.
Rua do Castelo
Problemas: Rua na zona alta da cidade, onde há tráfico de droga e possibilidade de assalto. As pessoas têm medo de sair à rua à noite.
Faro
População: 50.761
Desemprego: 12/15% (Dezembro de 93)
Traseiras da Estação da Rodoviária Nacional, junto à linha da CP
Problemas: Tráfico de droga, mas sobretudo prostituição masculina. É uma zona particularmente mal iluminada em comparação com o resto da cidade.
Olhão
População: 36.812
Desemprego: 12/15% (Dezembro de 93)
Baixa da cidade
Problemas: Casas de passe e bares de prostitutas camuflados como boates. Mesmo assim, os velhos tempos em que Olhão era conhecida como a cidade em que a prostituição existia «porta sim porta não» estão a desaparecer, pois a nova geração de proprietários deste tipo de bares está a instalar-se na zona do Barrocal algarvio.
Portimão
População: 38.833
Desemprego: 12/15% (Dezembro de 93)
Sítio dos Três Bicos
População local: Cerca de mil
Problemas: Bairro de lata tido como o «supermercado da droga» onde nenhum forasteiro costuma entrar de dia ou de noite. Frequentado por traficantes que se servem do bairro para vender droga.
Santiago do Cacém
População: 31.475
Desemprego: 10/15% a nível de concelho, mas uma só freguesia, a de Alvalade, tem 30%, por causa do recente fecho da fábrica de concentrado de tomate e outras pequenas indústrias.
Lagoa de Santo André, Praia da Vacaria, Areias Brancas
Problemas: São das praias onde há mais assaltos a carros, durante o dia, quando as pessoas estão na praia.
Setúbal
População: 103.634
Desemprego: 17%
Bairro 20 de Abril (conhecido por Bairro dos Índios)
Problemas: Prolifera o consumo e pequeno tráfico de droga.
Rua Batalha do Viso
Problemas: A zona antiga que mais dores de cabeça apresenta em termos de criminalidade.
Bairro da Bela Vista
Problemas: Zona na periferia urbana da cidade, entreposto de droga. «Zonas negras», entre outras: Avenida Principal e imediações do grupo desportivo local. A juntar ao tráfico, pontifica o vandalismo e refregas entre vizinhança.
Centro Comercial do Bairro do Liceu
Problemas: Concentração de consumidores de droga junto a este CC.
Cova da Canastra, no Bairro Monte Belo
Problemas: Distribuição e venda de droga.
Rua Principal das Praias do Sado
Problemas: A zona rural da cidade, que mais sofre com o problema da droga. Verificou-se um fenómeno de reconversão do contrabando de tabaco para o tráfico de droga.
Avenida 5 de Outubro
Problemas: À noite é zona de intensa prostituição.
Jardim da Beira Mar e zona atrás do Fórum Municipal Luísa Todi
Problemas: Prostituição de menores.
Convento de S. Francisco
Problemas: "Guetto" de retornados das ex-colónias. Zona sob controlo policial.
Sines
População: 12.347
Porto Covo: Vila com praias onde há assaltos a carros, durante o dia, quando as pessoas estão na praia.
Vilamoura (Loulé)
População: 46.585
Desemprego: 15% (Dezembro de 93)
Traseiras do Hotel Atlantis
Problemas: Os turistas utilizam, sem imaginarem o perigo que correm, os trilhos de terra batida que, de Vilamoura, dão acesso a Quarteira em 15 minutos. Estes trilhos cruzam-se com o tráfico de droga que se faz nas traseiras do Bairro dos Pescadores, o bairro de lata de Quarteira. Os algarvios não fazem este trajecto.